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Pauillac x Pessac-Léognan

5 de Junho de 2017

Neste artigo de número 700, vamos falar de um assunto extremamente prazeroso no meu ponto de vista, vinhos de Bordeaux. O título acima já diz tudo, um embate entre essas duas comunas clássicas de margem esquerda, de estilos bem diferentes. Para isso, nada melhor que colocar duas taças lado a lado, de vinhos de mesmo quilate, de mesmo padrão de qualidade, e principalmente, de safras qualitativamente equivalentes.

lynch bages 1995

76% Cabernet Sauvignon, 15% Merlot, 7% Cabernet Franc, 2% Petit Verdot

15 meses em barricas francesas (60% novas)

Pauillac

Chateau Lynch-Bages 1995, também chamado covardemente como “Mouton dos pobres”. Na hierarquia desta badalada comuna que tem nada menos que três dos cinco primeiros de Bordeaux, segundo a classificação de 1855 (Lafite, Mouton e Latour), Lynch-Bages ocupa lugar de destaque num segundo ou terceiro escalão. Safras como 1989, praticamente perfeita, tem pontuações altíssimas e ainda com muito vigor para ser desfrutada.

Nesta safra especificamente de 95, o vinho obteve 89 pontos Parker. Tinto de corpo médio a bom, estrutura tânica relativamente discreta para um padrão Lynch-Bages, embora com taninos presentes e de alta qualidade. Os aromas de cassis, cedro, e um toque de grafite (mineral), são marcantes e bastante típicos. Muito bem equilibrado e de persistência aromática relativamente boa porém, sem grandes emoções. Concordo plenamente com Parker quanto à pontuação, a despeito de muitos marinheiros de primeira viagem poderem se emocionar e pontuá-lo indevidamente.

domaine chevalier 2004

53% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 6% Cabernet Franc, 6% Petit Verdot

16 a 18 meses em barricas francesas (um terço novas)

Pessac-Léognan

Comuna nos subúrbios da cidade de Bordeaux, tem como tesouros os magníficos Chateaux Haut-Brion e La Mission. Num patamar inferior e de equivalência relativa à sua respectiva comuna se comparado ao vinho anterior, Domaine de Chevalier prima muito mais pelos seus ótimos brancos, partindo de uma opinião bem pessoal. Contudo, a safra 2004 com seus 13 anos, encontra-se num bom momento para ser desfrutada, salientando que ainda tem um bom platô de evolução.

Comparando as taças lado a lado, notamos de cara a comprovação das cores, levando em conta a diferença de tempo nas safras e as características de cada comuna. Enquanto o Pessac-Léognan apresenta uma cor de intensidade média com conotações de borda tendendo a um leve atijolado, o Pauillac mostra uma cor um pouco mais acentuada e menos evoluída. A diferença de idade entre ambos são de nove anos. Isso mostra claramente que os Pauillacs são vinhos mais longevos, demoram mais em sua evolução, e apresentam uma estrutura tânica bem mais firme. 

Aromaticamente, as diferenças e as respectivas tipicidades continuam a confirmar a teoria. Pessac-Léognan muito mais aberto, mais abordável, mostrando seus toques elegantes de notas animais (couro, estrabaria), e de ervas finas, além de um frutado vigoroso. Já o Pauillac, mais sisudo, mais austero, mostrando toda a aristocracia da comuna. Parker confere 90 pontos para este 2004, Domaine de Chevalier.

Reforçando as diferenças de terroir entre as comunas, observamos que a porcentagem de Cabernet Sauvignon no corte de Pauillac é sensivelmente mais alta, ressaltando a tão propalada austeridade. Em contrapartida, a maior participação da Merlot no corte de Pessac-Léognan, reforça o caráter de precocidade do vinho. A maior proporção de argila e areia nestes solos de Graves, favorece o plantio e amadurecimento da Merlot.

O polêmico Parker pode ter todas as ressalvas quando julga por exemplo, vinhos da Borgonha, do sul da França, da Espanha, e outras regiões que não são propriamente sua praia. Agora, uma pessoa que provou exaustivamente todos os grandes chateaux de Bordeaux nas principais safras do século XX, tem competência de sobra para pontua-los sem bairrismos. Suas notas são extremamente seguras e consistentes.

