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Entre Amigos …

27 de Setembro de 2015

Oi pessoal! Peço desculpas por tanto tempo fora do ar, mas depois do AVC, uma dor nas costas insuportável. Tentando retomar novamente os artigos, vamos falar do último encontro entre amigos com vinhos de grande expressão.

A brincadeira foi provar às cegas seis tintos irrepreensíveis começando pelo Bordeaux abaixo. Mais uma vez, Mouton 82 esbanja potência e elegância. Taninos ultra polidos, um leque de aromas sensacional e aquela persistência aromática que deixa saudades. Felizmente, tive o prazer de tomar vários, sempre em grande forma. 

mouton 82

1982: Até o carneiro está saltitante

Após um começo triunfante, que tal um La Landonne 1988! Umas das três joias de Guigal, este Côte-Rôtie é fora de série. Deliciosos aromas terciários mesclando fruta madura, especiarias, defumados de rara elegância e até um toque floral. A boca é uma seda com perfeito equilíbrio entre álcool e acidez. Apesar da idade, sua vivacidade é incrível.

landonne 88

Um Côte-Rôtie fora da curva

O vinho abaixo é a decepção mais esperada às cegas,  o rei Petrus. Não dá nem para reclamar da safra 89, normalmente abordável, mesmo na juventude. É que Petrus é chato mesmo. Para um Merlot, é austero demais, tânico demais, fechado demais. O certo mesmo era ter uma apelação própria: appellation Petrus Controlée. Um vinho de futuro imenso, cor intensa ainda rubi. Os aromas são concentrados, a boca firme com uma estrutura tânica para poucos. Um dia ele desperta de seu longo sono para mostrar todo seu esplendor.

petrus 89

Petrus 89: grande safra e muita paciência

Continuando a saga, outro clássico de 1982 em Bordeaux, Château La Mission Haut-Brion, o grande rival do único Premier de Graves na classificação de 1855. Vinho hedonista, com aromas terciários incríveis e muito bem dosados. Em boca, uma seda com taninos abundantes e polidos. Muito equilibrado entre seus componentes, persistência longa e um final delicioso. Pratos com trufas e cogumelos são a pedida ideal.

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Um clássico de Graves nesta safra

Finalmente, um tinto do Novo Mundo. Este californiano da bela safra de 1997 baseado em Cabernet Sauvignon é o topo de linha da vinícola Abreu, seu vinhedo mais famoso, Madrona Ranch. Praticamente um Bordeaux da California. Elegante, denso, maduro, fazendo jus à excelente safra de 97. Talvez seja o mais pronto a ser bebido, mas com um bom potencial de guarda ainda.

abreu 97

Safra 1997: 100 pontos

Para fechar a série, outro 100 pontos, Château Latour 1982. Um Pauillac de grande estrutura com muita vida pela frente. Os aromas de cassis, caixa de charutos, ervas, toques animais, confirmam a autenticidade de sua comuna. Cor intensa, vinho de bom corpo, elegante e imponente, taninos sólidos, muito equilíbrio e um final de boca que só os grandes vinhos são capazes de proporcionar.

latour 82

Um dos grandes Latours de toda a história

600 pontos

600 pontos perfilados

Após a perfeição, somente ela para dar continuidade ao evento. Acompanhando belos puros, dois Portos para beber de joelhos em seus estilos mais nobres. O Vintage abaixo se não bastasse ser um Noval da mítica safra de 1963, tinha o requinte de ser um Nacional (parreiras pré-filoxera). Um vinho imortal. Cor ainda sadia, jovial. Aromas de grande complexidade com frutas em compota, toques florais, minerais, de especiarias, defumados, enfim, difícil descreve-lo.

nacional 63

Nacional 1963: perfeição nos detalhes

Para terminar, lembram do Scion? um Porto Colheita excepcional da Casa Taylor´s?  Pois bem, a Graham´s também tem seus tesouros. Algumas barricas foram encontradas nas antigas adegas da família Symington constatando a data de 1882. Trata-se de um Colheita de grande permanência em madeira, beneficiando-se das benesses da micro oxigenação. Um equilíbrio fantástico, assim como sua persistência aromática interminável.

