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Triunvirato em Vosne-Romanée

30 de Março de 2019

Quando falamos dos grandes vinhos da Borgonha, nomes como Montrachet, Chambertin, Musigny ou Vosne-Romanée soam como a sinfonia perfeita. Indo um pouco mais a fundo, dentro da comuna de Vosne-Romanée existem muitos astros, mas nada se compara à Santíssima Trindade formada por DRC, Leroy e Henri Jayer. Foram exatamente esses vinhos que nos fizeram sonhar num belo jantar no restaurante Gero.

 

Oenothèque: agora P2 ou P3

Alguma coisa fora do Triunvirato acima, só mesmo um Dom Perignon Oenothèque da maravilhosa safra 1996 para abrir os trabalhos. O degorgement foi feito em 2008, portanto, 12 anos sur lies. Champagne de grande frescor, mineralidade, leveza, parecendo um Blanc de Blancs, embora em sua composição entre pelo menos 40% de Pinot Noir. Acompanhou muito bem um delicado carpaccio de atum.

img_5885garrafa muito bem conservada

Passando aos brancos, começamos com um “intruso” muito bem-vindo, Domaine Etienne Sauzet Chevalier-Montrachet 1992. Safra de destaque para esta apelação, o vinho mostrou-se integro, sem sinais de decadência. Pelo contrário, aromas já evoluído, mas com frescor e muita elegância. Um toque de caramelo e de botrytis permeavam seus aromas.

img_5876embate de gigantes

Encarar um Montrachet DRC é tarefa para poucos, mesmo se tratando de outros Montrachets. Entretanto, estamos falando de Domaine d´Auvenay, uma reserva particular de Madame Leroy do que ela tem de melhor. A produção desses vinhos quando muito, chega a poucas centenas de garrafas. No caso deste Chevalier-Montrachet 2009, é um vinho com grande concentração de aromas e enorme presença em boca. Deixou o DRC até um pouco tímido, tratando-se de um vinho também de certa potência. Sua persistência aromática é bastante longa e expansiva. Para completar o mérito deste Chevalier, a garrafa do Montrachet DRC estava muito boa com uns aromas de umami, lembrando shitake fresco, toques minerais delicados e um fundo de mel. Bela comparação, mostrando a grandeza e a força do terroir nestas apelações tão exclusivas.

 

pratos do menu exclusivo

O carpaccio de atum com Dom Perignon e a sopa de lentilhas e bacalhau com o Montrachet foram harmonizações bem agradáveis. O champagne com seu frescor e mineralidade formou um belo par com os sabores de maresia e o toque cítrico do molho do carpaccio. Já a sopa de lentilhas com o bacalhau tinha intensidade e textura para acompanhar os Montrachets, sobretudo o DRC, calibrando bem a harmonia de sabores.

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A fidalguia do maître Ismael sempre nos confortando, e o serviço de vinhos eficiente do sommelier Felipe Ferragone, preservando todas as rolhas, faz do restaurante Gero um porto seguro.

 

acredite, é um Richebourg DRC

Os tintos começaram em alto nível com um Richebourg DRC 1961. O estado do rótulo, foto acima, é inversamente proporcional ao nível do vinho. Uma garrafa muito bem conservada e íntegra. O vinho tanto na cor, como na força de seus taninos não revelava a idade de quase 60 anos. Seus aromas terciários e de grande mineralidade revelavam sous-bois, toques terrosos, e frutas escuras. Equilíbrio perfeito em boca com longa persistência final. Acompanhou bem o risoto de ervas com guisado de cordeiro.

img_5881um dos vinhos mais raros e disputados

Com 94 pontos, este Richebourg do mestre Henri Jayer esbanjou elegância num estilo oposto ao DRC acima. Muito delicado, com aromas florais, especiarias, e um fundo mineral, o estilo Jayer prima pelas nuances e sutilezas. Um vinho para meditar num equilíbrio perfeito em boca. Já totalmente pronto, num belo platô de evolução. O mítico Richebourg 1978 é um dos tintos mais disputados em leiloes mundo afora. O próprio Henri Jayer declarou certa vez que o Richebourg 78 foi seu grande vinho de todas suas vinificações.

