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Porto Cinco Estrelas

14 de Julho de 2015

Com a chegada do inverno, o Porto (o mais famoso fortificado do mundo) ganha naturalmente seu lugar de destaque. Seja como vinho de meditação, para acompanhar sobremesas mais calorosas, queijos de sabores mais pronunciados e até mesmo, para escoltar Puros numa boa conversa. Evidentemente, as opções de marcas são inúmeras, além de faixas de preços bem variadas. Some-se a isso as várias categorias de Porto, e a equação torna-se complexa. Infelizmente, não há milagres. Os bons produtos sempre serão reconhecidos e valorizados ao longo do tempo. Neste sentido, segue uma lista pessoal de cinco estrelas do Porto, sobretudo nos critérios de qualidade, tradição e consistência.

Safra soberba e pouco lembrada

Taylor´s Fladgate & Yeatman

Aqui o assunto são Vintages. Embora sua seleção de Portos com declaração de idade seja de grande qualidade, seus Vintages são quase imbatíveis, sem falar na excepcional Quinta de Vargellas, componente indispensável na elaboração dos Vintages Clássicos. Safras 1963, 1970, 1977 e 1994, são altamente recomendáveis. Como curiosidade, a safra 1992 com 100 pontos, tem o brasão da Casa impresso no garrafa em comemoração aos 300 anos desta instituição (1692).

Uma das exclusividades desta tradicional Casa, é o “Porto Vintage Quinta de Vargellas Vinha Velha”. Localizada no chamado Douro Superior, Vargellas por si só, já é uma exclusividade. Seus frutos geram vinhos diferenciados que vão marcar definitivamente seus grandes Vintages Clássicos. Dentro desta exclusividade, há pequenas parcelas de vinhas muitos antigas (entre 80 e 120 anos) que representam apenas 2% da produção total desta Quinta. Em anos especiais, esses vinhos são vinificados separadamente, dando origem a um Porto Vintage de exceção. Até hoje, foram lançadas no mercado apenas seis safras desta maravilha.

1963: safra mítica do século XX

Porto Fonseca

Esta Casa fundada em  1815 tem forte ligação com a Taylor´s, quando foi incorporada ao grupo nos anos pós-guerra (segunda guerra mundial). Seus Vintages são excepcionais, em nível idêntico de qualidade aos da Taylor´s. Além dos Vintages, seu LBV Infiltered é de grande reputação, dando uma boa ideia do que pode ser um Vintage. Seu produto mais famoso e popular é o Porto Bin 27, um Finest Reserve de grande consistência. Concentrado, frutado, é uma ótima opção para um Porto diferenciado nesta categoria relativamente simples.

A história da Fonseca começa com as famílias Monteiro, Fonseca e Guimaraens. O primeiro grande Vintage da Casa data de 1840, quando este estilo de vinho começou a firmar-se como tal. Sua mais famosa Quinta, Panascal, produz um Porto exclusivo, além de seu Vintage Clássico.

Joia da Coroa

Quinta do Noval

Esta Casa é uma verdadeira instituição no Vinho do Porto. Deixando o Quinta do Noval Vintage Nacional de lado, pois trata-se de uma peça de exceção deste fortificado duriense, seus demais Vintages e Colheitas são de grande categoria. Destaque para seu incrível LBV Infiltered. Quando lançado em anos não declarados para Vintage, comporta-se como tal, de maneira camuflada pelas rígidas regras. A titulo de informação, a categoria LBV foi inspirada na Quinta do Noval com a safra de 1954. Lançado em 1958, fez história e lançou um novo estilo de Porto.

Para aqueles que não querem surpresas num Porto 40 Years Old, evolução máxima em Portos com declaração de idade, Quinta do Noval é um “porto seguro”. Seu blend e os cuidados no envelhecimento em pipas, fazem deste Porto uma compra diferenciada. Poucas Casas se arriscam neste Porto de exceção.

Fundada em 1715, esta Casa foi incorporada em 1993 ao grupo francês AXA, com propriedades famosas na região bordalesa (Châteaux: Pichon-Longueville, Suduiraut e Petit-Village). Prestígio e garantia de sucesso na longa história desta Quinta.