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Embalagem impecável de acordo com o conteúdo

A linda embalagem acima é o resultado final do engarrafamento de somente 656 decanters numerados, cuidadosamente confeccionados em cristal, emoldurado com um belo colar em prata num estojo em legitimo couro ingles. O nome desta joia: “Ne Oublie”.

ruby e tawny

Ruby e Tawny: dois caminhos de sucesso

As taças acima mostram bem os caminhos traçados por estes dois gigantes. A taça da esquerda (Noval Nacional) parte de um Porto com pouco contato em madeira, apostando num longo envelhecimento em garrafa, ambiente redutivo (ausência de oxigênio). Já a taça da direita (Graham´s Ne Oublie), ocorre o inverso. Longo envelhecimento em pipas de madeira com longa e constante micro oxigenação.

Para não estragar o dia, resolvemos parar na perfeição. Tem horas que não vale a pena arriscar. Que outros vinhos do Olimpo possam nos deleitar. Abraço a todos os confrades!

Bordeaux 1961: Primeiros Movimentos

16 de Agosto de 2015

Em mais uma reunião de amigos, uma degustação histórica: Grandes Bordeaux da safra 1961. Os desavisados pensarão, cinquenta e quatro anos de vinhos em decadência. Ledo engano, muitos estão no seu apogeu com um longo platô de estabilização. O Château Latour 61 é um mito que está revelando seus segredos agora. Cem pontos consistente de Parker com previsão de chegar bem até 2040.

A safra 1961 foi o grande ano do pós-guerra, só sendo ombreada por outra não menos espetacular de 1982. Foi uma colheita muito pequena por conta de geadas, mas amadureceu com uma concentração e níveis de taninos impressionantes. As sub-regiões de maior destaque foram: Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe e Graves, todas de margem esquerda. Na margem direita, apesar de belos vinhos, não teve o mesmo esplendor que sua rival. Contudo, há exceções como alguns grandes de Pomerol: Petrus, Latour à Pomerol, Lafleur, Trotanoy, todos com cem pontos ou muito próximos.

O Podium da degustação: Latour à Pomerol em Magnum

Antes de chegarmos ao supra-sumo da foto acima, tivemos um longo caminho a percorrer. Como a tarde era de tintos, precisaríamos de um único branco para dar início aos trabalhos. E este branco teria que ser fora da curva. Afinal, só no podium acima temos 300 pontos de Robert Parker consistentes em várias provas documentadas. Para não errar, que tal um Magnum Dom Pérignon 1973 Plenitude três (P3)?. Com mais de trinta anos sur-lies (contato com as leveduras), esbanjou frescor, corpo, complexidade e um equilíbrio fantástico. Persistência notável com notas de mel, brioche, frutas secas e delicadas especiarias. Só para deixar claro mais uma vez, o contato prolongado com as leveduras confere uma proteção ao champagne muito mais estável do que as melhores adegas poderiam fornecer, ou seja, a evolução em contato com as leveduras vai proporcionar uma complexidade aromática ímpar que dificilmente seria alcançada com tempo similar em adega. Só que para esse contato prolongado atingir tal êxito, os vinhos-bases que compõem estas cuvées especiais precisam ser excepcionais.

Dom Pérignon P3: Dégorgement tardio

Momentos tensos na abertura das garrafas. Rolhas extremamente fragilizadas pela idade, embora todas de excelente procedência. Neste caso, o abridor de lâminas paralelas é obrigatório. Mesmo assim, nem tudo é perfeito, conforme foto abaixo. Felizmente, pedaços que se desprenderam das rolhas foram devidamente retirados sem macular os preciosos líquidos. Além disso, as decantações acusaram sensíveis depósitos nas garrafas. Enfim, valeu a tensão.