Taninos, os vilões à mesa

Análises e comparações à parte dos vinhos acima degustados sem interferência da comida, vamos agora à mesa para observarmos o desempenho de ambos. O prato era uma carne de panela num caldo de longo cozimento acompanhado de batatas ao forno com azeite e alecrim. Domaine de Chevalier saiu na frente, mostrando corpo adequado ao prato, acidez na medida certa, taninos brandos e razoavelmente resolvidos. Enfim, um vinho mais afável aos sabores e simplicidade do prato. Já o Pauillac, não desceu de seu pedestal. Um tinto aristocrático,  cerimonial, e principalmente com uma carga tânica dissonante com o prato.

queijo saint paulin

Em seguida, tivemos um queijo Saint-Paulin bem fresco, macio, e de aromas bem delicados. É um dos queijos clássicos no acompanhamento de Bordeaux jovens e frutados. Novamente, Domaine de Chevalier tomou conta da cena. Seus taninos brandos aliados a uma boa acidez, deram o frescor e suavidade exigidas pelo queijo. Muitas vezes em enogastronomia, vinhos mais simples adequam-se melhor em várias situações, são mais ecléticos.

rondelli de salmão defumado

A entrada

Antes dos bordaleses, tivemos uma entrada de salmão levemente defumado, cream cheese, e espinafre picadinho, tudo enroladinho numa espécie de rondelli, conforme foto acima. É um prato de textura densa e ao mesmo tempo, de sabor relativamente delicado.

gerovassiliou sauvignon blanc 2005

A harmonização ficou por conta do Domaine Gerovassiliou Sauvignon Blanc grego estilo fumé, foto acima. O vinho foi fermentado e amadurecido em barricas de carvalho francês. Sua textura mais rica e seu lado fumé foram os pontos relevantes na harmonização. Epanomi, é uma microrregião bem ao norte da Grécia. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

O vinho reduzido a números!

15 de Março de 2017

Fala a verdade! É chato você reduzir um vinho a uma nota, um número. Entretanto, a vida muitas vezes não tem esse lado romântico. É preciso quantificar, avaliar, dar notas e aí, a polêmica está naturalmente sacramentada. Para complicar um pouco mais, as escalas de notas, os critérios, são os mais variados e subjetivos. Por mais que você queira ser cartesiano, como quantificar complexidade por exemplo?

A mais famosa das escalas é a pontuação de 0 a 100 pontos. Melhor dizendo, 50 a 100 pontos. Melhor ainda, 80 a 100 pontos. Experimente pontuar um vinho abaixo de 80 e mostra-lo numa prateleira de vinhos. Ele jamais será vendido. Engraçado! quando eu tirava notas escolares em torno de 80, era uma maravilha. Para o vinho, os critérios são bem mais rigorosos.

De fato, com os atuais conhecimentos enológicos, conhecimentos de campo (viticultura), é praticamente obrigação de uma vinícola séria elaborar vinhos com pelo menos 80 pontos. Tanto é verdade, que mais de 80% dos vinhos avaliados apresentam notas entre 80 e 90 pontos.

rating winesAs várias escalas de pontuação

Esta escala centesimal é mais fácil de ser compreendida pelo público, embora para notas maiores que 90, e principalmente 95, o acréscimo de um ponto a mais na nota tem um efeito mais exponencial do que linear. Essa sensação complica mais ainda, quando lidamos com a escala de 0 a 20 pontos, cada vez mais popular. Por exemplo, Jancins Robinson, Revista de Vinhos, Revue du Vins de France, entre outras publicações.

quinta crasto touriga ncional 2011

Wine Spectator 95 pontos

Revista de Vinhos 17,5 pontos

Para exemplicar, vamos ao rótulo acima do excelente tinto português Quinta do Crasto Touriga Nacional 2011. Esse vinho foi avaliado com 95 pontos pela Wine Spectator e 17,5 pontos pela Revista de Vinhos de Portugal. Será que essas notas se equivalem? vejamos …

Pontuação 12 a 20

Exame Visual: até 3 pontos

Exame Olfativo: até 7 pontos

Exame Gustativo: até 10 pontos

Para tentar explicar a pontuação de 0 a 20, vamos imaginar dois pensamentos extremos de avaliação, analisando as principais notas mostradas na maioria das publicações.

Nota 13

Num pensamento simplista, para comparar esta nota com a escala de 0 a 100, basta multiplicar por cinco a nota em questão. Portanto, nota 65. Claramente, uma nota baixíssima e absurda. Por outro lado, vamos imaginar que o critério de 0 a 20  seja dar notas a partir de 80 pontos, já que praticamente não existem vinhos comerciais abaixo deste valor. Portanto, adicionamos 13 pontos aos básicos 80, resultando em 93 pontos. Outra nota absurda, reservada somente a grandes vinhos.