Niepoort

De  origem holandesa, esta Casa prima por seus diferenciados Colheitas, bem como os Portos com declaração de idade. Com longo envelhecimento em pipas, esses vinhos ganham grande complexidade ao longo dos anos, chegando ao mercado prontos para serem apreciados.

Como curiosidade, Niepoort mantem uma linha de Porto exclusiva chamada de “Garrafeira”. São garrafões de oito a onze litros de capacidade denominados “demijohns”. A safra 1977 após passar cinco anos em madeira, foi transferida para estes recipientes e conservada nos mesmos durante 28 anos. Em 2007, houve o engarrafamento definitivo para comercialização. As vinhas correspondentes à esta safra são exclusivamente do Cima Corgo (região nobre do relevo duriense) com idades entre 80 e 100  anos. De certo modo, o termo “Garrafeira” tenta reproduzir os grandes “Madeiras”  em sua categoria de excelência.

Compra sempre certeira

Graham´s Port

Pertencente ao grupo inglês Symington desde 1970, sua linha de Vintages e Colheitas merece respeito. Sua grande Quinta Malvedos elabora um dos Portos mais exclusivos. De linha relativamente básica, temos o clássico Six Grapes, um Porto Reserve comparável em qualidade ao Fonseca Bin 27, já mencionado acima.

Como toda boa tradição inglesa, Graham´s conserva ainda uma categoria de Porto praticamente extinta, o chamado “Crusted Port”. Trata-se de uma espécie de Vintage de algumas safras (normalmente duas ou três). Este blend é amadurecido em tonéis por alguns anos, e posteriormente engarrafado (datado no rótulo) para o devido envelhecimento. Comporta-se em seu processo evolutivo como um Vintage, inclusive criando os famosos sedimentos. Daí o nome, Crusted.

Enfim, Porto Cinco Estrelas ou, as Cinco Estrelas do Porto, tem o mesmo significado. São Casas da mais alta reputação, superlativas, quaisquer que sejam os critérios de julgamento. Comparado aos Bordeaux, outra paixão inglesa, esses são os verdadeiros Premiers Grands Crus Classés do belíssimo Vale do Douro.

Graham´s e Niepoort – http://www.mistral.com.br

Fonseca – http://www.vinci.com.br

Quinta do Noval – http://www.alentejana.com.br

Taylor´s – http://www.qualimpor.com.br

Parte III: Entre goles e amigos

27 de Junho de 2015

Deixei para este artigo um pelotão de fortificados que merecem um capitulo à parte. Após o lauto almoço descrito na artigo anterior, nos deparamos com fortificados e destilados singulares e de safras bastante antigas, verdadeiras raridades. A ordem das fotos abaixo não obedecem necessariamente a ordem de degustação.

Destilado e fortificado: lado a lado

Tanto Fonseca como Taylor´s, ambos vintages da mítica safra 1963, são vinhos de exceção. Dentre as melhores safra do século XX, o Porto Fonseca foi devidamente desrolhado e decantado horas antes de ser apreciado. Com uma borra espessa, digna dos grande vintages envelhecidos, mostrou-se impecável, sem nenhum sinal de decadência, pelo contrário, magnífico. De cor levemente acastanhada, revelou aromas de frutas em compota, toques minerais e empireumáticos de grande complexidade. Belo equilíbrio gustativo, potente na medida certa, e um final interminável. Lembrou de certa forma o Taylor´s Vintage 1970.

O destilado que o ladeia, um rum de grande categoria. Envelhecido por oito anos em barris de Jerez, mostrou grande complexidade, ao nível dos grandes Cognacs. Muito bem equilibrado, amplo em aromas e uma persistência aromática sublime. Nesta altura, a tentação dos grandes Puros!

