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1945, o ano da Vitória!

19 de Janeiro de 2019

Só os vitoriosos nascem em 45, final da segunda guerra mundial, ano de criação da ONU, última safra do Romanée-Conti de parreiras pré-filoxeras com pouco mais de 600 garrafas elaboradas, além do maior dos Moutons elaborados até hoje.

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hoje é dia de maldade!

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Double Magnuns enfileiradas

Um dos confrades, nosso Professore, assim chamado carinhosamente, é um desses vitoriosos com uma carreira brilhante e muita história para contar e nos ensinar. Num almoço memorável, talvez na mais bela cobertura dos Jardins, desfilaram várias Double Magnuns de grandes Chateaux, inclusive uma 1945 em sua homenagem.     

Jamón de Bellota com Jacques Selosse

Começando a farra, uma seleção dos melhores Lieux-Dits de Jacques Selosse,  enólogo e proprietário que revolucionou a região de Champagne como produtor individual de destaque. Na cola dele, vieram outros tantos que fazem sucesso atualmente. Ele está para a excelência de produtor individual na região, assim como Gravner está para os vinhos laranjas. Resumindo, referência absoluta.

Jacques Selosse servidos:

  • Initial (champagne de entrada da Maison. Um Blanc de Blancs de muita pureza e frescor).
  • Lieu-Dit Les Carelles (um Blanc de Blancs de Mesnil sur Oger, o suprassumo da Côte de Blancs de extrema mineralidade).
  • Lieu-Dit Mareuil sur Aÿ (um Pinot Noir delicado e elegante).
  • Selosse V.O. (Version Originale, um blanc de Blancs de estilo oxidativo com safras mais antigas)

Tudo isso para entreter os convivas, acompanhando um Jamón cirurgicamente cortado in loco com a devida técnica espanhola. A peça tinha 60 meses de cura, tempo suficiente para sabores e aromas perfeitamente desenvolvidos. Um autêntico Pata Negra!

um dos Lieux-Dits

Já à mesa, seguiu-se um lauto almoço, numa sequência de pratos e vinhos muito bem arquitetada. Somente formatos Double Magnum de grandes safras e chateaux.

Doisy-Daëne 2001 – 95 pts com Foie Gras

A safra dispensa comentários, uma das históricas na região de Sauternes. Este produtor remete inexoravelmente ao professor Denis Dubourdieu, falecido recentemente, uma das maiores autoridades em vinhos bordaleses, sobretudo. A propriedade é da família. Com vinhedos localizados em Barsac, por questões de solo, elabora Sauternes delicados e de muita elegância. Um acompanhamento quase covarde com foie gras de entrada e bolo de pistache com creme ingles e ninho de caramelo na sobremesa. Não tinha como dar errado.

Montrachet Henri Boillot 2009 com Robalo, bottarga e champignos

Ele não é proprietário de vinhas nesta apelação, mas Henri Boillot faz um Montrachet elegante, de acordo com suas raízes em Puligny-Montrachet. Esta safra precoce e generosa mostra fruta exuberante e um trabalho notável com a barrica. Perfeita harmonia e equilíbrio. O robalo com bottarga e champignons complementou muito bem os sabores do vinho.

 Gruaud-Larose 1945 – 96 pts e trufas negras

Este chateau é um dos destaques na histórica safra de 1945 com vinhos memoráveis e altamente disputados em leilões mundo afora. O vinho estava um pouco cansado, mas sem nenhum defeito. Um nariz nobre de Bordeaux evoluído onde o tabaco, finos tostados e toques balsâmicos, se destacavam. Um tinto de 74 anos que mostra claramente tratar-se de uma safra excepcional e de um extrato fabuloso. Uma bela homenagem a nosso aniversariante e anfitrião. O tagliolini com trufas negras frescas só valorizou ainda mais o vinho. Ponto alto do almoço!

DRC Romanée-Saint-Vivant 1983 – coelho com risoto

Num almoço desses tinha que aparecer um DRC, preferencialmente pronto e evoluído. Este Romanée-Saint-Vivant 1983 cumpriu bem a missão. Taninos estruturados e resolvidos, boca macia, e os aromas de um grand Vosne-Romanée. Toques terrosos, de sous-bois, e de flores secas, permeavam a taça. Um demonstração de força e elegância muito bem balanceadas. Um saboroso coelho com risoto tinha a força exata para o vinho.