Fazendo uma média aritmética entre 65 e 93, chegamos a 79 pontos, algo bem mais razoável para a escala em questão. Aplicando este raciocínio para as demais notas sucessivas (14, 15, 16, …), vamos acrescendo três pontos a cada degrau.Portanto, 14 equivale a 82, 15 a 85, 16 a 88, 17 a 91, 18 a 94, e 19 a 97.

Voltando ao nosso exemplo, os 17,5 pontos da Revista de Vinhos chega próximo a 94 pontos, fazendo algum sentido na comparação. Talvez pelos portugueses não serem tão comerciais como os americanos, mesmo sendo um vinho da Terrinha, o critério é mais rigoroso. Mais uma lição, a fonte de pontuação é fundamental para termos credibilidade com esses números.

Para uma correta avaliação é preciso certificar-se que o vinho não apresenta defeitos, esteja na temperatura correta, e seja degustado em taças ISO de degustação. Conhecer a região, a denominação de origem do vinho em questão, reforça a credibilidade da nota.

Cult Wines

27 de Novembro de 2016

Existem belos vinhos no Novo Mundo, mas com o nível de sofisticação dos Cult Wines americanos, é difícil confronta-los. Sobretudo, quando falamos de Cabernet Sauvignon ou também, o chamado corte bordalês com predominância da Cabernet, o que em Bordeaux chamamos de Margem Esquerda. Foi neste contexto, que a degustação abaixo de grandes tintos de Napa Valley rolou com quatro safras históricas: 1990, 1994 e 1997.

marcassin-chardonnay-2002

Chardonnay de Gladiadores

Inicialmente, um branco de Sonoma, região com influência costeira, elaborado com Chardonnay. Estamos falando de uma fera chamado Marcassin, safra 2002. A figura do javali no rótulo demonstra bem a força deste vinho. Encorpado, intenso, amanteigado, e bastante persistente. Dentro de seu estilo é muito bem feito, mas passa longe de qualquer comparação com similares da Borgonha.

grace-family-1990dominus-1990

Grace: 100% Cabernet

30 meses de barricas francesas

                                                 Dominus: Cabernets, Merlot, Petit Verdot

30% barricas novas

Neste primeiro embate da safra 1990, pessoalmente, foi o duelo mais díspar da degustação. Embora, o Grace Family estivesse mais pronto, e de fato estava, sua acidez um pouco exagerada e taninos não tão finos como os demais vinhos, incomodaram numa avaliação geral. É certamente, um vinho que deve ser tomado, e não adega-lo por mais tempo. De todo modo, o pessoal gostou bastante por sua prontidão.

Bem diferente estava seu oponente, Dominus 1990. Certamente, foi a garrafa com mais depósito (borras), tal a opacidade apresentada na taça. De estilo bem bordalês, este tinto passa facilmente num painel de grandes Bordeaux de Margem Esquerda. Denso,  terciário nos aromas, uma montanha de taninos ultrafinos, e de grande persistência. Já muito prazeroso, embora tenha estrutura para mais uns bons anos. De novo, pessoalmente, o grande vinho da degustação, lembrando belos bordaleses.

bife-chorizo-varanda-grill

Bife de Chorizo Varanda Grill

Entre um gole e outro, um bifinho para incrementar. Para esse perfil de vinhos, potentes, com muitos taninos, nada mau a suculência de uma carne vermelha nobre. Não há melhor alimento para doma-los (taninos). Realmente, uma combinação clássica.

bryant-family-1994colgin-1994

Aqui, 100% Cabernet Sauvignon em carvalho francês

O embate acima envolve dois 100% Cabernets elaborados pela mesma winemarker nesta bela safra 1994, Helen Turley. Aqui, foi cabeça a cabeça. Tanto é verdade, que Parker concedeu notas 98 e 96 respectivamente, a Bryant Family e Colgin. Concordo com Parker, dando a Bryant Family uma pontinha a mais de elegância. De todo modo, são vinhos de muita estrutura que ainda devem ser adegados por pelo menos mais cinco anos. Mesmo assim, devem ser decantados ao menos, por uma hora antes do consumo.

harlan-1997

Foto de 200 pontos

Acima, briga de gigantes, 100 pontos cada um. Pontuação é sempre algo polêmico, mas claramente, este ultimo flight da safra 1997 é superior ao anterior. Mais concentração, mais estrutura, mais complexidade. É sobretudo uma questão de gosto. O curioso é que a meu ver, o Harlan pareceu mais potente, dando a impressão de ser o Screaming Eagle. E este último, vice-versa. Foi o mais elegante Screaming Eagle que provei. Concentrado, macio, e muito longo. Este é um dos poucos exemplos em que um 100% Cabernet (Screaming Eagle) consegue ombrear-se a um corte bordalês (Harlan Estate). O Cabernet Sauvignon sozinho sempre deixa algumas arestas pela potência e rusticidade da cepa. Sabiamente, os bordaleses tem esse feeling, mesclando outras uvas.

