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Tintos para o Verão: Parte I

14 de Janeiro de 2013

Quando pensamos em tintos para o verão, pensamos em vinhos relativamente leves, que podem ser refrescados e com aromas que lembram frescor e delicadeza. Neste contexto, os vinhos elaborados com a uva Pinot Noir são emblemáticos e com boa disponibilidade no mercado. Porém, alguns cuidados devem ser tomados para não comprarmos gato por lebre. A primeira grande divisão é separamos tintos da Borgonha do restante não só da França, como principalmente dos países do chamado Novo Mundo. Mesmo dentro da Borgonha, esta leveza, este descomprometimento em acompanhar pratos leves do verão, inclusive lanches frios, nos leva a vinhos mais simples e consequentemente com preços menos assustadores. Os vinhos de apelações mais genéricas encaixam-se bem neste perfil. O ideal é optarmos pelos comunais ou Villages onde o nome da comuna mais restritiva, garante de certo modo, a preservação da tipicidade ligada ao terroir, conceito este tão respeitado e procurado pelos amantes da região. Procurem deixar as categorias Premier Cru e Grand Cru para ocasiões especiais, para pratos mais sofisticados e sérios, muitas vezes mais apropriados para uma estação mais amena, inclusive inverno. Não que estas categorias apresentem vinhos pesados ou encorpados, pelo contrário, mas são vinhos de maior profundidade, com carga tânica muitos vezes dissonantes com o propósito deste artigo. Resumindo, não tem sentido acompanhar um lanche frio de verão com um Chambertin (um dos belos Grands Crus da Côte de Nuits).

Belo produtor numa grande safra (2009)

Anne-Françoise Gros é importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Uma apelação genérica, mas altamente abalizada pela qualidade do produtor, culminando numa safra perfeita. Ótima pedida para o propósito do artigo.

Continuando na França, a grande região a ser explorada para estes tipos de tintos é o Vale do Loire. Aqui, uvas como Gamay, Pinot Noir e Cabernet Franc, são fontes de tintos originais e com todas as características que procuramos. A apelação Sancerre para tintos molda vinhos à base de Pinot Noir perfeitos para acompanhar pratos de verão. São leves e podem ser servidos agradavelmente refrescados. As apelações Bourgueil e Chinon por exemplo, desde que não sejam topos de gama de suas respectivas vinícolas, são vinhos baseados em Cabernet Franc de clima frio. Também são muitos aromáticos e refrescantes. A uva Gamay dificilmente aparece sozinha nas apelações. Em Anjou e Saumur por exemplo, ela normalmente é mesclada com a Cabernet Franc, gerando vinhos leves e delicados. Aliás, Gamay é a uva do Beaujolais, vinho também emblemático para o verão. Exceto alguns Crus como Morgon e Moulin à Vent, toda a gama de Beaujolais é bem-vinda para o verão. Portanto, use e abuse desta apelação. Só para esclarecer, Beaujolais não faz parte do Loire, e sim da Borgonha, embora alguns autores a excluam desta região.

Pinot Noir Reserve Expresión 2009

Produtor francês radicado no Chile

O rótulo acima é uma boa pedida do Novo Mundo que falaremos a seguir. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br), este produtor procura preservar a delicadeza da cepa em seu rótulo mais simples.

Saindo da França, voltamos à Pinot Noir agora focando o Novo Mundo. Praticamente, todos os países deste bloco cultivam em maior ou menor escala esta temperamental cepa. O problema crônico do Novo Mundo é que estes vinhos costumam ser mais encorpados que deveriam, mais extraídos e mais amadeirados. Portanto, um tanto pesados para as características da uva. No Chile, regiões frias como Casablanca e Leyda, moldam alguns exemplares adequados ao nosso tema. Os mais simples, menos amadeirados, e portanto mais em conta, são os mais indicados para nosso propósito. Nova Zelândia, é outro país a ser explorado. Regiões como Martinborough e Central Otago são as mais promissoras para esta irriquieta casta. Talvez seja mesmo o país com maior potencial para Pinot Noir de caráter diferenciado, mas ainda é uma promessa. Falando agora de Argentina, a fria região da Patagônia é a mais entusiasmante. Um produtor em particular, destaca-se sobre os demais, Bodega Chacra. Falamos com mais profundidade deste produtor biodinâmico em artigo específico neste blog (verificar – Chacra e Noemía: Bodegas de Terroir). Demais países como África do Sul, Austrália, Brasil, Uruguai e Estados Unidos, as escolhas são pontuais e pessoais. A dica é procurar as regiões mais frias nos respectivos países. Um parênteses deve ser feito aos Estados Unidos. Existem vinhos de altíssimo nível, sobretudo na região de Russian River, que muitas vezes rivalizam com grandes exemplares da Borgonha. Contudo, são vinhos mais complexos e diferenciados, caindo na mesma consideração dos Premiers e Grands Crus da Borgonha exposta no início do artigo.

