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Peixe e Vinho Tinto

18 de Abril de 2016

Tecnicamente, este é um confronto que deve ser evitado. As precauções são tantas a serem tomadas que a escolha pelo branco fica bem mais natural e razoável. O principal elemento de discórdia é o chamado choque maresia x tanino, provocando o que chamamos de “metalização”. É uma sensação desagradável onde o sabor do peixe torna-se destorcido.

Les Amoureuses, abaixo de Les Musigny

Tudo começou com uma garrafa de Les Amoureuses do ótimo produtor Mugnier, trazida por um grande amigo, Roberto Rockmann, aficionado e conhecedor dos atalhos desta mítica região francesa, mais especificamente a Côte d´Or. Sabemos que dentro de uma sintonia fina, existem tintos na Borgonha mais leves e mais encorpados, dependendo da comuna. Por exemplo, Volnay e Chambolle-Musigny são tintos elegantes e muito sutis. A questão é que existe um Premier Cru na comuna de Chambolle-Musigny onde a delicadeza e a sutileza são testadas ao extremo. Este cidadão chama-se Les Amoureuses, um vinhedo próximo a Clos de Vougeot, encostado ao grande Les Musigny, mas com particularidades únicas de terroir. Para não entrarmos muito em detalhes, o solo de Les Amoureuses é composto entre outros componentes de um calcário ativo, além de destacada pedregosidade, gerando vinhos de extrema elegância. Algo semelhante ocorre no Grand Cru branco Chevalier-Montrachet, de singular delicadeza, sublimada de maneira brilhante pelo Domaine Leflaive.

Dito isso, como lidar com um tinto de características tão particulares. Mesmo as aves, tão indicadas na harmonização com borgonhas, não ficam tão bem quando se trata de Les Amoureuses. Não há conflito, mas também não há emoções. Os taninos deste Premier Cru são tão delicados, tão sutis, que a textura em boca lembra mais um branco. É um cristal de manipulação muito cuidadosa. Daí a razão de propor uma harmonização tão audaciosa quanto o vinho, uma truta cozida ao vapor, acompanhada de cogumelos Paris refogados na manteiga e arroz de amêndoas finalmente tostadas. Notem que tanto o cogumelo, como as frutas secas, são os mais delicados em suas respectivas categorias. Não poderia ser por exemplo, cogumelo shitake e nozes.

truta com cogumelos

componentes delicados no prato

Quanto ao peixe, para evitar a metalização, precisa ser um peixe de rio, sem maresia, mas com boa mineralidade, aquele agradável toque terroso. A truta parece-me perfeita e ao mesmo tempo acessível nos pontos de venda. Muito bem, baixa tanicidade e ausência de maresia são os trunfos para o sucesso da harmonização peixe x tinto. E realmente, foi um encontro surpreendente. Experimentando somente o peixe com o tinto, não houve conflitos, pelo contrário, uma exacerbação da mineralidade de ambos. O sabor delicado dos cogumelos provocou um lado terroso no vinho e notas de sous-bois. As amêndoas despertaram os traços de evolução do vinho, já que a safra era de 2007, quase dez anos. Além da idade, esta safra tem características de precocidade, acelerando o processo de maturação. Enfim, no fio da navalha, as possibilidades eram  duas, o sucesso ou o desastre. Felizmente, prevaleceu a primeira.

les amoureuses

Safra acessível: ano 2007

Um pouco de Les Amoureuses, um pouco de Mugnier …

Jacques-Frédéric Mugnier é a referência desta minúscula apelação de pouco mais de cinco hectares. Sua parcela não passa muito de meio hectare com vinhas sexagenárias (plantadas em 1954 e 1956). Dependendo da safra, a produção varia bastante, entre 900 e 2700 garrafas por ano. Se lembrarmos que o grande Romanée-Conti fica em torno de 6000 garrafas por ano, podemos perceber a exclusividade deste produtor.

O vinho aparenta de início uma certa fragilidade. Ledo engano, sua estrutura devidamente camuflada gera grande persistência e expansão em boca. Sua acidez é a chave para a longevidade. Seus delicados toques florais marcam de forma incontestável seu terroir. Pode ser apreciado na juventude com grande prazer, mas o próprio produtor afirma passar dos 50 anos, dependendo da qualidade da safra. Vinho para conhecedores. Proibido para menores de 30 anos!

