Posts Tagged ‘premier cru’

Borgonha: Terroir, tipicidade e dúvidas

24 de Julho de 2014

O intrincado mosaico borgonhês deixa qualquer aficionado pelos seus vinhos de cabelos em pé. Por mais estudos, teorias, e uma certa racionalidade em entender seus vinhos, a Borgonha desafia enófilos, enólogos, críticos e apaixonados pela região, caindo por terra todas suas convicções. E este é certamente, um dos motivos, talvez o principal, pela fascinação e admiração por este desafio quase intransponível. Foi o que aconteceu numa degustação às cegas proposta pelo amigo Roberto Rockmann, viciado e alucinado por estes tintos sutis e misteriosos.

Na mesa com as letras A, B e C, três tintos da Côte de Nuits de comunas diferentes. Chambolle-Musigny, Vougeot e Nuits Saint-Georges, interpretadas por produtores de respeito, tentando passar a tipicidade de seus vinhos. A safra 2007 foi comum a todos. Safra sabidamente de característica precoce, acessível em tenra idade, e já com seus sete anos podendo proporcionar alguns aromas de evolução. Todos também estão na categoria Premier Cru, bastante restrita em termos de produção e que é capaz de expressar com clareza a respectiva tipicidade de sua comuna.

Feita essas considerações e apresentações, vamos aos detalhes de cada um dos vinhos abaixo:

chambolle-musigny

O fator humano pesou neste rótulo

Na minha modesta opinião sobre a comuna de Chambolle-Musigny, a primeira sensação esperada nestes vinhos é a elegância, a delicadeza, a sutileza. Infelizmente, o produtor abusou da madeira neste exemplar. Erro crucial para ofuscar os predicados descritos acima. Mesmo assim, um bom vinho, mas nunca um verdadeiro Chambolle-Musigny.

Vougeot premier cru

Elegância: marca inconteste da Borgonha

Pouca gente sabe que existem outros vinhos nesta comuna, além do emblemático Clos de Vougeot, o maior Grand Cru da Borgonha com cerca de cinquenta hectares de vinhas distribuídas dentre inúmeros produtores. O rótulo acima, um belo Premier Cru “Les Cras”, numa localização pouco privilegiada na colina, demonstrou finesse, própria de sua comuna e sua nobre vizinhança. É bem verdade, que sua persistência aromática não é tão expansiva, mas o competente produtor Bertrand Ambroise soube extrair com astúcia a essência de seu terroir.

les saint georgesFaltou elegância neste rótulo

Este produtor, Thibault Liger-Belair, reverenciado pelos melhores críticos da região, inclusive o papa Clive Coates, acabou me decepcionando, sobretudo no quesito elegância. E não há contradição nesta afirmação. Explico melhor, nesta região de Nuits-Saint-Georges, os vinhos costumam ser mais rústicos, evidentemente dentro de uma sintonia fina com o que há de melhor na sagrada sub-região de Côte de Nuits. Entretanto, neste Premier Cru Les Saint Georges, trata-se de mais uma exceção, entre tantas quando se trata da capciosa Borgonha. Os vinhos deste vinhedo costumam ser elegantes e longevos. No exemplar acima, não contesto a longevidade, pois o mesmo possui uma estrutura tânica invejável. Contudo, dentro do alto padrão de Les Saint Georges, e por tratar-se de um produtor de alto nível, seus taninos são relativamente rústicos, provocando uma secura e uma adstringência desagradáveis no final de boca. Repito, na minha modesta opinião. E esta opinião não foi nem de longe unanimidade entre os degustadores desta noite.

Não é preciso dizer que errei todos os exemplares, mas degustação às cegas é sempre um ato de humildade. É mais um incentivo e motivação para continuarmos os desafios desta fascinante região. Como dizem os entendidos, Borgonha é sempre o estágio final da longa jornada do degustador persistente e inquieto. Que venham mais desafios, meu caro Roberto!

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Vosne-Romanée: Premier ou Grand Cru?

22 de Maio de 2014

A recorrente frase “Em Vosne não existem vinhos comuns” vai além da emoção e nostalgia. Alguns Premiers desta comuna batem de frente com os venerados Grands Crus, balançando seriamente a suposta hierarquia. O mítico Premier Cru Cros Parantoux (artigos específicos já citados neste blog) elaborado pelo mestre Henri Jayer talvez seja o exemplo mais taxativo.

