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Léoville Las Cases em parcelas

17 de Maio de 2018

Vizinho ao grande Latour, Chateau Léoville Las Cases é o mais prestigiado e consistente entre os Léovilles (Barton e Poyferré). Na época da revolução francesa, a propriedade foi dividida formando os três Léovilles, sendo a maior parte, 3/5 da área, destinada ao Las Cases. O mapa abaixo, mostra o perfil geológico do vinhedo num terroir complexo, entre pedras (graves), areia, argila, e limo. Até 2007, Clos du Marquis era considerado seu segundo vinho, embora já fosse um vinhedo separado. Atualmente, seu segundo vinho é chamado de Petit Lion. Pela ótima consistência, ano após ano, Clos de Marquis merece um status independente, fazendo parte desta nobre propriedade.

leoville las cases mapa

colado ao Chateau Latour

No vídeo abaixo, num determinado momento, aparece a distribuição das vinhas do Chateau. A maioria das parcelas de Cabernet Sauvignon ficam na parte mais alta onde a camada de cascalho é mais espessa. Já as vinhas de Merlot ficam mais próximas ao rio num solo um pouco mais frio com boa presença de argila. No caso das pequenas porções de Cabernet Franc, o solo arenoso com pedras é o mais indicado.

A separação da propriedade com o Chateau Latour se dá através de uma das valas de drenagem do Médoc, Ruisseau de Juillac, onde há um modificação na espessura do cascalho. Léoville Las Cases juntamente com Ducru-Beucaillou são os dois mais reputados vinhos da comuna de Saint-Julien, embora de estilos diferentes.

distribuição das vinhas no terreno

Após esta introdução, vamos ao objetivo do artigo, baseado numa degustação sui generis da ótima safra de 1986. Numa caixa exclusiva do Chateau nesta safra, foram dispostas além do Grand Vin, garrafas separadas de todas as uvas que compõem o blend. São elas: Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, e uma pitada de Petit Verdot.

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Começando pelo Grand Vin, Léoville Las Cases 1986, é uma safra de 100 pontos Robert Parker com apogeu previsto entre 2030 e 2035. Pela potência de taninos desta safra tão dura, haja vista, o grande Mouton com 100 pontos que parece  não  abrir nunca, este Léoville está bem abordável. Tem um estrutura densa de taninos, mas de ótima textura. Os aromas começam a se abrir pouco a pouco, denotando as notas de tabaco, chocolate, e cassis. Muito equilibrado e uma expansão de boca notável.

varietais e duas garrafas do Grand Vin

Quanto aos varietais degustados separadamente, percebemos claramente que o Cabernet Sauvignon é a espinha dorsal do Grand Vin, fato previsto, já que se trata de vinhos de margem esquerda. A Merlot tem aquele lado macio, afável, que complementa muito bem as arestas masculinas do Cabernet Sauvignon. Já o Cabernet Franc, é um vinho muito mais de aroma que textura e peso em boca. Ele participa sobretudo no blend, dando um toque de elegância. Por fim, a Petit Verdot fornece o tempero do blend. É uma uva tão potente como a Cabernet Sauvignon, porém falta-lhe classe, denotando uma certa rusticidade. Ela funciona mais ou menos como a pimenta em termos de tempero. Na medida certa, levanta o sabor. Contudo, no exagero, pode estragar o prato.

Feitas essas considerações, o blend do Grand Vin fica assim: 66% Cabernet Sauvignon, 19% Merlot, 11% Cabernet Franc, e 4% Petit Verdot. Após a degustação em separado dos varietais, começou a brincadeira de composição de blends individuais em proporções variadas. Teve gente que excluiu uma ou outra uva do blend, outros optaram por proporções altas de Cabernet Sauvignon. Enfim, uma experiência divertida.

Dentre as experiências, a mais didática foi compor o blend do Grand Vin na proveta nas proporções indicadas acima, e comparar com o vinho original elaborado no Chateau. Embora a proporção de uvas seja a mesma, ficou claro que faltava uma integração melhor dos componentes do vinho quando mesclamos as uvas na proveta. A explicação é mais que óbvia. Na composição do Grand Vin, os blends são formados logo após a fermentação  que é realizada separadamente das uvas. Passado um período de descanso nos tanques, é realizado o blend e o vinho vai para as barricas. Neste período, há uma integração total do vinho, aparando arestas, enriquecendo texturas e aromas.