img_5880quase 200 pontos na mesa

Ponto alto do jantar, dois Cros-Parantoux de grandes safras. Para um Premier Cru, o vinho é de uma elegância que poucos Grands Crus possuem. O 93 é a safra mais bem pontuada, ainda com uma força extraordinária. O vinho não está totalmente pronto com taninos muito finos, mas ainda a resolver. Os toques terrosos e as especiarias são muito bem mesclados à fruta. Já o 85, é puro devaneio. Um tinto gracioso, cheio de feminilidade, boca sedosa, e um final harmonioso. Uma grande safra nas maões de um grande Mestre. Salve Henri Jayer!

img_5886o infanticídio da noite

No final do jantar, avaliamos duas promessas da safra 2004 para os DRCs. Um Romanée-St-Vivant delicado, floral, taninos suaves, já bem agradável pela idade. Por outro lado, um La Tache austero, com taninos ainda ferozes, precisando ser domado pelo tempo. Um estilo bem masculino que deve evoluir bem pelos próximos dez anos.

Enfim, uma noite memorável com belos vinhos e a boa conversa pra lá de animada. Agradecimento a todos os confrades pela generosidade e companhia. Um adendo especial ao nosso Presidente pela alta competência na análise dos vinhos, acertando às cegas de maneira categórica todos as ampolas do jantar. Sem nenhuma arrogância, ele nunca acha, sempre tem certeza, provando mais uma vez, que degustação técnica é treino e atenção aos detalhes. Contra fatos, não há argumentos. Parabéns Presidente!

Saúde a todos e que Bacco sempre nos proteja!

Soldera, só em taça de Borgonha

23 de Fevereiro de 2019

Brunello di Montalcino, nos dizeres de Hugh Johnson, um vinho para heróis, para momentos épicos. Desde sua criação com Biondi-Santi, seus inúmeros seguidores propunham um vinho austero, imponente, para longo envelhecimento. Em seguida, num tempo bem mais recente, os chamados modernistas propuseram um Brunello mais macio, mais frutado, mais acessível na juventude. A casta é chamada de Sangiovese Grosso, um clone somente utilizado na região de Montalcino, pois sua maturação não ocorre perfeitamente na região do Chianti Classico, onde ali é cultivada a Sangiovese Piccolo.

gianfranco-soldera-brunello

momento de descontração

Pois bem, Gianfranco Soldera, propos um Brunello diferente, delicado, sutil, um verdadeiro Borgonha dentro da Toscana, sem perder a autenticidade do terroir. Seus vinhos super valorizados, são disputados em leilões, sobretudo em safras mais antigas. Com seu recente falecimento, esses vinhos se tornarão históricos, e seus preços …

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a taça sempre Borgonha e os tonéis eslavônios 

Sempre a taça borgonhesa e os tonéis de carvalho eslavônio ao fundo num dia frio em Montalcino. Seus taninos delicados e seus sutis aromas se adequam perfeitamente à taça, sobretudo com o envelhecimento.

História

Case Basse é uma vinícola de 23 hectares, localizada na parte central da denominação de origem Brunello di Montalcino, a 320 metros de altitude num solo de origem vulcânica. 

Podemos dizer que é uma vinícola de história recente, já que as primeiras safras foram de 1972 e 1973. O cultivo e a vinificação é totalmente natural, e o amadurecimento dos vinhos se dá em grandes tonéis da Eslavônia, madeira tradicional utilizada na região, por pelo menos quatro anos.

A produção anual é em média 15 mil garrafas  que podem chegar ao preço unitário de 500 euros. Das trinta safras já produzidas, todas de altissimo nível, Gianfranco cita a safra 1979 como safra de emoção.

soldera 79 e 90

Grandes safras: 79 e 90

O Símbolo no rótulo em forma de S vem da mitologia grega. Há um chafariz na propriedade com esta escultura. Para se ter uma ideia da pureza e naturalidade deste vinho, a Universidade de Enologia de Firenze participa da análise dos vinhos, relatando toda a microbiologia do processo. No início da fermentação participam vários tipos de leveduras naturais sem a presença ainda da Saccharomyces Cerevisiae, a qual só atua efetivamente no mosto a partir do terceiro dia de fermentação. O processo é lento e totalmente espontâneo, durando cerca de 60 dias. Toda a fermentação e amadurecimento é feito em madeira. A levedura natural dominante que atua após o processo fermentativo nos tonéis é a Oenoccocus Oeni. O amadurecimento em grandes Botti eslavônios pode chegar a cinco anos. O vinho é engarrafado sem filtração. 

