Archive for the ‘Espanha’ Category

Terroir: Rioja DOCa

8 de Agosto de 2011

Rioja é sinônimo dos mais emblemáticos vinhos da Espanha. Possui a mais alta classificação nas leis espanholas como Denominación de Origen Calificada (DOCa) ou em catalão DOQ (Denominació d´Origen Qualificada) . Os tintos são famosos, mas os brancos podem ser surpreendentes. As designações Crianza, Reserva e Gran Reserva são comumente mencionadas em seus rótulos.
Localizada na porção centro-nordeste da Espanha, goza de um clima de transição (entre o Atlântico e o Mediterrâneo), com solos diferenciados em três sub-regiões, conforme mapa abaixo:

Rioja Alta e Alavesa são as porções mais nobres

Conforme foto abaixo, observamos o solo mais claro, rico em calcário, na sub-região de Rioja Alavesa, protegida ao fundo pela cadeia de montanhas da Serra Cantabria. No mapa acima, vemos que Rioja Alavesa está localizada na margem norte do rio Ebro num solo argilo-calcário, muito propício ao cultivo da cepa Tempranillo, gerando vinhos elegantes e de boa acidez. Já em Rioja Alta, as variações de solo são constantes, apresentando muitos locais de solo aluvial, ora com presença maior de calcário, ora com presença marcante de argila rica em ferro, gerando Tempranillos mais austeros e taninos mais marcados. Por último, na sub-região de Rioja Baja (baixa), predomina os solos de argila ferruginosa, porém  em altitudes mais baixas e clima mais quente. Nessas condições, a cepa Garnacha consegue seu amadurecimento ideal, gerando vinhos macios, de bom teor alcoólico, embora sem grande complexidade. Mesclada devidamente aos lotes de Tempranillo, pode-se encontrar o equilíbrio ideal dos grandes Riojas. Além da Garnacha, existem outras tintas como Mazuelo (Carignan na França) e Graciano, em pequenas porcentagens. Contudo, o cultivo da Tempranillo nas três sub-regiões é marcante, respondendo por 85% ( pouco mais de 50.000 hectares) do cultivo entre as uvas tintas.

Nas uvas brancas, o predomínio da Viura (Macabeo na Catalunha) é amplo com mais de 90% (cerca de 3.700 hectares), complementado pelas uvas Malvasia e Garnacha Blanca, entre outras.

Rioja Alavesa com Sierra Cantrabia ao fundo

Os vinhos de Rioja normalmente passam em barricas, mas existe também a categoria joven ou sin crianza, que conserva os aromas primários, muitas vezes sem nenhum contato com a madeira. A maciça maioria é de tintos, respondendo por cerca de 90% da produção, ficando o restante entre brancos e rosados (dados de 2010).

Cosecha

É a designação para os vinhos chamados de joven ou sin crianza. Devem ser lançados no primeiro ou segundo ano e respondem por mais de 40% da produção, incluindo praticamente todos os brancos e rosados.

Crianza

Esta é a primeira categoria de amadurecimento com passagem por madeira e garrafa. É necessário a passagem por barrica por no mínimo 12 meses, sendo o restante em garrafa. O vinho só pode ser lançado no mercado a partir do terceiro ano. Para os brancos, o tempo mínimo é de seis meses em barricas. Quase 40% da produção total dos riojas é representada pela categoria Crianza.

Reserva

Praticamente a mesma exigência mínima da categoria crianza, só que deve ser completado inteiramente o terceiro ano. Na prática, fica um pouco mais de tempo tanto em barrica, quanto em garrafa. Os brancos só são liberados a partir de dois anos, sendo pelo menos seis meses em barrica.

Esta categoria responde por pouco mais de 15% de toda a produção da denominação Rioja.

Gran Reserva

Devem permanecer pelo menos dois anos em barricas e mais três anos em garrafa. Para os brancos, o tempo mínimo de barrica continua sendo seis meses, porém só podem ser lançados a partir do quarto ano, já devidamente amadurecidos em garrafa. Apenas cerca de 2% de toda a produção de Rioja respondem por esta categoria.

