Archive for Julho, 2010

Harmonização: Culinária Árabe

28 de Julho de 2010

Líbano: culinária árabe mais delicada

Falar de culinária árabe num sentido mais amplo, englobaria vários países do Oriente Médio, com inúmeras peculiaridades e variações. Nosso foco está mais para o que conhecemos de cozinha árabe no Brasil, como esfihas, quibes, kafta, homus, tabule, entre outros pratos, com ênfase na culinária sírio-libanesa.

A cozinha de um modo geral é delicada, inclusive as especiarias, notadamente a pimenta síria. Ingredientes como iogurte, cebola e limão devem ser considerados, principalmente quando temos a autonomia de dosá-los em nossos pratos.

De um modo geral, brancos de boa acidez e relativamente frutados, sem passagem por madeira, são os ideais, principalmente com as saladas como o tabule, por exemplo. Evite vinhos extremamente frutados e encorpados. Eles podem ser um tanto dominadores. Chardonnays sem madeira, Sauvignons frescos e jovens do Chile e África do Sul, são mais aconselháveis.

Os pratos leves de carne, como quibes, esfihas e kaftas vão bem com tintos frescos e de boa fruta. É importante calibrar adequadamente o corpo do vinho para não sobrepujar os pratos. Tintos do Loire à base de Cabernet Franc são os mais indicados, sob as apelações Bourgueil e Chinon, já abordadas em posts passados. Pinot Noir também do Loire ou Beaujolais (uva Gamay) de boa procedência são as opções imediatas. Receio que vinhos do Novo Mundo, mesmo jovens e sem passagem por madeira, possam ser um pouco dominadores, tirando o brilho da harmonização.

Pratos quentes à base de frango e principalmente o carneiro, podem prescindir de tintos mais estruturados, sem estes jamais perderem a elegância e sutileza. Syrah do Rhône do Norte sob as apelações Crozes-Hermitage e Saint-Joseph parecem ter frescor, estrutura e elegância na medida certa. As opções do sul do Rhône, embora tenham ressonância aromática, muitas vezes carecem de frescor. O mesmo ocorre com os tintos da Provence, exceto os rosés, que podem surpreender favoravelmente, desde o início da refeição.

Do lado italiano, Dolcettos, Barberas e Chiantis, todos simples e frescos são benvindos. Tempranillos espanhóis no estilo joven (quase ou totalmente sem passagem por madeira) são opções a considerar.

Os tintos libaneses disponíveis no Brasil como Chateau Musar e Chateau Kefraya podem apresentar a crônica falta de frescor. Para pratos mais estruturados como o carneiro podem surpreender, sobretudo se calibrarmos bem a temperatura de serviço. 

Homus: uma entrada aparentemente inocente

O gosto apesar de não muito intenso, apresenta uma textura pastosa, com um final levemente adstringente e pouco habitual em outras pastas. Além disso, existem o limão e o gergelim presentes na receita. O famoso branco grego Retsina (que muitos torcem o nariz) e o Tokay na versão seca (Szamorodni quase sempre se enquadra nesta versão) são combinações perfeitas. Eles têm acidez, personalidade e afinidade de sabores para o prato. Um Sémillon australiano do Hunter Valley é uma saída original do Novo Mundo. Este mesmo Sémillon, com uns bons anos em garrafa, adquire um toque defumado que ficará perfeito com outra especialidade sírio-libanesa, o babaganuche (pasta de beringela assada).

Noções básicas da sommellerie

25 de Julho de 2010

 

Mesas confortáveis e espaçadas

Muitas pessoas que frequentam restaurantes ficam intrigadas com certas atitudes em relação ao serviço do vinho, tentando adivinhar, criticar ou justificar os motivos de tais atos.

Na minha modesta opinião, o serviço deve ser o mais simples e discreto possível. A escolha do vinho deve ser sempre a palavra final do cliente, a despeito das sugestões e justificativas do sommelier, caso seja pedida sua opinião.