Chateau Ducru-Beaucaillou 1982 – 96 pts e Kobe Beef

Referência da comuna de Saint-Julien, Ducru-Beaucaillou prima pela elegância e altivez. Lembrado por Parker como Lafite de Saint-Julien, este 82 estava um espetáculo. Provalvemente pelo formato (double magnum), ainda tinha taninos a resolver. Uma estrutura de boca fantástica com taninos finos, acidez vibrante, e longa persistência final. Bem adegado, ainda vai longe e ratifica porque 1982 é uma das maiores safras do século XX. Um tenro Kobe Beef enalteceu a nobreza do vinho.          

Petrus 1976 – 92 pts em double magnum

Passando a régua, um Gran Finale com o maior de Pomerol, rei Petrus na mesa safra 1976. Mais do que uma safra notável, o segredo de tomar um bom Petrus é ele estar evoluído, maduro, sem a sisudez que lhe é peculiar. Algo terroso e de trufas, um lado mineral importante, e taninos bem delineados, formaram um belo conjunto deste mito bordalês. 

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Porto Croft Vintage 1960 – duas garrafas, duas histórias

Com uma bela seleção de queijos, um Vintage maduro se fez presente, Croft 1960. No alto de seus 58 anos, o Vintage se transforma em algo gracioso, perdendo aquele poder e potência da juventude. Seus aromas são mais etéreos, toques florais aparecem, e a boca incrivelmente sedosa. Aquela geleia de frutas da juventude muda para frutas em licor. Coisas que só a idade e o tempo são capazes de transformar. Vale a nota da diferença entre garrafas. Uma mais evoluída que a outra, mostrando que em vinhos antigos não existem garrafas iguais.

fecho de ouro

Para os mais insistentes, um Havana ao cair da tarde encerrando as conversas. Marc DRC 1991, uma Grappa de luxo, como diriam os italianos. O figurado H. Upmann Reserva, um tabaco envelhecido do excepcional terroir de Vuelta Abajo, Cuba, estava à altura da Eau-de-Vie.

Todas as bênçãos do mundo ao nosso aniversariante, anfitrião impecável, e daqueles amigos que a gente não esquece. Vida longa com muitas comemorações como esta. Em nome de todos os presentes, agradecimentos eternos. Viva 1945!

Trinca francesa e um blefe espanhol

6 de Maio de 2018

Como num jogo de cartas, a jogada final ou o blefe faz parte do cenário. Num almoço aparentemente despretensioso, a ideia do Maestro, nome dado carinhosamente a um dos confrades, era lançar 500 pontos na mesa com cinco vinhos irrepreensíveis. Embora tenha havido um acidente de percurso, um Mazis-Chambertin valeu por dois, um vinho de ilha deserta. Nesse jogo de paciência, vamos revelar os segredos pouco a pouco.

1845 garrafas: isso que é exclusividade!

Felizmente, já provei algumas garrafas deste branco maravilhoso de Madame Leroy. Esta garrafa, neste momento com quase 10 anos, está no auge de seu vigor. Bem de acordo com a safra 2009, carente de uma acidez mais presente, o vinho tem uma maciez incrível com final de boca bastante longo. Seus aromas de caju, frutas secas, e lascas de madeira tostada, são absolutamente divinos. Um Corton-Charlemagne de estilo corpulento, batendo de frente com os mais potentes Montrachets.

IMG_4591.jpgmassa recheada com vitela

Para acompanhar esta maravilha, um prato de massa com vitela envolta num molho cremoso e delicado do restaurante Nino Cucina. Na foto acima, dá para perceber que a textura cremosa do molho e seus sabores bem balanceados deram as mãos para este branco fantástico.

adquirido por Maison Leroy

Lembra da ilha deserta!. Pois bem, esse foi o vinho do almoço. Os vinhos do Hospices de Beaune são leiloados anualmente em novembro numa tradição de décadas. Ao longo da história, este hospital secular foi recebendo doações de terras em vinhedos muito bem localizados na Côte d´Or. O Hospices de Beaune tem uma equipe de vignerons e de vinificação que coordena com muita eficiência todo o trabalho artesanal na elaboração dos vinhos.