Para as categorias Crianza, Reserva e Gran Reserva são utilizadas mais de um milhão e duzentas mil barricas de 225 litros no amadurecimento de seus vinhos. É importante salientar que as características especiais de cada lote de vinho são fundamentais para dar origem a uma determinada categoria, ou seja, um Gran Reserva não é um crianza que passou mais tempo em barrica e garrafa. De fato, as exigências de tempo mínimas em cada categoria visa promover o amadurecimento adequado, de acordo com o extrato e estrutura de cada lote de vinho.

Os dados estatísticos deste artigo referem-se ao ano de 2010 e foram extraídos do site oficial www.riojawine.com . As demais informações são baseadas neste mesmo site.

Terroir: Priorato

1 de Agosto de 2011

Priorato ou Priorat (em catalão) compartilha com Rioja a classificação máxima nas atuais leis espanholas, como Denominación de Origen Calificada (DOCa). Situada na porção nordeste da Espanha, sub-região da Catalunha, dentro da província de Tarragona. Abaixo, mapa dos principais municípios que formam o Priorato.

11 municípios formando a famosa denominação

Esta região foi inspiração para outra denominação espanhola chamada Bierzo, apresentada em artigos anteriores enfatizando a uva local Mencía. De fato, há muitas características em comum, tais como: solos ricos em pizarras (espécie de argila laminar), orografia acidentada e revitalização de vinhedos antigos com cepas autóctones. Pizarra ou llicorella em catalão, são solos pedregosos de origem metamórfica, ou seja, modificação de argilas ricas em mica e quartzo por ação de temperatura e pressão ao longo das eras geológicas.

Voltando ao Priorato, na década de oitenta do século passado, houve uma recuperação dos vinhedos plantados com antigas cepas de Garnacha (Grenache) e Cariñena (Carignan), motivada por enólogos famosos (sobretudo, René Barbier e Álvaro Palacios) que perceberam o potencial da região. Com rendimentos muito baixos e uma bela concentração nos mostos gerados a partir de videiras antigas, foi possível elaborar vinhos musculosos e com incrível mineralidade, advinda deste solo particular. São vinhos potentes, calorosos e bem apropriados para este nosso período invernal.

Relevo montanhoso: altitude entre 300 e 700 metros

Apesar de existirem pequenas quantidades de vinhos brancos, rosés e até fortificados (generosos), estamos ressaltando os tintos, que efetivamente deram fama à região. Os tradicionais tintos do Priorato são elaborados à base de Garnacha e Cariñena de videiras antigas, em proporções variadas. Podem ser até varietais. Nos Prioratos mais modernos, há uma mescla com castas internacionais (francesas) como Cabernet Sauvginon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Syrah, Ull de Lebre (Tempranillo) e Picapoll Negro, em pequenas proporções, sem uma definição rigorosa.

Solos de pizarras (Llicorella em catalão)

A graduação alcoólica mínima para esses tintos é de 13,5º e o tempo de permanência em barricas é de seis, doze e vinte e quatro meses para as designações crianza, reserva e gran reserva, respectivamente. Para vinhos de tal concentração, o rendimento máximo é de 39 hectolitros por hectare, sendo que na prática, mostra-se bem menor (muitas vezes, abaixo de 20 hl/ha). Os vinhedos de Garnacha e Cariñena respondem por mais de 60% da área de cultivo.

Nas principais importadoras  (Mistral, Vinci, Grand Cru, Decanter) podem ser encontrados belos exemplares. Evidentemente, os vinhos de alta gama dos produtores mais famosos têm seu preço. A produção é muito pequena e os rendimentos são baixíssimos. Pratos à base de carnes vermelhas ou caças com molhos densos e condimentados costumam harmonizar muito bem.

Destaques: Clos Mogador (Mistral), Alvaro Palacios (Mistral), Mas Martinet (Grand Cru) e Roquers de Porrera (Decanter). As respectivas importadoras estão entre parênteses.