Além do grande Soldera, sobretudo o Riserva, Case Basse elabora outros vinhos no portfolio, tais como: Soldera Pegasos, Soldera Intistieti e Rosso di Montalcino, este último um vinho mais simples, para consumo imediato. Quanto aos dois primeiros, são vinhos que passaram menos tempo em madeira, devido a características de safras específicas.

A novidade a partir de 2006, é que o grande Soldera abriu mão da denominação Brunello di Montalcino para uma denominação mais genérica chamada Toscana IGT com a menção 100% Sangiovese. O design do rótulo é idêntico ao Brunello tradicional da Casa. Só mesmo o prestígio do nome Soldera para dispensar uma denominação como Brunello, uma das mais prestigiadas da Itália. É quando a marca adquire terroir e diferenciais únicos. Angelo Gaja também fez isso com seus Barbarescos. Privilégio de poucos …

b6a89309-0eac-42e3-8fcb-5320fe8ef4b0vertical de Soldera

Com a devida introdução, vamos a uma bela vertical de Soldera realizada no restaurante Gero, Jardins. Foram sete safras, sendo a mais antiga 94, e a mais recente 2006. Todos os vinhos com mais dez anos, tempo suficiente para uma boa evolução em garrafa.

img_5699Leflaive brindando Soldera!

Para aguçar as papilas, uma dupla de brancos de respeito com a assinatura Domaine Leflaive. Começando com o raro Bienvenues Batard-Montrachet safra 2002. Um vinhedo que parece mais um jardim com 1,15 hectare de vinhas datadas de 1958 e 1959. Toda a elegância de Madame Leflaive num branco harmônico, em sua plenitude, com frescor e complexidade. O vinho é profundo sem ser pesado. Notas de flores, mel, pêssegos, e um fino tostado, permeiam a taça. Já seu oponente, o maravilhoso Chevalier-Montrachet, especialidade da Casa, estava um pouco cansado. Mesmo assim, era notável sua estrutura e sua riqueza aromática. Em sua melhor forma atinge 97 pontos como uma das melhores safras já elaboradas. 

img_5700um trio de respeito

Quase o mais antigo com o mais novo, as safras 1994 e 2003 se confrontaram. Mas quem se saiu muito bem foi o vinho da esquerda, o envolvente Soldera Riserva 2000. Um Brunello na sua plenitude, ótimo momento evolutivo, e com a marca Soldera de pura elegância. Tem 93 pontos Parker e bem o merece. Tinto macio, taninos finos, belo meio de boca, aromas de cerejas escuras, alcaçuz, e finas especiarias. Pessoalmente, o mais prazeroso da degustação.

Já o Soldera Riserva 1994 impressionou por sua estrutura e longevidade com taninos firmes e presentes. Um lado mais viril dentro da delicadeza Soldera. É bom lembrar que neste ano tivemos as duas versões, Riserva e não Riserva. O que difere esses vinhos é um ano a mais nos tonéis para o Riserva, antes da comercialização. Neste exemplar, podemos notar frutas em licor, especiarias como cardamomo, e algumas notas de chá, ou seja, aromas terciários em profusão. Por fim, o Riserva 2003 não emocionou tanto como os demais, embora ainda muito jovem. De qualquer modo, parece não ter o mesmo extrato que seus parceiros.

0016b4bd-417a-45a6-beeb-afc384aad9c2grandes safras em momentos distintos

Neste flight, temos vinhos semelhantes em estrutura, mas momentos distintos de evolução. As safras 2005 e 97 têm 92 e 93 pontos, respectivamente. Neste exemplar 2005, ainda muito vigor, vinho em evolução, mas com muita fruta, especiarias, notas defumadas, e um belo equilíbrio. Já o 97, um vinho maduro, com notas terciárias de tabaco, algo cítrico que lembra laranjas sanguíneas, de polpa vermelha, e um mineral terroso. Neste ponto do almoço, alguns pratos que acompanharam bem os vinhos, conforme foto abaixo.

pratos do Piemonte

Embora os Brunellos remetam a pratos de carne mais estruturados como a Bistecca alla  Fiorentina, por exemplo, os vinhos de Gianfranco Soldera são mais delicados e femininos, buscando uma cozinha mais requintada como a do norte da Itália. O risoto de funghi porcini fresco com os vinhos mais evoluídos ficou perfeito, enquanto o rico Bollito Misto teve mais presença com os vinhos jovens, mais vigorosos. Tudo bem executado pelo restaurante Gero, sob o comando impecável do maître Ismael.