Noval Nacional: O Borgonha dos Vintages

Quinta do Noval já é uma instituição em si, o Vintage Nacional, a Glória!. Aliás, Nacional quer dizer um pequeno vinhedo da Quinta do Noval com parreiras pré-philloxera, ou seja, vinhas antiquíssimas que produzem uma quantidade ínfima de cachos por parreira. Conforme o ano, nem geram frutos. Porém, esses caldos são capazes de vinhos espetaculares, com uma delicadeza e concentração impressionantes. Com seus trinta e cinco anos de idade, mostra notas florais e uma suavidade em boca indescritíveis. Se há um Borgonha no Douro, certamente estamos diante dele.

Velhinhos de cair o queixo

Optar por um dos vinhos acima é uma questão pessoal. Falar de um Madeira 1860, um vinho imortal, é chover no molhado. Parece que o tempo parou, cor magnifica com reflexos esverdeados, aromas de mel, frutas secas, caramelo e tantos outros indecifráveis. Em boca, monumental, amplo e interminável, uma maravilha!. Na mesma linha, o Porto 1880, época onde a fortificação como conhecemos hoje nos vinhos modernos estava se iniciando e se afirmando como estilo de vinho. É história engarrafada. Perto destes dois, o Porto 1967 é uma criança. Os aromas de ameixas em compota e seus toques florais incríveis impressionaram pela surpreendente juventude. Muito fresco e muito bem conservado. Enfim, um trio inesquecível.

Um Porto Colheita fora da curva

Sabemos nós que um Porto Colheita deve permanecer por pelo menos sete anos em pipas. Evidentemente, as grandes casas especializadas nesta categoria de Porto envelhece os mesmos muito mais tempo. Contudo, estamos falando de um Colheita de 150 anos em madeira. Novamente, a história engarrafada. A safra de 1863 foi uma das melhores do século XIX e particularmente, 1863 foi a ultima grande safra pré-philloxera. Feita as apresentações, vamos tentar descrever este mito. Há algum tempo, conversei com um grande mestre de cave do Porto sobre o envelhecimento dos Colheitas. Disse ele: quanto maior o tempo em barricas (pipas), o vinho vai perdendo álcool e concentrando açúcares naturais, dando por consequência, uma untuosidade única. Este exemplar confirma exatamente esta teoria. Um Porto extremamente macio e um suporte de acidez bastante eficaz para contrabalançar sua incrível doçura. O Manoel disse bem: este Porto lembra a textura dos grandes Pedro Ximenez. De fato, espetacular.

Quem disse que a Borgonha não tem Cognac?

Como se não bastasse tudo acima descrito, temos uma obra-prima na foto acima. Simplesmente um Fine Bourgogne do Domaine de La Romanée-Conti. Traduzindo, trata-se de um destilado de vinhos do Domaine criteriosamente escolhidos para este fim. “Cognac” de colheita (1994) e com data de engarrafamento (2010), devidamente envelhecido em barricas. Bouquet amplo, fino e notavelmente persistente. Aqui não se faz bebidas comuns. Agora chega! vou acender um Puro.

O Epítome da elegância

Conversa vai, conversa vem, e já estávamos num outro apartamento do mesmo prédio, de um confrade com uma adega fabulosa. São mais de cinco mil garrafas criteriosamente escolhidas, ou seja, qualquer exemplar puxado de um de seus inúmeros nichos, trata-se de um grande vinho e obrigatoriamente de uma grande safra. A propósito, vou dar uma sugestão a este nobre confrade: parafraseando os vinhos de Vosne-Romanée, você deveria colocar uma placa na entrada de sua adega. “Aqui não existem vinhos comuns”.

Em meio a destilados, Portos e Puros, a conversa correu solta e a noite chegou rapidinho. Portanto, hora de jantar. Feito a toque de caixa, nos é oferecido um risotto milanese maravilhoso. Sem pestanejar, são abertos dois Barolos, ou melhor, dois monstros sagrados do Piemonte. Lado a lado, os irmãos Conterno nas fotos acima e abaixo.

Aldo Conterno, prima pela elegância de seus vinhos no terroir de Monforte d´Alba. Granbussia é seu grande tinto, fruto de uma mescla de seus melhores vinhedos: Romirasco, Cicala e Colonnello. Um Barolo de alta costura, fino, elegante e de textura inigualável. A safra 1997 dispensa comentários.