No caso de misturar os varietais na proveta que envelheceram separadamente nas barricas e na garrafa, esta integração não fica perfeita. Melhora-se o conjunto, mas a perfeição, a amalgamação total, não acontece.

Notas Robert Parker para os varietais

  • Cabernet Sauvignon – RP 93 pontos (o rei da margem esquerda)
  • Merlot – RP 87 pontos (útil no blend, fraco no individual)
  • Cabernet Franc – RP 90 pontos (a elegância do blend)
  • Petit Verdot – RP 91 pontos (a pitada de tempero para realçar o blend)

Enfim, uma experiência inesquecível, e extremamente didática. Agradecimentos especiais ao nosso Maestro por mais esta prova de generosidade entre amigos. Saúde a todos! 

Descorchados: Impressões

13 de Abril de 2017

O mais respeitado guia de vinhos da América do Sul, envolvendo países como Chile, Argentina, Brasil e Uruguai. A infinidade de vinhos premiados é imensa com muitas notas em torno de 95 pontos ou mais. Nota é sempre algo subjetivo, mas penso que alguns vinhos têm pontuação exagerada. De todo modo, é um painel bem amplo do que acontece no Continente em termos de tradição, novidades, e grandes promessas.

O Brasil, enfatizado pelos conhecidos e bons espumantes, mostra diversidade de estilos, trabalhando bem tanto no método tradicional, como no Charmat. Destaque especial para Cave Geisse, sediada num terroir privilegiado, além do talento de sua equipe técnica. Pessoalmente, o melhor espumante do Brasil.

O Chile, sempre crescendo em qualidade e diversidade, além de uma das potências em exportações de vinho no Mundo. Cada vez mais, explorando bem a versatilidade de seus inúmeros vales de norte a sul, temperados pelo frio Oceano Pacífico e a imponente Cordilheira dos Andes.

A Argentina, explorando bem o terroir mendocino, especialmente o frio Valle de Uco, com micros terroirs diversificados, dando a cada vinho personalidade própria. Salta, no extremo norte, e Patagônia, no extremo sul, são regiões com certeza ainda de muitas surpresas num futuro próximo.

O Uruguai, um pouco mais modesto, mostra sua força num território comparativamente minúsculo. Contudo, o clima temperado pelas águas mais frias nesta latitude, mostra tintos equilibrados, além de brancos vibrantes e originais.

O evento ocorreu no Espaço Traffô, um tanto tumultuado tal a quantidade de pessoas circulando. Neste caso, mereceria pelo menos mais um dia dividindo este público para um roteiro de vinhos mais tranquilo.

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Cave Geisse: orgulho brasileiro

Aqui temos as melhores uvas Pinot Noir da safra na elaboração deste Blanc de Noir. No pescoço da garrafa vem indicado a safra e a data de dégorgement, normalmente com três anos sur lies. Cremosidade e corpo consistentes com muito frescor e equilíbrio. Os demais espumantes da casa seguem sempre um padrão de alta qualidade.

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belos vinhos em estilos diferentes

Aqui, duas belas novidades em termos de uvas e terroirs. Muito bem pontuados, o branco da esquerda, Granito Sémillon mostra grande estrutura, corpo, textura e mineralidade. Um vinho denso e super equilibrado. Elaborado pela vinícola chilena J. Bouchon no vale do Maule em solo granítico. Já o branco da direita, uma agradável surpresa uruguaia com a casta Albariño na mais nova região vinícola deste país, perto de Punta del Leste, a chamada região Sudeste. Muito frescor, elegância e mineralidade. Uma pequena parte do lote passado em barricas francesas não mascara a fruta, resultando num conjunto harmônico.

