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Cult Wines

27 de Novembro de 2016

Existem belos vinhos no Novo Mundo, mas com o nível de sofisticação dos Cult Wines americanos, é difícil confronta-los. Sobretudo, quando falamos de Cabernet Sauvignon ou também, o chamado corte bordalês com predominância da Cabernet, o que em Bordeaux chamamos de Margem Esquerda. Foi neste contexto, que a degustação abaixo de grandes tintos de Napa Valley rolou com quatro safras históricas: 1990, 1994 e 1997.

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Chardonnay de Gladiadores

Inicialmente, um branco de Sonoma, região com influência costeira, elaborado com Chardonnay. Estamos falando de uma fera chamado Marcassin, safra 2002. A figura do javali no rótulo demonstra bem a força deste vinho. Encorpado, intenso, amanteigado, e bastante persistente. Dentro de seu estilo é muito bem feito, mas passa longe de qualquer comparação com similares da Borgonha.

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Grace: 100% Cabernet

30 meses de barricas francesas

                                                 Dominus: Cabernets, Merlot, Petit Verdot

30% barricas novas

Neste primeiro embate da safra 1990, pessoalmente, foi o duelo mais díspar da degustação. Embora, o Grace Family estivesse mais pronto, e de fato estava, sua acidez um pouco exagerada e taninos não tão finos como os demais vinhos, incomodaram numa avaliação geral. É certamente, um vinho que deve ser tomado, e não adega-lo por mais tempo. De todo modo, o pessoal gostou bastante por sua prontidão.

Bem diferente estava seu oponente, Dominus 1990. Certamente, foi a garrafa com mais depósito (borras), tal a opacidade apresentada na taça. De estilo bem bordalês, este tinto passa facilmente num painel de grandes Bordeaux de Margem Esquerda. Denso,  terciário nos aromas, uma montanha de taninos ultrafinos, e de grande persistência. Já muito prazeroso, embora tenha estrutura para mais uns bons anos. De novo, pessoalmente, o grande vinho da degustação, lembrando belos bordaleses.

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Bife de Chorizo Varanda Grill

Entre um gole e outro, um bifinho para incrementar. Para esse perfil de vinhos, potentes, com muitos taninos, nada mau a suculência de uma carne vermelha nobre. Não há melhor alimento para doma-los (taninos). Realmente, uma combinação clássica.

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Aqui, 100% Cabernet Sauvignon em carvalho francês

O embate acima envolve dois 100% Cabernets elaborados pela mesma winemarker nesta bela safra 1994, Helen Turley. Aqui, foi cabeça a cabeça. Tanto é verdade, que Parker concedeu notas 98 e 96 respectivamente, a Bryant Family e Colgin. Concordo com Parker, dando a Bryant Family uma pontinha a mais de elegância. De todo modo, são vinhos de muita estrutura que ainda devem ser adegados por pelo menos mais cinco anos. Mesmo assim, devem ser decantados ao menos, por uma hora antes do consumo.

harlan-1997

Foto de 200 pontos

Acima, briga de gigantes, 100 pontos cada um. Pontuação é sempre algo polêmico, mas claramente, este ultimo flight da safra 1997 é superior ao anterior. Mais concentração, mais estrutura, mais complexidade. É sobretudo uma questão de gosto. O curioso é que a meu ver, o Harlan pareceu mais potente, dando a impressão de ser o Screaming Eagle. E este último, vice-versa. Foi o mais elegante Screaming Eagle que provei. Concentrado, macio, e muito longo. Este é um dos poucos exemplos em que um 100% Cabernet (Screaming Eagle) consegue ombrear-se a um corte bordalês (Harlan Estate). O Cabernet Sauvignon sozinho sempre deixa algumas arestas pela potência e rusticidade da cepa. Sabiamente, os bordaleses tem esse feeling, mesclando outras uvas.

quilceda-creek-2005

potência e maciez incriveis

No final, apareceu uma carta fora do baralho, Quilceda Creek 2005, um belo Cabernet de Washington (Columbia Valley), extremo noroeste do país. Com toda sua juventude e 14,9° de álcool, esbanjou volume, maciez e vivacidade em fruta. Muito bem balanceado por cima, o vinho apresenta estrutura e taninos muito macios, apesar de seus 22 meses em barricas francesas novas. Talvez essa maciez, seja o ponto que marque a diferença para os Cabernets de Napa, um pouco mais austeros. Um vinho hedonista, difícil de não gostar.

É sempre bom lembrar que o grupo degusta com duas taças premium, Zalto e Riedel Sommeliers. Embora magnificas em si, proporcionam sensações diferentes. Os aromas na Riedel são mais sutis, enquanto o paladar na Zalto, é mais concentrado. Em resumo, se você encontrar algum defeito no vinho, é só trocar de taça …

fine-e-marc-bourgogne

Fine e Marc: apelações regulamentadas na Borgonha

Por fim, tive a difícil missão de confrontar  dois destilados exclusivos, de grandes Domaines da Borgonha, Fine de Bourgogne Domaine de La Romanée-Conti e Marc de Bourgogne Hor d´age Domaine Dujac. Nos dois casos, trata-se de transformar materiais residuais advindos do processo de vinificação destes dois grandes Domaines.

Explicando melhor, vamos começar pelo Marc de Bourgogne. Após o processo de fermentação dos grandes vinhos Dujac, as cascas, engaços (eventualmente) e sementes que sobram nos tanques, são destilados e posteriormente envelhecidos em madeira. Este produto equivale a boas Grappas (Itália). O termo Hors d´Age prevê um envelhecimento mínimo em madeira por dez anos. Este, especificamente não tem safra. No caso, é uma mistura de destilados dos anos 1978 a 1991, a qual foi engarrafada em 2012.