Vinho escolhido, cabe ao sommelier levar a garrafa ao cliente para uma adequada visualização do rótulo e sua confirmação. Após a abertura da garrafa, a rolha é levada ao cliente sobre um pires ou pratinho discreto. Em seguida, o sommelier tem o direito e principalmente o dever de provar o vinho, certificando-se do mesmo. O verdadeiro sommelier nesta hora tem obrigação de trocar a garrafa, sem a necessidade do cliente prová-la. A prova que pedimos ao cliente é muito mais por razões de protocolo e sua liberação para as demais pessoas da mesa. A garrafa deve ser deixada sobre a mesa com o rótulo voltado para os convivas. Desnecessário dizer, se a mesa estiver completa, não tem sentido este detalhe.

Decanter: arrojo no design

A decisão de decantar ou não um determinado vinho cabe ao sommelier, que teoricamente deve ter conhecimento técnico para tal procedimento, a menos que o cliente determine a execução ou não da decantação. Evidentemente, vinhos envelhecidos ou mesmo relativamente jovens que apresentem efetivamente depósitos, devem ser obrigatoriamente decantados. Já a decantação por motivos de aeração ou oxigenação é altamente polêmica e portanto, bastante pessoal. O decanter quando utilizado deve ser deixado na mesa, a menos que não haja espaço suficiente ou cause um certo incômodo às pessoas. Neste caso, um aparador mais próximo é a solução ideal.

O monitoramento da mesa é tão importante quanto o início dos trabalhos na mesma, o que na prática é muito pouco observado. Repor vinho nas taças, respeitando o ritmo de consumo de cada pessoa de forma adequada. A reposição em pequenas quantidades torna o serviço elegante, preservando a temperatura de serviço.

Procedimentos além dos descritos acima devem ser vistos com reserva, exceto situações especiais.

Quanto à harmonização, o assunto fica num segundo plano na prática, por incrível que pareça. Normalmente, as pessoas pedem vinhos, independente do prato escolhido. Evidentemente, o sommelier está ali para orientar, mas jamais impor vinhos mesmo que tecnicamente estejam corretos. Se além disso, ele se sentir no direito de dar um curso básico à mesa, siga as orientações do mestre Danio Braga: sommelier que fica mais de cinco minutos na mesa, eu mando embora!

 

Destaque do Alentejo: Mouchão

22 de Julho de 2010

Aqui vale o ditado: Quanto mais velho, melhor!

Não há dúvida que vinhos como Barca Velha e Pera Manca são ícones incontestáveis de Portugal, mas nem todos sabem do grande terroir que existem há mais de um século na Herdade do Mouchão. Se levarmos em conta seu preço, é o melhor vinho de Portugal.

Este é um alentejano diferenciado em todos os quisitos que perfazem o conceito de terroir (casta, solo, clima e homem). A casta predominante é o Alicante Bouschet, uma casta praticamente abandonada na França  e adotada no Alentejo. Na Herdade do Mouchão, encontrou clima e solo ideais para sua difícil maturação. É um solo específico de várzea com subsolo argiloso, que permite armazenar água suficiente para os períodos de seca. O clima relativamente frio para os padrões alentejanos na subregião de Portalegre, junto a serra de São Mamede, propicia uma maturação lenta e gradual, para que esta casta extremamente exigente desenvolva aromas e taninos de rara qualidade. Complementada pela casta Trincadeira, também conhecida no Douro como Tinta Amarela, torna o blend macio na medida certa , sem perder a estrutura e espinha dorsal deste grande tinto. Neste momento entra a sabedoria humana em lapidar este tesouro, com uma vinificação absolutamente tradicional, começando com a pisa a pé em lagares, seguida de longa maceração das cascas. Terminada esta fase, o vinho estagia em grandes tóneis antigos de dois mil litros por dois ou três anos, e mais dois antes do engarrafamento, sem filtração. O tamanho dos tóneis aliado à idade avançada da madeira, permite a devida oxigenação e estabilização do vinho, sem perder as preciosas características de terroir.

O resultado é um vinho retinto, rico em aromas de grande mineralidade. Pode e deve envelhecer por pelo menos dez anos. Deve ser obritoriamente decantado por todos os motivos: tenra idade, ausência de filtração e consequente depósitos (borras).