A arte em garimpar vinhos

24 de Novembro de 2015

Trabalhar com vinhos franceses e italianos parece ser fácil e confortável, sobretudo se falarmos dos medalhões de cada um destes países, e que não são poucos. Contudo, seus preços são proibitivos para a grande maioria de consumidores da bebida. É neste momento que entra a arte, a experiência, e a sensibilidade de pessoas como Amauri de Faria, proprietário da importadora Cellar. No relato abaixo de um grande almoço no elegante Ristorantino fica mais clara este percepção.

champagne arlaux

A recepção não poderia ser outra, senão com um belo champagne. Arlaux é um produtor que trabalha com vinhas Premier Cru de idade entre 20 a 80 anos. Esta cuvée especial tem uma composição ousada com 40% Pinot Meunier e 60% Chardonnay, e destacada proporção de vinhos de reserva. A localização dos vinhedos fica na Montagne de Reims, mais especificamente em Vrigny (face norte da montanha). O contato sur lies é prolongado, mais de quatro anos. O nível de açúcar residual entre 6 e 8 g/l é dos mais baixos para a categoria Brut.

Champagne elegante com bom balanço entre fruta e a ação das leveduras. Equilibrado, bom ataque inicial, fresco, e uma maciez notável de acabamento. Belo parceiro de gastronomia, sobretudo com aves nobres e cogumelos.

jermann chardonnay

Um Puligny-Montrachet italiano

O segundo vinho é um belo Chardonnay italiano fermentado e amadurecido por onze meses em barricas de carvalho francês de 300 litros. O produtor Jermann do Friuli é famoso por seu Vintage Tunina, um feliz assemblage de uvas brancas francesas com uvas autóctones.

Where Dreams é um vinho encantador. Elegante, muito bem equilibrado e de longa persistência. Passa fácil por um Chardonnay francês da Borgonha. A madeira, muito bem integrada ao conjunto, agrega grande complexidade no resultado final. Os dois vinhos acompanharam as entradas, o couvert e o prato abaixo, um salmão marinado.

salmao marinado

 entrada delicada e estimulante

O vinho abaixo Galatrona é uma das estrelas da vinícola toscana Petrolo, localizada na região do Chianti, mais precisamente em Colli Aretini. Um Merlot 100% de baixíssima produção, em torno de meio quilo por parreira. Vinho de grande concentração e taninos muito dóceis. Seus mais de 14,5º de álcool é perfeitamente equilibrado por uma bela acidez sem exageros. Vinho macio, prazeroso de já ser tomado, embora possa envelhecer em adega. Seus dezoito meses de barricas francesas novas harmonizam de maneira notável com o grande poder de fruta deste exemplar. Bela persistência e muito bem acabado.

galatrona petrolo

Belo Merlot na Toscana

 Este tinto acompanhou perfeitamente o prato abaixo, paleta de cordeiro com fregola e azeitonas italianas. A maciez do vinho mostrou um equilíbrio de texturas entre a fregola e a carne extremamente saborosa.

paleta de cordeiro

sabores elegantes e marcantes

Fechando o almoço, a sobremesa abaixo não destoou do conjunto. Sutileza e elegância com um nível de açúcar muito bem dosado.

pudim de pistache

pudim de pistache

Enfim, três vinhos europeus, de regiões clássicas, mas notavelmente originais, saindo do óbvio. Fruto de pesquisas, sabedoria e feeling. É desta maneira que pinça-se boas novidades. Parabéns à Cellar e que os garimpeiros de boas novidades prosperem cada vez mais. http://www.cellar-af.com.br

Filosofias: Bourgogne e Bordeaux

3 de Julho de 2015

Numa garrafa de Bourgogne ou Bordeaux há muito mais filosofia do que se pensa. Evidentemente, estamos falando dos grandes vinhos destes míticos terroirs. A despeito da enorme diferença do solos, climas e uvas envolvidas, o fator humano me parece ser mais decisivo e mais apaixonante. Um dos encantos da França é classificar, selecionar e individualizar certas filosofias sobre seus vinhos.

No caso da Bourgogne, Deus presenteou um terroir abençoado, sobretudo no que chamamos de Côte d´Or (não é costa dourado e sim, costa do oriente). As duas colinas (Côte de Beaune e Côte de Nuits) foram concebidas em plena harmonia na composição de seus solos, drenagem e insolação perfeitas e clones criteriosamente adequados ao plantio. Couberam aos monges cistercienses o devido tempo e paciência para formar perfeitamente o intrincado mosaico de vinhedos com classificações hierárquicas muito bem definidas.