A raça de um grande Barolo

Giacomo Conterno, de estilo mais tradicionalista, elabora Barolos firmes, masculinos e de grande profundidade. A safra de 2004 é também espetacular, mas necessita de bons anos em garrafa. Foi um belo contraste de estilos, porém igualmente sensacionais. Fica difícil tomar outros Barolos depois deste embate de gigantes.

A força de um Puro com exclusividade

Para finalizar, menção especial para o Puro acima. Trata-se de um Partagás D4 RR. A denominação RR implica numa seleção especial de fumos maturados com pelo menos três anos antes da confecção dos charutos. Potência, marca registrada da casa, e amplo de aromas e sabores. Escoltou perfeitamente o destilado DRC, equiparando sua nobreza.

Que Deus nos dê saúde e paciência para novos encontros!

Grandes Portos

29 de Janeiro de 2015

Nada como encerrar um jantar, uma noite, com belos Portos, sobretudo após um arrebatador Chateau Margaux 1990. A seleção abaixo selou o evento desfilando grandes casas do Douro. Com exceção da garrafa à esquerda na foto abaixo, todos eram Vintages, a categoria de Porto mais reverenciada deste incrível fortificado.

Grandes Casas de Porto

Só para relembrar, Vintage é uma categoria de Porto de safra reconhecidamente diferenciada que permanece de dois a três anos em madeira, e logo em seguida engarrafada. Seu desenvolvimento acontecerá lentamente por décadas em ambiente reduzido, ou seja, na ausência de oxigênio, nas adegas dos felizardos que os adquiriram. É obrigatório a menção da safra e a data de engarrafamento. Se você possuir um Vintage em adega relativamente novo, não pense nele por pelo menos quinze anos.

Porto Taylor´s: Vintages impecáveis

Começando pela garrafa acima, este Taylor´s 1992 acompanhou a sobremesa, encerrando o jantar. Apesar de seus vinte e três anos, é ainda um adolescente. Estamos falando de uma das melhores entre todas as casas de Porto. A cor ainda é retinta, seus aromas essencialmente primários, mostrando muita concentração de frutas escuras. A boca é vigorosa, macia, e com longo final. Boa parceria com chocolates e queijos curados de personalidade, sobretudo o grande Serra da Estrela. Uma curiosidade lembrada por um amigo: esta safra comemorativa refere-se aos 300 anos da Taylor´s, ou seja, data de fundação em 1692. O detalhe é o emblema da casa moldado na própria garrafa em vidro. Após 2020, vai começar a se tornar um homenzinho!

Uma das grandes safras desta Casa

Este pessoalmente, foi o grande Porto da noite. Devidamente decantado por mais de oito horas antes de chegar aos convivas. O que impressiona neste Graham´s 1970 é sua extraordinária força. A cor evidentemente com sinais atijolados tinha ainda muita intensidade e o brilho dos grandes vinhos. Seus aromas, intensos, mesclando o lado frutado com toques de evolução. Persistente, longo e bem equilibrado. Acompanhou muito bem os Puros que se seguiram. Vida longa pela frente, mostrando grande potencial. É um quarentão em forma!

Quinta do Noval: Um Clássico

Como vinho bom dura pouco, não podíamos terminar os Puros a seco. Abrimos então a toque de caixa, um Noval 1970. Outra Casa de Porto irrepreensível. Porém um surpresa, um Porto um pouco cansado. Talvez tenha sido um problema desta garrafa em particular. Entretanto, valeu para nos mostrar um grande Vintage em sua fase final de evolução. Não vai chegar tão longe como Graham´s, mas mostrou aromas, sensações gustativas e um grande final dos belos Portos evoluídos.

Enfim, três grandes Casas, três grandes histórias, cada qual mostrando algumas facetas deste que é o Rei dos vinhos fortificados, o supremo Porto Vintage!

Quando comecei o blog, não tinha a menor ideia do tema referente ao 500º artigo (quinhentos artigos escritos). Nada melhor para comemorar esta marco com o histórico Vinho do Porto e a primeira Denominação de Origem no mundo do vinho. Obrigado a todos por esta conquista!

