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Vale do Loire: Parte III

18 de Janeiro de 2012

Ainda em nosso segundo Climat, Anjou-Saumur, vamos falar dos tintos da região baseados em Cabernet Franc. Em Saumur, o solo é predominantemente calcário com presença de pedras porosas denominadas tuffeau. Muitas adegas na região são escavadas nesta rocha, armazenando sobretudo o bom espumante da região sob a denominação Saumur Brut, elaborado pelo método tradicional. Uvas como Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Cabernent Franc, Cabernet Sauvignon, entre outras, participam do vinho-base. Sob a apelação Saumur, temos vinhos brancos baseados na uva Chenin Blanc (pelo menos 80% do corte) e vinhos tintos baseados na casta Cabernet Franc.

Todos eles, espumantes, brancos e tintos, são vinhos delicados, com muto frescor e ótimos para o verão, mesmo os tintos por serem pouco tânicos. Há uma apelação específica para tintos chamada Saumur-Champigny, onde seus vinhos baseados em Cabernet Franc são mais estruturados, porém longe de serem pesados ou muito encorpados.

Prosseguindo para o climat seguinte, temos a sub-região de Touraine, um pouco mais continental, mas ainda com influência atlântica. O clima aqui é mais seco que sua vizinhança em Anjou-Saumur. Isto favorece tanto o amadurecimento tardio da Chenin Blanc, como a principal tinta da região Cabernet Franc (localmente chamada de Breton), moldando vinhos de boa estrutura, mas sempre com frescor e equilíbrio.

Os tintos mais famosos estão sob as apelações Chinon, Bourgueil e Saint-Nicolas-de-Bourgueil. Os Chinons de solos mais pedregosos costumam ser mais leves, enquanto os de solos argilo-calcários mais estruturados e intensos. O mesmo ocorre com Bourgueil e Saint-Nicolas-de-Bourgueil, mas no geral são mais encorpados que os de Chinon.

Um dos mais autênticos Cabernets do Loire

O vinho acima já foi destaque neste blog (Produtor de destaque: Thierry Germain). É atualmente importado por Cave Jado (www.cavejado.com.br). Thierry Germain, proprietário da vinícola, cultiva seus vinhedos biodinamicamente e elabora vinhos de rara pureza.

Passando aos brancos, Touraine destaca-se por uma das mais belas expressões da uva Chenin Blanc através da apelação Vouvray. Podem ser espumantes elaborados pelo método tradicional, e brancos com vários graus de doçura, culminando com belos doces provenientes de uvas botrytisadas. O solo calcário aliado ao clima mais seco e ensolarado propicia o perfeito amadurecimento da tardia Chenin. As manhãs brumosas com alternância de sol é o cenário perfeito para o bom desenvolvimento da Botrytis.

Didier Champalou: assinatura de um belo Vouvray

O produtor acima é trazido pela importadora Club Tastevin (www.tastevin.com.br) a preços muito atraentes.

A apelação Montloius, vizinha a Vouvray, faz vinhos similares, mas sem o mesmo brilho. A genérica apelação Touraine faz vinhos espumantes, brancos, rosés e tintos, para o consumo cotidiano. Os brancos baseiam-se na Chenin Blanc, enquanto tintos e rosés nas uvas Gamay e Cabernet Franc.

Espumantes para as festas II

26 de Dezembro de 2011

Dando prosseguimento às opções de espumantes para o final do ano, mais três indicações francesas saindo das alternativas mais óbvias. Todos eles elaborados pelo método tradicional (segunda fermentação em garrafa), sendo dois da apelação Crémant já comentada em artigo específico neste blog (Crémants de France).

 

Opções francesas a bom preço

Da esquerda para direita, temos um raro Crémant disponível no Brasil da fria região do Jura (região montanhosa limítrofe da Suiça). Na verdade, é um Blanc de Blancs (100% Chardonnay) que permanece pelo menos doze meses sur lies. Delicado, elegante e muito apropriado para recepções, entradas e pratos leves. Importado por Le Tire Bouchon (www.letirebouchon.com.br). O produtor Baud Pére et Fils elabora também grandes brancos como Château-Chalon, a melhor apelação para o famoso Vin Jaune, matéria de artigo neste blog (Chateau-Chalon: O Xérès da França).

A segunda opção é um Vouvray Brut do ótimo produtor Didier Champalou elaborado com a uva Chenin Blanc. Os aromas de mel e um fundo de marmelo são marcas registradas neste espumante. Acompanha bem pratos onde estão presentes damascos e/ou frutas secas. Importado pelo Club Tastevin (www.tastevin.com.br).

A última opção, também do Club Tastevin, é um Crémant d´Alsace do belo produtor René Muré. O vinho-base é um assemblage de várias uvas brancas e tintas como Pinot Blanc, Pinot Auxerrois, Riesling, Pinot Gris e Pinot Noir, todas vinificadas em branco. O contato sur lies é de pelo menos doze meses, conferindo boa cremosidade ao produtor final.

Feliz Ano Novo a todos!

Domaine Huet: Vouvrays à perfeição

28 de Novembro de 2011

Voltando ao tema Top Ten da Wine Spectator que acaba de ser divulgado referente ao ano de 2011, o terceiro lugar com 96 pontos ficou com a lendária Domaine Huet, produtora dos melhores Vouvrays, uma das mais famosas apelações francesas do Vale do Loire, com base na temperamental casta Chenin Blanc. O vinho é o Vouvray Moelleux Clos du Bourg Première Trie da grande safra de 2009 na Europa.