Por tudo que foi exposto, não apresenta um perfil alentejano corriqueiro, com aromas abertos, taninos dóceis, relativamente quente (álcool) e pronto para beber. É um vinho com identidade própria, capaz de evoluir no tempo como poucos. É importado pela Adega Alentejana (www.adegaalentejana.com.br) por menos de R$ 200,00 (vale cada centavo).

Os Grandes Vinhos: Corte ou Varietal

18 de Julho de 2010

A eterna busca pela explicação dos melhores vinhos do mundo passa pelo subjetivo conceito de terroir, envolvendo inúmeros aspectos naturais e humanos. Um desses aspectos diz respeito à composição de uvas na concepção de um grande vinho. Nesta briga estão duas grandes escolas francesas: Bordeaux e Bourgogne, ou seja, corte versus varietal.

A Borgonha para os tintos adotou somente a caprichosa Pinot Noir e paga caro por isso, levando às últimas consequências o conceito de terroir. Seus melhores vinhos é uma intrincada batalha envolvendo produtor comunal, safra e o terreno perfeito. E quando se busca a perfeição com uma só uva, a limitação do vinhedo é fundamental. Clones específicos, leveduras nativas, composição judiciosa do solo entre calcário e argila, altitude e inclinação do vinhedo bem calibradas e baixíssimos rendimentos por parreira são alguns dos segredos.

Neste contexto, é sempre óbvio falarmos do badalado Romanée-Conti, citado por muitos e provado por poucos. Dependendo da safra, seus preços são incontroláveis. Mas para quem gosta de exclusidade, o rótulo abaixo ainda é mais raro que o “the best”. O vinhedo é vizinho e o nome quase se confunde. Trata-se de um monopólio da famila Liger-Belair com área equivalente a 0,8452 hectares. Isso mesmo, menos de um hectare, metade da área do Romanée-Conti.

Um jardim na Borgonha: menos de um hectare

 

Do lado bordalês, a concepção é outra, principalmente por lidar com grandes extensões de vinhedos em relação aos padrões borgonheses. De fato, a idéia de corte de duas ou três uvas na maioria dos casos, além de aparar arestas, realçar sabores e enriquecer o conjunto, tem papel importantíssimo nas safras problemáticas, aumentando a proporção de determinadas uvas mais favorecidas ou menos prejudicadas. É assim nas famosas margens esquerda e direita, conforme série de posts passados (vide Bordeaux de I a V). Contudo, quando falamos de grandes bordeaux, principalmente em termos de preço e exclusividade, o rei Petrus é praticamente uma unanimidade. Com uma área pouco mais de dez hectares, em média dez vezes menor que os grandes châteaux do Médoc, voltamos ao tema varietal com forte conceito de terroir. Apesar de não estar expresso no rótulo, Château Petrus é tecnicamente um varietal de Merlot, com algo em torno de cinco porcento de Cabernet Franc.

Seguindo o foco extremo de exclusividade, o grande Petrus perde feio para o minúsculo Château Le Pin (vide foto abaixo), com pouco mais de dois hectares. Também com alta porcentagem de Merlot, é uma das grandes estrelas no seleto grupo de vinhos numa das menores apelações bordalesas, Pomerol.

 

Le Pin: Um dos precursores da microvinificação

 

 

Finalizando o raciocínio, quando lidamos com grife, exclusividade, artesanato, glamour, estamos falando em vinhedos minúsculos, portanto, de baixíssima produção. Nesta linha de pensamento, a idéia de uma só uva num espaço tão reduzido faz todo o sentido com o conceito extremo de terroir onde solo, clima, uva e homem são capazes de criar algo harmônico, beirando a perfeição.

Para não deixar Champagne fora do assunto, que fundamentamente é uma região de vinhos de corte, com maisons e cuvées fantásticas, quando lidamos com o extremo artesanato das melhores bolhas do mundo, nos deparamos com preciosidades como Salon e Krug Clos de Mesnil, ambas de vinhedos minúsculos e cem porcento Chardonnay. Portanto, dentro de uma certa ótica, os varietais parecem ser destinados a atingirem a perfeição na medida do possível.