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Entre voos e vinhedos: A era Michel Rolland

1 de Junho de 2026

Era quase a hora do almoço quando Michel Rolland chegou a uma pequena propriedade vinícola em Bordeaux, mais precisamente em Pomerol, em que nascem alguns dos mais prestigiados vinhos do planeta. Tinha visitado outras seis propriedades pela manhã e tinha mais outras três pelo resto da tarde.

Viajava no carro do jornalista John Carlin, da publicação inglesa Observer. Estavam sentados no banco de trás da Mercedez, dirigida por um motorista, algo inusual para um consultor de vinhos. Mas havia uma razão prática: em cada parada, Rolland provava seis, sete vinhos. “Provo em média cem vinhos por dia”, disse, acrescentando que tinha se tornado um mestre no ato de cuspir. A quantidade de paradas era grande: a carteira de clientes somava dezenas de vinícolas. Primeiro na França, depois fora.

Ao chegar à sala em que os vinhos eram feitos, o dono da propriedade em Pomerol estava nervoso, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Rolland caminhou até as barricas, provou o primeiro vinho, inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e cuspiu. Disse que o vinho talvez fosse sério demais.  Bebeu outra amostra. “Bom”. No terceiro, também elogiou o resultado. O dono dos vinhedos parou de se mexer. Deixou um sorriso envergonhado cruzar o rosto. O jornalista John Carlin, que acompanhava a ronda naquele novembro de 2004, o comparou a um pai orgulhoso com um filho recém-nascido.

Naquele mesmo mês, o documentário Mondovino (disponível na Apple TV), de Jonathan Nossiter, chegava aos cinemas do mundo para discutir como os vinhos tinham mudado e se havia uma mundialização do gosto. Um dos personagens principais do filme era Rolland.

Uma cena virou polêmica: o consultor ria alto no banco traseiro de uma Mercedes preta, charuto entre os dedos, telefone no ouvido, prescrevendo micro oxigenação para qualquer produtor disposto a pagar pelos seus honorários — que, segundo o The New York Times, começavam em 30 mil dólares anuais. O jornal francês Libération o descreveu como mefistofélico. Para Aimé Guibert, produtor em Languedoc que Nossiter tratou como um dos heróis da resistência, o diagnóstico era ainda mais definitivo: “O vinho está morto. Sejamos claros: o vinho está morto.” Para alguns, o culpado tinha nome.

Rolland morreu na madrugada desta sexta-feira, 20 de março, em Bordeaux, de infarto. Tinha 78 anos. A imprensa especializada registrou o fim de uma era. Depois do Mondovino ter ganho repercussão, em 2006 o The New York Times fez um artigo sobre Rolland cujo título era contundente: “Satanás ou Salvador: Estabelecendo o Padrão da Uvas”.

Toda história tem duas versões. Em uma, Rolland é o agente da padronização global do gosto, o enólogo que percorreu dezenas de propriedades em cinco continentes, da Índia à Argentina, da Bulgária à Califórnia, levando na mala uma receita: esperar as uvas amadurecerem mais, reduzir a produção, trocar as barricas velhas por carvalho novo, buscar aquela textura aveludada que o crítico Robert Parker aprendeu a amar e pontuar e fazer o mercado vender.

Na outra versão, Rolland é o desbravador que fez vinhos em vários lugares do mundo e tinha talento para ser enólogo. Depois do lançamento do documentário, em 2005, a crítica de vinhos Jancis Robinson, que escreve há décadas no Financial Times, fez um perfil de Rolland. O enólogo acordava cedo. Começava a trabalhar às 7h30 e a última reunião terminava às 19h. Experimentava amostras e amostras de vinhos. Cuspia. Não titubeava em dar sua palavra final sobre o melhor. Foi descrito como “especialista em tintos extremamente maduros, concentrados, aveludados e, frequentemente, marcados pelo carvalho”.

A jornalista destacava que o trabalho de Rolland consistia em seguir as instruções de seus clientes para produzir vinhos tecnicamente superiores e de fácil aceitação. “Em segundo lugar, sua competência é manifesta. Ele pode ter produzido vinhos desastrosos em sua longa carreira, mas, até onde se sabe, nenhum chegou ao meu conhecimento”, escreveu Robinson, destacando que o trabalho dele melhorou a qualidade de vinhos em países como Argentina (o Clos de los Siete é um exemplo), Chile e Índia.

O mundo em que Rolland fez sucesso, nos anos 1990 e 2000, reunia novos hábitos e a chegada de uma nova geração sem espaço e paciência para aguardar décadas de evolução de um vinho em uma adega. As classes médias americanas, os emergentes sul-americanos e asiáticos descobriram a bebida sem a memória afetiva das gerações anteriores. A técnica central que usava não era misteriosa. Ao estudar várias safras de diversas regiões, encontrou um denominador comum: sol abundante, produção baixa, uvas colhidas no ponto de maturação plena.

