Posts Tagged ‘georges lepre’

Chateau Margaux e seus requintes

29 de Julho de 2018

Falar dos vinhos do Chateau Margaux é sempre um tema de grande prazer, mas ao mesmo tempo de certa incapacidade em descreve-los “comme il faut”. Falar então de pratos que pode acompanha-los, chega a ser insolente. Lembro-me bem  de uma grande garrafa de Margaux 1900, uma safra histórica para o Chateau, absolutamente perfeita e inesquecível. No entanto, no belo livro Chateau Margaux do jornalista Nicholas Faith, três grandes sommeliers descrevem propostas ousadas para determinadas safras do Grand Vin, expostas abaixo.

img_4901Paul Pontallier in memorian

Par Georges  Lepré

Apaixonado pelo Chateau Margaux 1961, Georges Lepré foi sommelier da Velha Guarda em grandes restaurantes, entre os quais L´Espadon do hotel Ritz, além de pertencer à Academia du vin à Paris.

Para um vinho desta magnitude, os pratos devem ser relativamente simples, sem ofuscar o astro maior, segundo suas palavras. De fato, a safra 61 para os grandes Bordeaux possui sólida estrutura e enorme longevidade, gerando riquíssimos aromas terciários.

Nas várias sugestões de pratos, Lepré fala em carré de cordeiro, contrafilé com osso, guarnecidos por sauce bordelaise (molho à base de vinho tinto) com trufas ou cogumelos. Fala também das caças de pena como codornas, perdizes e faisão, sempre com molhos que não agridam o vinho.

Por fim, ele menciona uma receita inusitada com L´Ortolan, um pássaro relativamente pequeno que hoje é protegido por lei na Europa. Muito apreciado em outras épocas na Aquitânia, ele sugere um receita rápida no forno ou em panela com poucos temperos servida com batatas soufflées.

Para os queijos, os franceses gruyère ou Comté, e os holandeses Gouda ou Mimolette. Na verdade, Mimolette é do norte da França, imitando o estilo holandês.

img_4902Sala de jantar em estilo Império

Par Markus Del Monego

Reconhecido como um dos melhores sommeliers da Alemanha em 1986, o suíço Markus del Monego sagrou-se campeão mundial em 1998. Com uma visão bastante eclética, Markus propõe harmonizações inusitadas da entrada à sobremesa.

Começando com peixes, um Margaux 85 com seus taninos macios e delicados pode perfeitamente acompanhar um turbot (peixe semelhante ao linguado) grelhado com molho de vitela. Nesta mesma linha, uma lamproie (lampreia ou enguia) à la bordelaise pescada no Gironde, acompanhará um Margaux 94 de maior riqueza aromática e estrutura. Lembrando que neste último exemplo, o peixe é de rio e o molho à base de vinho tinto.

Partindo para as aves grelhadas, um molho rôti caminha para o Margaux 89. Já um Margaux 99 com mais vigor, dez anos mais jovem, irá melhor com molho de frutas escuras, como o cassis.

Para as caças como coelho, veado, ou lebre, vinhos de grande estrutura e toques de evolução como Margaux 90. Se o molho exigir mais vigor com presença de azeitonas ou cacau, a safra 93 é uma boa pedida.

No caso de um suflê de queijo Gruyère, um vinho elegante e aromático como um Margaux 78, plenamente evoluído. Em uma tábua de queijos, o Margaux 85, vigoroso e macio, pode caminhar bem entre eles.

Encerrando com a sobremesa, um velho hábito bordalês é marinar morangos frescos em vinho tinto, de preferência vinhos de Margaux, e acompanha-los com um Margaux plenamente evoluído como a safra de 1982.

img_4903 perfeitamente decantado

Par Shinya Tasaki

Formado pela Academie du Vin à Paris, Shinya Tasaki brilhou na sommellerie de Tóquio, sagrando-se campeão mundial em 1995. Há muitos anos, tem importante papel na direitora da ASI (Association de la Sommellerie Internationale).

Em 1975, provou seu primeiro Margaux 1966 com Steak au Poivre, uma combinação um tanto arriscada. Mais tarde, já em atividade, provou várias safras históricas, dentre as quais o Margaux 1900, comentado neste artigo. Realmente um vinho imortal.

Suas escolhas tem a ver com a cozinha japonesa e tintos mais evoluídos. Começando pelo Margaux 1900, um vinho que eu não ousaria combinar por não estar á altura do mesmo, Tasaki propõe uma harmonização extremamente pontual. Trata-se de um estufado de pombo chamado Palombe (um pombo grande), acompanhado de trufas negras e cogumelos Matsutake, o qual apresenta um aroma de resina. Pois bem, o lado animal da ave combinado com o resinoso do cogumelo, segundo Tasaki, faz o par perfeito com os sabores e aromas do vinho. Bem, só nos resta confiar no campeão …

Um outro Margaux de sua predileção é o 1958, ano de seu aniversário. Ele propõe combina-lo com uma espécie de sushi, construído da seguinte maneira: um pedaço de foie gras com lâminas de trufas, um toque de vinagre balsâmico envelhecido e de caldo de carne. Tudo isso embrulhado em alumínio e três minutos de forno. Diz que a fusão de sabores com o vinho  é sensacional!

Por fim, a proposta é com atum, melhor o Toro, sua parte mais nobre. A receita consiste num molho reduzido à base de soja e um pouco do vinho de Margaux com as borras ou lias. Esse atum ligeiramente grelhado com o molho descrito e bolinhos de arroz, resultam em sabores interessantes  para a harmonização com o Margaux 83, uma das melhores safras já elaboradas e um destaque entre os grandes Bordeaux deste ano.

Resumindo, opções de experiências gastronômicas não faltam. Mesmo com a dificuldade das receitas, talvez fique mais fácil executa-las, do que conseguir nos preços atuais algumas destas maravilhas de safras excepcionais. De todo modo, a experiência de provar um Margaux é sempre inesquecível. Como dizia Engels, filósofo alemão: um momento de felicidade!


%d bloggers like this: