Archive for the ‘França’ Category

Casa do Porco

21 de Julho de 2018

Uma das consultas mais recorrentes em Vinho Sem Segredo é sobre carne de porco. E nada melhor para falar do tema do que o restaurtante/bar Casa do Porco do competente Chef Jefferson Rueda.

Para provar alguns dos pratos de seu criativo menu, é bom ter em mãos um Riesling e um tinto frutado do Alentejo. Falo dos vinhos do Alentejo por serem informais na sua maioria e por conviverem bem com pratos de porco na região. Um bom Merlot nacional também cumpre o papel. Se sua praia é a França, vá com um belo Cotês du Rhône.

casa do porco presunto rueda

Presunto Real Rueda

Neste primeiro prato, um presunto artesanal da própria casa, o Riesling acompanha bem, sobretudo com as guarnições de cebola caramelizada e bacon. Para quem ficar no presunto, pão integral com linhaça, e mostarda em grãos, o tinto não encontrará maiores problemas.

sushi e tartar de porco

Na foto acima à esquerda, temos o sushi de porco com tucupi negro. Este porco crocante lembra por semelhança estética a alga do verdadeiro sushi. Neste caso, é imprescindível a harmonização com o Riesling, principalmente pela acidez do vinho para combater o tucupi negro. Um toque de doçura também é providencial para equilibrar o agridoce do prato.

No tartar de porco, foto acima à direita, trata-se de uma telha de pão crocante e carne de porco maturada. Os temperos incluem pó de cogumelos, manteiga de tutano, e brotos orgânicos. Tanto o Riesling como o tinto, podem ir bem. Na verdade, o ideal neste prato específico é um Bourgogne tinto com algum toque terciário. Este tipo de  vinho costuma ter delicadeza e sintonia de sabores com o prato.

Porco San Zé e Assado de Tira

No cenário acima, os tintos mencionados são os mais indicados, dando potência e riqueza de sabores à harmonização. Para quem não toma tintos, o Riesling não vai comprometer. Sua acidez corta bem a gordura dos pratos. O Porco San Zé, foto acima à esquerda, é quase uma releitura do Virado a Paulista com carne de porco. Já o Assado de Tira, foto acima à direita, é a costelinha de porco com legumes refogados e purê.

O importante nestes pratos é termos vinhos brancos com personalidade, rico em aromas, e certa delicadeza. Neste sentido, o Riesling é quase insubstituível. No caso dos tintos, procurar vinhos pouco tânicos e de bom frescor. Se houver passarem por madeira, nada de exageros. Um toque sutil de tostado já basta.

img_4663acidez e doçura em perfeita harmonia

Apesar de Trocken, este Riesling tem uma leve doçura perfeitamente balanceada com uma rica acidez. De um raro terroir do Ruwer com pouco mais de quatro hectares, as inclinações em terrenos de ardósia podem chegar a 57% de declividade. Branco de grande distinção.  Importado pela Vindame: http://www.vindame.com.br

img_4659apelação do Rhône Sul

A pouco conhecida apelação Ventoux do Rhône mescla neste exemplar as uvas Grenache e Syrah sem interferência da madeira. Tinto de muita fruta e especiarias na bela safra 2015. Importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br). 

As fotos acima são do blog “Vem com a Gente!”, por sinal muito bem tiradas. Segue endereço eletrônico: http://www.dicasvemcomagente.com

A Casa do Porco fica no centro de São Paulo, rua Araújo, 124 – bairro Repulbica, bem perto da Aliança Francesa.

Bordeaux e seus anos Dourados

16 de Julho de 2018

Os anos 80 foram ótimos para Bordeaux, especialmente com a mítica safra de 82, uma das melhores do século XX. Tirando 84 e 87, safras de poucas emoções, o restante tem muita coisa boa. Neste almoço, demos atenção à dobradinha 89/90, anos de vinhos gloriosos com bom potencial de guarda. Difícil afirmar taxativamente a superioridade de um desses dois anos, embora a safra 90 desperte maior glamour. Entretanto, 89 pode surpreender e ganhar esta disputa. Tire suas próprias conclusões com os vinhos abaixo.