Degustação: Tintos do Douro

21 de Julho de 2014

As degustações na ABS-SP são rotineiras e sempre acontecem às quartas-feiras. Entretanto, algumas delas são especiais, reservando surpresas e novas perspectivas de consumo. Foi o caso desta última sobre os consistentes e originais vinhos do Douro, região consagrado do famoso Vinho do Porto, tão comentado neste mesmo blog em vários artigos específicos.

O painel completo

Só para contar um pouco da história da região, O Douro descoberto pelos ingleses na era moderna, adicionava aguardente em seus vinhos para suportar o longo e penoso trajeto até a Inglaterra. Neste acaso, descobriu-se com o tempo que a fortificação melhorava os vinhos da região. Com isso, cria-se o mais famoso fortificado, ou seja, o grande Vinho do Porto. Isso posto, praticamente a produção de vinhos de mesa na região restringiu-se ao consumo local e sem grandes atrativos. Contudo, na época da segunda guerra mundial surge um personagem ilustre chamado Fernando Nicolau de Almeida, exímio degustador, figura importante na Portocracia cultuada por ingleses e portugueses. Esse cidadão resolve vencer o desafio de criar um grande vinho do mesa da região onde até então, resumia-se nos grandes Portos. Através de muito estudo, pesquisas e tenacidade em seus objetivos, concebe um projeto ambicioso e inédito até o momento. Com muito critério, escolhe algumas quintas da região a dedo, sobretudo as quintas Vale do Meão e Leda, base estrutural de seu grande vinho, o mítico Barca Velha. Esse vinho de elaboração cuidadosa, passa um bom tempo em adega, não somente para amadurecer, mas principalmente para certificar-se e comprovar através de provas rigorosas que trata-se de algo distinto e seguro para uma aquisição especial por parte de uma seleta clientela. Quando rejeitado como tal, passa a ser chamado como Ferreirinha Reserva Especial, o qual na maioria das vezes, também é um belo exemplar, tal o rigor do julgamento nas provas. A primeira safra em 1952 mostra ao mundo do vinho o grande tinto de Portugal. Até pouco mais de uma década, os grandes vinhos de mesa do Douro resumia-se ao Barca Velha e num patamar abaixo, o Quinta do Côtto Grande Escolha, importado pela Mistral (www.mistral.com.br), além do Duas Quintas (importadora Franco Suissa – http://www.francosuissa.com.br) pertencente à Casa Adriano Ramos Pinto, cujo mentor do vinho é outra grande personalidade, João Nicolau de Almeida, filho do saudoso senhor Fernando (filho de peixe, peixinho é). Com o fenômeno Douro Boys recentemente, a qualidade e a diversidade de quintas toma um novo impulso, culminando em grandes degustações como esta feita na ABS-SP, explanada e comentada nos parágrafos abaixo.

Elegância e Autenticidade em profusão

Este foi o grande vinho do painel. Realmente, um ponto fora da curva. Cotado para ser o vencedor na teoria e comprovando na prática sua excelência. Ele foi por longos anos, a espinha dorsal do grande Barca Velha. Contudo, num certo momento, separou-se da Casa Ferreirinha e lançou-se em voo solo. A família Olazabal, muito competente na vinificação e fiel às suas raízes, soube interpretar esse grande terroir com um tinto autêntico, aliando potência e elegância como poucos. Nesta prova, após uma breve decantação revelou uma paleta de aromas digna dos grandes vinhos. Em boca, seu equilíbrio é notável e sua persistência, longa e expansiva. Tratando-se de Brasil, no rol dos grandes vinhos, seu preço ainda é atrativo. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

Potente e Moderno

Esta parceria P+S (Prats e Symington) une Bordeaux e Douro na busca de um vinho moderno, mas fincado em suas origens. Bruno Prats comandou por longos anos um dos grandes châteaux do Médoc, o glorioso Cos d´Estournel, Deuxième Grand Cru Classé de alto nível. No terroir do Cima Corgo, as quintas de Roriz e da Perdiz fornecem ótima matéria-prima para um vinho destacadamente concentrado, sobretudo nesta excepcional safra de 2011 que será com certeza, uma das maiores do século vinte e um. Cor impenetrável, ainda muito fechado, já deixa transparecer todo seu potencial. Em boca é muito estruturado com abundância de taninos de grande qualidade. Deve-se esperar em adega uns bons dez anos onde então, começará a mostrar todo seu esplendor. Outra importação da Mistral.