Vinho em destaque: Rippon Pinot Noir

17 de Março de 2011

A Nova Zelândia sempre demonstrou vocação na elaboração de bons vinhos com a caprichosa uva Pinot Noir. Notadamente, as regiões de Martinborough (sul da ilha norte) e Central Otago (região central da ilha sul) são as mais confiáveis.

A vinícola Rippon abaixo localiza-se em Central Otago, às margens do lago Wanaka, sob a orientação do enólgo Nick Mills e equipe. O projeto é totalmente biodinâmico, com forte conceito de terroir. Nick passou alguns anos na Borgonha absorvendo o savoir-faire de produtores como Jean-Jacques Confuron e também na Domaine de La Romanée-Conti.

Um dos vinhedos mais bonitos do mundo

As videiras do Rippon Pinot Noir 2006, importado pela Premium (www.premiumwines.com.br),  foram plantadas entre 1985 e 1991 com clones criteriosamente selecionados, numa densidade de 3800 pés/hectare. O solo é rico em  minerais, com marcante presença de xisto. A maturação das uvas é bem lenta, com a colheita ocorrendo entre final de março e boa parte de abril.

O mosto foi fermentado com leveduras naturais de forma lenta e gradual. A longa maceração (contato com as cascas) permitiu extrair aromas diferenciados e destacada estrutura tânica, evidentemente em diferentes faixas de temperatura. Posteriormente, o vinho foi amadurecido em barricas francesas (apenas 30% novas) por um período de 18 meses. Foi engarrafado sem filtração.

Elegante, diferenciado, além de bem equilibrado. A madeira de nenhum modo incomoda, apenas enriquece o conjunto. Tem nível de um Premier Cru da Borgonha, apresentando algumas nuances de um Chambolle-Musigny. Não confundir com Rippon Jeunesse Pinot Noir, de parreiras jovens. 

Harmonização: Salada de Bacalhau

31 de Janeiro de 2011

Aos poucos, bacalhau está voltando a ser um alimento relativamente barato, quase como nos anos 60 (início da Bossa Nova). Frente a outros tipos de carne, vale a pena optar pelo produto, rico em ômega 3.

Uma das inúmeras opções de salada para o bacalhau

A nossa salada tem como ingredientes além de um bom bacalhau frio em lascas, já dessalagado e cozido; radicchio rosso, rúcula, tomate cereja, batata, vagem, azeitonas, tangerina em gomos, manjericão, molho vinagrete, sal e pimenta a gosto. Apesar de não ser um blog sobre receitas, é sempre importante numa harmonização, sabermos os ingredientes participantes.

O ideal é que o vinho seja branco, embora haja alternativas para o tinto ou rosé. Como estamos no verão e se trata de uma salada que pode ser inclusive uma entrada, vamos nos fixar num branco.

As batatas e o bacalhau são elementos que vão dar corpo e textura ao prato. Portanto, precisamos de um branco com certa personalidade. As verduras com toques amargos e o tomate pedirão vinhos com poder de fruta. O molho vinagrete, as azeitonas e a tangerina, fornecerão componentes de acidez ao prato.

Neste cenário, um bom Sauvignon Blanc moderno e jovem da Nova Zelândia ou do Chile, tem corpo adequado, fruta e acidez suficientes, além dos toques herbáceos combinarem bem com as verduras, principalmente o manjericão.