Este vinho em particular, Mazis-Chambertin Grand Cru Cuvée Madeleine Collignon, é um vinhedo de 1,74 hectare, localizado junto ao Grand Cru Clos de Bèze. Foi um donativo de Jean Collignon em 1976, sendo o nome da cuvée, uma homenagem à sua mãe. As vinhas foram plantadas em 1947 e os rendimentos baixíssimos.

Falar desta garrafa da excepcional safra de 1985 é complicado, mas o vinho estava divino. Madame Leroy não colocaria seu nome em vão. Com seus mais de 30 anos de vida, o vinho está esplendoroso. Uma cor linda de Borgonha envelhecido, sem sinais de decadência. Os aromas terciários de sous-bois, manteiga de cacau, alcaçuz, adega úmida, são de livro. Contudo, seu ponto alto é a boca, a qual normalmente num vinho neste estágio é mais delicada. Ao contrário, o vinho tem um vigor extraordinário, uma densidade sedutora, taninos de longa polimerização, e um final que ecoa em ondas, de grande expansão aromática. Esta começando a faltar dedos na minha mão para eleger os melhores vinhos da minha vida …

Um pouco do Hospices de Beaune

Ao todo, são 60 hectares de vinhas doadas ao longo do tempo, sendo 50 hectares de Pinot Noir. As vinhas têm em média, 34 anos. A maioria dos vinhos, tintos e brancos, são das categorias Premier Cru e Grand Cru. O objetivo é limitar os rendimentos em 30 hl/ha. São produzidas 50 cuvées por ano, sendo 33 para tintos, e 17 para brancos. No ano de 2017, foram vendidas 787 pièces (barricas de 228 litros), sendo 630 de vinho tinto, e 157 de vinho branco.

O blefe

Voltando à história das cartas, eis que surge o mítico Vega-Sicilia 1962, para muitos, o melhor Vega de todos, quase um Borgonha. Contudo, a rolha dava indícios que alguma coisa estava errada. Tanto o rótulo, como sobretudo a rolha, eram muito novos para um vinho desta idade. O re-cork se fosse o caso, não estava mencionado na rolha. E realmente na taça, o vinho decepcionou. Era até um belo vinho, poderia ser um Vega, mas longe de um verdadeiro 62, um tinto de sonhos. Coisas que acontecem …

poderia ser divino …

belo acordo

Mais uma vez, um prato de vitela cozida lentamente acompanhando legumes e batatas, criou sinergia com os tintos mais evoluídos, principalmente o grande Chambertin.

IMG_4596.jpgo mito Jean-Louis Chave

Continuando a saga dos 100 pontos na mesa, a foto acima mostra a cuvée especial do mestre Jean-Louis Chave, senhor dos melhores Hermitages na região escarpada do Rhône-Norte. Sabemos que os Hermitages de Chave primam pela união dos vários lieux-dits da apelação, formando um mosaico complexo e de grande longevidade. No caso da Cuvée Cathelin, a seleção de uvas privilegia o lieu-dit Les Bessards, o mais prestigiado e o que confere mais longevidade ao vinho. Portanto, é um vinho mais encorpado e mais potente, exigindo maiores doses de carvalho novo, o que na Cuvée clássica de Chave é limitada a 20%, no máximo. Esta Cuvée Cathelin começou com safra de 90, a qual provamos mais uma vez, e é so produzida em anos realmente especiais.

Quanto ao vinho, estava maravilhoso e evidentemente ainda muito novo. Os Hermitages têm uma capacidade de envelhecimento em garrafa fora de série. Normalmente, vinte anos eles levam brincando em adega. A cor deste exemplar ainda era escura e de grande vigor. Os aromas entremeavam geleia de frutas como framboesas, lindos toques de alcaçuz, e uma profusão de especiarias. Os toques terciários ainda eram tímidos, confirmando sua enorme longevidade. Enfim, uma Maravilha!

IMG_4599.jpgQual escolher: 89 ou 90?