Muita paciência e sensibilidade a cada rolha

Latour à Pomerol: abertura da estrela da tarde

Olha a cor deste cinquentão

Coube a mim o prazer e a responsabilidade de abrir o Magnum Latour à Pomerol 1961 (um dos sonhos de Robert Parker). Devidamente decantado, numa sucessão de vários 61 de grande categoria. Na foto acima, cor profunda e o depósito separado no fundo da garrafa.

Uma parte da brincadeira

Antes de analisarmos vinho a vinho sempre apresentados e degustados dois a dois, vale a pena comentar a qualidade e ao mesmo tempo a inconstância desta safra para cada château. Como foi dito, os vinhos de margem esquerda levam vantagem de um modo geral, mas há disparidades mesmo entre grandes châteaux de uma mesma comuna, como veremos nos próximos artigos. Em linhas gerais, a safra de 1982 é mais regular e igualmente esplendorosa. Contudo, 1961 produziu alguns vinhos quase inimitáveis como o grande Latour, Petrus, Latour à Pomerol, Haut-Brion, La Mission Haut-Brion, entre outros. Portanto, a escolha do château é de fundamental importância nesta mítica safra de 1961.

Próximos artigos: embate de gigantes dois a dois.

Petrus e a Argila Azul

17 de Março de 2015

O assunto “Terroir” é recorrente neste blog, pois através dele tentamos entender e procurar razões coerentes para os grandes vinhos do planeta. Sem dúvida, Petrus apesar de sua origem humilde e recente, brilha entre os melhores tintos do mundo, muitas vezes incompreendido por sua proposta de longa guarda, além de preços estratosféricos.

Instalações modestas para uma Estrela

Petrus é apenas o nome de uma colina batizada pelos romanos que significa pedra. A propriedade de pouco mais de dez hectares só ganhou fama após a segunda guerra mundial. A então proprietária Madame Loubat, confiou a distribuição de seu vinho a Jean-Pierre Moueix, o qual buscou o mercado americano, chegando à cúpula do governo, a Casa Branca, onde o presidente John Kennedy se tornaria um de seus mais ilustres apreciadores. Daí para frente, Petrus tomou parte da elite dos melhores vinhos do planeta. Contudo, Petrus continuou modesto em seu status. Não é um château nos moldes bordaleses e nem tem esse nome no rótulo, apenas Petrus. Não possui nenhuma designação legislativa específica, fazendo parte simplesmente da apelação Pomerol. E nem precisa, seu nome já diz tudo.

Atualmente, seu mentor é o enólogo Olivier Berrouet, filho de Jean-Claude Berrouet, este, responsável por mais de quarenta safras do mítico tinto, desde 1964. Olivier além da genética, tem formação sólida e cresceu vendo este vinhedo. Em seus estágios, passou por terroirs como Cheval Blanc, Yquem, Margaux, Haut-Brion, capitando os segredos e a essência destes sítios privilegiados.

Após breve relato, vamos ao tema do artigo, a famosa argila azul. Aqui começa o mistério e a peculiaridade deste vinho. Este tipo de argila fazia parte da bacia da Aquitânia em outras eras geológicas, formando o fundo deste mar. É inexplicável como após milhões de anos esta argila foi parar na alto da colina Petrus. Após uma camada superficial não muito espessa (60 a 80 centímetros) de solo erodido e pedregoso, encontramos a tal argila azul, rica em ferro. O ferro proporciona muita cor ao vinho, tornando Petrus um dos vinhos mais escuros, sobretudo na juventude. A argila de boa compactação impede a penetração das raízes a grandes profundidades. Esta é uma particularidade única em Petrus. O sistema radicular desenvolve-se muito mais horizontalmente do que o habitual para vinhas bordalesas. Portanto, é inútil trabalharmos com alta densidade no vinhedo, pois as raízes iriam se entrelaçar. Sabemos que no solo do Médoc, por exemplo, a densidade de plantio chega a dez mil plantas por hectare, promovendo grande competição entre as raízes em busca de profundidade e sobrevivência. Já em Petrus, a densidade não passa de 6500 pés por hectare. Além disso, a declividade da colina elimina o excesso de água e ao mesmo tempo, a argila retêm o balança hídrico necessário para os períodos de estiagem. Portanto, um terroir perfeito para a casta Merlot. As vinhas em Petrus têm idade média de 40 anos, as mais antigas passam de 60 anos. Esta idade mais avançada permite expressar um vinho com mais fidelidade quanto ao terroir.

