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Terroir: Alsace IV

14 de Julho de 2011

A polêmica apelação Alsace Grand Cru responde por cerca de 4% de toda a produção e conta atualmente com 51 Grands Crus catalogados. Apesar de ser instituída em 1975, só a partir de 1982 sua produção começou a ser computada estatisticamente com 852 hectolitros. Hoje são pouco mais de 35.000 hectolitros no ano de 2010.

Atualmente, a aceitação da Apelação Alsace Grand Cru dentre os produtores está mais digerida. No início houve muita discussão, pois de certo modo, era uma apelação que elitizava um pequeno grupo de produtores que tinha de fato, terroirs diferenciados. Como os critérios nunca são perfeitos, outros vinhedos famosos ficaram de lado, acirrando mais ainda a confusão. Marcas como Trimbach, Hugel e Léon Beyer são contrárias à esta apelação, preferindo rotular seus vinhos com cuvées e vinhedos consagrados pelo público e crítica.

Zind Humbrecht: Biodinâmico talentoso

A apelação Alsace Grand Cru começou em 1975 com apenas um vinhedo (Schlossberg Grand Cru). Somente em 1983 foram agregados mais 24 vinhedos (Grand Cru), completando a lista em 1992 com mais 25 vinhedos. Em 2007 permitiu-se mais um vinhedo (Kaefferkopf Grand Cru), totalizando 51 Grands Crus.

Clos Saint Urbain: Declividade imponente

A escolha dos Grands Crus foi baseada em fatores de terroir, tais como: geologia diferenciada, exposição privilegiada conjugada com altitudes adequadas. Os rendimentos por parreiras são mais restritos e as uvas permitidas são: Riesling, Pinot Gris, Gewurztraminer e muito pouco da Muscat, todas elas, sempre em caráter varietal. Recentemente, foi permitida a Sylvaner para o vinhedo Zotzenberg, além dos vinhedos Altenberg de Bergheim e Kaefferkopf poderem elaborar vinhos de corte com várias uvas.

Apenas para citar um exemplo, o vinhedo Clos Saint Urbain conduzido por Olivier Humbrecht, primeiro francês Master of Wine, pertence ao Grand Cru Rangen de Thann. Existe uma expressão francesa denominada Lieu-dit, que no caso significa um terroir consagrado pela história. Portanto, os 51 Grands Crus da Alsácia podem receber esta menção, muito comum na literatura francesa. Voltando ao Clos Saint Urbain, é um terroir de solo vulcânico e de exposição excepcional (vide rótulo e fotografia acima). Neste tipo de solo são cultivadas a Riesling, Pinot Gris e Gewurztraminer. Como este solo retém muito calor, o amadurecimento, sobretudo das duas últimas uvas mencionadas é perfeito.

Alsace: Alto Reno e Baixo Reno

Dê um zoom no mapa acima e observe a linha pontilhada, dividindo os departamentos Bas-Rhin e Haut-Rhin (baixo e alto Reno). Mais ao sul fica o Haut-Rhin, onde teoricamente estão os melhores vinhedos alsacianos. Aqui, normalmente as encostas são mais acentuadas e a proteção dos Vosges, muito mais eficiente. Não é à toa que a maioria de vinhedos Grands Crus estão nesta porção. Os melhores vinhedos do chamado Bas-Rhin gozam de proteções (Vosges), solos e inclinações privilegiadas e pontuais.

Próximo post, menções especiais nos rótulos: Vendanges Tardives e Sélections de Grains Nobles

Terroir: Alsace II

7 de Julho de 2011

A comparação dos brancos alsacianos é quase inevitável com seus vizinhos germânicos. Normalmente, o lado francês gera vinhos mais encorpados, mais opulentos e mais potentes em relação ao lado alemão. Como tudo é relativo, a Alsácia é uma região quente para padrões alemães. Por isso,  essas características são refletidas em seus vinhos. Entretanto, as versões Trocken dos atuais vinhos alemães aproximam-se muito do padrão alsaciano, a  ponto de confundirmos estes  exemplares numa degustação às cegas.

Tratando-se de vinhos varietais expressos nos rótulos, vamos detalhar a seguir, as principais uvas:

Riesling

Longe de menosprezar o alto padrão do Riesling alemão, a Alsácia talvez seja a única região fora da Alemanha a elaborar vinhos com esta caprichosa cepa, capazes de confrontar a excelência alemã. Seus aromas são típicos, mostrando com elegância sua trilogia aromática com aspectos florais, minerais e cítricos. A perfeição da mineralidade fica por conta da domaine Trimbach (os espetaculares Cuvée Frederic Emile e Clos Sainte Hune), com vinhos capazes de envelhecer por décadas. Já o lado mais opulento e exuberante está a cargo do produtor Zind-Humbrecht, com vinhos aromaticamente elegantes, macios e expansivos.

Na gastronomia, a Riesling acompanha muito bem pratos defumados, receitas com carne de porco e o clássico alsaciano Choucroute Garnie.

