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Vosne também tem seu lado masculino!

25 de Maio de 2019

Segundo Pepeu Gomes em sua canção: Masculino e Feminino, todos nós temos nosso lado oposto, aquele que contradiz o que somos realmente. Pois bem, os vinhos da Borgonha têm o glamour da delicadeza, da feminilidade, da sensualidade, sobretudo na comuna de Vosne-Romanée, berço dos mais espetaculares tintos borgonheses. Num agradável almoço no restaurante Gero, um desfile de grandes Borgonhas, mostrou com propriedade que o lado masculino desta comuna abençoada também existe, convivendo em harmonia com a feminilidade onipresente. 

uma viagem no tempo …

Essa história começa com a dupla de vinhos acima, mostrando muitos contrastes e uma viagem pelo tempo. O vinho da esquerda é um dos mais tradicionais monopólios da Borgonha, o clássico Clos des Mouches, localizado na Côte de Beaune. Embora a família Drouhin detenha boa parte da propriedade, a Maison Chanson tem uma parcela significativa de 4,5 hectares. Este exemplar degustado no estilo old school é da safra 1964 com todos seus terciários desenvolvidos, sobretudo toques terrosos, de cogumelos e de chá. Um tinto com uma masculinidade incrível, ora lembrando um Barolo ou Barbaresco, ora lembrando alguns tintos do sul do Rhône. Bem evoluído, mas ainda íntegro. 

O outro lado da moeda é o Volnay Premier Cru do Domaine Chassorney safra 2013. Além de bem mais jovem e uma vinificação mais moderna, Volnay expressa toda a feminilidade na Côte de Beaune. Um tinto de fruta muito limpa, toques florais e especiarias finas, tudo calcado num equilíbrio harmonioso. Portanto, os sexos dos anjos estão apresentados.

img_6128um abismo separa estes tintos

Neste primeiro embate, o maior contraste do almoço, quase um disparate, inclusive na opção sexual. Embora seja um Grand Cru de um mesmo produtor, as safras falam por si e mostram imensos contrastes. Os tintos de 83 são geralmente duros, austeros e masculinos. Além disso, esta garrafa 83 estava um pouco prejudicada com um vinho turvo e um tanto cansado. Mesmo que estivesse em sua melhor forma, não seria páreo para o vinho do almoço, sua majestade DRC Romanée-St-Vivant 1978. Um tinto lendário de Vosne-Romanée cheio de feminilidade e principalmente, jovialidade. Seus aromas de carne, rosas, alcaçuz, especiarias delicadas, permeavam a taça. Um equilíbrio fantástico em boca com final bastante expansivo, sem nunca perder a delicadeza. Um tinto de sonhos para ser colocado na prateleira dos grandes tintos de Vosne na história. O mestre Jayer já dizia sobre a safra 78: este foi o melhor Richebourg e o melhor vinho que fiz, outro tinto lendário. 

img_6130mais alguns contrastes …

DRC Grands-Echezeaux 1988 personifica em estilo e safra o lado masculino de Vosne-Romanée. Uma safra dura para um vinho austero deste belo Grand Cru. Só mesmo o tempo com seus trinta anos para domar esta fera. O vinho já está evoluído, taninos polimerizados, aromas terciários de adega úmida, além de um final arrebatador. Um tinto para quem tem paciência em adega, mas vale cada segundo de envelhecimento. Bravo!

Por outro lado, Madame Leroy fez milagre na pobre safra 1992 para tintos, pois os brancos são espetaculares. Apesar de ser um tinto do Domaine e não da Maison, falta a ele profundidade e maior riqueza aromática num nível Grand Cru. Mesmo assim, é um vinho extremamente feminino e com o toque elegante desta bruxa maravilhosa. 

img_6134um embate de gigantes!

Nesta briga de titãs, a hierarquia foi mantida. Embora o Richebourg 90 estivesse maravilhoso e muito mais pronto no momento, teve que ceder à suntuosidade do grandioso La Tache, um dos maiores vinhedos sobre a Terra, já dizia Hugh Johnson. Richebourg teve que ficar com o lado feminino com muita graciosidade e sedosidade em boca. Já o La Tache 90 tem um toque oriental de incenso maravilhoso, muito equilíbrio em boca, e uma persistência aromática bastante ampla. Deve ainda evoluir em adega e dar muito prazer por décadas. Um tinto marcante!