img_4864la vie en rose …

Como de costume, algumas borbulhas para atiçar as papilas são bem-vindas, ainda mais com um Dom Pérignon Rosé 2003. Neste exemplar, temos 60% de Pinot Noir e 40% de Chardonnay. Nesta porcentagem de Pinot, temos uma parte de vinho tinto, dando a nuance e intensidade do rosé. É o chamado Rosé de Assemblage (5 a 20% de vinho tinto). Estilo elegante, muito frescor, mousse presente e cremosa. Tem um lado gastronômico, capaz de acompanhar muitos pratos à base de peixes, aves, e frutos do mar.

img_4869o terroir explica as diferenças

Voltando aos caldos bordaleses, vamos ao primeiro flight, o mais desigual em evolução e estrutura dos vinhos. Afinal de contas, tínhamos o rei Petrus na parada, um tinto sempre de estrutura e longevidade monumentais. Aqui percebemos de fato a força do terroir. Como é possível obter um Merlot com tamanha estrutura tânica, força, e austeridade. Nesta safra 90, temos um Petrus de 100 pontos com previsão de apogeu para 2054. Um tinto com uma força extraordinária  de frutas escuras, notas de cacau, chocolate, especiarias, e um toque terroso. Taninos massivos e extremamente finos. É imperativo decanta-lo por pelo menos duas horas. O infanticídio do almoço, sem dúvida. 

Vieux Chateau Certan 90 fez um par gracioso ao lado de sua Majestade, mostrando bela evolução ao longo de seus 28 anos. Um tinto pleno de aromas com um toque de margem esquerda, já que seu blend comtempla além da Merlot, Cabernet Franc, e Cabernet Sauvignon, pouco usual nestas paragens, nas seguintes proporções respectivamente: 65 a 70% Merlot, 25% Cabernet Franc, 5 a 10% Cabernet Sauvignon. Encontra-se no auge de sua evolução com toques de tabaco, couro, ervas finas e notas balsâmicas. Muito prazeroso neste momento. Os mesmos proprietários do badaladíssimo Le Pin, outro Pomerol de destaque.

img_4871embate de gigantes!

Este segundo flight só foi decidido no fotochart. Dois dos grandes Montroses lado a lado, safras 89 e 90. Duzentos pontos sobre a mesa e um punhado de dúvidas quanto à identificação. É intrigante como Parker pontua o Montrose 90 com 100 pontos e uma (?) interrogação entre parênteses. De fato, é um vinho bem evoluído no nariz e bem resolvido em boca, mas aquele toque de curral, animal, é mais acentuado que o 89, dando margem à possível presença de Brettanomyces (contaminação desta levedura no vinho, perdendo o poder de fruta, e acentuando toques terciários nos aromas). A sensação é que este exemplar de 90 está pronto, sendo temeroso guarda-lo por muito tempo. Já o 89 mostrou-se superior, pelo menos pessoalmente. A fruta está mais presente, sem perder seus toques terciários. Ele parece um pouco mais encorpado e com maior estrutura tânica. Seu apogeu pode atingir o ano 2060, segundo Parker. Pessoalmente, acho um pouco exagerado. O tempo dirá, mas que é um baita vinho, não tenho dúvidas. 

VCC à esquerda, Petrus à direita

Alguns pratos do restaurante Gero escoltaram essa tropa de tintos. O Capeletti in Brodo fez uma parceria exótica com o Pomerol VCC 90. Seus aromas evoluídos e sua textura mais delicada caiu bem com o brodo.

img_4873as duas margens em confronto

No útimo flight, um embate da safra 89 com dois vinhos de comunas diferentes, Saint-Emilion e Pessac-Léognan. O primeiro vinho, Chateau Tertre Roteboeuf, é um Grand Cru de Saint-Emilion, mas não está no grupo de elite. Localizado próximo aos Chateaux Pavie e Troplong-Mondot, sua primeira safra deu-se em 1978, relativamente recente. Embora seus vinhos partam de um corte clássico para esta apelação (80% Merlot e 20% Cabernet Franc), seu estilo é mais austero, aproximando-se do famoso Ausone. A safra 89 degustada, é uma das melhores de sua história com 95 pontos. Percebe-se em boca um vinho estruturado com riqueza da taninos de textura muito fina. Seus aromas já com boa evolução denota fruta madura, notas de especiarias e chocolate, além de um toque mineral. Bem mais acessivel que seu parceiro no flight, o delicioso La Mission Haut Brion com 100 pontos consistentes.