Domaine Trimbach – importadora Zahil – www.zahil.com.br

Zind-Humbrecht – Expand – www.expand.com.br

Pinot Gris e Gewurztraminer, respectivamente

É importante salientar que as uvas acima são rosadas, gerando vinhos de cores mais acentuadas,  tendendo ao dourado, principalmente com o envelhecimento em garrafa. Trata-se sempre de uma vinificação em branco, sem a presença das cascas.

Pinot Gris

Na Itália, Pinot Grigio. Na Áustria ou Alemanha, Ruländer ou Grauer Burgunder. Seja como for, nos vários países onde é cultivada, com vários outros sinônimos, em nenhum outro lugar além da Alsácia, esta uva gera vinhos de tamanha complexidade e sofisticação. Em terroir alsaciano, seus vinhos lembram o lado floral mais discreto da Gewruztraminer com nuances de talco. Gustativamente, apresentam a textura e maciez de um chardonnay de bom corpo. Nas versões adocicadas, costuma ser o parceiro ideal para o autêntico foie gras alsaciano.

Gewurztraminer

Apesar de seus aromas florais intensos, além de lichias e especiarias, não há paralelos mesmo do lado alemão, para o estonteante “Gewurz” da Alsácia. Sua acidez costuma ser deficiente, mas quando não há este inconveniente, são vinhos exóticos e apaixonantes. Parceiro número um para o poderoso queijo local Munster. Culinária indiana com pratos mais aromáticos que picantes é outra pedida certa.

Muscat

As variedades Muscat à petits grains e Muscat Ottonel geram os convidativos moscatéis da Alsace. São vinhos leves, delicados e aromáticos, muito apropriados para aperitivos e pratos vegetarianos, inclusive com aspargos.

Em resumo, se você quer um ótimo moscatel seco, se você quer o melhor riesling além da Alemanha, se você quer os melhores Pinot Gris e Gewurztramminer do mundo, escolha a Alsácia. Terra dividida tantas vezes ao longo da história entre França e Alemanha, soube com maestria tirar proveito deste conflito, praticando de forma singular, um dos mais belos exemplos em vitivinicultura.

Harmonização: Ceviche

19 de Janeiro de 2011

A grafia sofre variações como Cebiche, Seviche ou Sebiche, mas trata-se de uma técnica culinária, originalmente para marinar peixes em suco de limão. Países latino-americanos banhados pelo mar do Pacífico desenvolveram bem esta arte, notadamente o Peru, que tradicionalmene reivindica a paternidade. Entretanto, Chile, Equador, Colômbia, México, entre outros, têm suas próprias receitas e variações.

Prato clássico do Peru

A receita basicamente consiste em marinar peixes de carne branca e firme em suco de limão, cebola roxa preferencialmente, e pimenta vermelha. Salsinha, coentro e outras ervas podem complementar a marinada. Acompanhamentos tipicos peruanos como a batata doce, milho ou algum legume cozido, formam um conjunto harmonioso.

Pelos ingredientes acima citados percebemos intuitivamente que tintos estão descartados. Peixe in natura e suco de limão são argumentos mais que suficientes. Esses mesmos componentes pedirão brancos animados, de boa acidez, que inclusive, refrescarão o lado picante da pimenta. Portanto, até aqui, um Sauvignon do Loire (Sancerre ou Pouilly-Fumé), um Riesling seco da Alsace (pode ser o Trimbach da importadora Zahil – www.zahil.com.br), ou um Savennières (Chenin Blanc seco do Loire), cumprem bem o papel.

Se os acompanhamentos entrarem em jogo, os mesmos acrescentarão um toque de doçura, além de uma textura mais rica. Portanto, o Sauvignon Blanc continua ser uma boa pedida porém, com mais fruta, um pouco mais de corpo, e maciez. Essas características estão presentes na maioria dos Sauvignons modernos, liderados pelos neozelandeses. Chilenos e sul-africanos costumam dar conta do recado também.

Os Rieslings e Chenins seguem o mesmo raciocínio. Eles precisam de um pouco mais de fruta e/ou doçura, textura mais macia, sem perder o indispensável suporte de acidez. Como consequência, rieslings alemães Spätlese ou Auslese, alsacianos com um toque off-dry (Zind-Humbrecht é bem típico deste estilo), ou o estilo australiano desta uva, terão êxito na harmonização. Para a Chenin Blanc, os Vouvrays com vários graus de doçura, incluindo os espumantes, oferecem calibragem na medida certa. O produtor Didier Champalou da importadora Club Taste Vin merece ser conhecido (www.tastevin.com.br).

Concluindo, as variações da receita são inúmeras. Além de peixes, podem ser marinados toda a sorte de mariscos e frutos do mar. A laranja pode em alguns casos substituir o lado cítrico do limão. Os acompanhamentos podem também ter grande influência. O importante é provar este excelente prato no auge do verão, aproveitando mais um argumento para os tão esquecidos vinhos brancos.