Evidentemente, não é esta premiação que faz Domaine Huet ser uma das poucas vinícolas no mundo a alcançar um status quase imortal. Seus vinhedos são considerados verdadeiros patrimônios da viticultura francesa ao lado de Coullée de Serrant (Chenin Blanc da apelação Savennières), Chateau Grillet (o mais exótico Viognier do Rhône), Montrachet (o ápice na Borgonha), Chateau d´Yquem (o lendário Sauternes) e Chateau Chalon (a perfeição do Vin Jaune, já comentado em artigos anteriores). Todos, excepcionais vinhos brancos, capazes de envelhecer por décadas. O Domaine Huet Vouvray Haut de Lieu Moelleux  1947 é considerado num exclusivissímo grupo de grandes vinhos, como imortal. É aquele vinho que não tem parâmetros de comparação e que a idade parece não mais afetá-lo.

Conforme vídeo acima, Domaine Huet é composta de três terroirs, ou seja, seus três vinhedos: Le Haut-Lieu, Le Mont e Le Clos du Bourg, totalizando 35 hectares de vinhas (as mais antigas chegam a 50 anos). Cada vinhedo exibe particularidades em seu respectivo solo, transmitindo aos vinhos características específicas. O solo do vinhedo Le Haut-Lieu é de natureza argilo-calcária com predominância de argila escura, gerando vinhos macios e elegantes. Já o vinhedo Le Mont, apresenta um solo pedregoso com presença de siléx, gerando vinhos muito delicados e femininos. Por último, o vinhedo Clos du Bourg, delimitado por um muro de pedras, apresenta um solo pouco profundo diretamente acentado sobre rocha calcária, gerando vinhos estruturados e intensos.

Cada um destes vinhedos pode apresentar vinhos em três versões de açúcar residual, o que é muito comum em Vouvray, dependendo da época da colheita e as características específicas das safras. Portanto no rótulo, além do nome do vinhedo, uma das seguintes menções devem ser declaradas conforme detalhamento abaixo:

  • Sec – 3 a 5 gramas de açúcar residual por litro
  • Demi-sec (ou tendre) – 10 a 20 g/l (açúcar residual)
  • Moelleux – mais de 30 g/l (açúcar residual)

No caso de nosso vinho campeão (rótulo acima), a menção Première Trie significa a primeira passagem pelo vinhedo para colher as melhores uvas botrytisadas. Há outras passagens, aguardando um melhor amadurecimento das uvas restantes, mas a primeira é o supra-sumo da seleção. O vinho é extremamente equilibrado por conta de sua incrível acidez, em que pese um açúcar residual acima de 90 gramas por litro. Evita-se de todo modo a ocorrência da fermentação malolática, a fim de garantir grande longevidade em seus vinhos.

Domaine Huet é uma propriedade totalmente biodinâmica desde 1990, preservando e renovando com muito critério suas vinhas de idade avançada:

  • 50% – vinhas entre 30 e 50 anos
  • 35% – vinhas entre 10 e 30 anos
  • 15% – vinhas entre 01 e 10 anos

Em resumo, seus vinhos aparentam certa fragilidade por serem delicados e elegantes. Contudo, escondem uma concentração e estrutura capazes de envelhecer por décadas. Neste sentido, são os vinhos franceses mais alemães, trocando a bela Riesling pela intrigante Chenin Blanc. As duas uvas partilham fatores decisivos para toda esta longevidade: alta acidez e destacada mineralidade.

Os vinhos são trazidos ao Brasil pela importadora mineira Premium Wines – www.premiumwines.com.br

Os Gigantes das borbulhas

17 de Outubro de 2011

O espumante nacional continua sendo nosso melhor representante no mercado interno e também nas exportações. A produção está estimada em mais de doze milhões de garrafas para este ano de 2011. Contudo, em termos globais, os gigantes europeus apresentam números impressionantes e de forma consistente, ano após ano.

Produção de Espumantes na Europa Central

A França lidera as estatísticas com mais de 500 milhões de garrafas por ano, sendo só na região de Champagne, mais de 300 milhões. Os demais espumantes, chamados Mousseux, apresentam expressiva produção nas apelações Crémant d´Alsace, Crémant de Bourgogne e Vouvray.

Produção de Espumantes na França (Exceto Champagne)

Na Alemanha, o famoso Sekt, sinônimo de espumante, é responsável por mais de 350 milhões de garrafa, com a maciça maioria elaborada pelo método Charmat. Das cinco maiores empresas na produção de espumantes no mundo, três estão na Alemanha. As outras duas são o poderoso grupo francês LVMH e a gigante espanhola do Cava, o grupo Freixenet. Os alemães consomem praticamente tudo, além de importar mais alguns milhões de garrafas da França, Itália e Espanha.

Henkell: um dos gigantes do Sekt

A Itália aparece em seguida, com forte produção em sua porção setentrional. Asti Spumante com 85 milhões de garrafas e Prosecco (somente a DOCG Conegliano Valdobbiadene pela nova lei) com 70 milhões de garrafas apresentam grande destaque em termos de volume. Franciacorta, a excelência do método Champenoise italiano, tem grande prestígio, mas produz pouco mais de dez milhões de garrafas por ano. Piemonte, Oltrepò Pavese e Trentino, são grandes referências. A Itália praticamente exporta metade de sua produção.

A grande referência espanhola é o Cava, com sua produção baseada na Catalunha. É a quarta força em borbulhas no planeta, com mais de 200 milhões de garrafas por ano. Pouco mais da metade é destinada à exportação. Os grupos Freixenet e Codorníu somam mais de 75% na produção total de Cava.

Outros gigantes deste mundo de borbulhas são Estados Unidos, Rússia, Tailândia, Ucrânia, Polônia e Austrália.