Já este Fine de Bourgogne é a destilação de tudo que sobra nas barricas dos grandes vinhos do Domaine de La Romanée-Conti. No processo de engarrafamento, é comum sobrar no fundo das barricas um pouco de vinho junto com as borras e lias (leveduras mortas). Pois bem, a junção destas sobras são destiladas, dando origem ao produto. Este por sua vez, deve ser envelhecido por lei em madeira. Neste caso, estamos falando da safra 1991, engarrafada em 2008. Em resumo, é algo similar a um brandy (cognac).

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belo fecho de refeição

O confronto das duas eau-de-vie foi mediado por um Puro H. Upmann Magnum 50. É um charuto de fortaleza média para dar neutralidade ao embate. Evidentemente, o primeiro terço foi dominado amplamente pelos destilados, dada a potência de ambos. Já no segundo terço, o lado mais macio, mais cremoso do Fine Bourgogne, casou melhor com a evolução do charuto. Em compensação, no terço final, com toda a potência imprimida pelo Puro, os aromas terciários e refinados do Marc Dujac foram providenciais. Final dramático!

Mais uma vez, só tenho a agradecer a companhia de todos os presentes, os grandes vinhos, e as grandes lições aprendidas. Na expectativa de muitas surpresas ainda este ano! Abraços,

Top Ten Wine Spectator: Parte III

16 de Novembro de 2015

Finalmente, temos o vinho do ano 2015. Falaremos dele em especial, mas também do segundo lugar. Um americano de 96 pontos. Encerrando esta série, é bom esclarecer que não se trata de promover esta revista americana mas sim, de comentar seus vinhos selecionados e divulgados mundo afora. Não estou entrando no critério de pontuação e escolhas dos vinhos que podem eventualmente envolver interesses comerciais. Entretanto, dois fatores devem ser refletidos e analisados antes das críticas. O primeiro, é uma certa tendência na escolha de vinhos americanos. O outro é não levar em conta vinhos de consagração mundial e neste caso, estamos falando sobretudo dos franceses.

Quanto aos vinhos americanos, pessoalmente acho que há uma certa injustiça nas críticas. Em se tratando de Novo Mundo, os Estados Unidos  estão a quilômetros de vantagem dos demais países. Talvez por ser o único país de destaque do Novo Mundo no hemisfério norte, hemisfério europeu. Talvez também pela competência de seu povo em fazer bem feito tudo que se propõe. Em resumo, é um grande produtor de vinhos, grande exportador e grande importador também. É de longe, o que possui o maior arsenal de alta qualidade para bater de frente com os ícones europeus. É pena que aqui no Brasil não tenhamos acesso a esses vinhos. Os vinhos são muito disputados e os preços acabam sendo proibitivos.

Quanto ao segundo fator, ficaria enfadonho todo ano publicar uma lista com nomes como Petrus, Romanée-Conti, Chateau Margaux, Chateau Latour, Champagne Krug, Champagne Cristal, Montrachet, e assim por diante. É claro que esses vinhos são monstros sagrados da enologia mundial, e nem precisam de exposição e marketing. Portanto, é bacana termos novidades, regiões pouco divulgadas, e vinhos muitas vezes de preços razoavelmente acessíveis para serem mostrados. A diversidade no mundo do vinho também é um grande trunfo.

2º lugar – Quilceda Creek Cabernet Sauvignon Columbia Valley 2012 – 96 pontos

Quilceda Creek é outra vinícola boutique dos Estados Unidos, desta vez do estado de Washington. Pertence à grande AVA Columbia Valley. Este Cabernet provem quase exclusivamente do vinhedo Galitzine de baixos rendimentos, pertencente à exclusiva AVA Red Mountain. O vinho amadurece em barricas de carvalho francês novas por vinte meses.

Trata-se de um Cabernet potente com mais de 15 graus de álcool perfeitamente integrado ao seu monumental extrato. Apresenta camadas de frutas escuras, fino tostado, especiarias e taninos muito bem trabalhados. Em seu estilo, é um dos melhores americanos. Devidamente decantado, pode ser tomado jovem, mas pode envelhecer por vários anos em adega.

1º lugar – Peter Michael Cabernet Sauvignon Oakville au Paradis 2012 – 96 pontos

Finalmente, o vinho do ano. Mais um americano, mais um Cabernet. Este vem de Oakville, comuna famosa do Napa Valley, um dos melhores terroirs para Cabernet Sauvignon. Só para se ter uma ideia, vem daí vinhedos históricos com To Kalon vineyard e Martha´s vineyard. Vinícolas como Mondavi, Harlan Estate, Joseph Phelps, Screaming Eagle e Silver Oak, fazem parte desta constelação.

Embora Peter Michael Winery tenha como base Sonoma, mais especificamente a AVA Knights Valley, em 1984 foram plantados pouco mais de 14 acres em Oakville com Cabernet Sauvignon e um pouco de Cabernet Franc. O vinhedo Au Paradis localiza-se na parte leste do vale com refrescante influência da baia de San Pablo.

O vinho do ano safra 2012 é composto de 76% Cabernet Sauvignon e 24% Cabernet Franc. Seu amadurecimento dá-se em barricas de carvalho francês novas por 18 meses. Apresenta explosão de frutas, textura macia, embora com taninos presentes. Percebe-se a mineralidade com longo final.

Portanto, os dois primeiros lugares ficaram com Cabernets americanos de regiões distintas, Washington e Napa Valley. Apesar do estilo potente, mostram muito equilíbrio e longa vida pela frente nesta bela safra de 2012.


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