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Domaine Ferret: Referência em Pouilly-Fuissé

28 de Novembro de 2013

Embora a apelação Pouilly-Fuissé (não confundir com Pouilly-Fumé no vale do Loire) seja a mais reputada na região do Mâconnais, ainda é pouco conhecida do grande público que gosta dos brancos da Borgonha. Mâconnais fica ao sul da Borgonha, fazendo divisa com a região do Beaujolais, conforme mapa abaixo:

Mâconnais: região de tintos e brancos

Os poucos exemplares disponíveis no Brasil deixam a desejar em termos de concentração e qualidade, geralmente com vinhos de negociantes. A singela delicadeza de um bom Pouilly-Fuissé está nos aromas de mel, flores e frutas perfumadas como pêssegos. Na maioria das vezes não é páreo para os grandes brancos de Beaune, também elaborados com a casta Chardonnay. Contudo, sempre há exceções, como a que provei na companhia do meu amigo, doutor Cesar Pigati. Trata-se de um Pouilly-Fuissé especial do Domaine Ferret, em sua mais nobre cuvée denominada “Hors Classe Tournant de Pouilly”, vinhedo de um hectare situado a norte do vilarejo de Fuissé. Suas vinhas de idade avançada (50 anos) em solo limo-argiloso com boa presença de calcário fornecem um néctar admirável. A vinificação nos moldes dos grandes brancos da Borgonha dá-se em barricas de carvalho (20 a 30 por cento novas) durante dez meses com posterior bâtonnage (revolver as leveduras na massa vínica). O exemplar degustado tinha quinze anos (safra de 1998) com uma cor brilhantemente evoluída, conforme foto abaixo:

Pouilly-Fuissé

Quinze anos de perfeita evolução

No plano olfativo trata-se de um vinho de aromas evoluídos, muito bem tramados, sugerindo mel, frutas secas tostadas (amêndoas ou avelãs), fruta amarela de boa evolução lembrando ameixas, pêssegos e marmelos. Além disso um toque defumado, amanteigado, direcionado para o butterscoth. Na boca, belo equilíbrio, bom corpo e um final harmônico e persistente. Faz boa companhia com queijo Comté.

Pouilly-Fuissé: apelação bem ao sul de Mâconnais

Pouilly-Fuissé no mapa acima é a apelação em laranja. A presença marcante do calcário em seu solo faz muito bem à chardonnay. Os melhores vinhedos e produtores estão concentrados entre os vilarejos de Fuissé e Solutré-Pouilly, embora ao redor de Vergisson existam produtores notáveis.

Roche Solutré-Pouilly: Marco geológico importante

Dentre os melhores produtores estão Château Fuissé, Verget, Guffens-Heynen, além do domaine em destaque, Domaine Ferret (importadora Mistral – http://www.mistral.com.br). Outra boa dica é da importadora Cellar (www.cellar-af.com.br) com vinhos típicos da apelação do produtor Saumaize-Michelin.

Como curiosidade, bem ao norte de Mâconnnais, existe um Chardonnay botrytisado, uma espécie de Sauternes local, do produtor Jean Thévenet do Domaine de la Bongran. A ocorrência da Botrytis é corriqueira e natural. Vinhos exóticos e bem conceituados. Boa pedida para quando estiver na região.

Domaine de Courcel: A essência de Pommard

23 de Maio de 2013

No frenético marketing do mundo do vinho, os lançamentos em várias importadoras multiplicam-se. Na maioria das vezes, um estardalhaço bem acima do vinho comercializado. Já a importadora Cellar (www.cellar-af.com.br), com um portfólio enxuto e vinhos “didaticamente” escolhidos, mantém a discrição e sobriedade de seu proprietário, o expert Amauri de Faria. Um de seus últimos lançamentos é nada mais, nada menos, que Domaine de Courcel, um dos ícones da Borgonha. Juntamente com Comte Armand (produtor já comentado em outros artigos deste blog), espelha toda a nobreza da apelação Pommard, uma das mais famosas comunas da Côte de Beaune. Só para nos situarmos, segue abaixo um mapa ilustrativo desta comuna.

Melhores vinhedos: Rugiens e Epenots

Já comentamos em artigos anteriores sobre a dificuldade de acerto em comprar vinhos da Borgonha. É um campo minado, onde todo o cuidado é pouco. Primeiro passo, escolher uma comuna e saber de suas características. No caso de Pommard, sabemos que seus tintos são potentes, musculosos, principalmente tratando-se de Pinot Noir e da sub-região de Beaune que prima por tintos mais leves. Segundo passo, escolher os especialistas da respectiva comuna. É nesta hora, que Domaine de Courcel é referência absoluta, ou seja, se você não gostar de seus vinhos, mude de comuna.