Jerez: Parte V

6 de Outubro de 2010

Neste último post, vamos abordar rapidamente os vinhos doces de Jerez, que não são meus preferidos, mas têm seu mercado cativo.

Primeiramente, os chamados Generosos de Licor. Foi uma criação para o mercado inglês principalmente, em três categorias: Pale Cream, Medium, e Cream. Devem ser servidos entre 12 e 14ºC, respeitando corpo e intensidade aromática, ou seja, Pale Cream um pouco mais fresco que o intenso Cream.

Pale Cream é o mais leve dos três citados, elaborado a partir de um Fino ou Manzanilla, com adição de mosto concentrado retificado. Isto significa que o mosto é de uva Palomino com uma pequena adição de aguardente vínica. Seu teor de açúcar residual deve ficar entre 45 e 115 gramas por litro. Pode ser interessante para certos pratos da cozinha chinesa com molhos agridoces.

A categoria Medium parte de um Amontillado, onde é adicionado  vinho doce natural (Pedro Ximénez ou Moscatel), que veremos mais adiante. Tem aromas com predomínio de toques oxidativos, sendo mais encorpado que o Pale Cream.

Por último, a categoria Cream. Este é obtido a partir de um Oloroso, com adição de vinho doce natural. Tem caráter fortemente oxidativo, é o mais untuoso e encorpado, além de açúcar residual entre 115 e 140 gramas por litro. Pode acompanhar muito bem crema catalana (crème brûlée na versão espanhola).

Partindo de um Fino e um Amontillado, respectivamente

Dulces Naturales

São Jerezes extremamente doces e untuosos com açúcar residual entre 180 e 500 gramas por litro. Os varietais são elaborados com Moscatel de Alexandria e a famosa Pedro Ximénez.

Em qualquer um dos casos, essas uvas são colhidas e soleadas em esteiras por algumas semanas, perdendo água e concentrando açúcares. O mosto praticamente não é fermentado, pela própria concentração acentuada de açúcares, sendo então fortificado (encabezado) com aguardente vínica. A solera para cada uma das uvas é sempre em crianza oxidativa. Não há corte entre as uvas. São sempre varietais.

Devem ser servidos em torno de 14ºC e acompanham sobremesas bem doces, sorvetes, chocolates e queijos azuis de sabores  acentuados. Costumamos dizer: se estes vinhos não aguentarem um determinado prato, não precisam perder tempo com mais nada. A diferença básica entre um Pedro Ximénez e um Moscatel, é neste último encontrarmos alguma nota floral e também cítrica. Contudo, potência e untuosidade são muito semelhantes. Podem ser também excelente companhia para charutos potentes com toques achocolatados, como um Vegas Robaina Unico (formato semelhante ao Montecristo nº 2).

Com relação ao Pedro Ximénez, cabe uma observação pouco comentada e também pouco conhecida. Os grandes Pedro Ximénez, salvo as devidas exceções, não estão em Jerez, e sim, na denominação Montilla-Moriles, região relativamente próxima. Meu amigo Juan da importadora Península (www.peninsula1.com) tem belos exemplares desta maravilha.

Moscatel de solera especial

Ufa! Chegamos ao fim sobre o mundo Jerez. Na verdade, um mundo interminável, com muitos segredos ainda não revelados. Agora, depois destes cinco posts, é possível olhar para a figura abaixo, e achá-la menos confusa do que normalmente parece.

Fluxograma complexo na produção de Jerez

É importante que cada um de nós, que gostamos de vinhos diferentes e originais, que saiam da mesmice do dia a dia, possamos valorizar e divulgar os grandes vinhos de Jerez, talvez o maior tesouro vitivínicola da Espanha.

Maiores informações, consultar site oficial www.sherry.org,  bastante abrangente e completo, satisfazendo outras curiosidades não mencionadas nesta série de posts.