100 pontos ainda em evolução

Os cuidados no vinhedo são extremos quanto à poda, a brotos com imperfeições, e o momento exato da colheita. Daí para frente é um trabalho de cantina que será tanto mais fácil, à medida em que os erros no campo foram os menores possíveis. Outro fator importante na vinificação é o aporte mínimo de oxigênio para a casta Merlot, pois seus taninos são muito dóceis. Já no caso das Cabernets, a participação do oxigênio no processo fermentativo e de extração é bem-vindo, posto que seus taninos mais duros se beneficiam deste contato. Portanto, Petrus prefere vinificar em tanques de concreto onde a inércia térmica é bem maior. A preocupação com a extração na vinificação, ou seja, o tempo de contato com as cascas é também muito bem controlado e preocupante. Um vinho muito extraído é como um sachê de chá onde a temperatura e o tempo de contato com a água  não foram respeitados. Portanto, Petrus prefere muitas vezes abreviar este tempo de extração, mas obter um vinho perfeitamente equilibrado. Não adianta extrair mais do que a potência de uma determinada safra pode oferecer. Este tempo varias de 12 a 18 dias, conforme o millésime.

Elaborado o vinho é hora de educa-lo, pois sua trajetória em garrafas nas melhores adegas será longa, pelo menos algumas décadas. Petrus tem se preocupado cada vez mais com o aporte de madeira no vinho. Atualmente, não se pensa em amadurecê-lo num intervalo de tempo muito grande, digamos entre 14 e 18 meses, sendo que somente 50% em madeira nova. Olivier explica que a madeira tem a função tão somente de micro-oxigenar o vinho. Quando muito, alguns toques delicados que mesclam especiarias, tostados e balsâmicos. Neste raciocínio, a mineralidade aflora com mais liberdade.

Em suma, Petrus é a expressão de um grande terroir que deve ser respeitado, cuidado e por que não?, melhorado ao longo do tempo com muito critério, sensibilidade e parcimônia. Petrus não é um vinho para consumo imediato, ele não se mostra imediatamente. Como nos grandes terroirs, seus segredos vão sendo desvendados ano a ano, década à década. Portanto, não jogue seu dinheiro no impulso da ansiedade. Antes de ter dinheiro, é preciso paciência e bom senso. Na prática isso quer dizer: Não abra um Petrus antes de pelos menos 15 anos de safra, melhor 20 ou mais. Caso contrário, você nunca saberá o que é verdadeiramente um Petrus.

Saint-Emilion: Terroir e Classificação

3 de Junho de 2013

Dentre as várias classificações na famosa região vinícola de Bordeaux, uma das mais polêmicas e porque não dizer das mais confusas, é a dos vinhos de Saint-Emilion, sub-região importante da chamada margem direita. Esta classificação criada em 1954, prometia ser revisada de dez em dez anos, acompanhando a evolução dos principais châteaux. Tudo corria relativamente bem até que em 2006, houve confusão generalizada, acabando nos tribunais da região. Somente em 2012, foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés, conforme tabela abaixo. É só clicar.

http://www.vins-saint-emilion.com/sites/default/files/vins-de-saint-emilion-classement-2012.pdf

É bom salientar que esta nomenclatura vale só para os vinhos de Saint-Emilion. A famosa classificação de 1855, referentes ao vinhos do Médoc, tem outro tipo de nomenclatura. Por isso, muitas vezes a confusão de vários termos. O pomposo termo Grand Cru Classe em Saint-Emilion na prática, não quer dizer muita coisa. Portanto, dentre esses sessenta e quatro châteaux descritos, talvez uma dúzia faça jus ao título. Por exemplo, château Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.