Com boa proporção de Merlot no Corte, sendo a Cabernet Sauvignon a uva majoritária, é um Pessac-Léognan com toques de estrebaria, ervas finas, chocolate, tabaco, e tantos outros aromas. Embora evoluído e bastante prazeroso, tem muita elegância e vida pela frente. Particularmente, achei esta garrafa um pouco mais evoluída que a média. A despeito de seus 100 pontos, ainda acho seu eterno rival e vizinho Haut Brion, insuperável nesta memorável safra 89.

risoto e a famosa coteletta

Mais alguns pratos entremeando os vinhos. O risoto de parmesão com molho de rabada por cima foi muito bem com a dupla de Montrose. Os toques terciários dos vinhos além da força de sabores, complementaram bem a intensidade e personalidade do prato. Já a Coteletta Milanese foi muito bem com a elegância do La Mission Haut Brion 89.

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Neste embate doce, o grande Yquem brilhou nos dois anos, 89 e 90. Difícil comparar a complexidade e longevidade destes dois exemplares. O da safra 90 parece ser mais equilibrado em acidez e menos opulento. Vai na ala dos Yquems mais elegantes. Sua acidez certamente o levará muito longe em adega. Já o 89 é mais opulento, mais glicerinado, parece ter mais Botrytis. É uma questão de gosto, mas o 89 pessoalmente, é mais persistente em boca.

a competência no salão do mestre Ismael e o jovem sommelier Felipe

O creme de mascarpone com chocolate, foto acima, foi um bom complemento para os dois Sauternes, respeitando a compatibilidade de textura na harmonização. Um final de prova delicioso com mais esta especialidade bordalesa, os divinos brancos de Sauternes e Barsac.

Enfim, mais uma bela oportunidade de provar e confrontar os belos tintos de Bordeaux, onde Chateaux e safras permitem um cem números de experiências e combinações formidáveis. Agradecimento aos confrades por mais este momento, numa prova sempre recorrente de amizade e generosidade. Que Bacco nos proteja sempre!

Risotos e Lareira

8 de Julho de 2018

Risotto em italiano, ou Risoto aportuguesado, é um prato do norte da Itália, elaborado com arrozes da região como Arborio ou Carnaroli, por exemplo. Normalmente é servido como primo piatto na cucina italiana, mas aqui entre nós, muitas vezes atua como guarnição para algum tipo de carne. Seja como for, é um prato delicioso, reconfortante, e muito adequado para o friozinho do nosso inverno. Nesse sentido, vamos a quatro receitas  ecléticas, harmonizando com alguns tipos de vinhos.

Nebbiolo e Sangiovese com funghi porcini

Em termos de textura, o risoto apresenta notável cremosidade, sugerindo vinhos com alguma densidade que normalmente tendem a ser mais encorpados. Como é próprio da cozinha italiana, o risoto é mais uma base que conduz o sabor do prato de acordo com o ingrediente principal. É o mesmo raciocínio das pizzas e massas, onde os ingredientes mais importantes definem os tipos de vinhos mais adequados.

risotto-ai-funghi-porcini

Restaurante Gero: cremosidade perfeita

Risotto ai Funghi Porcini

Um dos mais saborosos, pode ser servido numa sequência de pratos ou acompanhando carnes como ossobuco, filet mignon grelhado com molhos à base de vinhos, demi-glace, ou molho rôti. Neste caso, é um terreno para tintos de bom corpo e sabores marcantes. Um toque de envelhecimento é bem-vindo, fazendo a liga com os sabores do risoto. Aqui cabe um Barbaresco, um Brunello, um Ribera del Duero, ou um Douro, todos de boa procedência e com pelo menos dez anos de safra. É importante neste primeiro exemplo, vinhos de boa complexidade e toques terciários.