Jerez: Parte IV

3 de Outubro de 2010

Neste post abordaremos Jerezes especiais, dificilmente encontrados no Brasil, mas quem viaja freqüentemente, pode encontrá-los com mais facilidade, além de preços vantajosos. Para tanto, é preciso ter a conceito do termo “almacenista”. São bodegueros com larga experiência na elaboração de Jerezes, que selecionam a dedo lotes especiais de mostos para serem educados em soleras individualizadas e normalmente pequenas. É o caso da foto abaixo: este é um Amontillado de alta estirpe, criado pelo almacenista Miguel Fontadez Florida em Jerez de La Fronteira numa solera de 30 botas (nome local dos tonéis em Jerez). Normalmente, são jerezes de altíssima qualidade, com aromas terciários incríveis. Este Amontillado por exemplo, Babette tem que caprichar muitíssimo na sua sopa de tartaruga.

Informações no rótulo que homenageiam o almacenista

A bodega Lustau tem uma série de almacenistas que infelizmente não chegam ao Brasil. Entretanto, toda a gama de seus vinhos são de alto nível. A importadora Expand ainda tem alguns exemplares.

Vinos de Vejez Calificada

Oficialmente, a atual legislação controla a elaboração de Jerezes diferenciados e atesta com os selos abaixo a garantia e a origem do produto.

Selo VOS significa em latim, espanhol e inglês, respectivamente, Vinum Optimum Signatum, Vino Seleccionado como Optimo, Very Old Sherry. Este termo pressupõe jerezes elaborados em soleras especiais com sacas (engarrafamento) de idade média superior a 20 anos. As normas de controle e reposição da solera são muito rígidas.

Selo VORS significa em latim, espanhol e inglês, respectivamente, Vinum Optmum Rare Signatum, Vino Seleccionado como Optimo y Excepcional, Very Old Rare Sherry. Este termo a exemplo do termo acima, pressupõe média de idade acima de 30 anos.

Selo oficial para as categorias VOS e VORS

 

Vinos con Indicación de Edad

Trata-se de uma categoria semelhante a de Vinos de Vejez Calificada, porém com um tempo médio mais curto, entre 12 e 15 anos. Os padrões de origem, garantia e rigidez são semelhantes. A idade média pode ser expressa no rótulo, conforme figura à direita abaixo.

Vinos de Añada

Esta é uma categoria especial, onde pode ser declarada a safra da solera. Portanto, trata-se de uma solera estática, sem possibilidade de rejuvenescimento com safras mais novas. A solera é lacrada pelo Conselho Regulador e tem caráter evidentemente oxidativo. Os vinhos selecionados para este tipo de solera devem ter características peculiares, sendo a principal, enorme resistência à acentuada oxidação. É o caso do Oloroso abaixo na figura à esquerda.

Nestas três categorias especiais (Vinos de Vejez Calificada, Vinos con Indicación de Edad e Vinos de Añada) pelo forte caráter oxidativo da solera, os tipos de Jerezes permitidos são: Amontillado, Oloroso, Palo Cortado e Pedro Ximénez.

Jerez: Parte III

29 de Setembro de 2010

 

Matizes de cores incríveis

Neste post abordaremos as principais características dos vários tipos de Jerez, sempre secos, deixando os adocicados artificialmente, e também o próprio Pedro Ximénez, para uma outra ocasião.

Fino

Jerez criado sempre com a presença da flor (crianza biológica). Este tipo é extremamente seco, pois a flor alimenta-se de boa parte do glicerol, um pouco de álcool, boa parte do ácido lático e praticamente todo o açúcar residual, o qual é comumente encontrado em qualquer vinho dito seco. Com isso, todos os elementos que conferem maciez ao vinho ficam afetados, enfatizando muito a acidez, principalmente a málica. Além disso, os aromas advindos da atuação da flor sobre o vinho são bastante acentuados na família dos aldeídos (nozes, amêndoas, aroma medicinal).