Château Pavie: Polêmico, porém marcante

Já no grupo dos dezoito Premiers Grands Crus Classés, a confiabilidade é praticamente total. Vinhos de terroir, profundos, embora de estilos diversos. Evidentemente, Cheval Blanc e Ausone marcaram supremacia durante décadas com a designação A, diferenciando-se dos demais. Na classificação atual, ganharam a companhia dos châteaux Pavie (acima) e Angelus (abaixo) com a mesma designação. Se estão à altura, só o tempo dirá, mas os preços certamente subirão com o novo status.

Château Angélus: em ótima forma

 Angelus parece ser mais europeu, mais sóbrio, enquanto Pavie é mais direto, mais exuberante, mais invasivo. Talvez a grande proporção de Cabernet Franc no corte do Angelus, explique esta finesse, esta elegância, semelhante ao corte do grande Cheval Blanc. Do lado de Pavie, a grande proporção de Merlot, é responsável pela fruta exuberante, taninos dóceis, e textura macia, mesmo relativamente novo. Não nos esqueçamos que na famosa degustação às cegas, onde o plebeu Château Reignac balançou grandes nomes da margem direita e esquerda num artigo deste mesmo blog intulado: “Degustação às cegas: Existem Experts?”, o grande vencedor na média foi o Château Angelus, descrito como um vinho elegante e equilibrado. O equilíbrio entre argila, calcário e areia, nas várias partes da colina em seus vinhedos parece ser a chave do grande sucesso e ascensão.

Em tempo, a apelação rival de Pomerol continua sem classificação oficial. A única certeza é que Château Petrus segue seu reinado, seguido de perto pelo Château Le Pin, pelo menos em preços.

Os Grandes Vinhos: Corte ou Varietal

18 de Julho de 2010

A eterna busca pela explicação dos melhores vinhos do mundo passa pelo subjetivo conceito de terroir, envolvendo inúmeros aspectos naturais e humanos. Um desses aspectos diz respeito à composição de uvas na concepção de um grande vinho. Nesta briga estão duas grandes escolas francesas: Bordeaux e Bourgogne, ou seja, corte versus varietal.

A Borgonha para os tintos adotou somente a caprichosa Pinot Noir e paga caro por isso, levando às últimas consequências o conceito de terroir. Seus melhores vinhos é uma intrincada batalha envolvendo produtor comunal, safra e o terreno perfeito. E quando se busca a perfeição com uma só uva, a limitação do vinhedo é fundamental. Clones específicos, leveduras nativas, composição judiciosa do solo entre calcário e argila, altitude e inclinação do vinhedo bem calibradas e baixíssimos rendimentos por parreira são alguns dos segredos.

Neste contexto, é sempre óbvio falarmos do badalado Romanée-Conti, citado por muitos e provado por poucos. Dependendo da safra, seus preços são incontroláveis. Mas para quem gosta de exclusidade, o rótulo abaixo ainda é mais raro que o “the best”. O vinhedo é vizinho e o nome quase se confunde. Trata-se de um monopólio da famila Liger-Belair com área equivalente a 0,8452 hectares. Isso mesmo, menos de um hectare, metade da área do Romanée-Conti.

Um jardim na Borgonha: menos de um hectare

 

Do lado bordalês, a concepção é outra, principalmente por lidar com grandes extensões de vinhedos em relação aos padrões borgonheses. De fato, a idéia de corte de duas ou três uvas na maioria dos casos, além de aparar arestas, realçar sabores e enriquecer o conjunto, tem papel importantíssimo nas safras problemáticas, aumentando a proporção de determinadas uvas mais favorecidas ou menos prejudicadas. É assim nas famosas margens esquerda e direita, conforme série de posts passados (vide Bordeaux de I a V). Contudo, quando falamos de grandes bordeaux, principalmente em termos de preço e exclusividade, o rei Petrus é praticamente uma unanimidade. Com uma área pouco mais de dez hectares, em média dez vezes menor que os grandes châteaux do Médoc, voltamos ao tema varietal com forte conceito de terroir. Apesar de não estar expresso no rótulo, Château Petrus é tecnicamente um varietal de Merlot, com algo em torno de cinco porcento de Cabernet Franc.