Sua influência foi sentida por décadas, embora a partir da década de 2010 tenha sido declinante. Uma nova geração passou a buscar vinhos naturais, com mais acidez, o conceito de terroir se reforçou entre degustadores e a ideia de uma consultoria foi perdendo ímpeto. Ele continuou a assessorar, viajar e voar.  Primeiro enólogo verdadeiramente global, seu legado será discutido por muito tempo ainda.

O vinho reduzido a números!

15 de Março de 2017

Fala a verdade! É chato você reduzir um vinho a uma nota, um número. Entretanto, a vida muitas vezes não tem esse lado romântico. É preciso quantificar, avaliar, dar notas e aí, a polêmica está naturalmente sacramentada. Para complicar um pouco mais, as escalas de notas, os critérios, são os mais variados e subjetivos. Por mais que você queira ser cartesiano, como quantificar complexidade por exemplo?

A mais famosa das escalas é a pontuação de 0 a 100 pontos. Melhor dizendo, 50 a 100 pontos. Melhor ainda, 80 a 100 pontos. Experimente pontuar um vinho abaixo de 80 e mostra-lo numa prateleira de vinhos. Ele jamais será vendido. Engraçado! quando eu tirava notas escolares em torno de 80, era uma maravilha. Para o vinho, os critérios são bem mais rigorosos.

De fato, com os atuais conhecimentos enológicos, conhecimentos de campo (viticultura), é praticamente obrigação de uma vinícola séria elaborar vinhos com pelo menos 80 pontos. Tanto é verdade, que mais de 80% dos vinhos avaliados apresentam notas entre 80 e 90 pontos.

rating winesAs várias escalas de pontuação

Esta escala centesimal é mais fácil de ser compreendida pelo público, embora para notas maiores que 90, e principalmente 95, o acréscimo de um ponto a mais na nota tem um efeito mais exponencial do que linear. Essa sensação complica mais ainda, quando lidamos com a escala de 0 a 20 pontos, cada vez mais popular. Por exemplo, Jancins Robinson, Revista de Vinhos, Revue du Vins de France, entre outras publicações.

quinta crasto touriga ncional 2011

Wine Spectator 95 pontos

Revista de Vinhos 17,5 pontos

Para exemplicar, vamos ao rótulo acima do excelente tinto português Quinta do Crasto Touriga Nacional 2011. Esse vinho foi avaliado com 95 pontos pela Wine Spectator e 17,5 pontos pela Revista de Vinhos de Portugal. Será que essas notas se equivalem? vejamos …

Pontuação 12 a 20

Exame Visual: até 3 pontos

Exame Olfativo: até 7 pontos

Exame Gustativo: até 10 pontos

Para tentar explicar a pontuação de 0 a 20, vamos imaginar dois pensamentos extremos de avaliação, analisando as principais notas mostradas na maioria das publicações.

Nota 13

Num pensamento simplista, para comparar esta nota com a escala de 0 a 100, basta multiplicar por cinco a nota em questão. Portanto, nota 65. Claramente, uma nota baixíssima e absurda. Por outro lado, vamos imaginar que o critério de 0 a 20  seja dar notas a partir de 80 pontos, já que praticamente não existem vinhos comerciais abaixo deste valor. Portanto, adicionamos 13 pontos aos básicos 80, resultando em 93 pontos. Outra nota absurda, reservada somente a grandes vinhos.

Fazendo uma média aritmética entre 65 e 93, chegamos a 79 pontos, algo bem mais razoável para a escala em questão. Aplicando este raciocínio para as demais notas sucessivas (14, 15, 16, …), vamos acrescendo três pontos a cada degrau.Portanto, 14 equivale a 82, 15 a 85, 16 a 88, 17 a 91, 18 a 94, e 19 a 97.

Voltando ao nosso exemplo, os 17,5 pontos da Revista de Vinhos chega próximo a 94 pontos, fazendo algum sentido na comparação. Talvez pelos portugueses não serem tão comerciais como os americanos, mesmo sendo um vinho da Terrinha, o critério é mais rigoroso. Mais uma lição, a fonte de pontuação é fundamental para termos credibilidade com esses números.

Para uma correta avaliação é preciso certificar-se que o vinho não apresenta defeitos, esteja na temperatura correta, e seja degustado em taças ISO de degustação. Conhecer a região, a denominação de origem do vinho em questão, reforça a credibilidade da nota.