Posts Tagged ‘paul pontallier’

Chateau Margaux em grandes safras: Parte II

14 de Outubro de 2015

Continuando a saga, vamos dar início ao jantar propriamente dito. Os dois vinhos brancos foram servidos simultaneamente para acompanhar alguns pratos de entrada, Pavillon Blanc du Chateau Margaux nas safras 2001 e 2011.

pavillon blanc 2011

Vibrante e fresco

Safra que promete bom envelhecimento, encontra-se em tenra idade. Bela acidez, frescor, aromas de frutas e flores delicadas dominam o cenário olfativo. Os brancos do Chateau Margaux são fermentados e amadurecidos em barricas. Isso fornece uma proteção na cor, promovem aromas mais complexos no envelhecimento e permitem uma textura mais macia em boca. Com o devido tempo, ele vai chegar lá.

pavillon blanc 2001

Maciez e Maturidade

É difícil um 100% Sauvignon Blanc chegar bem nesta idade (mais de uma década). Contudo, os baixos rendimentos e as técnicas de vinificação descritas acima contribuem para este estilo de vinho. Os toques herbáceos nos brancos do Chateau Margaux são muito mais sutis do que vemos em vários vinhos de Sauvignon. Com o envelhecimento, os aromas cítricos misturam-se com frutas mais delicadas como pêssego por exemplo, dando suavidade ao conjunto. Sua maciez, seus elegantes toques de madeira e algo de cogumelos, completam admiravelmente sua evolução. Belo vinho para acompanhar frutos do mar com molhos brancos delicados.

pavillon rouge 2009Muita fruta e flor em sua juventude

Agora entrando no terreno dos tintos, dois Pavillon Rouge du Chateau Margaux são servidos em duas belas safras. O da foto acima esbanja juventude e frescor. Seus aromas de frutas escuras e flores são notáveis. Taninos macios, de fácil aceitação. Muito harmônico em boca com seus componentes bem dosados: álcool, acidez e taninos. Apesar de poder evoluir bem em garrafa, está delicioso para beber neste estágio.

pavillon rouge 2000

Profundo e cerimonioso

Outra grande safra, mas de perfil completamente diferente. Com seus quinze anos, ainda continua com certos mistérios. Cor profunda, rico em taninos, e começando abrir seus aromas terciários. Frutas escuras  em geleia, toques sutis de sous-bois, couro e caixa de charuto. Boca um tanto austera, necessitando decantação. Com taninos a resolver, merece mais alguns anos em adega, permitindo assim, maior complexidade aromática. Um vinho marcante.

chateau margaux 2004

Um dos destaques do Médoc nesta safra

A safra 2004 não teve o mesmo esplendor como 2000, 2005 e 2009. Portanto, apesar de tratar-se de um Chateau Margaux, numa sintonia fina, seus taninos não são tão polidos. É uma questão de safra onde não teve condições de haver uma maturação fenólica plena. Portanto, mesmo com os anos de adega e o desabrochar de seus aromas, haverá sempre uma cicatriz na resolução dos taninos. Mesmo assim, para a safra em questão é uma das melhores pedidas no Médoc. Deve ser decantado com antecedência por duas horas pelo menos.

chateau margaux 1996

1996: uma linda safra

Aqui é quando unimos um grande vinho a uma grande safra. Apesar de jovem, este Margaux está delicioso para beber. Seus aromas primários de frutas e flores explodem em harmonia. Boca sedosa, bem equilibrado com final muito expansivo. É evidente que pode evoluir em adega por décadas, mas seus taninos ultra polidos permitem sua apreciação mesmo jovem. Um dos grandes Margaux desta década de 90.

chateau margaux 1983

Apesar de pouco badalado, 83 é soberbo

Eu sou suspeito para falar deste vinho, mas 83 é uma grande safra deste Chateau. Não só o Chateau Margaux, mas a comuna de um modo geral elaborou vinhos melhores do que a badalada safra de 1982. Voltando ao astro, seus trinta e dois anos idade estão em grande forma. Aromas dominado pelo lado terciário como couro, cogumelos, especiarias, minerais, balsâmico, e outros indescritíveis. Contudo, a fruta ainda está presente, grande frescor, e taninos bem resolvidos. Deve permanecer neste platô por mais algumas décadas. Um dos grandes Margaux da história, coincidindo com a chegada em 1983 do atual diretor do Chateau, o competente Paul Pontallier.