Falando agora dos vinhos propriamente ditos, Courcel elabora dois excepcionais: Les Rugiens (1,07 hectares) e  Le Grand Clos des Epenots (4,89 hectares). Esses dois Premiers Crus apresentam uma tanicidade marcante, lembrando um pouco os grandes Barolos no melhor sentido da palavra (que os franceses não me ouçam). Numa sintonia fina, Rugiens é mais elegante e Clos des Epenots é mais potente e viril. São vinhos de longa guarda, desenvolvendo aromas terciários fascinantes. As vinhas são sexagenárias com rendimentos em torno de 25 hectolitros por hectare. O controle de temperatura na fermentação, bem como a extração de cor e taninos, são precisos.

Mesmo seu Village, simplesmente apelação Pommard, é de grande categoria. Trata-se do vinhedo Les Vaumuriens de ínfimos 0,35 hectares, praticamente um jardim. Suas vinhas têm quarenta anos de idade, e estão suficientemente adaptadas a expressar todo seu terroir. Não tem a estrutura e longevidade dos vinhos anteriormente descritos, mas são autênticos e prazerosos.

Domaine de Courcel adota a cultura biológica em suas vinhas, deixando seu terroir expressar-se da forma mais natural possível. Os vinhos passam cerca de vinte meses em barricas não totalmente novas. A ideia principal é proporcionar uma micro-oxigenação e estabilização para seus vinhos, jamais sobrepujando a fruta.

A importadora Cellar dispõe das belas safras 2009 e 2010 a preços bastante convidativos em relação à categoria de seus vinhos. Compra certeira para grandes borgonhas.

Tintos para o Verão: Parte I

14 de Janeiro de 2013

Quando pensamos em tintos para o verão, pensamos em vinhos relativamente leves, que podem ser refrescados e com aromas que lembram frescor e delicadeza. Neste contexto, os vinhos elaborados com a uva Pinot Noir são emblemáticos e com boa disponibilidade no mercado. Porém, alguns cuidados devem ser tomados para não comprarmos gato por lebre. A primeira grande divisão é separamos tintos da Borgonha do restante não só da França, como principalmente dos países do chamado Novo Mundo. Mesmo dentro da Borgonha, esta leveza, este descomprometimento em acompanhar pratos leves do verão, inclusive lanches frios, nos leva a vinhos mais simples e consequentemente com preços menos assustadores. Os vinhos de apelações mais genéricas encaixam-se bem neste perfil. O ideal é optarmos pelos comunais ou Villages onde o nome da comuna mais restritiva, garante de certo modo, a preservação da tipicidade ligada ao terroir, conceito este tão respeitado e procurado pelos amantes da região. Procurem deixar as categorias Premier Cru e Grand Cru para ocasiões especiais, para pratos mais sofisticados e sérios, muitas vezes mais apropriados para uma estação mais amena, inclusive inverno. Não que estas categorias apresentem vinhos pesados ou encorpados, pelo contrário, mas são vinhos de maior profundidade, com carga tânica muitos vezes dissonantes com o propósito deste artigo. Resumindo, não tem sentido acompanhar um lanche frio de verão com um Chambertin (um dos belos Grands Crus da Côte de Nuits).

Belo produtor numa grande safra (2009)

Anne-Françoise Gros é importado pela Cellar (www.cellar-af.com.br). Uma apelação genérica, mas altamente abalizada pela qualidade do produtor, culminando numa safra perfeita. Ótima pedida para o propósito do artigo.

Continuando na França, a grande região a ser explorada para estes tipos de tintos é o Vale do Loire. Aqui, uvas como Gamay, Pinot Noir e Cabernet Franc, são fontes de tintos originais e com todas as características que procuramos. A apelação Sancerre para tintos molda vinhos à base de Pinot Noir perfeitos para acompanhar pratos de verão. São leves e podem ser servidos agradavelmente refrescados. As apelações Bourgueil e Chinon por exemplo, desde que não sejam topos de gama de suas respectivas vinícolas, são vinhos baseados em Cabernet Franc de clima frio. Também são muitos aromáticos e refrescantes. A uva Gamay dificilmente aparece sozinha nas apelações. Em Anjou e Saumur por exemplo, ela normalmente é mesclada com a Cabernet Franc, gerando vinhos leves e delicados. Aliás, Gamay é a uva do Beaujolais, vinho também emblemático para o verão. Exceto alguns Crus como Morgon e Moulin à Vent, toda a gama de Beaujolais é bem-vinda para o verão. Portanto, use e abuse desta apelação. Só para esclarecer, Beaujolais não faz parte do Loire, e sim da Borgonha, embora alguns autores a excluam desta região.