Seguindo o foco extremo de exclusividade, o grande Petrus perde feio para o minúsculo Château Le Pin (vide foto abaixo), com pouco mais de dois hectares. Também com alta porcentagem de Merlot, é uma das grandes estrelas no seleto grupo de vinhos numa das menores apelações bordalesas, Pomerol.

 

Le Pin: Um dos precursores da microvinificação

 

 

Finalizando o raciocínio, quando lidamos com grife, exclusividade, artesanato, glamour, estamos falando em vinhedos minúsculos, portanto, de baixíssima produção. Nesta linha de pensamento, a idéia de uma só uva num espaço tão reduzido faz todo o sentido com o conceito extremo de terroir onde solo, clima, uva e homem são capazes de criar algo harmônico, beirando a perfeição.

Para não deixar Champagne fora do assunto, que fundamentamente é uma região de vinhos de corte, com maisons e cuvées fantásticas, quando lidamos com o extremo artesanato das melhores bolhas do mundo, nos deparamos com preciosidades como Salon e Krug Clos de Mesnil, ambas de vinhedos minúsculos e cem porcento Chardonnay. Portanto, dentro de uma certa ótica, os varietais parecem ser destinados a atingirem a perfeição na medida do possível.

 

 

 

Bordeaux: Parte IV

19 de Fevereiro de 2010

 

 

 

 Margem Direita

  

Mais uma expressão clássica: vinhos da margem direita. Pelo mapa acima, percebemos que a referência é a margem direita do rio Dordogne, sendo as apelações de Pomerol e Saint-Emilion seus grandes expoentes. As apelações satélites que rodeiam essas famosas regiões também fazem parte da margem direita. A rigor, até as apelações Côtes de Blaye e Côtes de Bourg que não aparecem no mapa  por estarem na margem direita do Gironde, devem também ser incluídas.

Tudo muda aqui em relação ao Médoc em termos de solo e composição de uvas. A argila predomina nesta área, notadamente em Pomerol, o que favorece o bom desempenho da Merlot. Em algumas áreas onde destaca-se também o cascalho, a Cabernet Franc entra em ação. Portanto, são essas duas uvas,  com a Cabernet Franc complementando a Merlot, que  norteiam o chamado corte bordalês, deixando muito pouco espaço para a Cabernet Sauvignon.

Pomerol

Berço espiritual da Merlot com o mítico Château Petrus reinando absoluto. Não há uma classificação oficial, mas todos sabem que o grande Petrus é hors concours, seguido por uma dezena de excelentes opções.

Se dinheiro não for problema, Petrus e Le Pin são as estrelas da região. Como viraram grifes, os preços vão às alturas, embora sejam vinhos diferenciados. Baseado na Merlot em solos argilosos, os rendimentos por parreira são baixíssimos, além de um belo estágio em barricas novas de carvalho. Os demais châteaux que são para mortais seguem descritos abaixo e podem surpreender os mais exigentes paladares.

Château Lafleur e Château Trotanoy são opções quase unânimes para as estrelas acima, com muito requinte e personalidade. La Conseillante, L´Evangile e Petit- Village são também pedidas encantadoras. Vieux-Château-Certan, do mesmo proprietário do Le Pin, apesar de suntuoso, segue um estilo mais medoquino, mais austero, com menor porporção de Merlot e presença de Cabernet Sauvignon.

Em resumo, os vinhos de Pomerol são adoráveis, macios e com frutas exuberantes, porém muito caros. A região é minúscula com menos de 800 hectares, ou seja, um quadrado de menos de 3 km de lado. Resultado: baixa produção para uma demanda enorme.