img_5705embate de gigantes

Enfim, o gran finale, dois Solderas Riservas altamente pontuados das belas safras 2004 e 2006 com 97+ e 95+ pontos, respectivamente. Foi muito difícil julga-los, tal a semelhança de estrutura de ambos. Devem ser decantados com pelo menos duas horas de antecedência, pois ainda estão em evolução para pelo menos mais uma década. Todo o vigor das grandes safras, mas sempre com a elegância de um autêntico Soldera. Bom corpo de ambos, muita fruta madura e fresca, rico em especiarias, alcaçuz, e um fundo defumado. Taninos muito presentes e extremamente finos. No fotochart, o 2004 justifica seus dois pontos a mais com uma expansão de boca um pouco mais ampla. Contudo, dois belos Solderas fechando o almoço com promessas certeiras para as próximas décadas. 

clássicos italianos

As sobremesas com os clássicos do norte e sul da Itália, Tiramisu e Cannoli de Pistache, respectivamente, muito bem executadas, gentilezas de Rogerio Fasano.

De todo modo, uma bela homenagem a um dos grandes mestres da enologia italiana, Gianfranco Soldera, colocando seu talento acima do terroir de Brunello di Montalcino. Nos dizeres do próprio mestre, suas safras eram como filhos, sem distinção: “Non ce n´è annata meglio o peggio, sono diverse”. Descanse em paz Mestre, o céu tem muito a comemorar!

A sublimação da Grenache

10 de Fevereiro de 2019

O tema foi uma bela incursão pelo Rhône-Sul em busca de maravilhosos Chateauneuf-du-Pape, apelação emblemática e de grande heterogeneidade. Portanto, neste almoço no restaurante Gero, somente a fina flor de chateaux exclusivos onde a Grenache se manifesta magistralmente. Evidentemente, a maioria são blends na qual esta cepa predomina e imprime seu estilo franco e cheio de frutas em compotas. 

Oenothèque: antiga nomenclatura

Nada como abrir os trabalhos com Dom Pérignon, especialmente este Oenothèque com dégorgement feito em 2008 da bela safra 1996. Portanto, 12 anos sur lies, o que equivale a um P2 da nomenclatura atual. Champagne perfeito, perlage notável, mousse agradável e sedosa, os aromas delicados de pralina e toques amendoados, final rico e persistente. Não é a toa que trata-se das melhores cuvées produzidas  deste champagne de luxo nas últimas décadas com 97 pontos e muita vida pela frente.

bela harmonização

Em seguida, este branco exótico de vinhas antigas 100% Roussanne, o melhor branco do Chateau de Beaucastel. Vinho denso, concentrado, com toques de caramelo, flores, e algo balsâmico. Em boca, um pouco cansado devido à baixa acidez. Estes vinhos do sul do Rhône, normalmente pecam na longevidade por falta de frescor. Mesmo assim, ainda num ponto bom de ser apreciado, sobretudo acompanhando um belo Vitello Tonnato, brilhantemente executado. Harmonização surpreendente.

img_5651safra 2003: generosa

Já neste primeiro flight, o trio acima mostrou a que veio. Todos de alta gama com uma estrutura impressionante. O Beaucastel à esquerda, trata-se da cuvée Hommage a Jacques Perrin, só produzida em safras excepcionais como 2003. O fato curioso é que nesta cuvée há alta porcentagem de Mourvèdre, uva musculosa e tânica. Neste blend temos, 40% Mourvèdre, 40% Grenache, 10% Syrah, e 10% Counoise. Um vinho denso, taninos presentes, e o menos pronto do painel. Vai mais dez anos em adega, sossegado. 95 pontos Parker.

Chateau Pegau Cuvée da Capo, segundo vinho do flight, é outro vinho excepcional na concepção clássica de um Chateauneuf. Estão presentes as treze uvas da apelação, todas de vinhas centenárias nesta cuvée topo de gama. As uvas vêm de três terroirs consagrados, inclusive La Crau, um dos mais reputados da região. O vinho tem uma vinificação clássica, amadurecido em grandes tonéis. Muita fruta em compota, especiarias, garrigue (aroma de ervas provençais), e um equilíbrio notável em boca. Extremamente prazeroso no momento. 100 pontos Parker.