A pergunta acima é fácil responder: fique com os dois. Esses Montroses de safras seguidas (89 e 90) são perfeitos e merecem os 200 pontos. Por incrível que pareça, este 89 tem mais estrutura e longevidade que o 90, uma safra teoricamente mais longeva. A cor ainda negra deste 89, bem mais escura que a do Cuvée Cathein comentado, vislumbra ainda longos anos de guarda em adega. Seu perfil de frutas escuras (cassis), tabaco, especiarias, cedro, e uma extensa cavalaria (toques animais e de couro), são precisos, intensos, e de uma tipicidade impar. A boca é densa, uma estrutura descomunal de taninos ultra finos, belo equilíbrio, e um final de boca arrasador. Depois dele, só o café e a conta …

Passando a régua, neste jogo de cartas não houve perdedores. Ao contrário, amizades fortalecidas, cumplicidade, generosidade, cada vez mais sedimentadas pela magia do vinho. Saúde a todos !

Clos de Vougeot: a escolha de Babette

3 de Maio de 2018

No inesquecível filme “A festa de Babette”, o tinto escolhido para o lauto banquete foi Clos de Vougeot 1845, acompanhando codorna assada com foie gras e trufas. Vide artigo neste mesmo blog: Menu Harmonizado: A Festa de Babette 

Embora a escolha deste Grand Cru fosse extremamente arriscada, no contexto do filme serviu para marcar e homenagear um dos mais antigos e emblemáticos terroirs da Borgonha. Neste sentido, vamos tentar esmiuçar este vasto território de vinhas com 50 hectares, um verdadeira latifúndio em termos de Borgonha.

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parcelas do vinhedo

A história do Clos de Vougeot se confunde com a criação da Abadia de Cîteaux, criada em 1098. O início dos vinhedos datam entre os anos de 1109 e 1115. O vinhedo foi aumentando pouco a pouco e terminado em 1336 com suas divisas muradas. Em 1818, a propriedade foi comprada pelo banqueiro Julien-Jules Ouvrard, dono do Domaine de La Romanée-Conti. O próprio mítico Romanée-Conti foi vinficado em Clos de Vougeot entre os anos de 1819 e 1869. Com a morte de Ouvrard, o vinhedo passou a três herdeiros que posteriormente venderam a propriedade a seis novos donos e daí em diante, a subdivisão em famílias continuou, chegando a cerca de 80 proprietários.

Em 1934 foi criada a La Confrèrie des Chevaliers du Tastevin que anualmente entroniza novos membros no Castelo Clos de Vougeot com um lauto jantar. São cerca de 12000 membros em todo mundo. Seu lema: “Jamais en vain, toujours en vin”, ou seja, jamais em vão, sempre no vinho.

A primeira divisão de parcelas neste vasto Chateau foi feita pelos Monges Cistercienses na Idade Média com três sub-zonas principais:

  • La Partie Haut (parte alta) em torno de 260 metros de altitude, englobando os climats: Musigni, Chioures, Garenne, Grand Maupertius, Plante Labbé, Plante Chamel, Montiottes Hautes, Marei Haut, Petit Maupertuis, Baudes Hautes e Montiotes Hautes. São solos argilo-calcários de natureza pedregosa e escura. Vinhos finos, bem equilibrados e de aromas elegantes. Esta blend foi chamado “Cuvée du Pape”.
  • La Partie Centrale (altura mediana) em torno de 250 metros de altitude, englobando os climats: Dix Journaux, Baudes Saint Martin, Baudes Basses. O solo é pedregoso, mas extremamente argiloso em relação ao calcário. Os vinhos são fortes e muito tânicos. Esse blend foi chamado de “Cuvée du Roi”. 
  • La Partie Basse (parte baixa), abaixo de 250 metros de altitude, englobando os climats: Marei Bas, Montiottes Basses, Quatorze Journaux, Baudes Basses (parte inferior), Baudes Saint Martin (parte inferior). Os solos são aluvionais e de argila densa. Os vinhos são pesados, tânicos, faltando elegância. Este blend foi chamado de “Cuvée des Moines”.

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Nos dias atuais, quando se fala de Clos de Vougeot, mesmo sendo um vinhedo Grand Cru, perde-se um pouco do rigor borgonhês, no sentido de separar micro parcelas, especificando ao máximo um terroir preciso.