yquem 1990

Yquem numa bela safra

Novamente a junção de um grande vinho e uma grande safra. Vinho para evoluir por décadas. Está saindo de sua fase primária para desabrochar seus aromas terciários. Muita fruta, mel, damascos, os toques da Botrytis que lembram esmalte de unha, caramelo, entre tantos outros. Muito equilibrado em boca com um belo suporte de acidez. Sua persistência aromática é muita longa e notável. Em safras como esta é que entendemos porque ele é fora de série em sua apelação (Sauternes).

Enfim, com o desfile deste grandes vinhos tendo como fecho de refeição o “intruso” Yquem, a noite foi maravilhosa. Mais uma vez um Premier Grand Cru Classe torna esses momentos memoráveis. Agradecimentos aos amigos e ao anfitrião, aguardando novos encontros deste nível.

Chateau Margaux em grandes safras: Parte I

11 de Outubro de 2015

Chateau Margaux dispensa apresentações. É um dos poucos casos onde o Chateau dá nome à comuna e também à apelação, sendo o único Premier Grand Cru Classe da região. Entender, interpretar seu terroir é sempre um desafio e por vezes incompleto. Seu atual Diretor desde 1983, Paul Pontallier, costuma dizer que este é um dos poucos vinhos que reúne elegância e potência ao mesmo tempo. A elegância, a delicadeza, a maciez, são encantadores. Contudo, de modo sutil, a potência, a estrutura tânica e o fresco, praticamente escondidos pela elegância é que permite que este grande tinto possa desenvolver-se e amadurecer por 20, 30, 40, 50 anos, ou mais. Em resumo, é como o bailarino segurando com mão de ferro sua companheira e ao mesmo tempo, ainda consegue transmitir leveza e graça à cena.

Além do Grand Vin, Chateau Margaux elabora seu segundo vinho com muito critério chamado Pavillon Rouge du Margaux. Evidentemente menos estruturado, pode envelhecer por pelo menos dez anos nas boas safras. É elaborado desde 1908.

Outra curiosidade é seu branco denominado Pavillon Blanc du Margaux. 100% Sauvignon Blanc, este vinho já tem tradição no Médoc, embora seja terra quase absoluta de grandes tintos. Ele apareceu ao mercado em 1920, sendo doze hectares de vinhas plantadas num setor do Chateau onde a incidência de geadas é grande. Um risco maior para as uvas tintas de longa maturação.

Como última informação, os cuidados com a madeira de carvalho para a confecção de barricas novas é item importante no Chateau. Um terço das mesmas é produzido na propriedade através de uma tanoaria própria. O restante  provem de várias tanoarias famosas das melhores florestas do centro da França. Como critério, é importante esta diversidade de origem da madeira afim de transmitir ao vinho aromas mais complexos e sutis.

Feita as apresentações, vamos ao jantar onde desfilaram essas maravilhas. Para a recepção dos convidados um trio de peso da região de champagne deram o tom do jantar. Dois champagnes Krug (Grande Cuvée e Millesime 2000) e um Dom Pérignon 2004. Em resumo, Dom Pérignon primou pela elegância e leveza, Krug Grande Cuvée pelo exotismo e personalidade, e finalmente Krug 2000 pela estrutura e complexidade aromática.

dom perignon 2004

Elegante e sutil

krug grande cuvee

Sempre uma grande pedida

krug 2000

A cada safra uma surpresa

turma margaux

Margaux: A turma toda

No próximo artigo descreveremos a turma toda acima culminando no espetacular Yquem 1990. Os brancos 2011 e 2001 foram muito didáticos para mostrar a evolução em garrafa de um 100% Sauvignon Blanc. Nos tintos Pavillon, a mesma coisa. Duas grandes safras, 2009 e 2000, brilharam à mesa. Finalmente no Gran Vin, as safras 1983 e 1996 são espetaculares. Na safra 2004, particularmente boa para este Chateau, não há o esplendor das demais. Por fim, o grande Yquem 90 fechou em grande estilo o jantar numa safra praticamente perfeita.