quilceda-creek-2005

potência e maciez incriveis

No final, apareceu uma carta fora do baralho, Quilceda Creek 2005, um belo Cabernet de Washington (Columbia Valley), extremo noroeste do país. Com toda sua juventude e 14,9° de álcool, esbanjou volume, maciez e vivacidade em fruta. Muito bem balanceado por cima, o vinho apresenta estrutura e taninos muito macios, apesar de seus 22 meses em barricas francesas novas. Talvez essa maciez, seja o ponto que marque a diferença para os Cabernets de Napa, um pouco mais austeros. Um vinho hedonista, difícil de não gostar.

É sempre bom lembrar que o grupo degusta com duas taças premium, Zalto e Riedel Sommeliers. Embora magnificas em si, proporcionam sensações diferentes. Os aromas na Riedel são mais sutis, enquanto o paladar na Zalto, é mais concentrado. Em resumo, se você encontrar algum defeito no vinho, é só trocar de taça …

fine-e-marc-bourgogne

Fine e Marc: apelações regulamentadas na Borgonha

Por fim, tive a difícil missão de confrontar  dois destilados exclusivos, de grandes Domaines da Borgonha, Fine de Bourgogne Domaine de La Romanée-Conti e Marc de Bourgogne Hor d´age Domaine Dujac. Nos dois casos, trata-se de transformar materiais residuais advindos do processo de vinificação destes dois grandes Domaines.

Explicando melhor, vamos começar pelo Marc de Bourgogne. Após o processo de fermentação dos grandes vinhos Dujac, as cascas, engaços (eventualmente) e sementes que sobram nos tanques, são destilados e posteriormente envelhecidos em madeira. Este produto equivale a boas Grappas (Itália). O termo Hors d´Age prevê um envelhecimento mínimo em madeira por dez anos. Este, especificamente não tem safra. No caso, é uma mistura de destilados dos anos 1978 a 1991, a qual foi engarrafada em 2012.

Já este Fine de Bourgogne é a destilação de tudo que sobra nas barricas dos grandes vinhos do Domaine de La Romanée-Conti. No processo de engarrafamento, é comum sobrar no fundo das barricas um pouco de vinho junto com as borras e lias (leveduras mortas). Pois bem, a junção destas sobras são destiladas, dando origem ao produto. Este por sua vez, deve ser envelhecido por lei em madeira. Neste caso, estamos falando da safra 1991, engarrafada em 2008. Em resumo, é algo similar a um brandy (cognac).

h-upmann-magnum-50-e-marc

belo fecho de refeição

O confronto das duas eau-de-vie foi mediado por um Puro H. Upmann Magnum 50. É um charuto de fortaleza média para dar neutralidade ao embate. Evidentemente, o primeiro terço foi dominado amplamente pelos destilados, dada a potência de ambos. Já no segundo terço, o lado mais macio, mais cremoso do Fine Bourgogne, casou melhor com a evolução do charuto. Em compensação, no terço final, com toda a potência imprimida pelo Puro, os aromas terciários e refinados do Marc Dujac foram providenciais. Final dramático!

Mais uma vez, só tenho a agradecer a companhia de todos os presentes, os grandes vinhos, e as grandes lições aprendidas. Na expectativa de muitas surpresas ainda este ano! Abraços,

Bordeaux 1961: Vivace

25 de Agosto de 2015

Deixamos para o final algumas preciosidades sem entretanto, ofender as maravilhas dos artigos anteriores. É que este último grande 1961 motivou o tema da degustação. Trata-se do Château Latour à Pomerol, o único margem direita do painel. Tudo começou com um relato de Mr. Parker comparando este 61 com o mítico Cheval 47 e o colocando no topo da lista. Foi o suficiente para fazermos a prova. Aliás, em defesa de Robert Parker, um degustador polêmico e temido, devo dizer que ele é mestre em Bordeaux. As outras regiões eu não discuto, mas Bordeaux, este é o cara. Todos os vinhos degustados nesta série de artigos batem com seus comentários e notas.