Roger Sabon é outro domaine de ponta com esta cuvée especial denominada “Le Secrets des Sabon” de vinhas centenárias com 95% de Grenache. Seria um fecho maravilhoso se o vinho não estivesse parcialmente oxidado, sobretudo em boca. Seus aromas tinham incríveis toques de cacau, além de taninos super polidos. Uma pena esta garrafa não estar em forma. 96 pontos Parker.

img_5654300 pontos na mesa

Segundo flight perfeito com vinhos magníficos em sua concepção na mítica safra 1990. Les Cailloux Cuvée Centenaire parte de vinhas antigas com 125 anos, sendo 85% Grenache e 15% Mourvèdre com rendimentos ínfimos de 15 hl/ha. O vinho tem uma riqueza de frutas extraordinária com toques de especiarias, alcaçuz e minerais. Boca macia, bem equilibrado, taninos absolutamente fundidos ao conjunto, e longa persistência final.

Nesta Cuvée des Célestins do gênio Henri Bonneau, ele seleciona as melhores barricas de safras excepcionais como 1990. É um blend de 90% Grenache complementada por um mix de Mourvèdre, Syrah, Counoise e Vaccarese. As uvas não são desengaçadas tal a maturidade do cacho na hora da colheita. Sempre com taninos presentes e de fina textura, seu equilíbrio é perfeito com notas de frutas em compota, especiarias, leves notas de estrebaria e um fundo de sous-bois. Uma pequena obra de arte.

O terceiro vinho completa a trilogia, Domaine de Marcoux Vieilles Vignes 1990. Com vinhas centenárias 100% Grenache, localizadas em três grandes terroirs da apelação, incluindo o imponente La Crau, o vinho tem uma vinificação clássica passando 18 meses em um mix de tanques de cimento e velhos toneis de carvalho. Um tinto super elegante, sensual, mostrando frutas em licor, alcaçuz, e finas notas de ervas e especiarias. Boca perfeita e final longo. Difícil definir o melhor, mas no momento só Henri Bonneau tem taninos mais presentes, capazes de boa evolução em adega.

img_5655flight surpreendente!

Pode não ter sido tecnicamente perfeito, mais foi o flight mais surpreendente pela presença de quase um intruso no páreo que foi colocado totalmente às cegas. Começando pelo Henri Bonneau com a mesma cuvée des Célestins dez anos mais nova, safra 2000. Está mais vigoroso que o 1990 por ser mais jovem, mas a concentração e qualidade de safra, um pouco abaixo, como era de se esperar. Mesmo assim, 94 pontos Parker.

Agora vamos falar de Rayas e suas surpresas. Chateau Rayas é algo fora da curva em Chateauneuf-du-Pape. Sua delicadeza e elegância fazem dele o Borgonha da região. Elaborado com uvas 100% Grenache de parreiras antigas num terroir único na região. O vinhedo de solo predominantemente arenoso fica em meio a um bosque, onde os dias são quentes e as noites frias, provocando a bem-vinda amplitude térmica, preservando a acidez das uvas sem prejuízo para sua plena maturação. Com 97 pontos Parker, este Rayas 2005 estava uma loucura. Aromas sedutores com notas balsâmicas, de frutas em compota, especiarias finas e um toque terroso notável. Taninos sedosos, totalmente fundidos ao conjunto, e um final de rara harmonia. Sempre um prazer provar um Rayas!

A surpresa ficou para o último vinho,  Pignan 2006, o segundo vinho do Chateau Rayas. O nome vem de três pinheiros que circundam o bosque ao redor do vinhedo. São uvas também 100% Grenache da parte norte do vinhedo com parreiras antigas e uma pequena parte, mais jovens. O vinho passa cerca de 16 meses em toneis de carvalho. Este exemplar estava divino pela prontidão do vinho. Em relação ao Rayas 2005, parecia um mais antigo de grande safra como 1990. Uma grata surpresa, provando ser este chateau, talvez o maior mito da apelação. Grande fecho de prova!

um intruso bordalês …

No apagar das luzes, eis que surge um bordalês para deleite de todos. Simplesmente um Petrus 1959, minha safra, engarrafado por Négociant, fato corriqueiro à época. Já comentei outras vezes, mais do que uma grande safra de Petrus, é ter a oportunidade de aprecia-lo já desenvolvido, já evoluído, entendendo assim a grandeza deste vinho. Os aromas eram deliciosos com muita trufa negra, toques terrosos, fruta em licor, e notas de cacau. Em boca, um pouco cansado, mas extremamente harmonioso, com tudo no lugar. Não está no time de cima dos grandes 1959, mas tem uma elegância e imponência ímpares. 

img_5660Rolhas intactas

Um dos pratos escolhidos pelos confrades foi o Bollito Misto (foto acima), sempre bem executado no restaurante Gero. Agradecimentos a toda equipe liderada pelo carismático Maître Ismael, além do trabalho primoroso de sommellerie de Felipe Ferragone na abertura e serviço de todos os vinhos.