Sua cor correta deve ser sempre o amarelo-palha bem claro, e com grande luminosidade, brilhante. É um excelente aperitivo e deve ser servido gelado (em torno de 8ºC). É o parceiro ideal das tapas (petiscos variados da cozinha espanhola). Encara como nenhum outro vinho, entradas salgadas, picantes e ácidas.

Manzanilla

É um tipo especial de Fino criado em Sanlúcar de Barrameda, com forte influência marítima. Normalmente, é mais leve e delicado que um Fino, com características semelhantes de aroma e de cor. Seu diferencial é a salinidade, um certo aroma floral e de maça verde, já que é rico em ácido málico.

Deve ser servido também gelado e acompanha os mesmos pratos de um Fino. Entradas com acentuado sabor de maresia, combinam perfeitamente com este tipo, que é sem dúvida nenhuma, um dos melhores aperitivos no mundo dos vinhos.

Não podemos deixar de mencionar um tipo muito especial denominado de Manzanilla Pasada. São Manzanillas diferenciadas que enfrentam soleras muito prolongadas, onde a flor fica parcialmente debilitada, dando origem a leves toques oxidativos. Um belo exemplo deste Jerez de exceção é o Hidalgo Pastrana, importado pela Mistral (www.mistral.com.br). Pode acompanhar muito bem entradas com Bottarga (ovas secas de tainha), um ingrediente exótico e de difícil harmonização.

Amontillado

Jerez imortalizado no clássico “A Festa de Babette”, compartilha crianza biológica com crianza oxidativa, já que a flor tem uma atuação parcial no processo. Sua cor já denota certa oxidação, desde um dourado claro, até um âmbar menos acentuado. Isso vai depender muito do produtor e da solera específica. Seus aromas guardam algo do fino, mas normalmente as notas oxidativas de frutas secas e traços empireumáticos prevalecem.

Deve ser servido em torno de 14ºC e acompanha muito bem sopas (até mesmo a de tartaruga), além de queijos semicurados, aspargos e alcachofras. Particularmente, é meu preferido para o famoso jamón Pata Negra.

Oloroso

Elaborado totalmente em crianza oxidativa, sua cor é bastante acentuada, tendendo ao âmbar escuro. Aromas potentes de frutas secas, notas empireumáticas e de cogumelos. A diferença gustativa deste tipo para o Amontillado é a maciez, pela presença da glicerina, já que não há atuação da flor.

Deve ser servido em torno de 14ºC e acompanha muito bem queijos curados (manchego viejo), patês de sabor acentuado (carne de porco, caça) e saladas com confit de pato desfiado.

Palo Cortado

Um tipo raro de Jerez entre o Amontillado e o Oloroso. O bodeguero precisa ter muita sensibilidade para perceber características distintas no mosto no momento da fortificação. Ocorre uma curta crianza biológica, seguindo posteriormente o caminho de um Oloroso. Em suma, seria um Amontillado diferenciado. Além de aromaticamente mesclar o estilo Amontillado e Oloroso, aparecem notas cítricas (laranja) e de manteiga.

Deve ser servido também em torno de 14ºC e pode ser apreciado como vinho de meditação. É importante ter uma culinária de alta classe para esta categoria de Jerez. Experimente um belo patê de Foie Gras ou um queijo manchego especial semicurado. Frutas secas de um modo geral não comprometem sua apreciação.

Jerez: Parte II

26 de Setembro de 2010

 

Tradicional sistema Solera

Continuando a detalhar os segredos de Jerez, vemos acima o sistema de amadurecimento ou de educação dos vinhos (em espanhol, crianza), chamado Solera. Esta é a principal razão pela quase totalidade dos vinhos de Jerez não terem safra. Neste sistema contínuo de entradas e saídas, o vinho é sempre rejuvenescido com safras mais recentes, eliminando progressivamente o vinho mais antigo da solera.

O sistema tende a ser mais dinâmico de acordo com o tipo de Jerez de cada solera. Para os finos, é essencial a manutenção da flor. Portanto, o sistema deve ser constantemente monitorado e ativo, como sacas sucessivas entre as criadeiras, de cima para baixo, até a soleira propriamente dita. Como é o tipo mais consumido, esta dinamização segue a ordem natural de consumo.

