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Mudança de Adega: Entre um gole e outro

3 de Maio de 2015

Um dos trabalhos do sommelier é também montar adegas novas ou transferi-las para um novo local. Este foi o caso de um grande amigo que mudou recentemente de endereço. Possuidor de um arsenal de mais de três mil garrafas cuidadosamente selecionadas ao longo dos anos. E que arsenal! Pode não ser das maiores do Brasil em quantidade, mas a qualidade e o garimpo de seus vinhos são irrepreensíveis. Apaixonado pelos bordaleses, os melhores chateaux e as melhores safras de ambas as margens estão lá. Outro fascínio, são os DRCs de Vosne-Romanée. Uma coleção completa destes borgonheses fantásticos com algumas safras memoráveis. A prateleira de recepção da adega é repleta de Imperiais (seis litros) destes mitos citados acima. Sem contar com a bela coleção de Vegas (espanhóis), Yquem, e Domaine Leflaive.

Painel Romanée-Conti

O painel acima está no centro, em destaque, da prateleira de DRCs. Mas antes desta montagem, muito trabalho. Com a chegada dos vinhos na nova residência foi preciso um trabalho árduo, de muita paciência, para separar e classificar os vários Chateaux, Domaines, separando por safra, vinhedos ou cuvées especiais, se for o caso, para poder planilha-los de forma cartesiana e lança-los no computador, ou seja, a adega virtual. A foto abaixo, nos dá uma ideia do tamanho do problema.

A bagunça sendo organizada

Evidentemente, nem tudo é trabalho. Em determinados momentos a generosidade do proprietário brindava-nos com alguns mimos, conforme a sequência abaixo:

Referência na apelação Volnay

Quando pensamos em alto nível na comuna de Volnay (Borgonha), imediatamente nos vêm Domaine Lafarge e Domaine Maquis d´Angerville. O primeiro já foi descrito em artigo neste mesmo blog. Este acima da safra 97 ainda é uma criança. Podemos dizer que foge até um pouco da tipicidade da apelação, pois Volnay elabora tintos elegantes, sedosos, acessíveis, mesmo na juventude. Este porém, tem caráter masculino, estrutura tânica portentosa. A cor mostra-se jovem, aromas um tanto fechados, sugerindo cerejas negras, alcaçuz, especiarias e uma nota tostada. A boca impressiona por sua estrutura. Taninos bem delineados, mas em quantidade suficientes para mais uma década, pelo menos. E olha que estamos falando de uma safra acessiivel (97). Realmente, é vinho de longa guarda.

Um Pomerol de livro

Já tive o privilégio de participar de uma extensa vertical de Le Pin, e este 85 é encantador. Com seus trintas anos, continua sedutor, macio, equilibrado e sem sinais de decadência. As ameixas em calda, as flores, o toque terroso e de especiarias, confirmam os descritores clássicos desta pequena apelação. Aliás, a safra 85 é encantadora para a maioria dos grandes bordaleses.

Um Lafleur parrudo

Este exemplar da safra de 1990 mostra um Lafleur quase indestrutível. Cor muito pouco evoluída, aromas não completamente desabrochados e uma estrutura tânica impressionante para um margem direita. Talvez a alta proporção de Cabernet Franc e a potência da safra expliquem esta estrutura. Os aromas de frutas escuras, tabaco, minerais e especiarias, foram se mostrando lentamente com algum tempo nas taças. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos duas horas. É páreo para um bom Confit de Pato.

Yquem 75 : para ficar na memória

Já tomei alguns Yquems de peso como as safras de 83, 86 e 2001, mas este 75 em formato Magnum, mesmo com o problema acima, foi memorável. Algo absolutamente  inédito nesta garrafa com a rolha soltando-se dentro do liquido e apenas a capsula, segurando todo o conteúdo, sem nenhum vazamento. O vinho com uma cor âmbar brilhante estava adequada para a idade (40 anos). Os aromas de caramelo escuro, notas de coco, marron-glacê, doces mineiros cristalizados, curry, entre outros, eram deslumbrantes. E a boca? Esplendorosa! Uma harmonia entre os componentes de álcool, acidez e açúcar, em perfeito equilíbrio. Tudo isso era transportado por uma viscosidade única, devido a altas taxas de glicerol que neste caso, é perfeitamente perceptível. Uma persistência interminável, expansiva, como se houvesse compassadamente lufadas deste liquido indescritível. O melhor Yquem tomado até hoje. Nunca se sabe o dia de amanhã…

Continuando a bagunça

Mais alguns dias de trabalho e algumas paradas sedentas. Numa delas dois exemplares dos injustiçados Bordeaux brancos. Dois Châteaux de peso na comuna de Pessac-Léognan, zona norte de Graves, bem próximo à cidade de Bordeaux. Vamos a eles!