60 anos transformam tudo

Nesses dois exemplares acima de Yquem, percebemos a grandeza de vinhos ícones que marcam a história de uma apelação. É impressionante como Yquem se impõe aos demais Sauternes. Neste exemplar de 1943, as décadas o transformam em outro vinho. O equilíbrio de açúcar e acidez é divino, numa harmonia notável. As notas de caramelo, melaço, toques de resina, são precisas e bem delineadas. Boca harmoniosa, expansiva, e quase imortal. Seu par à direita, ainda está na fase infantil, com notas de mel e crème brûlée. Intenso e com grande potencial de guarda.

bela combinação

Finalmente, para encerrarmos a aula sobre Botrytis, nada melhor que um belo Tokaji Aszu Eszencia 1993. Esta classificação não existe mais atualmente. Aszu Eszencia tem uma concentração de Botrytis entre 7 e 8 puttonyos (medida em peso de uvas botrytisadas). Este ainda feito à moda antiga, tem aquele charmoso toque oxidativo, lembrando frutas secas e damascos. Sua doçura é perfeitamente equilibrada pela incrível acidez da uva Furmint. Disznókó é uma das mais reputadas vinícolas com vinhedos históricos na região. A safra de 1993 é altamente pontuada como neste caso, 95 pontos. O nível de doçura e a textura do pudim de pistache foi de encontro às características do vinho.

Depois de quinze belas garrafas devidamente selecionadas, só resta-me agradecer aos confrades pela imensa generosidade e companhia. Um adendo deve ser feito a nosso Presidente, Mr. Parkus. O homem está insuportável em suas aferições às cegas, matando todos os flights degustados com segurança e argumentações precisas. Por enquanto, estou tranquilo, pois graças a Deus, ele ainda não escreve nada. Viva o Presidente! Saúde a todos!

Vosne-Romanée e seus Mistérios

24 de Dezembro de 2018

Encerrando o ano, alguns tintos de Vosne-Romanée com a assinatura DRC. E para ficar tudo em casa, um Corton-Charlemagne Domaine Leroy abrindo os trabalhos. O vinho safra 2011 estava maravilhoso com frutas exóticas como caju, bem casadas com toques tostados e de frutas secas. A produção destes vinhos é irrisória. Este Corton possui uma área de vinhas antigas de apenas 0,4325 ha, ou seja, menos de meio hectare. Isso é exclusividade!

entradinhas com o branco

Para falarmos dos DRCs, vamos recordar os vinhedos no mapa abaixo. Se o mapa da Borgonha fosse um alvo, os Grands Crus abaixo seriam a mosca. Aqui existe a conjunção perfeita do terroir: as melhores altitudes, as melhores composições de solo, as melhores declividades do terreno, entre outros fatores imponderáveis. O centro gravitacional de todos eles é o mítico Romanée-Conti.

IMG_5460a mosca do alvo

Os vinhos da foto abaixo, início da degustação, são de vinhedos que ficam à direita do mapa acima na comuna de Flagey-Echezeaux, mostrados no mapa abaixo. Sutilezas do mosaico bourguignon. 

Os vinhos degustados beiram a perfeição com notas acima de 95 pontos na estupenda safra de 1990. O Echezeaux é sempre o mais amável dos Grands Crus do Domaine. Muita elegância, taninos dóceis, e os aromas de rosas e sous-bois. Já o Grands-Echezeaux, sempre mais sisudo, mais austero, com acidez alta, precisando de tempo em taça. Seu terroir bem mais restrito que Echezeaux em área, fica no limite superior das vinhas de Clos de Vougeot, em terras mais altas. O Domaine possui cerca de 40% de toda a apelação Grands-Echezeaux, ou seja, pouco mais de 3,5 hectares.