Pelo exposto acima, fica claro que os proprietários da chamada parte alta do vinhedo, com vizinhanças ilustres como Grands-Echezeaux e Musigny, levam vantagem nos fatores solos e exposição do terreno (drenagem e insolação). Mas só isso, não resolve a questão. Existem o estilo e talento do vigneron em procurar expressar o terroir da forma mais fiel possível, sem esquecer do fator safra, que pode ir contra à filosofia do produtor, dependendo das características de cada ano. É sem dúvida, uma equação complexa, mas para minimizar o erro, vamos  a alguns nomes de referência desta zona mais alta do vinhedo:

Domaine Leroy, foto abaixo, com um dos melhores Clos de Vougeot na safra 2002. Com pouco mais um hectare de vinhas, Madame imprime seu estilo ultra elegante, taninos de seda, e um final rico e complexo. O vinho ainda pode ser guardado, mas está delicioso para os mais impacientes. 94 pontos pela média da crítica especializada.

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Leroy atropelou seu concorrente ao lado

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esse estava delicioso e no ponto

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Méo-Camuzet: outra grande referência

Méo-Camuzet, sempre respeitando os ensinamentos do mestre Henri Jayer, faz vinhos divinos além destes, como o espetacular Richebourg. Vinhedos perto do Castelo.

Outros no mesmo nível, Domaine Anne Gros, Engel, Domaine de La Vougeraie, Domaine Gros Frère & Souer, todos na parte superior do vinhedo.

Chateau de La Tour é o maior produtor (5,48 ha), localizado no setor mediano do vinhedo. O que vale realmente a pena é sua Cuvée Vieilles Vignes. Maison Joseph Drouhin é sempre confiável também.

Nos setores mais baixos, Domaine Grivot e Domaine Jacques Prieur, fazem a diferença na condução das vinhas e vinificação precisa.

Enfim, algumas referências precisas, de acordo com os maiores especialistas no assunto. É claro que gosto pessoal também conta. Por isso, a omissão de mais alguns Domaines fica a cargo da preferência e experiência de cada um.

Além deste vasto Grand Cru, Vougeot possui outras apelações Premier Cru e Village. Olhando no mapa, todas elas ficam adjacentes no muro a Leste, à direita, do Grand Cru. Os Premiers Crus estão nos Lieux-Dits: Clos de La Perrière, Le Cras, Les Petites Vougeots, para tintos, principalmente. Clos Blanc e Le Clos Blanc, para os brancos. E o Vougeot Village tintos e brancos.

Syrah: A joia lapidada no granito

1 de Maio de 2018

No chamado Rhône-Norte, a Syrah encontra seu verdadeiro terroir em sub-solo granítico. Nas encostas escarpadas da Côte-Rôtie, sua primeira expressão de um Syrah profundo e de extrema delicadeza. Mais abaixo, onde o Rhône faz uma curva abrupta, as vinhas se voltam a leste na Montagne de Hermitage. Dois terroirs distintos, mas absolutamente magníficos, conforme mapa abaixo.

o granito e a Syrah

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a imponente Montagne de Hermitage

A Montanha acima se divide em vários lieux-dits (climats), como Bessards, Méal, Greffieux, Rocoules, entre outros, formando solos  e exposições diferenciadas, onde a conjunção desses vários climats dão a complexidade dos grandes Hermitages.

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os vários climats de Hermitage

A cuvée La Chapelle de Paul Jaboulet possui quatro lieux-dits (Bessards, Méal, Greuffieux, e Rocoules) com vinhas entre 40 e 60 anos em média. Sua primeira safra foi no ano de 1919. Os rendimentos são de 10 a 15 hl/ha, rendimentos de Yquem, e o vinho passa em barricas de carvalho, sendo no máximo, 20 % novas. O climat Bessards fornece estrutura e longevidade ao vinho, por exemplo.

O Hermitage Chave possui nove lieux-dits, o que confere uma complexidade ainda maior, considerado pelos puristas, o melhor Hermitage de toda a apelação. São 10 hectares de vinhas com média de idade de 50 anos. O vinho amadurece por 18 meses em barricas de carvalho com no máximo, de 10 a 20% de madeira nova. Deve ser sempre decantado por no mínimo uma hora. Seus aromas são muito redutivos.

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Hermitage, Côte-Rôtie, e Cornas

O nome Hermitage ganha o H na grafia quando o vinho começa fazer sucesso com os ingleses no século dezenove por uma questão fonética. A pronúncia fica bem mais fácil. Alguns mais tradicionais, fazem questão de conservar o nome Ermitage sem H.