Recentemente, o amigo e grande entusiasta dos mistérios e detalhes do intrincado mosaico borgonhês, Roberto Rockmann, mostrou mais uma vez a força desta frase. Trata-se do Premier Cru “Aux Brûlées” do conceituado produtor Michel Gros, sobrenome incontestável nos melhores caldos desta sagrada terra, conforme foto abaixo:

Vizinho do imponente Richebourg

O nome “Aux Brûlées” sugere um terreno quente no verão, queimando toda a pequena vegetação espontânea pelo sol no vinhedo de pouco mais de meio hectare (0,63 hectare). O solo extremamente pedregoso com forte base calcária, gera vinhos elegantes e de bela acidez. A safra 2004, provada na ocasião confirma um vinho elegante, vivaz e com boa estrutura tânica para envelhecer, além da cor muito pouco evoluída. Seus aromas são o ponto de destaque, com toques florais, ervas finas, especiarias e notas minerais. Pouco a pouco, o alcaçuz revela-se entremeado a toques de caça (carne, animal). 

Cros Parantoux: vinhedo bem próximo

Localizado nas partes mais altas da colina, respeitando a faixa dos grands crus, Aux Brûlées beneficia-se de boa amplitude térmica, o que em anos mais quentes, pode ser um diferencial.

Após uma rigorosa seleção das uvas, as mesmas são desengaçadas. A fermentação ocorre em temperaturas não mais que 32°C com contínuas remontagens. O pigeage (processo mecânico através de um bastão com placa na extremidade) é utilizado nas remontagens para uma extração mais natural. O amadurecimento em madeira compreende as seguintes fases: seis primeiros meses em tonéis grandes e usados, estabilizando o vinho. Em seguida, o vinho passa mais doze meses em tonéis novos e usados em porcentagens variadas. Para os Villages, 30 a 40% de madeira nova. Para os Premiers, 50 a 80% de madeira nova. Já para os Grands Crus, 100% de barrica nova.

Outros crus de destaques deste produtor são Vosne-Romanée Premier Cru Clos des Réas e o Grand Cru Clos Vougeot. Este último, são apenas 0,2 hectares de vinhas, ou seja, dois mil metros de terreno localizados na parte superior das terras de Vougeot, bem próximo ao vinhedo Grands-échezeaux, uma das melhores localizações para este polêmico e heterogêneo Grand Cru.

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Marquis d´Angerville: Volnay Clos des Ducs

25 de Março de 2014

Toda comuna famosa da Borgonha tem seu vinho de sonhos, às vezes mais de um. É o caso de Volnay, reputada por seus tintos delicados e profundos, bem ao estilo Côte de Beaune. Domaine Lafarge, já comentado em artigo específico neste mesmo blog, é um dos devaneios. Seu rival, no bom sentido, é Domaine Marquis d´Angerville com o monumental Clos des Ducs, estrela deste artigo. 

Volnay clos des ducsSafra 1990: longa permanência em adega

A história do domaine começa no início do século dezesseis com seu vinhedo mais famoso, o monopólio Clos des Ducs, um Premier Cru de rara distinção. Seu solo pedregoso, com forte presença de calcário formando o que se chama de “marne blanche”, mistura equilibrada entre argila e calcário, própria dos grandes terroirs na Borgonha. São apenas 2,15 hectares neste monopólio, correspondentes a 52 ouvrées (24 ouvrées equivalem a um hectare). Como curiosidade, ouvré foi uma antiga medida de terra onde em média um lavrador era capaz de cultivá-la num dia de trabalho.

Clos des Ducs: Vinhedo ao lado do vilarejo de Volnay

O domaine é totalmente biodinâmico desde 2006. Os rendimentos são controlados naturalmente não ultrapassando 35 hectolitros por hectare. Nas vinhas mais antigas como Clos des Ducs, esses rendimentos são inferiores. Vale salientar o trabalho minucioso quanto à seleção clonal dos vinhedos durante décadas, culminando num Pinot Noir diferenciado de baixíssimos rendimentos denominado “Pinot d´Angerville”.

Vinhas antigas no Domaine Marquis d`Angerville

Vinhas antigas no Domaine

Na sucessão familiar, Guillaume d´Angerville dirige o domaine atualmente. São quinze hectares de vinhas prioritariamente voltadas a Volnay com onze hectares dedicados à apelação Premier Cru, a mais alta dentro desta comuna. Quanto à vinificação, o processo é o mais natural possível, respeitando as leveduras naturais e não ultrapassando temperaturas entre 30 e 32°C. Assim a extração de taninos acontece de forma correta e não exagerada. Em seguida, o vinho é conduzido por gravidade para a sala de barris. A proporção de barricas novas em média não ultrapassa 20%, posto que a delicadeza de um Volnay precisa ser respeitada. O tempo de permanência nas mesmas fica entre quinze e dezoito meses. Após total estabilização, os vinhos são engarrafados sem colagem e sem filtração, preservando todos os elementos naturais.

Aí é só esperar pelo menos dez anos para abrir a primeira garrafa. Se a safra for excepcional, tenha um pouco mais de paciência. Lembre-se: o apressado come cru.