IMG_5449sutilezas de terroir

Embora os nomes sejam parecidos e os vinhedos contíguos, Echezeaux e Grands-Echezeaux apresentam grandes diferenças de terroir e estilos. Depois do Grand Cru Clos Vougeot, Echezeaux é o maior Grand Cru em área com pouco mais de 35 hectares, dividido em 11 parcelas e vários proprietários. 

IMG_5461as várias parcelas de Echezeaux

Os vinhos abaixo são do mesmo vinhedo e mesma safra, porém procedências diferentes. Embora não seja uma safra tão antiga, já se percebe claramente o quão importante é o histórico das garrafas e sua real legitimidade. Uma delas estava maravilhosa, só perdendo para o vinho do almoço, La Tache 85, que comentaremos a seguir. A outra garrafa foi decepcionante, sem mostrar complexidade e até um certo desequilíbrio. Enfim, o bom St Vivant com seus toques florais, terrosos, e de torrefação, encantaram os confrades.

IMG_5454duas garrafas, dois destinos

O Richebourg 90, foto abaixo, sempre se mostra um pouco misterioso, mas com uma estrutura fantástica de taninos. Um certo toque de couro, de carne, permeia seus aromas. Foi um belo parceiro para um dos pratos do almoço, o clássico Bollito Misto, especialidade de carnes cozidas de origem piemontesa, magistralmente executada pelo restaurante Gero. É só não abusar da mostarda de Cremona na harmonização.

bollito misto

A foto abaixo já diz tudo, um dos maiores vinhedos sobre a Terra. Servido às cegas, já nos aromas mostra que estamos diante de uma obra-prima. A complexidade, a delicadeza, a harmonia de seus aromas, faz deste La Tache na estupenda safra 85, um dos grandes borgonhas de todos os tempos. Boca harmoniosa, expansiva, super bem balanceada. Fica difícil tomar algo depois deste néctar. Acho que o 99 pode supera-lo com o devido tempo. Por hora, este 85 reina absoluto. 

IMG_5448a perfeição existe!

Após um vinho deste naipe, a sobremesa não podia cair de nível. Aliás, as sobremesas. Sim, porque existiam dois grandes vinhos para encerrar as conversas, fotos abaixo. O primeiro, o grande Yquem 1953, safra rara, homenageando um dos confrades. Os Yquems antigos sempre ganham um caramelo gostoso e algo de marron-glacê, perdendo um pouco a potência e ganhando complexidade. Foi muito bem com o pudim de pistache, compartilhando aromas e sabores. As texturas cremosas de ambos também casaram bem. Propositalmente, não houve calda no pudim, deixando a doçura e a untuosidade do vinho fazer este papel.

IMG_5457embate de gigantes!

O vinho da direita é um raro Trockenbereenauslese alemão de Rheinhessen com uvas quase extintas, Huxelrebe e Sieger. A primeira, Huxelrebe, é uma uva branca de alta acidez, propícia a este tipo de vinho. A segunda, Sieger, também conhecida como Siegerrebe é uma uva rosada, parente da Gewurztraminer, muito aromática. Restam poucos hectares na Alemanha com o cultivo destas duas uvas “old school”. 

O vinho totalmente evoluído, apresenta um cor quase negra, lembrando um Pedro Ximenez ou aqueles Tokaji Eszencia bastante antigo. No aroma lembra um pouco o Pedro Ximenez com intensos aromas de figada e bananada. Em boca, é bem menos untuoso, mas com altíssima acidez. Aí sim, lembrando um grande Tokaji. Enfim, um vinho raro, altamente equilibrado, e com persistência bastante expansiva em boca. Foi muito bem com um folhado de bananas do restaurante Gero, reverberando todos seus sabores maravilhosos.

sobremesas sincronizadas

Aproveitando o fim de tarde maravilhoso, uma pausa para os Puros, fechando as últimas conversas. Em cena, o Cohiba Maduro 5, um charuto de grande fortaleza, não indicado para iniciantes. Para refrescar e não propriamente harmonizar, um refrescante Fitzgerald, drink clássico à base de Gim com toques cítricos e leve amargor (angostura).

acompanhamento refrescante

Como último almoço do ano, não poderia ser melhor, tanto vinhos, como companhia. Agradecimentos a todos pela imensurável generosidade e espírito de companheirismo desta confraria, fechando com chave de ouro o ano de 2018. Que 2019 seja tão prazeroso e ainda mais desafiador. Saúde a todos e Boas Festas!