img_6135cinco anos faz diferença

Duas obras de arte pareadas em nota, 95 pontos cada um. É claro que o 95 não está pronto e acabou sendo o infanticídio do almoço, mas é muito bem elaborado e com futuro brilhante pela frente. Contudo, acho que não chega na grandiosidade do La Tache 90, um tinto que beira a perfeição. Aqui, os sexos se misturam e o que vale é o prazer. Aliás, falando de La Tache,  a safra 99 vai ser lendária como um dos melhores La Tache da história. Lembro-me até hoje do maravilhoso La Tache 62 degustado com muitas saudades …

alguns dos pratos do menu

A polenta com funghi e o tagliarini com molho de costela, fotos acima, foram um dos pratos que casaram bem com os vinhos, sobretudo os de certa evolução. A fidalguia do maître Ismael e toda a equipe do Gero sempre nos conforta. Adendo especial ao sommelier Felipe Ferragone com um serviço de sommellerie perfeito e rolhas intactas, foto logo mais abaixo. 

img_6140Terroir de duas comunas

Bonnes Mares é uma das poucas apelações na Borgonha que divide comunas contíguas. Uma boa parte está em Chambolle-Musigny, mas seu caráter parece ser de Morey-St-Denis. Dujac é um dos especialistas na apelação com os dois exemplares acima de safras muito pontuadas. Servidos às cegas, o 2005 parecia mais jovem, tanto na cor, como nos aromas e taninos mais presentes. Já o 2009, muito mais gracioso, feminino, e acessível no momento. Um flight aparentemente fácil, mas surpreendente, onde a maioria arriscando pela lógica, trocou as safras. Nosso presidente, homem forte da confraria sentenciou: o 2005 é mais austero, mais fechado, de evolução mais lenta em garrafa. Mais um acerto taxativo. 

o único branco e rolhas intactas

No final do almoço já com os queijos, surge um branco da Madame, Domaine d´Auvenay, sua reserva particular de produção limitadíssima. Auxey-Duresses é uma apelação sem grande expressão, frente aos badalados brancos de Beaune. No entanto, em se tratando de Auvenay, nada surpreende. Um lieu-Dit comunal, Les Boutonniers, nas mãos da bruxa, se transforma num verdadeiro Grand Cru. Com seus quase 20 anos, é um branco complexo com toques de evolução e equilíbrio perfeito. Expansivo em boca e de alta classe. Bate com folga muitos Grands Crus de Beaune. 

parceria harmoniosa

Passando a régua, um Yquem 98 para encerrar o almoço. 95 pontos com apogeu previsto para 2050. O vinho encontra-se naquela fase de transição, entre a juventude e maturidade. Doçura bem equilibrada com a acidez, textura macia e envolvente da Botrytis, e um final longo. Foi muito bem com o pudim de pistache da Casa com calda de caramelo.

Por fim, os agradecimentos aos confrades, companheiros de mesa e copo, que sempre nos proporcionam momentos de  descontração, alegria, e imensa generosidade. Que Bacco nos proteja nesta gostosa caminhada aos prazeres da vida!

Triunvirato em Vosne-Romanée

30 de Março de 2019

Quando falamos dos grandes vinhos da Borgonha, nomes como Montrachet, Chambertin, Musigny ou Vosne-Romanée soam como a sinfonia perfeita. Indo um pouco mais a fundo, dentro da comuna de Vosne-Romanée existem muitos astros, mas nada se compara à Santíssima Trindade formada por DRC, Leroy e Henri Jayer. Foram exatamente esses vinhos que nos fizeram sonhar num belo jantar no restaurante Gero.

 

Oenothèque: agora P2 ou P3

Alguma coisa fora do Triunvirato acima, só mesmo um Dom Perignon Oenothèque da maravilhosa safra 1996 para abrir os trabalhos. O degorgement foi feito em 2008, portanto, 12 anos sur lies. Champagne de grande frescor, mineralidade, leveza, parecendo um Blanc de Blancs, embora em sua composição entre pelo menos 40% de Pinot Noir. Acompanhou muito bem um delicado carpaccio de atum.

img_5885garrafa muito bem conservada

Passando aos brancos, começamos com um “intruso” muito bem-vindo, Domaine Etienne Sauzet Chevalier-Montrachet 1992. Safra de destaque para esta apelação, o vinho mostrou-se integro, sem sinais de decadência. Pelo contrário, aromas já evoluído, mas com frescor e muita elegância. Um toque de caramelo e de botrytis permeavam seus aromas.

img_5876embate de gigantes

Encarar um Montrachet DRC é tarefa para poucos, mesmo se tratando de outros Montrachets. Entretanto, estamos falando de Domaine d´Auvenay, uma reserva particular de Madame Leroy do que ela tem de melhor. A produção desses vinhos quando muito, chega a poucas centenas de garrafas. No caso deste Chevalier-Montrachet 2009, é um vinho com grande concentração de aromas e enorme presença em boca. Deixou o DRC até um pouco tímido, tratando-se de um vinho também de certa potência. Sua persistência aromática é bastante longa e expansiva. Para completar o mérito deste Chevalier, a garrafa do Montrachet DRC estava muito boa com uns aromas de umami, lembrando shitake fresco, toques minerais delicados e um fundo de mel. Bela comparação, mostrando a grandeza e a força do terroir nestas apelações tão exclusivas.