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Cornas: Vignobles

O terroir acima encontra-se na margem oposto de Hermitage com maior exposição solar, e vinhos mais corpulentos, mais tânicos. Normalmente, não apresentam a finesse de um grande Hermitage, mas envelhecem muito bem. Auguste Clape é o mestre nesta apelação com vinhos complexos e de longa guarda. Suas vinhas têm idade média entre 30 e 60 anos em solo granítico. O vinho passa 22 meses em toneis grandes de carvalho usado, no intuito de não marca-lo com a madeira.

IMG_4567.jpgtrilogia perfeita!

O Hermitage La Chapelle 1982 é um deslumbre. Aromas de frutas compotadas, alcaçuz, e um fino defumado, lembrando carne grelhada. Está delicioso, embora sem qualquer sinal de decadência.

O Cornas Clape 2006 ainda é um bebê. Taninos potentes, muito finos, e uma estrutura portentosa. Deve ser imperativamente decantado. Seus aromas de azeitonas negras e destacado defumado, marcam um terroir potente e de grande tipicidade.

O Hermitage Chave 1990 é o tinto mais enigmático. Percebe-se claramente toda sua finesse, mas ele reluta em se mostrar totalmente. Um toque mineral intrigante, muita fruta madura, mas com frescor, quase uma framboesa. Equilíbrio fantástico, e persistência muito longa. É sem dúvida nenhuma no momento, o mais tímido do painel.

guigal la turqueGuigal: La Turque

Agora aqui tudo muda, estamos no terroir Côte-Rôtie, a finesse extrema da Syrah. E quando falamos da trilogia mágica de Guigal com seus três La, La, Las,  tudo fica amplificado. Difícil eleger o melhor, o mais complexo, o mais sedutor.

Neste terroir, as inclinações de terreno pode chegar a 60° graus em sub-solo granítico e solos metamórficos de micaxistos. A chamada Côte Brune possui óxido de ferro em sua composição, tornando os vinhos mais escuros e viris. Já a chamada Côte Blonde, apresenta um perfil mais calcário, dando elegância aos vinhos.

IMG_4566.jpga escolha de Sofia …

O primeiro à esquerda, La Mouline 1981, é teoricamente o mais fraco em termos de safra, mas para esta trilogia a equação é bem complexa. Por estar mais pronto e ser o mais delicado devido à alta porcentagem de Viognier (11% de uvas brancas), o vinho estava extremamente sedutor com toques terciários fantásticos. Não tinha uma persistência tão longa, mais seu final de boca e acabamento eram  arrebatadores. 

La Turque 1985, 100 pontos, com uma pontinha de Viognier no blend, outro vinho sedutor, mas ainda com alguns detalhes a resolver. Taninos finíssimos e de grande profundidade. Deve ainda melhorar, mas pode perfeitamente ser apreciado com grande prazer. Um toque de virilidade evidente.

La Landonne 1985, 100 pontos, 100% Syrah. Vinho musculoso dentro da apelação Côte-Rôtie. Taninos presentes e de textura ímpar. Ainda um pouco fechado, mas de uma complexidade fora do comum. Mais uns cinco anos talvez, e estará em sua plenitude.

IMG_4562.jpgmais um dos pratos do Chef Rouge

O prato acima, o clássico Steak au Poivre, incitou as especiarias do vinho, embora sua força possa ter encobrido as nuances de vinhos tão finos. De todo modo, os mais tânicos, sobretudo Chave e Cornas, deram as mãos com a suculência do prato.

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O rótulo acima deu o que falar. Um Hermitage 1964 de Paul Jaboulet de grande safra, sem a menção La Chapelle. Tentei pesquisar ao máximo, o porquê desta não menção, mas não tive uma resposta adequada. O fato é que o vinho estava magnífico, lembrando muito o perfil do La Chapelle 1982, mas com mais complexidade e expansão. 

O La Chapelle 1964 foi degustado por Parker em 2000, e foi pontuado com nota 94. Um vinho considerado maduro, e uma das melhores safras de La Chapelle. E realmente, estava deslumbrante, à altura do grande sommelier Manoel Beato, presente no evento, com a safra de seu nascimento. Um final de almoço memorável!

Como sempre, é difícil encerrar artigos como este. Vinhos deslumbrantes, companhia das mais agradáveis, além de pessoas altamente capacitadas neste tipo de evento. O redator, humildemente agradece mais uma vez a oportunidade, desejando vida longa aos confrades. Que Bacco nos proteja sempre!