risoto linguiça

Risoto de Linguiça e Legumes

Escolha a linguiça de sua preferência, mais ou menos apimentada, e legumes como cenoura, ervilhas, pimentão, por exemplo. Um pouco de salsão na preparação inicial dá um toque especial ao conjunto. Aqui pode ser um prato em si, já que inclui uma bela proteína. Para Harmonização, continuamos nos tintos, mas podem ser mais simples em relação ao risoto anterior. Os sabores mais apimentados e com certa rusticidade, pedem vinhos tintos vigorosos, frutados, e de algum frescor. Os italianos da Sicília com as uvas Nero d´Avola ou Nerello Mascalese podem ser belas opções. Do lado português, que tal um alentejano ou vinhos da região de Lisboa. O cuidado é procurar alentejanos novos e com bom frescor. Do lado de Lisboa, vinhos um pouco mais densos para casar com a textura do prato. Alguns Garnachas espanhóis também podem dar certo. Do lado francês, Syrahs do Rhône relativamente novos e de categorias mais simples como Crozes-Hermitage ou Saint-Joseph são belas pedidas.

risoto bacalhau

Risoto de Bacalhau

Para aqueles que não comem carne vermelha, mas não abrem mão de sabores marcantes, esta é uma das melhores opções. Cada um tem sua receita e ingredientes adequados como azeitonas pretas, brócolis na finalização, pimentões, entre outros. Como se trata de bacalhau, tintos e brancos podem gerar grandes polêmicas na harmonização. Na ala dos brancos, Chardonnays barricados são opções clássicas e certeiras no sentido de texturas e sabores de personalidade. Dentro de Portugal, os brancos do Dão com a casta Encruzado, além dos brancos alentejanos com a casta Antão Vaz, são pedidas clássicas. Do lado dos tintos, é só prestar atenção nos taninos. Eles devem ser discretos e com boa polimerização. Pode ser um alentejano macio, novo, e de muita fruta, ou partir para os sabores mais marcantes do bacalhau com tintos já evoluídos e de aromas terciários. Os Dãos garrafeiras se prestam muito bem neste caso, além dos Riojas Reserva e Gran Reserva com toques balsâmicos e de madeira perfumada. Os taninos nestes casos são bem resolvidos e delicados.

risoto camarao aspargos

bela foto: Flavia Blogger

Risoto de Camarão e Aspargos

Uma receita para quem não abre mão dos vinhos brancos. Os aspargos pedem vinhos de bom frescor. O toque adocicado do camarão vai ao encontro de vinhos frutados e porque não, algum toque off-dry. Neste sentido, um belo Riesling do Reno ou melhor ainda da Alsácia com mais textura, pode calibrar bem o prato. Como sugestão, os vinhos do produtor alsaciano Zind-Humbrecht (importadora Clarets) costumam apresentar textura mais cremosa e um toque sutil sugerindo doçura. Neste caso, tanto Riesling como a exótica Pinot Gris da Alsácia são escolhas certeiras. Vinhos brancos do Rhône Norte com a uva Viognier são emblematizados na apelação Condrieu. Um Sauvignon Blanc com muita fruta e frescor é outra combinação certeira, mas precisa ter textura. Um Cloud Bay da Nova Zelândia ou o chileno Amayna da importadora Mistral apresentam este perfil adequado ao prato.

Risolio

Esta é a versão do risoto sem a presença da manteiga, onde o azeite extra-virgem pode fazer o papel. É mais leve, saudável e digestivo. O restaurante Ristorantino tem várias opções nesta versão extremamente bem executadas como o de bacalhau ou de camarão.

Enfim, os risotos são opções de prato quase imprescindíveis para essa época do ano, apresentando uma infinidade de sabores de acordo com os ingredientes escolhidos e a criatividade de cada um. Saúde a todos!

DRC e Les Richebourgs

24 de Junho de 2018

É sempre muito bom falar sobre os grandes tintos de Vosne-Romanée, comuna dos melhores Grands Crus da Côte de Nuits. Desta feita, sobre o Grand Cru Richebourg, que desde o fim da Idade Média, encanta com vinhos estruturados e de grande longevidade. A grande modificação no vinhedo que proporcionou sua ampliação foi nos anos 20 do século passado, com a inclusão da parcela Les Verroilles na direção norte do vinhedo com altitudes mais elevadas. Concluindo, a parcela original Les Richebourg (5,05 ha) foi ampliada com Les Verroilles (2,98 ha), totalizando 8,03 hectares de vinhas repartida entre onze proprietários.

richebourg vinhedoterroir ampliado

Não há dúvida que Domaine de La Romanée-Conti possui quase metade das vinhas com parcelas variadas ao longo do vinhedo e de características distintas. Conforme mapa abaixo, o setor Les Verroilles na parte superior tem um clima e solo mais frios, guardando na maioria das safras, uma acidez e elegância mais evidentes. Leroy, Méo-Camuzet e a família Gros, encaixam-se neste perfil.