Saint-Emilon

Comparada a Pomerol, esta apelação é bem maior (cerca de 5400 hectares) com solos extremamente complexos e diferenciados. Para não complicar muito, podemos dizer que os solos mais arenosos e os solos dos vales, próximos ao Dordogne dão origem a vinhos pouco expressivos. Os grandes vinhos  estão em torno da cidade de St Emilion nas chamadas Côtes (encostas), bem como, nos solos de cascalho (graves) nas proximidades de Pomerol.

A classificação oficial dos vinhos de Saint-Emilion passa por um momento conturbado. Iniciada em 1955 foi prevista uma revisão de 10 em 10 anos, sendo a úlitma em 2006, extremamente polêmica, diga-se de passagem. Esta classificação apresenta três níveis de hierarquia:

  • Premiers Grands Crus Classés A: Châtau Ausone e Château Cheval Blanc
  • Premiers Grands Crus Classés B: com treze châteaux
  • Grands Crus Classés: com cinquenta e três  châteaux

Neste último nível, a expressão Grands Crus Classés não tem nem de longe o peso que tem para os Grands Crus da Borgonha. São vinhos relativamente simples com raríssimas exceções. 

Falar dos châteaux classe A é chover no molhado. Seu único defeito é o preço. Château Ausone é um vinhedo quase dentro da cidade de St Emilon num solo extremamente calcário. É um vinho difícil, principalmente quando jovem. Revela-se aos poucos e exige paciência e experiência de quem o possui.

Já Cheval Blanc é totalmente oposto. De solo pedregoso, próximo a Pomerol, origina vinhos elegantes e extremamente receptivos, mesmo quando jovens. A Cabernet Franc tem participação marcante, sendo muitas vezes majoritária. É um vinho de sonhos com a safra de 1947 transformada no maior mito entre os grandes de Bordeaux. Château Figeac, da mesma região, é muito interessante, mas evidentemente, sem o mesmo brilho e glamour.

Os châteaux do grupo B são as grandes pedidas sem gastar uma fortuna. Château Canon, Pavie, Angelus, Magdelaine  e La Gafferière são  grandes experiências para sentir o terroir de Saint Emilion.

Satélites de St Emilion e Pomerol

Lalande de Pomerol, Montagne-St-Emilion, St-Georges-St-Emilion, Lussac-St-Emilion, Puisseguin-St-Emilion, Fronsac e Canon-Fronsac São apelações que circundam os grandes astros (Pomerol e St Emilion). São vinhos não tão complexos, mas podem ser interessantes, a medida em que o produtor possa exprimir com fidelidade seu respectivo terroir. Infelizmente, a oferta destes vinhos no Brasil é escassa. Vieux Château Saint-André, Château Les Hauts Conseillants e Château Fontenil são boas opções.

Vins de Garage

Tradição e notoriedade têm seus efeitos colaterais em Bordeaux. A Rigidez e inflexibilidade das classificações não dão margem a novos châteaux. Foi desta revolta que surgiram os garagistas nas regiões de Pomerol e St Emilion. São vinhedos minúsculos com uvas vinificadas em espaço reduzido (num cômodo como uma garagem). Os vinhos são concentrados, bastante extraídos e com passagem obrigatória por barricas novas, às vezes 200% em carvalho. É quando você passa um vinho no primeiro ano em barrica nova e no segundo ano você troca novamente a barrica por outra nova. Em resumo, são vinhos parkerizados, extremamente concentrados e acarvalhados. Muitos consideram o Le Pin como precursor desta categoria, mas pessoalmente considero um exagero. Os châteaux Valandraud e Le Dôme resumem melhor este conceito. São vinhos caros, pontuados e de prestígio. Enfim, conseguiram seu objetivo, mas altamente polêmicos quanto ao terroir.

Em resumo, os vinhos de St Emilion não apresentam um estilo bem definido. Ora são mais frutados e abertos tendendo a Pomerol, ora são mais austeros e fechados tendendo ao Médoc, sem falar nos garagistas que costumam anabolizar seus vinhos, tornando-os verdadeiros blockbusters.