 

pratos do menu exclusivo

O carpaccio de atum com Dom Perignon e a sopa de lentilhas e bacalhau com o Montrachet foram harmonizações bem agradáveis. O champagne com seu frescor e mineralidade formou um belo par com os sabores de maresia e o toque cítrico do molho do carpaccio. Já a sopa de lentilhas com o bacalhau tinha intensidade e textura para acompanhar os Montrachets, sobretudo o DRC, calibrando bem a harmonia de sabores.

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A fidalguia do maître Ismael sempre nos confortando, e o serviço de vinhos eficiente do sommelier Felipe Ferragone, preservando todas as rolhas, faz do restaurante Gero um porto seguro.

 

acredite, é um Richebourg DRC

Os tintos começaram em alto nível com um Richebourg DRC 1961. O estado do rótulo, foto acima, é inversamente proporcional ao nível do vinho. Uma garrafa muito bem conservada e íntegra. O vinho tanto na cor, como na força de seus taninos não revelava a idade de quase 60 anos. Seus aromas terciários e de grande mineralidade revelavam sous-bois, toques terrosos, e frutas escuras. Equilíbrio perfeito em boca com longa persistência final. Acompanhou bem o risoto de ervas com guisado de cordeiro.

img_5881um dos vinhos mais raros e disputados

Com 94 pontos, este Richebourg do mestre Henri Jayer esbanjou elegância num estilo oposto ao DRC acima. Muito delicado, com aromas florais, especiarias, e um fundo mineral, o estilo Jayer prima pelas nuances e sutilezas. Um vinho para meditar num equilíbrio perfeito em boca. Já totalmente pronto, num belo platô de evolução. O mítico Richebourg 1978 é um dos tintos mais disputados em leiloes mundo afora. O próprio Henri Jayer declarou certa vez que o Richebourg 78 foi seu grande vinho de todas suas vinificações.

img_5880quase 200 pontos na mesa

Ponto alto do jantar, dois Cros-Parantoux de grandes safras. Para um Premier Cru, o vinho é de uma elegância que poucos Grands Crus possuem. O 93 é a safra mais bem pontuada, ainda com uma força extraordinária. O vinho não está totalmente pronto com taninos muito finos, mas ainda a resolver. Os toques terrosos e as especiarias são muito bem mesclados à fruta. Já o 85, é puro devaneio. Um tinto gracioso, cheio de feminilidade, boca sedosa, e um final harmonioso. Uma grande safra nas maões de um grande Mestre. Salve Henri Jayer!

img_5886o infanticídio da noite

No final do jantar, avaliamos duas promessas da safra 2004 para os DRCs. Um Romanée-St-Vivant delicado, floral, taninos suaves, já bem agradável pela idade. Por outro lado, um La Tache austero, com taninos ainda ferozes, precisando ser domado pelo tempo. Um estilo bem masculino que deve evoluir bem pelos próximos dez anos.

Enfim, uma noite memorável com belos vinhos e a boa conversa pra lá de animada. Agradecimento a todos os confrades pela generosidade e companhia. Um adendo especial ao nosso Presidente pela alta competência na análise dos vinhos, acertando às cegas de maneira categórica todos as ampolas do jantar. Sem nenhuma arrogância, ele nunca acha, sempre tem certeza, provando mais uma vez, que degustação técnica é treino e atenção aos detalhes. Contra fatos, não há argumentos. Parabéns Presidente!

Saúde a todos e que Bacco sempre nos proteja!

Domaine D´Auvenay

14 de Janeiro de 2017

O que é exclusividade na Borgonha?: Romanée-Conti?, La Tâche?, Montrachet?, Chambertin?. De fato, são nomes mágicos, para poucos privilegiados, e de preços nas alturas!

Contudo, exclusividade pode ser algo relativo e quase imensurável dentro de certos parâmetros. Voltando ao mito Romanée-Conti, estamos falando de aproximadamente seis mil garrafas por ano, dependendo da safra. Que tal falarmos agora em números com menos de mil garrafas, ou seja, algumas centenas?. Pois bem, isso é Domaine D´Auvenay, o lote mais exclusivo dos já exclusivíssimos vinhos com a marca Leroy.