Por outro lado, Domaines como Grivot e DRC no setor original Les Richebourg, apresentam Richebourgs mais encorpados, mais macios e principalmente tânicos, mostrando a força deste Grand Cru que tem como vizinhança os vinhedos Romanée-Conti, La Romanée e Romanée-St-Vivant.

richebourg parcelasRichebourg – parcelas

Feito esse preâmbulo, vamos a uma vertical desses vinhos com diferentes idades e momentos de evolução. Com exceção de um Méo-Camuzet 1990, todos os outros Richebourgs são DRC de várias safras.

img_4814safras altamente pontuadas

Começando já em alto nível, duas safras primorosas e com muita vida pela frente, sobretudo o potente Richebourg 99. Talvez o mais prazeroso dos DRCs provados foi este de safra 1996 com 96 pontos. Aromas ricos de Vosne, misturando juventude com certa evolução. Cerejas escuras, os toques florais, o sous-bois, uma pontinha de café, e as especiarias delicadas. Boca macia, taninos bem moldados, e um final super equilibrado. Momento ótimo para ser provado. Já o 99, um vinho mais musculoso, muito mais taninos, e ainda um pouco tímido nos aromas. Deve ser obrigatoriamente decantado, pois evolui bem na taça. Os aromas de frutas escuras, notas de torrefação e chocolate são evidentes. Um vinho com pelo menos mais uma década de evolução com 97 pontos. Como observação, seus taninos não são tão finos como o monstruoso La Tâche 99 com 100 pontos, provado recentemente.

img_4815um intruso no ninho

Neste segundo flight, o Chambertin no centro da foto destoou dos demais. Deu muito azar de estar junto com dois dos melhores tintos do almoço. Reparem que trata-se de um vinho de negociante de Beaune numa safra fraca de 1976. Seus aromas de caramelo e amadeirados dava impressão de um bom Rioja envelhecido ou de alguns Vegas, bem observado por Manoel Beato. Os aromas eram mais interessante que a boca com nítidos sinais de decadência. Acidez agressiva e secura no final de prova.

Em compensação, os outros dois estavam divinos, sobretudo o Méo-Camuzet. A história do Richebourg Méo-Camuzet se confunde com Henri Jayer, uma lenda na Borgonha. No pós-guerra os vinhedos Richebourg foram replantados e entregues a Henri Jayer para a elaboração de seus vinhos. A amizade de Henri com a família Camuzet sempre foi de muita confiança. A última safra de Richebourg rotulada como Henri Jayer foi a de 1987. Nos anos seguintes, Henri Jayer atuou como consultor dos Richebourgs Méo-Camuzet até quando sua saúde aguentou. Portanto, este Richebourg 1990 tem a mão do mestre e de fato é magnífico. Fiel ao terroir Les Verroilles e a seu estilo elegante de vinificar, o vinho emana um bouquet de rosas impressionante. Seus taninos são delicados e ao mesmo tempo firmes para garantir estrutura e longevidade. Encontra-se num momento sublime, sem sinais de decadência. Pelo contrário, tem um amplo platô de estabilização.