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argentinos diferenciados

O vinho da esquerda é um Torrontés de Salta, região norte da Argentina de grande altitude. Estamos falando em torno de dois mil metros acima do nível do mar. Este antigo vinhedo plantado nos anos de 1945 em latada (condução de vinha chamada também de parral), faz toda a diferença neste branco fresco, muito equilibrado, sem aqueles aromas invasivos e muitas vezes enjoativos da aromática Torrontés. Talvez o melhor Torrontés que já tenha provado. No vinho da direita, mineralidade à toda prova com evidente gosto salino. Este Sauvignon Blanc vem de Valle de Uco, mais especificamente, Gualtallary a 1450 metros de altitude. Mesmo com certo contato sur lies, o vinho é quase elétrico em boca com muito fresco e pureza de fruta. Conceitos biodinâmicos em todos os vinhos desta vinícola, Zorzal.

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uva rustica bem trabalhada

A uva País (Chile) ou Criolla (Argentina) foi trazida na época da colonização espanhola nativa das Ilhas Canárias. Normalmente, gera vinhos rústicos, sem muitos atrativos. No entanto, bem trabalhada, pode ter resultados curiosos e surpreendentes. É o caso dos dois exemplares acima, um argentino, outro chileno.

O vinho da esquerda, são parreiras de 1958 com uvas perfeitamente adaptadas ao seu terroir. A vinificação inicial começa como um tinto propriamente dito. Em seguida, são retiradas as cascas, prosseguindo uma vinificação aos moldes de um branco. O vinho depois de estabilizado é engarrafado sem filtração. Delicado e profundo ao mesmo tempo. Já o da direita, parreiras totalmente selvagens como o próprio nome diz. São vinhedos na região chilena do Maule secano (região costeira do Maule), onde as vinhas foram plantadas em meio a vegetação nativa, trepando pela árvores sem condução. Isso dificulta a colheita, a qual é feita por meio de escadas, nos moldes dos vinhedos antigos na região dos Vinhos Verdes em Portugal. 50% das uvas são fermentadas com maceração carbônica, enriquecendo os aromas de frutas, e a outra metade numa fermentação normal em cubas. O resultado é um vinho delicado, original e totalmente natural. Nos dois vinhos, extraem-se delicadeza, suavidade, sem aquela rusticidade habitual.

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mais vinhas antigas

O tesouro das vinhas antigas é um patrimônio que deve ser preservado a qualquer custo. São vinhos de personalidade, de equilíbrio raro, marcantes sem serem pesados. Enfim, uma maravilha. No caso da esquerda, são parreiras de 60 anos das famosas vinhas de Carignan do Maule. Com a vinificação primorosa da família Morandé, este tinto mostra toda sua autenticidade e frescor incríveis. Já o Cabernet Sauvignon da direita, voltamos à vinícola El Esteco de Salta para mais uma vinha antiga de 54 anos, plantada a 1700 metros de altitude. Partindo de baixos rendimentos, o vinho estagia em barricas francesas por 15 meses. Um Cabernet de raça com um balanço incrível entre força e elegância. Dois tintos de grande personalidade.

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O versátil Valle de Colchagua

Aqui, uma homenagem à Casa Silva, uma das referências em vinícolas no terroir de Colchagua. Ampla gama de vinhos sempre bem elaborados. Neste caso, dois tintos bem específicos. O da esquerda, um Petit Verdot de duas parcelas exclusivas da propriedade. Vinho robusto, cheio de taninos, próprio para carnes suculentas e fibrosas como bife de Chorizo. Bem educado em barricas francesas por 12 meses. Já o vinho da direita, um Carmenère também de parcelas exclusivas, bem trabalhado em barrica francesa, tanto na vinificação, como amadurecimento por 12 meses. Fora de Peumo, o terroir ideal para esta tardia casta, um dos melhores Carmenères do Chile.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!

Novidades no sul do Brasil

17 de Novembro de 2014

Confesso a vocês que não sou muito otimista com os vinhos brasileiros, sobretudo quanto à sua relação qualidade/preço. Isso é facilmente comprovado pelos poucos artigos descritos neste blog. Entretanto, quando há boas novidades, é um dever divulga-los. Além de se fazer justiça, é sempre um incentivo aos produtores em busca incessante pela qualidade e esmero em seus vinhos. Numa viagem recente, segue abaixo relato do que melhor tivemos a oportunidade de degustar.