Uma surpresa em sua faixa de preço

Quinta do Noval é uma das Casas mais cotadas em Vinho do Porto. Nos vinhos de mesa parece não ser diferente. O exemplar acima foi uma grata surpresa na degustação, principalmente levando-se em conta o preço. Seus aromas francos e bem delineados encantaram a plateia. Muito equilibrado em boca, cabendo uma comparação interessante: mais equilibrado em álcool que o próprio Chryseia (vinho de outro patamar de preço). Apesar de já prazeroso em bebe-lo, suporta com folga alguns anos de guarda. Também oriundo da sub-região do Cima Corgo, pende mais para elegância do que potência. Importado atualmente pela Adega Alentejana (www.adegaalentejana.com.br).

Por fim, os outros dois exemplares, Carm Reserva e Duorum Reserva, foram muito bem, mas sem o destaque dos demais. As safras, condições peculiares e pontuais de maturação das uvas, além da vinificação, podem ser fatores de justificação. Contudo, reforço, vinhos agradáveis e sem defeitos.

A sábia sequência dos vinhos nesta degustação soube valorizar o que tem de melhor cada exemplar. Oxalá, tenhamos outros bons painéis como este.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

 

Harmonização: Compota de Figos

22 de Abril de 2014

Mais uma receita do adorável livro l´Accord Parfait do sommelier Philippe Bourguignon. Trata-se de uma exótica compota de figos escoltada por um autêntico Banyuls do célebre produtor Domaine du Mas Blanc.

Compota de figoErvas e especiarias em profusão

Les figues compotées au romarin

12 pièces de figue violettes

2 bulbes de gingembre confit

un bâton de cannelle divisé en quatre morceaux

2 étoiles de badiane divisées en deux

4 branches de romarin

2 cuillères à soupe de miel de romarin

4 cuillères à soupe de gelée de groseille

10 grains de poivre noir

le jus d´un citron

Banyuls é um vinho fortificado do sul da França, mais especificamente da região de Roussillon. Nesse terroir escarpado beirando o mar Mediterrâneo, os terraços são cultivados em solo xistoso (pedras) com a uva Grenache. Assim como o Porto, há vários estilos de Banyuls. Pessoalmente, o que mais me agrada é o estilo oxidativo, amadurecido em tonéis e muitas vezes ainda soleados em garrafões, lembrando um Porto Tawny a grosso modo. É um estilo chamado localmente de Rancio. Pois bem, os aromas lembram frutas em compota, especialmente ameixas e figos, inúmeros toques de especiarias, ervas e toda a família dos empireumáticos, notadamente o cacau e o chocolate. Daí, sua combinação clássica com a polêmica iguaria.

Provar um Banylus do Domaine du Mas Blanc é como provar um Porto de uma grande casa do quilate de Taylor´s, Fonseca ou Quinta do Noval. Sua fidelidade ao terroir é impressionante. É um daqueles vinhos imortais.

Solo xistoso com videiras antigas

A harmonização de hoje visa enaltecer este grande terroir com uma sobremesa pouco comum, uma compota de figos aromatizada com alecrim. Além desta erva de personalidade marcante, temos canela em pau, pimenta negra em grãos, mel, geleia de frutas vermelhas (groselha, framboesa ou morangos, por exemplo), suco de limão, anis estrelado e gengibre, conforme foto acima.

O suco de limão, o anis estrelado e o gengibre levantam os sabores do prato, equilibrados pela acidez do vinho. Já o alecrim, a canela, a pimenta, exaltam os gloriosos aromas terciários do vinho. Por fim, o figo a geleia e o mel, enaltecem seu lado frutado, com o açúcar na medida certa. 