Bela estrutura

Os tintos do chateau acima são encantadores. Este branco da safra 2009 é altamente pontuado pela crítica especializada. Uma bela cor, aromas ainda tímidos lembrando minerais e cogumelos. Em boca, um belo corpo, muito macio e com uma certa untuosidade. Consequência da boa proporção de Sémillon no corte e um longo período sur lies (contato com as leveduras) e bâtonnages frequentes. Deve evoluir com o tempo, tornando-se um branco bastante gastronômico.

Haut-Brion: O Ícone da região

Num estilo totalmente diferente do branco anterior, este exemplar prima por seu frescor, vivacidade e elegância. Sem dúvida, disputa a primazia dos brancos bordaleses com seu grande rival, Château Laville Haut-Brion, o grande branco do Château La Mission Haut-Brion. Curiosamente, a partir da safra 2009 passou a ser chamado Château La Mission Haut-Brion Blanc. Voltando ao Haut-Brion,  seus aromas cítricos, alimonados e até lembrando a carambola destacam-se com as notas de madeira elegante. Alta proporção de Sémillon também, mas a fermentação dá-se em barricas de carvalho parcialmente novas. Embora haja bâtonnages, a maciez é mais discreta, prevalecendo a vivacidade. Um clássico a ser provado entre os amantes de Bordeaux.

Felicidades ao amigo, e que seu novo lar proporcione momentos de paz, felicidade, alegria e muitos brindes, aliados a seu bom gosto e enorme generosidade. Santé pour tous!

Confraria: Espanha em Alto Nível

11 de Dezembro de 2014

Jantar à francesa regado a vinhos espanhóis. Evidentemente, Ribera del Duero e Rioja brilharam à mesa. O desfile  foi extenso, sendo paulatinamente servidos dois a dois. O único branco foi o estupendo Tondônia Gran Reserva 1964. Ainda bem fresco em boca com total harmonia entre madeira e fruta. Bem estruturado, é grande parceiro para os pratos de bacalhau, por exemplo.

Outro ponto interessante foi a comparação das famosas taças Riedel com as taças Zalto´s de origem austríaca não encontradas no Brasil ainda. Seu diferencial, além do belo design, é o peso extremamente leve. Pessoalmente, achei o desempenho da Zalto´s surpreendente. Os aromas eram mais intensos e em boca, o vinho tornava-se mais macio. Entretanto, as opiniões foram diversas sem esquecer que as taças Riedel mantêm um padrão muito alto. Em resumo, valeu a experiência.

L´Ermita: Ícone do Priorato

O encontro começou com o vinho acima, uma double Magnum devidamente decantada. Apesar de seus quinze anos, o vinho ainda está em tenra idade. Contudo, seus aromas são envolventes, extremamente macio em boca e agradavelmente quente, mantendo as características de seu terroir. Foi um dos vinhos que acompanhou o maravilhoso Jamon Joselito, o melhor de todos os Pata Negra, ou seja, uma iguaria soberba da charcuterie. Segue foto abaixo:

O ácio oleico encontrado neste presunto dá origem a uma das gorduras mais saudáveis que são presentes também nos melhores azeites extra-virgens.

A arte da manipulação

Os tintos do jantar privilegiaram a safra de 2004, uma das maiores dos últimos tempos na Espanha. Todos de ótimo nível com destaque para o Pingus e o El Pison. O primeiro, um Ribera del Duero de preços estratosféricos, mostrou potência, concentração e um longo final de boca. El Pison da bodega riojana Artadi, pende mais para elegância, mas com muita profundidade. Características próprias do terroir de Rioja Alavesa. Enfim, duas grandes promessas para vinhos de guarda com notas 100 de Robert Parker.

2004: Talvez o melhor da dinastia

Dois notas 100 lado a lado

Aproveitando a foto acima, os Vegas foram um caso à parte. Primeiramente, um 1965 degustado em Magnum. Brilhante, super elegante e habitualmente inteiro, como se espera de um Vega mesmo com idade. Já o mesmo exemplar em garrafa standard (750 ml), um pouco cansado, com o acetato de etila, próprio desta bodega, confirmando a melhor conservação em magnum e por conseguinte, a longevidade dos grandes vinhos. Já o 1962, um dos nota 100 de Parker, cresceu durante a degustação. Embora já delicioso desde a abertura, após três horas decorridas, portanto, no final do jantar, estava ainda mais exuberante, com aromas exóticos e delicados lembrando um bom Lafite. Realmente, um grande exemplar.