Já no caso bordalês, a natureza não foi tão privilegiada a principio, sobretudo na sub-região do Médoc, a chamada margem esquerda de Bordeaux. No final da idade média, tínhamos sérios problemas de drenagem na região que sofria com cheias periódicas do Gironde. A solução foi contratar engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, para drenarem toda a região. Assim o presente divino começa a ser desvendado. Encontrou-se então um solo e subsolo de destacada pedregosidade  e com grande capacidade de escoamento de águas. Nessas condições aliadas ao clima moderado com a influência do Gironde, a Cabernet Sauvignon encontrou seu lar ideal. Mas não foi só isso. Do lado do Atlântico, o avanço das grandes dunas de areia, mais a umidade e salinidade dos ventos marinhos tiveram que ser barradas. A solução foi uma enorme floresta de pinheiros com mais de um milhão de hectares, chegando até os Pirineus, divisa com a Espanha. Portanto, podemos dizer que Bordeaux, ao contrário da Bourgogne, foi um terroir forjado pelo homem.

Agora vem a parte filosófica, talvez a mais interessante. No Médoc sempre reinou a aristocracia, os imponentes châteaux e uma polêmica classificação exclusiva e imutável (classificação de 1855). Contudo, a concepção do vinho bordalês parte de uma visão socialista. Em propriedades que chegam perto de cem hectares, às vezes um pouco mais, o vinhedo é dividido em inúmeras parcelas, mesmo em se tratando de uma das uvas, ou seja, parcelas de Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e uma pitada de Petit Verdot, quando muito. Após vinificação individual das parcelas, opta-se pelo famoso Assemblage, o chamado corte bordalês. É aí que entra o socialismo: “a união das parcelas para um todo melhor”. Normalmente faz-se dois assemblages. Um para o “Grand Vin”, com as melhores parcelas degustadas e o restante, para o chamado “segundo vinho do château”.

clos de tart 1996

Dois belos monopólios

Já na concepção da Borgonha, as propriedades dos melhores domaines não passam de cinco hectares de vinhas. Números acima destes são verdadeiras exceções. Curiosamente, sua filosofia de vinho muda completamente. Após a Revolução Francesa, os vinhedos borgonheses foram todos fragmentados e repartido entre as famílias. Porém, a concepção do vinho continuou a mesma. Parcelas pequenas de vinhedos com uma só uva para tintos (Pinot noir) e uma só uva para brancos (Chardonnay). Com isso, temos uma visão aristocrática do vinho. Embora a fragmentação dos vinhedos tivesse uma ideia mais igualitária entre os viticultores, cada parcela sempre foi individualizada e hierarquizada no rígido sistema de classificação (Grand Cru, Premier Cru, Villages, …). Portanto, os melhores vinhos não se misturam com os plebeus, uma divisão de castas em todos os sentidos. São vinhos extremamente elitizados onde a procura pelos melhores produtores é uma constante, além das complicações de safras.

clos de tart

Clos de Trat: Concepção curiosa

Sou suspeito para falar do vinho acima, o belíssimo Clos de Tart. Provei uma garrafa safra 1988 ano passado e ainda estava longe de estar pronto. Talvez o mais enigmático dos borgonhas, tanto quanto o imaculado Romanée-Conti. Entretanto, bem mais em conta, naturalmente neste padrão de qualidade e relativismo. Mas vamos à sua concepção. Trata-se de uma propriedade extensa para padrões borgonheses. É um monopólio de 7,5 hectares repartidos em várias parcelas ao longo da colina. As zonas no alto da colina com solos de marga (mistura judiciosa de argila e calcário), bem como as zonas carbonatadas contando com vinhas antigas agregam parcelas privilegiadas. Reparem na diferença de altitudes entre a parte baixa e alta da colina. Exatamente, na faixa dos Grands Crus (entre 250 e 300 metros).

O assemblage das parcelas juntamente com a ideia de se conceber um “Grand Vin” e um “segundo vinho” tem de certo modo uma vertente bordalesa. O primeiro está classificado como Grand Cru e o segundo vinho  etiquetado como Premier Cru. Que o doutor Roberto, borgonhês juramentado, me perdoe a ousadia. Os vinhos são respectivamente Clos de Tart Grand Cru Monopole, e La Forge de Tart Morey-Saint-Denis Premier Cru.