Quanto ao Mazis-Chambertin 85 de Madame Leroy não estava no mesmo esplendor de uma outra garrafa degustada recentemente. Parecia mais evoluída e um pouco cansada. Contudo, percebe-se um vinho fino e com toda a estrutura digna dos grandes Chambertins. Taninos muito finos e um raro equilíbrio em boca. Essas brigas no bom sentido entre Jayer e Madame Leroy são sensacionais, mostrando todo o talento destas lendas da Borgonha.

img_4816os bons velhinhos

Neste flight, uma homenagem aos velhos Borgonhas que conseguem atravessar décadas em sua jornada. Não são grandes safras, mas mostram o talento e a longevidade dos vinhos DRC. Os dois com aqueles toques de Vosne evoluídos onde o sous-bois, cogumelos, toques terrosos, e algumas notas de chá são bem presentes. Levando-se em conta a idade, o 1965 estava bem prazeroso e com extrato superior ao 1981. Este último, bem delicado, sendo melhor apreciado como vinho de meditação, sem interferência de comida. Enfim, uma aula de aromas terciários.

img_48181as promessas

Neste flight, todo o vigor e potência dos Richebourgs DRC. No caso de 2008, os taninos surpreendem pela textura macia e afável com boa evolução de aromas e extremamente prazeroso. Perde um pouco em potência frente ao 96, mas segue o mesmo estilo. Já o 2009, segue a potência da safra 99. Rico em aromas e taninos, sua estrutura é monumental, podendo atravessar décadas de evolução. Seus aromas de alcaçuz, chocolate e cerejas escuras são notáveis. Deve ser obrigatoriamente decantado.

De todo modo, são vinhos para repouso em adega, vislumbrando grande evolução no caminho dos belos vinhos de Vosne-Romanée. Notas 96 e 97 para as safras 2008 e 2009, respectivamente.

bela harmonização

Para selar o almoço, um velho Richebourg 1947 Old School. O prato acima do restaurante Parigi, escoltou bem vinhos como este num belo ravioli de vitela com molho de cogumelos. A mítica safra de 1947 moldou belos vinhos e esse não foge à regra. Poderia estar um pouco cansado, mas mesmo assim, mostra a elegância e delicadeza dos grandes vinhos de Vosne. Seria repetitivo citar novamente seus divinos aromas terciários e toda a maciez em boca de taninos totalmente polimerizados. São vinhos para serem bebidos sozinhos, sem comparações, sem notas. Apenas pelo simples prazer que a pátina do tempo nos proporciona.

img_4811alta costura em Champagne

Além do desfile de Richebourgs, tivemos algumas borbulhas interessantes neste almoço. Como destaque incomparável, o raro Dom Pérignon 1983 P3, não encontrado no mercado nacional. Nosso confrade Camarguinho, homem de finas borbulhas, nos presenteou com o exemplar acima. P3 para quem não sabe, é a chamada terceira plenitude, período relativamente longo onde o champagne descansa sobre as lias (borras) antes do dégorgement. No caso de um P3, estamos falando em mais de vinte anos sur lies. Precisamente neste exemplar, 25 anos com as leveduras.

Este procedimento, mantém um frescor incrível no champagne, além de texturas e sabores únicos. A fineza do perlage é indescritível, tal a delicadeza das borbulhas. Sua textura em boca, o que chamamos de mousse, é super delicada. Some-se a isso tudo, sabores sutis de maçã, cogumelos e fino tostado, e você estará diante da perfeição. Difícil pensar em algo melhor.

Blanc de Noirs artesanal

Na foto acima, um champagne artesanal com apenas 900 garrafas por safra. Neste millésime Blanc de Noirs, temos as uvas Pinot Noir e Pinot Meunier com três anos sur lies. Um champagne mineral, extremamente seco, gastronômico, e de certa adstringência. Muito fresco, equilibrado, ótimo perlage, e mousse vigorosa.

os vinhos tranquilos de Champagne

Os chamados Coteaux Champenois são os vinhos tranquilos na região de Champagne, ou seja, sem borbulhas. Neste caso, temos outra produção artesanal com apenas 500 garrafas por safra. Trata-se de um 100% Pinot Meunier (uva tinta) vinficado em branco e amadurecido 34 meses em toneis. O vinho conserva uma boa acidez sem exageros e notável adstringência. Bastante seco e notável mineralidade. Branco gastronômico para pratos de personalidade como bacalhau, por exemplo. Valeu pela raridade e pela experiência em provar vinhos diferentes numa região de finas borbulhas.

Após longa jornada, ficam os agradecimentos aos confrades e as lembranças de mais um almoço inesquecível onde o bom papo e a imensa generosidade do grupo permearam mais esse encontro. Saúde a todos!