Toda a turma junta

No final da noite, a adega do anfitrião foi invadida e saqueada com duas preciosidades: Château Montrose 1990 e Château Haut-Brion 1989. Dois notas 100 de Parker de primeiríssima grandeza. O Haut-Brion com aquela elegância de sempre, um dos melhores de toda sua série. O Montrose, esse é pessoalmente o melhor do château já degustado. Ainda inteiro, vigoroso, com muita vida pela frente. A maciez e a concentração deste exemplar são notáveis.

Só a garrafa já vale a experiência

Puros incluindo o insuperável Behike (Cohiba)

Terminando a noite, vieram os Puros. Aliás, muito bem conservados e climatizados pelo anfitrião. Foram devidamente acompanhados por belos Cognacs. Paradis, um dos tops da Hennessy e Richard, uma escultura da apelação Grande Champagne, a começar pela linda garrafa. A combinação foi inenarrável. Santé pour tous!

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte V

22 de Outubro de 2014

Agora deixando a Borgonha, e partida para Bordeaux. Chegando em Bordeaux, fomos almoçar em Saint-Emilion no Château Troplond-Mondot (pronuncia-se “Trolon-Mondô). Belo restaurante com menu bem executado. Estamos falando da margem direita de Bordeaux.

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Branco de margem direita

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A delicadeza de Pessac-Léognan

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À sombra do grande Yquem

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Pessac-Léognan de estrutura

Para dar início aos trabalhos, um quarteto muito  bem representado dos brancos bordaleses, vinhos de uma certa maneira subjugados frente ao enorme destaque dos tintos. De início, Jean Luc Thunevin Blanc nº 1 2009. Muito agradável, mas o menos complexo do painel. Madeira bem casada com a fruta e final fresco. O segundo trata-se de um branco bem elegante, Château Carbonnieux 2011. Aromas sutis, toques florais e textura delicada em  boca. Sempre um bom início de refeição. O terceiro vinho, o branco seco do Château d´Yquem, “Y” , Ygrec 2008. Elaborado com proporções semelhantes de Sémillon e Sauvignon Blanc, é um vinho marcante, com boa presença em boca e bastante gastronômico. Por último, um grande Pessac-Léognan, Domaine de Chevalier 2007. Um dos melhores de Bordeaux, apresenta ótima estrutura para envelhecimento. Bom corpo, textura macia e boa evolução de aromas. Fechou com chave de ouro esta série.

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Não estava em sintonia com os demais

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Chateauneuf-du-Pape de exceção

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Um dos melhores bouchonné

Na sequência de tintos, vamos abordar os três não bordaleses em primeiro lugar. Começando pelo Masseto 2001, foi o tinto que destoou no painel. É claro que se tomado individualmente, trata-se de um belo toscano baseado na casta Merlot. Contudo, diante dos bordaleses que virão a seguir, não há termo de comparação. Em seguida, um Chateauneuf-du-Pape fora de série do mítico produtor Henri Bonneau Réserve des Celéstins, uma cuvée especial de sua cave. Aromas lembrando o sul da França como garrigue (vegetação típica da Provence), ervas, especiarias e toques balsâmicos. Boca sedosa e extremamente longo. Por último, o que deveria ser talvez o vinho da viagem, o lendário Hermitage Paul Jaboulet La Chapelle 1961, estava bouchonné. Uma pena, mas sua cor, estrutura, e potência de taninos impressionaram.

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Concorrente à altura do astro Petrus

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Le Pin: Produção minúscula

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Petrus: Sempre misterioso

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Haut Brion em suas grandes safras

Enfim, chegou a vez dos bordaleses. E que vinhos, que safras! Uma sequência de 1990 inesquecíveis. Começando  pelo Château Lafleur 1990, um Pomerol de rara beleza. Boa evolução de aromas lembrando um toque terroso, cogumelos, ameixas escuras e chocolate. O mais pronto da trilogia. Em seguida, o minúsculo Chateau Le Pin 1990. Muita estrutura de taninos, ainda um pouco fechado, dando a certeza que uma boa decantação só trará benefícios. Muita vida pela frente. Por fim, o Chateau Petrus 1990. Uma criança ainda. Este é o Romanée-Conti de Bordeaux. Vinho misterioso, que não se revela facilmente. Apesar de seus mais de vinte anos, muitos segredos a serem desvendados. Um das grandes safras deste tinto. Realmente, não tinha como o Masseto ficar pequenininho.

Para não ficarmos só na margem direita, que tal para finalizar um Haut Brion 1989, um dos cem pontos de Parker. Safra histórica para esta estupenda propriedade de Pessac-Léognan. Uma maravilha já acessível, mas sem nenhum sinal de cansaço. Nos aromas, o característico toque animal, trufas, toques terrosos, algo de café, de chocolate, envolvidos em taninos sedosos. Um verdadeiro Premier Grand Cru Classe. Bravo!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.