A taça não corresponde ao vinho

Há também paradoxos no lado bordalês, sobretudo em Pomerol, com uma área total de 800 hectares de vinhas. Um lado borgonhês na chamada margen direita, com propriedades pequenas e sem a imponência do Médoc. Se compararmos com o total de área para brancos e tintos da Borgonha de primeira linha (Grand Cru e Premier Cru), temos algo como 3.500 hectares de vinhas. Separando ainda o joio do trigo, podemos reduzir seguramente para metade desta área. Os números começam a ficar próximos.

Só para destacar um dos grandes vinhos de Pomerol, acima temos o Château Le Pin com 2,7 hectares de vinhas, não produzindo mais do que 5.000 garrafas por safra. A base do vinho é praticamente Merlot com pitadas de Cabernet Franc. É elaborado apenas o “Grand Vin” numa concepção bastante borgonhesa.

Um fator altamente decisivo na opção destas filosofias é o tamanho das propriedades. Tanto de um lado, como de outro, Bordeaux e Borgonha se confundem em aspectos de concepção dos vinhos, conforme exemplos acima. Pondo um pouco mais de lenha na fogueira, a famosa frase de Friedrich Engels, uma marxista convicto. “Um momento de felicidade: Margaux 1848”. Um vinho aristocrático, mas com concepções socialista, onde o conjunto das partes forma um todo melhor.

Clos des Réas: Uma visão triangular

30 de Junho de 2015

Em Vosne-Romanée a hierarquia que separa os Grands Crus e Premier Crus nem sempre é tão marcante. Certos Premiers caminham numa linha tênue entre essas classificações. É o caso do Cros Parantoux, comentado em artigos anteriores neste mesmo blog, quando ainda era gerenciado pelo mítico Henri Jayer. Outro de grande destaque é Malconsorts, ao lado do imponente La Tâche. O elegido para o presente artigo é o monopólio Clos des Réas da família Gros, mais especificamente de Michel Gros, conforme foto abaixo. Em termos de altitude, o vinhedo fica um pouco abaixo da linha inferior dos Grands Crus (250 metros ao nível do mar). Em anos mais secos, pode ser uma vantagem devido a melhores reservas hídricas. Não confundir este vinhedo com Aux Reás, um dos Villages de Vosne-Romanée a oeste, de área bem maior, caminhando para a comuna de Nuits-Saint-Georges, de vinhos mais firmes e um tanto rústicos para os padrões de Vosne.

Clos: vinhedo murado

Vinhedo de 2,12 hectares em formato triangular (vide mapa abaixo) com solo típico dos grandes terroirs de Vosne. Solo argilo-calcário com destaque para o segundo componente, em meio a fósseis  de outras eras geológicas calcinados em pedra calcária de cor salmonada. Este perfil confere vinhos elegantes, além da ótima drenagem do terreno. A vinificação é feita com total desengaço das uvas. A fase fermentativa passa por remontagens e pigeages constantes para uma melhor extração e homogeneização do mosto. O vinho amadurece em barricas de carvalho majoritariamente novas (50 a 80%, dependendo da safra) por 18 meses.

Parte Central: Constelação de Grands Crus

Michel Gros assumiu o comando do vinhedo em 1995, após uma repartição de propriedades em família. Sua primeira safra dá-se em 1996. Entre outros vinhedos, como Aux Brullés já comentado neste blog, possui seu único Grand Cru, uma parcela ínfima em Clos de Vougeot, apenas 0,2 hectares, ou seja, dois mil metros de área total. Sua localização no alto da colina é privilegiada, fazendo vizinhança com o Grand Cru Grands-Échézeaux.

Não encontrado no Brasil

O exemplar acima degustado mostrava-se ainda com uma cor jovem e um centro de copo bem preenchido. Os aromas foram se desenvolvendo pouco a pouco com a típica elegância dos vinhos de Vosne. As frutas escuras lembrando cerejas, os toques de especiarias, alcaçuz e notas balsâmicas. Gustativamente, um bom ataque de acidez (frescor) e uma estrutura tânica sólida, completando um bom meio de boca. Equilibrado, taninos sedosos, presentes, e um final bem acabado, com todos os componentes em harmonia. Deve evoluir com segurança por mais dez anos.