Terroir: Bourgogne x Bordeaux

26 de Março de 2015

Tentar comparar as clássicas regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne pode parecer loucura. A ideia aqui é discorrer sobre a diferença intrínseca no conceito de terroir das mesmas. Sabemos que em Bordeaux as propriedades a grosso modo são pelo menos dez vezes maiores em superfície de vinhedos. Além disso, os vinhos bordaleses baseiam-se no famoso corte, talvez o corte mais emblemático no mundo do vinho. Basicamente, estamos falando de três cepas: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc. E é exatamente esse “assemblage” que torna os vinhos bordaleses únicos, com estilo próprio. No esquema abaixo, mostraremos um exemplo típico de um Grand Cru Classé de margem esquerda, na famosa região do Médoc.

Encepamento do Château Lagrange

O esquema acima refere-se ao Château Lagrange, um típico Grand Cru Classé da comuna de Saint-Julien. Este esquema pode ser generalizado para os principais châteaux do Médoc. As porções em verde mais esmaecido são várias parcelas de Cabernet Sauvignon. As porções em vermelho esmaecido são de Merlot, e as duas parcelas em tonalidade diferente são de Petit Verdot, uva pouco cultivada em Bordeaux. Pois bem, no raciocínio bordalês cada parcela de cada uma das uvas são vinificadas separadamente e tratadas a princípio como um vinho individual. Num certo momento, esses vinhos são analisados individualmente e julgados para fazer parte do chamado “Grand Vin”, ou seja, o vinho principal do château. Esse trabalho é extremamente importante e requer uma sensibilidade, uma projeção futura, uma análise do potencial da safra em questão, e finalmente, muita experiência. Uma frase marcante do grande mentor do Château Margaux, Paul Pontallier, enólogo da casa desde 1983, diz o seguinte: “eu só fui entender de fato o que é um Château Margaux, depois de minha décima safra”. Isso mostra a complexidade e a responsabilidade de uma equipe nesta fase de elaboração. Muitas cubas serão rejeitadas para o vinho principal e só depois desta fase, é que se chegará ao blend final com as devidas proporções de cada tipo de uva. É por isso que pessoalmente de uma forma até maldosa, digo que os segundos vinhos de Bordeaux, mais especificamente do Médoc, são o refugo do vinho principal. Exceções como Les Forts de Latour ou Clos du Marquis, segundos vinhos do Château Latour e Château Léoville-Las-Cases, respectivamente, são raros exemplos de regularidade.

No raciocínio borgonhês, neste mesmo château, cada parcela ou mesmo, um pequeno grupo de parcelas, seria um vinho individual até o final do processo. Por exemplo, poderíamos ter dois ou três Cabernets individualizados com etiquetas próprias. Da mesma forma, para as parcelas de Merlot. No caso da Petit Verdot, apenas com duas parcelas, teríamos um vinho varietal, engarrafado individualmente. É interessante notar a importância que o homem tem nos aspectos de terroir, dependendo do raciocínio e filosofia adotados. Ocorre que no pensamento bordalês, o conjunto de parcelas harmonicamente agrupadas produz um vinho mais completo, mais amplo e mais complexo. Tudo é um questão de ponto de vista. É claro que neste pensamento há uma compensação muito maior quanto às irregularidades de cada safra , e os problemas específicos que cada cepa enfrenta em todo o ciclo anual.