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uma barrica de vinho

O contra rótulo acima é o cúmulo da exclusividade. Criots-Bâtard-Montrachet é por si só o Grand Cru de brancos mais diminuto da Borgonha, pouco mais de um hectare e meio. O vinhedo deste Domaine é tão pequeno e aliado aos baixos rendimentos, que só é possível fazer uma barrica de vinho, ou seja, em torno de 300 garrafas por ano.

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Madame Leroy e Paul Bocuse em outros tempos

Domaine d´Auvenay localiza-se em Saint-Romain, residência de Madame Leroy (nome de registro: Marcelle). A propriedade foi palco de inúmeras degustações desde Henri Leroy, pai de Lalou Bize-Leroy  falecido em 1980, onde no pós-guerra já fazia degustações memoráveis com seus vinhos, tendo como personalidades da enogastronomia, Paul Bocuse, por exemplo.

Domaine d´Auvenay trabalha com vinhedos exclusivos que somam algo perto de quatro hectares entre brancos e tintos, totalizando aproximadamente oito mil garrafas. Os rótulos estão distribuídos em apelações de prestígio nas categorias Grand Cru, Premier Cru e alguns comunais.

Na distribuição das uvas, temos: 13% Pinot Noir, 77% Chardonnay, e 10% Aligoté.

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um tinto para poucos

Os vinhedos são conduzidos de forma biodinâmica com todo rigor que Madame exige. Os rendimentos são baixíssimos, em torno de 20 hl/ha. A vinificação pouco intervencionista, trabalha com leveduras naturais, sem desengaçe,  pigeages programadas e posteriormente, amadurecimento em barricas novas. Os vinhos são engarrafados sem filtração.

O domaine foi criado em 1988 após algumas aquisições de pequenas parcelas de vinhedos nos mais famosos climats. Recentemente, só para ter ideia de algumas cifras, foi adquirido 0,3 hectare em Bãtard-Montrachet, Grand Cru de enorme prestígio, por 25 milhões de euros o hectare. Negócio de gente grande.

Os vinhos do Domaine tem forte penetração no mercado japonês com alguns rótulos de parcelas exclusivas só para este país. O grupo de luxo Takashimaya é acionista dos vinhos Leroy, contando evidentemente com alguns privilégios.

Se fosse possível encomendar uma caixa de doze garrafas sortidas (assortment), a tabela abaixo pode ser uma sugestão com alguns dados técnicos de cada vinhedo.

vinhedos Área (ha) rendimento  vinhas Nº gf Preço/gf
Mazis-chambertin Grand Cru 0,26 18 hl/ha 78 anos 550 3500 €
Bonnes Mares Grand Cru 0,26 23 hl/ha 50 anos 780 3500 €
Chevalier montrachet Grand Cru 0,15 25 hl/ha 40 anos 500 3500 €
Criots Batard Montrachet Grand Cru 0,11 20 hl/ha 67 anos 300 ( ?) 4000 €
Puligny Montrachet Premier Cru Folatieres 0,26 23 hl/ha 62 anos 800 900 €
Puligny Montrachet en La Richarde 0,21 23 hl/ha 62 anos 650 900 €
Meursault Premier Cru Les Gouttes 0.19 27 hl/ha 47 anos 700 1000 €
Meursault Les Narvaux 0,67 20 hl/ha 72 anos 1800 800 €
Auxey Duresses Les Clous 0,29 29 hl/ha 24 anos 1100 520 €
Auxey Duresses Les Boutonniers 0,25 21 hl/ha 82 anos 700 490 €
Auxey Duresses La Macabrée 0,62 20 hl/ha 62 anos 1650 400 €
Bourgogne Aligoté 0,30 27 hl/ha

50 anos

1100

210 €

Os preços podem variar substancialmente, de acordo com a safra, o local de venda, as ofertas lançadas em cada leilão, e assim por diante. Além dos vinhos desta tabela, existem outras pequenas parcelas sendo algumas delas, lançadas só em determinados anos e outros rótulos para mercados exclusivos.

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Domaine d´Auvenay

Residência escondida em Saint-Romain, vilarejo próximo a Auxey-Duresses, palco do 60º aniversário da Maison Leroy onde foram provados vários rótulos da safra 1955, ano em que Lalou Bize-Leroy tomou frente do negócio. Entre outras preciosidades, estavam Musigny, Clos de Vougeot, Chambertin, Grands-Échezeaux.

 


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