Só para começar, dois Alvarinhos surpreendentes do sul do país. É! É isso mesmo, Alvarinho. Aquela casta do Minho português, das Rias Baixas espanhola. Não só cumpriram o desafio desta temperamental casta, como marcaram personalidade em seus vinhos. O primeiro, foto abaixo, é da vinícola Hermann, do mesmo Adolar, proprietário da destacada importadora Decanter (www.decanter.com.br). Branco elegante, delicado, com toques florais e de frutas brancas.

Bela expressão do varietal

O vinho abaixo, Alvarinho da vinícola Miolo, é elaborado na Campanha, região mais meridional do sul do país, fazendo divisa com terras uruguaias. Apresenta passagem por barrica, um procedimento sempre ousado para vinhos brancos, mas com grande êxito. A madeira só valorizou o vinho, acrescentando elegância e finesse.

Toque elegante de madeira

O vinho abaixo é outra grata surpresa. Um Alicante Bouschet da serra gaúcha elaborado pela competente vinícola Pizzato. Esta é a casta majoritária do grande Mouchão, um alentejano de primeira linha que pessoalmente, é o melhor e mais diferenciado da região. Um tinto de cor extremamente profunda a despeito de seus seis anos de idade (safra 2008). Os aromas concentrados de frutas escuras somam-se a toques de ervas e mentol muito bem casados. A estrutura tânica é notável  e sua persistência aromática bastante expansiva. Trata-se de um vinho de guarda para pelo menos mais oito anos. Vale a pena provar!

Casta exótica surpreendente

O vinho abaixo às cegas passaria facilmente por qualquer ícone chileno ou argentino. Sua cor é impenetrável  e seus aromas esbanjam frutas, especiarias e um refinado toque de madeira francesa. O corpo é impactante com um equilíbrio notável. Seus taninos ainda muito presentes, mas extremamente finos, se amoldarão certamente ao longo dos anos. Um vinho para colocar sem medo às cegas com tintos potentes do Novo Mundo. Este tinto é elaborado na Campanha (divisa com o Uruguai) com seis castas (Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Petit Verdot, Merlot, Tannat e Touriga Nacional(,

Encara qualquer ícone do Mercosul

Por fim, uma vertical completa de um dos melhores tintos gaúchos dos últimos tempos, o famoso Lote 43 da vinícola Miolo. Algumas impressões ficaram bem nítidas na degustação. Primeiramente, a boa concentração dos vinhos, bem equilibrados e bem casados com a madeira. A primeira safra histórica é a de 1999. Um tinto de quinze anos que ainda apresenta-se inteiro e com aromas muito elegantes. Deve ter mais uns cinco anos neste platô de evolução antes de sua fase final.

Linhagem autêntica de um clássico

Falar sobre um vinho brasileiro que se destaca no mercado e é sempre lembrado como um dos melhores do sul do país, pode significar uma questão de marketing, de comodismo ou ainda, de interesses escusos. Não é o caso do vinho acima. O Lote 43 desde sua primeira safra heroica nos idos de 1999, primou por concentração e qualidade em todas as etapas de elaboração. Sou suspeito em falar desta safra pioneira, pois já degustei-o em várias oportunidades e em todas elas, sempre com muita classe, personalidade e consistência. Quem diria que um tinto nacional de quinze anos de guarda estaria em perfeito estado? Naturalmente, com as marcas da idade, aromas terciários, taninos polimerizados, mas ainda proporcionando grande prazer. Evidentemente, as demais safras a despeito de julgamentos técnicos, pesa o gosto pessoal e algumas peculiaridades respectivas de cada amostra. Por isso, os anos de 2002, 2004, 2008 e os recentes, 2011 e 2012, apresentam um belo padrão de tipicidade e consistência. Contudo, devo destacar a singular safra de 2005. Vários exemplares desta safra já me impressionaram favoravelmente, mas o Lote 43 2005 é um “tour de force” neste batalhão. Um tinto potente, de grande estrato, cores profundas, não denotando a idade. Seus aromas são intensos e marcantes, além de uma boca muito bem equilibrada e agradavelmente quente. Um vinho para inverno, belos assados e molhos densos. Seus taninos apesar da abundância, são finos e agradavelmente firmes. Persistência longa e expansiva. Muitos anos pela frente e para os mais apressados, uma decantação obrigatória de pelo menos uma hora. O 99 pode descansar em paz quando chegar a sua hora, pois tem um sucessor à altura.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.