Um opção mais original seria um belo Alvarinho (Portugal) ou Albariño (Espanha). A versão sem madeira de Anselmo Mendes da importadora Decanter é um escolha segura para um dos melhores Alvarinhos da atualidade (www.decanter.com.br). Do lado espanhol, o Albariño Martín Códax da importadora Peninsula elabora brancos bastante frescos e de muito caráter. Outra bela opção da mesma importadora é o Cava Juvé y Camps Reserva Vintage Brut. Espumante de grande personalidade para enfrentar os sabores do bacalhau. Procure pelo simpático Juan (www.peninsula1.com).

Enfim, as variações de uma salada de bacalhau são inúmeras. Contudo, sempre precisaremos de vinhos marcantes, pois o sabor do bacalhau exige este pré-requisito.

 

Terroir: Sauvignon Blanc

9 de Novembro de 2010

O chamado Loire do Centro ou Alto Loire  é o berço espiritual da Sauvignon Blanc sob as apelações Pouilly-Fumé e Sancerre. O clima frio aliado às características predominantemente continentais, além de solos específicos, garantem um Sauvignon autêntico e de singular tipicidade. Os principais solos encontrados na região são com predominância de sílex ou solos do tipo Kimeridgiano, conforme fotos abaixo, respectivamente.

Sílex: rocha sedimentar composta de quartzo e argila

Solo kimeridgiano: fósseis marinhos calcinados em marga

Esses tipos de solo, segundo os terroiristas, transmitem a peculiar mineralidade destes vinhos, sempre acompanhada de uma notável acidez. No segundo tipo de solo (kimeridgiano), percebemos nitidamente conchas de ostras (fósseis marinhos) que foram solidificadas em outras eras geológicas. Afinal, o local já foi mar um dia. Este mesmo tipo de solo é famoso em Chablis, principalmente na faixa nobre dos sete Grands Crus (Blanchot, Grenouilles, Valmur, Les Clos, Vaudesir, Preuses e Bougros).

Portanto, o Sauvignon do Loire apresenta um estilo incisivo com aromas discretos, além da mineralidade acentuar-se ao longo do envelhecimento em garrafa. Sua acidez marcante é muito apropriada para entradas e pratos leves, notadamente da cozinha japonesa (peixes in natura).

 

Um das referências em Pouilly-Fumé

Além do sofisticado Baron de L acima, a domaine Ladoucette elabora outros exemplares dignos da apelação, que são importados pela Vinci (www.vinci.com.br). Chateau de Tracy e Michel Redde também são opções seguras das importadoras Decanter (www.decanter.com.br) e Club Taste Vin (www.tastevin.com.br), respectivamente.

 

Nova Zelândia

Rótulo histórico para o Novo Mundo

O exemplar acima colocou definitivamente a Nova Zelândia no mapa do vinho, mostrando ao mundo uma nova dimensão de Sauvignon Blanc, com uma tropicalidade ímpar.

O terroir chama-se Marlborough (porção nordeste da Ilha Sul neozelandesa). O terreno apesar de plano, tem excelente drenagem, graças ao solo de gravilha (espécie de pedrisco), que escoa a água rapidamente. A região é protegida ao norte e a oeste por uma cadeia de montanhas (ver foto abaixo retratada no rótulo do Cloudy Bay) dos ventos frios e úmidos, impiedosos nesta ilha. A insolação é uma das maiores no mundo vitícola, propiciando amadurecimento perfeito das uvas. Para completar, as noites são frias, provocando a tão benvinda amplitude térmica para manter ótimos níveis de acidez.

Richmond Ranges: barreira natural contra os ventos

Nestas condições temos um Sauvignon de bom corpo, extremamente frutado com incríveis toques tropicais (notadamente o maracujá), complementado por ervas, flores e em alguns casos, um fundo mineral discreto. O grande trunfo destes vinhos é sua bela acidez, frescor, valorizando e equilibrando sua exuberância frutada. Um dos melhores exemplares da atualidade é o Sauvignon Blanc Jackson Estate, importado pela competente e especializada importadora de vinhos neozelandeses Premium, www.premiumwines.com.br

Portanto, dois estilos incríveis de Sauvignon, respeitando seus respectivos terroirs, esperando o momento adequado para serem apreciados. Para um salmão defumado, como entrada, vá de Sauvignon do Loire. Já uma posta de salmão cozido no vapor ou em papillote, com ervas, especiarias, e gaurnições delicadas, vá de Sauvignon da Nova Zelândia. Bon Appétit!