Pinot Noir Reserve Expresión 2009

Produtor francês radicado no Chile

O rótulo acima é uma boa pedida do Novo Mundo que falaremos a seguir. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br), este produtor procura preservar a delicadeza da cepa em seu rótulo mais simples.

Saindo da França, voltamos à Pinot Noir agora focando o Novo Mundo. Praticamente, todos os países deste bloco cultivam em maior ou menor escala esta temperamental cepa. O problema crônico do Novo Mundo é que estes vinhos costumam ser mais encorpados que deveriam, mais extraídos e mais amadeirados. Portanto, um tanto pesados para as características da uva. No Chile, regiões frias como Casablanca e Leyda, moldam alguns exemplares adequados ao nosso tema. Os mais simples, menos amadeirados, e portanto mais em conta, são os mais indicados para nosso propósito. Nova Zelândia, é outro país a ser explorado. Regiões como Martinborough e Central Otago são as mais promissoras para esta irriquieta casta. Talvez seja mesmo o país com maior potencial para Pinot Noir de caráter diferenciado, mas ainda é uma promessa. Falando agora de Argentina, a fria região da Patagônia é a mais entusiasmante. Um produtor em particular, destaca-se sobre os demais, Bodega Chacra. Falamos com mais profundidade deste produtor biodinâmico em artigo específico neste blog (verificar – Chacra e Noemía: Bodegas de Terroir). Demais países como África do Sul, Austrália, Brasil, Uruguai e Estados Unidos, as escolhas são pontuais e pessoais. A dica é procurar as regiões mais frias nos respectivos países. Um parênteses deve ser feito aos Estados Unidos. Existem vinhos de altíssimo nível, sobretudo na região de Russian River, que muitas vezes rivalizam com grandes exemplares da Borgonha. Contudo, são vinhos mais complexos e diferenciados, caindo na mesma consideração dos Premiers e Grands Crus da Borgonha exposta no início do artigo.

Toscana: Parte III

27 de Setembro de 2012

Dando prosseguimento às atuais DOCGs da Toscana, abordaremos as denominações Morellino di Scansano, Montecucco Sangiovese e Elba Aleatico Passito, enumeradas abaixo nos itens 15, 12 e 10, respectivamente.

As várias denominações toscanas

Morellino di Scansano

Morellino, um dos muitos sinônimos da Sangiovese, protagoniza o corte desta recente DOCG na região de Maremma. A legislação exige pelo menos 85% de Sangiovese, podendo ser complementada por outras uvas tintas autorizadas na região. Vinho de médio corpo, boa acidez e tanicidade comedida. Normalmente, para ser tomado jovem. Existem versões mais sofisticadas com passagem por madeira mais acentuada. Fattoria di Magliano é uma bela vinícola representada aqui no Brasil pela importadora Cellar (www.cellar-af.com.br), com exemplares de Morellino di Scansano e Rosso Maremma, DOC que falaremos em artigos seguintes.

Montecucco Sangiovese

Ao norte da DOCG Morellino e ao sul da DOCG Brunello di Montalcino, encontra-se a recente DOCG Montecucco Sangiovese, aprovada no final de 2011. A legislação pede no mínimo 90% de Sangiovese, complementada eventualmente por outras uvas tintas autorizadas na região. O produtor Colle Massari da importadora Mistral (www.mistral.com.br) é uma boa referência para esta denominação.

Elba Aleatico Passito

DOCG recente, elaborada com a uva tinta 100% Aleatico. Esta uva tem parentesco com a Moscatel e é também chamada de Moscatel tinto. Além da ilha de Elba, pertencente à Toscana, é cultivada com sucesso na região sulina da Puglia. É um vinho tinto doce elaborado com uvas passificadas, concentrando sobremaneira os açúcares. Muitas vezes, apresenta o característico aroma de lichias. Infelizmente, não temos exemplares no Brasil. Contudo, pode ser encontrado na importadora World Wine (www.worldwine.com.br) um Aleatico di Puglia Passito do produtor Feudi di San Marzano. Não é o mesmo terroir, mas uma boa aproximação da versão toscana.

Próximo post, as principais DOCs da Toscana como Bolgheri, Maremma e Vin Santo.