Para os Amontillados, a manutenção da flor é parcial, ou seja, depois de um certo tempo, a flor morre, seguindo o processo de crianza oxidativa. O amontillado pode ser elaborado pelo desenvolvimento natural da flor, a qual será menos vigorosa que a do tipo fino, que com o tempo morre naturalmente. A outra maneira, é provocar a morte da flor de um Jerez fino, não revigorando a solera. De todo o modo, as características de um amontillado são intermediárias entre os finos e os olorosos.

Por fim, os Olorosos. São vinhos que desde a fortificação, não desenvolveram a flor. Portanto, todo processo de solera se dará com crianza oxidativa. Evidentemente, suas cores são as mais escuras, intensificadas pela idade da solera.

Um último dado sobre a formação da flor. Antigamente, o fato de existir ou não flor em uma determinada bota de Jerez era algo misterioso e totalmente legado às condições naturais do ambiente e época do ano. Com o avanço da ciência e domínio de todos os processos de vinificação, atualmente cabe ao homem decidir ou não por sua formação. Através de um controle perfeito de temperatura, umidade e inoculação da levedura Saccharomyces Beticus, os vários tipos de Jerez são elaborados e dimensionados.

 

Venenciador: habilidade para o Circo de Soleil

Este profissional maneja como ninguém seu instrumento de trabalho, a venencia (faz a vez da pipeta para retirar um pouco de vinho da barrica). Eles são capazes de servir dez ou doze copitas (taças de boca estreita, lembrando uma flûte mais curta), sem cair uma gota fora, de qualquer uma delas.

O mundo Jerez continua no próximo post.

Jerez: Parte I

22 de Setembro de 2010

 

Logotipo do Conselho Regulador de Jerez

Toda vez que faço um artigo sobre os vinhos de Jerez, tenho absoluta certeza de que ainda é muito pouco para aliviar a injustiça, sobre um dos vinhos mais esquecidos dos consumidores. Sei que é difícil alguém gostar de Jerez pela primeira vez. É um vinho tão exótico, que pode causar a impressão de algum defeito, pela ignorância de quem o provar. Por isso, a melhor maneira de gostar de Jerez à primeira vista, é apresentá-lo acompanhando azeitonas, alice, ou comida japonesa (Afinal, o Jerez fino é o vinho que mais se aproxima do saquê). Esses ingredientes costumam aniquilar a maioria dos vinhos.

O logo acima mostra as três grafias deste grande vinho espanhol: Jerez (espanhol), Sherry (inglês) e Xérès (francês). Na verdade, a Andaluzia o produz, e a Inglaterra o divulgou mais que qualquer outra nação.

No mapa abaixo, podemos perceber o clima quente da região (extremo sul da Espanha), sobretudo no verão, já praticamente fazendo fronteira com o norte da África (Marrocos). Além do clima, a região formando um triângulo, tendo como vértices as cidades de Sanlúcar de Barrameda, Jerez de La Frontera e Puerto de Santa Maria, exibe um solo único, com marcante predomínio da albariza (solo branco esponjoso com alto teor de calcário). Este solo de excelente drenagem é importantíssimo para armazenar em camadas profundas, água da chuva no inverno, suficiente para as vinhas suportarem o cálido verão andaluz. A uva branca local Palomino completa o cenário, juntamente com a perspicácia do homem, solidificando os pilares deste terroir único.

Região quente da Andaluzia

A vinificação em Jerez ocorre também de maneira peculiar, gerando vinhos de vários tipos: finos, amontillados, olorosos e palo cortado. É fundamental salientar que o verdadeiro Jerez, de alta qualidade, é sempre seco. Os estilos doces são invenções inglesas para satisfazer certos nichos de mercado.