Sobrando vinho, se for possível, um belo puro como Bolivar ou Partagás com seus aromas terrosos, é certamente um gran finale. Santé!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes FM 90,9 às terças e quintas-feiras. Pela manhã no programa Manhã Bandeirantes e à tarde no Jornal em Três Tempos.

Hermitage e Porto Vintage

18 de Julho de 2013

Há tempos estou para escrever este artigo, sempre prospectando os fatores de terroir. Apesar de serem duas regiões clássicas europeias distantes entre si, vale a pena compará-las e discutir o fator humano que as fizeram elaborar vinhos aparentemente tão diferentes. A montanha de Hemitage em certa fotos assemelha-se bastante com a região do Douro, sobretudo por seu relevo íngreme. Vamos então, citar alguns pontos em comum destes dois grandes terroirs:

  • Relevo íngreme e subsolo granítico
  • Regiões de clima continental
  • Vinhos potentes e de longo envelhecimento
  • Elaboração do vinho a partir de vários vinhedos
  • Tanicidade destacada a ser domada pelo tempo

Colina de Hermitage: semelhança com o Douro

A região do Douro foi escolhida pelos ingleses no século dezessete para suprir o fornecimento de vinhos franceses, devido a várias guerras entre os dois países. Como o transporte deste vinho rústico duriense era extremamente demorado não só pela distância, mas principalmente pela dificuldade do relevo e inexistência de estradas, optou-se pela fortificação, dando mais resistência ao produto. Maiores detalhes, favor verificar neste mesmo blog artigos sobre Vinho do Porto em várias partes.

O importante nesta história é a perspicácia do homem como fator humano do chamado terroir, interferindo num estilo de vinho e marcando-o profundamente através da tradição. Recentemente, os vinhos de mesa do Douro ganharam notoriedade por conta novamente de uma mudança de mentalidade, ou seja, o fator humano mudando os rumos de uma região e trazendo novas opções de consumo.

Cores intensas: Porto (acima) e Hermitage (abaixo)

Já a região de Hermitage (apelação francesa no chamado Rhône do Norte), sempre optou por vinhos de mesa robustos, encorpados e em certa época, misturado aos vinhos de Bordeaux de safras problemáticas para darem mais corpo e estrutura aos tintos bordaleses. Se fosse o caso, este vinho poderia ser perfeitamente fortificado, tornando-se quem sabe, numa das mais autênticas cópias do grande fortificado português. 

Paisagem duriense

Enfim, a semelhança que deve ser observada entre estes dois grandes tintos é a potência e o poder de longevidade dos mesmos. A peculiaridade pouco comum desses dois vinhos partirem de um grupo de vinhedos é também notável. Os melhores Hermitages como Chave e La Chapelle (do produtor Paul Jaboulet) provêm de um maior número de vinhedos ou como os franceses preferem, climats (Méal, Bessards, Greffieux, Baumes, entre outros). Do lado do Porto, os melhores Vintages, os chamados clássicos, provêm também de várias parcelas (quintas) das melhores casas de Porto. Nos dois casos, cada parcela apresenta características distintas onde a mistura ou assemblage das mesmas geram vinhos mais equilibrados e complexos, melhorando o conjunto. Só para citar um exemplo, o belíssimo Porto Taylor´s Vintage provém das quintas de Vargellas, Terra Feita e Junco. Cada qual com características distintas, formando um todo harmonioso.

Outra coincidência relevante é a crescente individualização dos vinhedos. Atualmente, está em voga os chamados Hermitages de vinhedo e também, os chamados Portos de Quinta. A idéia é mostrar certas pecualiridades de terroir que compõem as melhores quintas de cada Casa. A Taylor´s por exemplo, engarrafa o espetacular Quinta de Vargellas, famosa por proporcionar aos vintages o caracteristico aroma de violetas. Mas a grande quinta em toda a região é o mítico Quinta do Noval Nacional, elaborado em certos anos sob rendimentos mínimos com parreiras pré-filoxera. A qualidade é magistral, contudo os preços são proibitivos. Quanto aos Hermitages de vinhedo, a Maison Chapoutier tem um ótimo grupo de vinhos, com destaque especial para o L´Ermite.