Magnum nas mãos do mestre Beato

Vamos então à estrela da tarde. A cor escura impressiona pela intensidade e profundidade. Os aromas são avassaladores, passando por aquela fruta deliciosa e decadente dos grandes de Pomerol. Outros aromas de evolução como humus, sous-bois, alcaçuz, toques de menta, terrosos e finas especiarias inundaram as taças. Ótimo momento para ser provado. Em boca, é extremamente sedoso, generoso e com uma integração álcool/taninos que só essas raridades possuem. São taninos de cadeia longa, totalmente polimerizados e que se fundem ao álcool criando uma textura única. Grande persistência, final expansivo, reverberando todas essas sensações em golpes sincronizados. Uma maravilha!. Porém, tudo tem um senão. Eu não ia falar nada, tal a raridade do momento e o entusiasmo dos confrades, mas mestre Beato não perdoa, é implacável. O vinho tinha um leve bouchonné, mas muito tênue, a ponto de ser quase confundido com o sous-bois também presente, que trata-se de um aroma evoluído de decomposição de folhas úmidas. Conclusão, o vinho era tão maravilhoso e o bouchonné tão desprezível, que dane-se o bouchon! Nota cem com louvor!

Alguns mimos entremeando a degustação: costelinha e canjiquinha

A carne de porco como da costelinha acima vai muito bem com esses tintos evoluídos. Os taninos ficam na medida certa para a fibrosidade delicada da carne. Além disso, a acidez dos vinhos é suficiente para a gordura do prato, sem falar nos aromas tostados de forno que complementam bem os toques de evolução do vinho.

A foto abaixo trata-se de outra raridade, Porto Taylor´s Scion. A história deste vinho começa com uma família tradicional do Douro que entre algumas preciosidades de sua adega tinha duas pipas de vinho do Porto muito antigas. Tratava-se da colheita de 1855 com uvas pré-filoxera, permanecendo todo esse tempo em madeira, ou seja, uma Porto Colheita de excepcional estágio em pipas. Só para lembrar, esta categoria de Porto exige um mínimo de sete anos em madeira. Após muitas conversas, a família resolveu vender as pipas para a Casa Taylor´s. A ideia inicial e natural era das mesmas entrarem na composição dos lotes para elaboração do Porto 40 anos, máxima categoria para um Porto com declaração de idade. Contudo, decidiu-se por uma solução ousada e criativa. Lançar uma edição especialíssima engarrafando o vinho sem mistura em lindas garrafas de cristal (foto abaixo) com o nome Scion. O significado deste nome engloba tradição familiar e uvas pré-filoxera.

Porto Colheita com mais de 150 anos

A embalagem é condizente com o conteúdo

Agora falando do vinho, é uma peça de exceção. Cor maravilhosa, bem menos evoluída do que se espera par um Porto desta idade. Já é um sinal diferenciado. Os aromas são ao mesmo tempo intensos e delicados com aquela fruta em compota espetacular, frutas secas, toques balsâmicos, minerais, resinosos e de especiarias. Um equilíbrio notável entre álcool e acidez que só os raros e grandes Colheitas são capazes. Vale a pena informar alguns dados técnicos deste vinho: 189 gramas de açúcar residual por litro e 8,76 gramas de acidez tartárica. São valores superlativos e dificilmente alcançados, mesmo em vinhos especiais. Só para comparar, um Porto na categoria de 40 anos, que tem vinhos extremamente selecionados onde os valores acima ficam em 134 gramas de açúcar por litro e 5,2 gramas por litro de acidez tartárica, já são indicadores bem acima da média. O fato é que os Colheitas com longa permanência em pipas concentram mais açúcares por conta da evaporação relativa da água. Por isso, só os vinhos com alta acidez tartárica são capazes de restabelecer o equilíbrio necessário.

Sauternes em alto estilo

Encerrando a tarde, duas referências da botrytisação, da famosa apelação Sauternes. A safra 2001 é de alto nível, prometendo muito ao longo dos anos, mas de vez em quando, temos que cometer algum infanticídio. Começando pelo Suduiraut, é um dos melhores abaixo do mítico Yquem. Concentrado, potente, rico em aromas e de um equilíbrio notável. Tudo que se espera de um Sauternes de estirpe. Contudo, a comparação é cruel. O astro maior, o fabuloso Yquem, ainda mais numa grande safra, não tem como medir forças. A potência, a complexidade aromática, e o alto nível de botrytisação, convergem para uma elegância, equilíbrio e untuosidade ímpares. Este pode ser guardado para os futuros netos. É vinho para virar o século!

E assim foi-se mais um longo sacrifício. Entretanto, o que a gente não faz pelos amigos!. Resta-me agradecer a companhia de todos, os momentos mágicos vividos, e expectativa de novos encontros. Saúde a todos!