A figura abaixo mostra uma barrica (localmente chamada de bota jerezana) com a formação da flor (levedura típica da região que age sobre o vinho). A presença ou não da flor vai influenciar sobremaneira nas características organolépticas dos vários tipos de Jerez. Portanto, para os Finos e Manzanillas, a presença da flor é fundamental, dando origem à chamada crianza biológica, protegendo o vinho da ação oxidativa. Já para os Amontillados e Palos Cortados, temos a presença parcial da flor no processo de crianza. Finalmente, os Olorosos são criados na ausência total da flor, dando origem à chamada crianza oxidativa.

A importante proteção oxidativa da flor

A formação ou não da flor (Saccharomyces Beticus) envolve uma série de características específicas como clima, temperatura, umidade, entre outras, além do chamado imponderável. A flor se alimenta de nutrientes do vinho, principalmente o glicerol, o ácido lático, o açúcar residual e  o álcool. Para sua manutenção e vigor é importante uma boa oxigenação (preenchimento parcial das botas), e também, um rejuvenescimento com lotes de vinhos novos. É importante salientar que a flor só age depois do mosto normalmente fermentado entre 11 e 12º de álcool.

A fortificação em Jerez é sempre feita após a fermentação total do mosto. Daí a razão dos grandes Jerezes serem sempre secos. Para a formação e manutenção da flor, é importante que a fortificação não ultrapasse o teor de 15,5º de álcool. Portanto, os finos são fortificados em torno de 17º de álcool somente antes do engarrafamento, eliminando qualquer possibilidade da flor se desenvolver dentro da garrafa. Já os Amontillados e principalmente os Olorosos, são fortificados em 17º de álcool, para desenvolverem um processo exclusivamente oxidativo, sem a possibilidade da formação da flor. Portanto, a flor é muito sensível ao teor alcoólico da fortificação (encabezamiento em espanhol). Aqui vale o ditado: a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

No próximo post, detalharemos outros aspectos do mais famoso fortificado espanhol, fazendo jus à notável vocação da península ibérica, na elaboração deste tipo de vinho.

 

Destaque: Uva Mencía

15 de Agosto de 2010

 

Destaque na degustação da ABS-SP

A uva espanhola Mencía é cultivada no extremo oeste da província de León, divisa com a Galícia, sob as denominações Valdeorras, Ribeira Sacra e principalmente Bierzo. Esta última, criada em 1989, foi revitalizada na década de 90, numa situação muito parecida com a denominação Priorato. Por sinal, o grande Alvaro Palacios, aproveitando a experiência das antigas vinhas de Garnacha e Cariñena abandonadas na região, vislumbrou em Bierzo um grande potencial, num cenário semelhante.

Em resumo, temos um lugar montanhoso de clima continental, com alguma influência atlântica. O solo tem base argilosa, com algum calcário e presença de pedras, principalmente a típica Pizarra, espécie de argila laminar (trata-se de uma rocha metamórfica). A mineralidade desses vinhos costuma ser atribuída a este tipo peculiar de solo. As cepas, muitas delas antigas, têm média de idade acima de 60 anos, sendo algumas centenárias, e até pré-filoxeras.

Cepas antigas na denominação Ribeira Sacra

Os vinhos costumam ter boa presença de fruta, especiarias, ervas, notas minerais e madeira discreta. Gustativamente, são macios, acidez correta e tanicidade moderada. A princípio, não são vinhos de longa guarda. Devem ser consumidos até oito a dez anos de safra, salvo algumas exceções de vinhedos muito antigos, cuja  concentração e extrato justifiquem maior longevidade.

Dos rótulos degustados na ABS-SP, destacaram-se Valtuille Cepas Centenárias (importadora Grand Cru – www.grandcru.com.br), Dominio de Tares Bembibre e Dominio de Tares Cepas Viejas, ambos da importadora D´Olivino (www.dolivino.com.br) . Aliás, este último com o rótulo em destaque acima, tem nariz de margem esquerda. Boa surpresa para colocar às cegas, numa degustação de Bordeaux de bom nível.