Parcelas na Idade Média

Agora partindo para a Borgonha, Clos de Vougeot, propriedade de cinquenta hectares na Côte ded Nuits, é um exemplo bem razoável para uma comparação bordalesa em termos de área plantada, pois as propriedades neste pedaço de terra são de pouquíssimos hectares, muitas com menos de cinco hectares. Além disso, Clos de Vougeot é uma propriedade das mais antigas, de origem monástica. Só após a Revolução Francesa, deu-se toda sua fragmentação, conforme mapa abaixo. Voltando à Idade Média, os monges engarrafavam Clos de Vougeot como vinho único, mesclando com parcimônia todas as parcelas acima delimitadas. Como trata-se de uma colina, as parcelas mais acima no mapa são de maior altitude, que por sua vez, vai diminuindo até às parcelas mais ao sul do mapa. Com isso, em anos mais áridos e secos, as parcelas de menor altitude compensavam os efeitos do déficit hídrico das parcelas mais altas. Por outro lado, em anos mais chuvosos, com excesso de água no solo, a compensação era inversa. Sem dúvida, tratava-se de um pensamento bordalês onde o conjunto das parcelas originando um vinho único, mantinham uma boa regularidade. Provavelmente, o Clos de Vougeot 1845 servido no inesquecível filme Festa de Babette, tenha sido elaborado nos moldes bordaleses, pois o processo pós-revolução ainda estava engatinhando.

Divisão atual com inúmeros produtores

Já no esquema atual, conforme mapa acima, regularidade é o que efetivamente não há numa garrafa de Clos de Vougeot. Com mais de oitenta proprietários nestas terras muradas, a importância do produtor e a localização do vinhedo são pontos cruciais para o sucesso do vinho. Em linhas gerais, os produtores localizados no centro do terreno para cima, ou seja, em altitudes mais acentuadas, levam vantagem em termos de localização. Isso tem a ver com uma melhor insolação, melhor drenagem do terreno e uma composição de solos mais harmônica. Méo-Camuzet, Gros, Hudelot-Noëllat, são produtores confiáveis.

Enfim, aquela velha discussão, vinho varietal ou vinho de corte? micro-terroir como no modelo borgonhês, onde as peculiaridades e sutilezas são levadas a limites extremos, ou macro-terroir como no modelo bordalês, onde o conjunto de parcelas em prol de um único vinho gera resultados mais harmônicos e complexos? Sempre uma questão de ponto de vista!

Chateau Margaux 1983: idéia de felicidade

22 de Janeiro de 2011

Embora a safra de 1982 em Bordeaux seja mítica, incluindo o grande Margaux, o ano seguinte 83 pessoalmente para este château, beirou a perfeição. Com 96 pontos do Parker, este vinho é soberbo e extremamente longevo. Para aqueles que buscam grandes garrafas no exterior, muitas vezes ficam hipnotizados com os belíssimos 82. No entanto, abram uma exceção para este vinho.

A composição básica do Grand Vin é de 75% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 3% Cabernet Franc e 2% Petit Verdot, dependendo da safra. O estágio em barricas novas de carvalho, confeccionadas em tanoaria própria,  é de 18 a 24 meses.

Paul Pontallier: o guardião deste terroir

Em minhas avaliações, numa escala de zero a cem, considero que vinhos acima de 95 pontos são obras de arte. A perfeição é uma questão de detalhe e muitas vezes, de gosto pessoal. Outra característica própria de vinhos deste nível é a inútil comparação com outros, mesmo que sejam também excepcionais. A razão é simples, obras de arte não se comparam, apenas são apreciadas.

É imperativo degustá-lo com pelo menos duas horas de decantação. A cor é densa, e os aromas vão se mostrando lentamente em camadas. As frutas escuras (cassis), notas florais (violeta), minerais (terra e grafite), sous-bois e couro, mostram-se em muita harmonia. A boca é sensacional. Encorpado, sem ser potente. Tânico, sem ser adstringente. Macio, sem ser alcoólico. Nas palavras de Paul Pontallier (grande enólogo do château desde esta safra 1983), um grande Margaux é forte, sem ser bruto. Equilíbrio entre os componentes perfeito e persistência aromática longa e expansiva. Difícil é tirar ponto deste vinho.

Segundo o filósofo alemão Friedrich Engels, um dos pilares do Manifesto Comunista juntamente com Karl Marx, a idéia de felicidade era um Château Margaux 1848. Hoje, um dos sonhos de consumo do Capitalismo.