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Tributo à Maison Bollinger

7 de Novembro de 2013

No final de ano fica quase impossível não falar de champagne, o vinho mágico, das festas, das celebrações e por que não, da alta gastronomia. Existem maisons maravilhosas neste mundo de contemplação e luxo, mas se eu tivesse que escolher entre os cinco grandes champagnes, não hesitaria em colocar em um dos dedos da mão a Maison Bollinger. Champagne sobretudo da refinada gastronomia, com profundidade e muita personalidade, conforme este belo vídeo abaixo:

http://youtu.be/NX3_RvaPaRc

Quando bebemos um Bollinger não devemos esperar apenas um bom champagne, mas algo de extremo refinamento, próximo à perfeição. Para isso, existem alguns detalhes imprescindíveis ao longo de sua elaboração, como veremos a seguir. Primeiramente, a Maison possui vinhedos próprios, perto de 164 hectares de vinhas, fato absolutamente atípico na região. Outra premissa importante é que praticamente seus vinhedos são todos Grands Crus e Premiers Crus (80 a 90%) a cada colheita. Somado a estes fatores, há um bom arsenal de vinhas antigas, as quais transmitem com precisão a essência de seu terroir.

Quanto ao estilo, Bollinger é um champagne encorpado, gastronômico, com mais de dois terços da cuvée com as tintas Pinot Meunier e Pinot Noir sobretudo, uva que fornece estrutura ao champagne. Mesmo em sua cuvée básica, non millésimé, o que é quase um sacrilégio chamá-la de básica, mais de oitenta por cento, são vinhedos grand cru e premier cru. Quando entramos em suas cuvées de luxo, Grande Année, Bollinger RD e Vieilles Vignes Françaises, estamos falando somente das uvas Pinot Noir (predominante) e Chardonnay com vinhedos Grands Crus e Premiers Crus, exclusivamente.

James não deixava por menos

A foto acima exemplifica uma vinificação exclusiva e severa nos seus mínimos detalhes, a famosa Bollinger RD, preferida de Bond. A propósito, RD significa Récemment Degorgé (recentemente degolado), ou seja, champagne com grande contato sur lies (sobre as leveduras mortas). Na média, por volta de dez anos. Este tempo só é possível para champagnes de grande estrutura, fornecendo aromas e textura únicos. Para termos esta destacada estrutura, precisamos partir de vinhos-base especiais, outro detalhe importante desta Maison. A vinificação e amadurecimento de seus vinhos é feito em barricas de carvalho, promovendo uma micro-oxigenação  adequada para um envelhecimento futuro de extrema longevidade. São três mil barricas de carvalho usadas (não novas, pois a ideia não é passar aromas da madeira ao vinho) que garantem este procedimento.

Outro procedimento exclusivo desta Maison é a cada ano escolher os melhores vinhos da colheita para serem guardados em seiscentas mil garrafas Magnum, separando cada vinhedo, cada parcela, em lotes específicos. Este procedimento garante com grande eficiência o contato quase nulo com o oxigênio, preservando estas reservas para serem utilizadas quando solicitadas.

Quanto ao açúcar residual dado pelo licor de expedição, as doses são as mínimas possíveis, sem camuflagens de possíveis defeitos de qualidade do produto final, permitindo sentir o alto padrão de seus vinhos-base. Essas doses não passam de sete a nove gramas por litro de açúcar residual.

A novidade mais recente é reprodução da garrafa de 750 ml no formato Magnum, ou seja, o gargalo mais afunilado e a base mais larga. Além do aspecto estético, este novo formato é o ideal para concentrar o mínimo de ar dentro da garrafa, entre o líquido e a rolha definitiva, preservando ainda mais a oxigenação nociva ao vinho, conforme foto abaixo:

Nova garrafa: Petit Magnum

Por fim, a homenagem abaixo a Lily Bollinger, figura marcante do século passado, que exprimiu como ninguém o verdadeiro savoir-vivre em apreciar um bom champagne: “Bebo champagne quando estou feliz, ás vezes bebo também triste. Eu o bebo quando estou sozinha, mas considero obrigatório quando estou acompanhada. Aprecio quando estou sem fome, mas com a comida não o dispenso. De outra maneira não o toco, a menos que esteja com sede”.

  Je le bois lorsque je suis joyeuse et lorsque je suis triste. Parfois, je le prends quand je suis seule. Je le considère obligatoire lorsque j’ai de la compagnie. Je joue avec quand je n’ai pas d’appétit, et j’en bois lorsque j’ai faim. Sinon, je n’y touche jamais, à moins que je n’aie soif .

Quase todas as considerações acima citadas valem também para seu grande rival, o excepcional champagne Krug, também de origem alemã. Qual o melhor? Acho que até no par ou ímpar é capaz de dar empate técnico.