Posts Tagged ‘ostras’

Last Dinner on the Titanic

26 de Setembro de 2013

Normalmente, jantares memoráveis terminam com um final feliz, reconfortante e prazeroso. Não foi o caso do último jantar do fatídico Titanic no ano de 1912, em sua viagem inaugural e infelizmente, única. Evidentemente, as refeições eram preparadas de acordo com a classe social. O jantar mais requintado desta noite foi “The First-Class Menu Private” com a sequência de dez pratos, conforme foto abaixo:

Jantar para terminar no céu

Os pratos, muito bem escolhidos eram da clássica cozinha francesa, fortemente repaginados pelo grande Chef françês da época, Auguste Escoffier, o qual se tornaria uma lenda entre os melhores de todos os tempos. Um dos pratos do menu é o Consommé Olga, mostrado na foto abaixo:

Titanic Consommé OlgaPrato requintado à base de caldo de vitela acompanhado de vieiras

Seguindo o menu a risca, vamos à sequência de pratos:

  • Primeiro prato: Ors d´Hoeuvrers Oysters (foto acima)

Se for Ostras à Rússia, complica um pouco a harmonização, pois entra vodka na composição do molho que é incorporado às ostras frescas. Neste caso, é melhor um Champagne Brut Nature Blanc de Noirs para enfrentar este potente sabor do destilado.

  • Segundo prato: Consommé Olga

Este prato tem um sabor enfático, porém delicado do caldo de vitela. As vieiras dão requinte ao prato com sabor marinho, pois são colocadas cruas com o caldo quente em cima. O Jerez ou Sherry seria um acompanhamento clássico. Contudo, um Madeiro Sercial, o mais seco em estilo e com certa salinidade pode ser uma bela escolha.

  • Terceiro prato: Poached Salmon with Musseline Sauce

Este salmão é escalfado num molho com água, vinho branco, louro, cebola e pimenta. Após este cozimento no líquido, o salmão é disposto no prato e coberto com molho Musseline à base de gemas, manteiga, suco de limão, endro (aneto) e creme de leite. Um belo Riesling alemão Kabinnet do Mosel com seu caráter elegante garante uma harmonização à altura do prato, combatendo a gordura do molho com sua habitual acidez.

  • Quarto prato: Saute of Chicken Lyonnaise

Neste prato de frango, o mesmo é preparado à milanese, com farinha  aromatizada ao tomilho. Ele é rapidamente selado e levado ao forno para cozimento. Na própria frigideira que selou o frango, é adicionado cebola , alho, tomilho e vinho branco para o déglaçage. Após esta operação, acrescente massa de tomate e açúcar. Neste caso, um borgonha tinto da Côte de Beaune fará boa parceria com o prato. Pode ser um Volnay ou Savigny-Lès-Beaune.

  • Quinto prato: Lamb Mint Sauce (foto acima)

Cordeiro com Bordeaux é uma escolha óbvia e tradicional. No entanto, temos um molho à base de menta com um certo caráter agridoce. Neste molho, além da hortelã, temos aceto balsâmico, açúcar, um pouco de vinagre e mostarda no tempero de cordeiro. Com isso, o molho fica mais vibrante, exigindo um vinho vigoroso, mais jovem e de bom frescor. Um Cabernet Sauvignon de Coonawarra (região australiana comentada em artigo especial neste mesmo blog) com um toque de menta no aroma seria bastante apropriado.

  • Sexto prato: Punch Romaine (foto acima)

Aqui temos um descanso para o paladar. Punch Romaine é um cocktail que funciona como sorbet. É feito à base de champagne ou espumante, vinho branco, gelo, suco de laranja, suco de limão, rum branco e cascas de laranja finamente descascada. Um bom intervalo para continuar a sequência de pratos.

  • Sétimo prato: Roast Squab & Cress

Novamente uma ave. Desta vez, pombo assado em cama de agrião refogado. O molho do assado envolve vinho Madeira e bacon. Aqui podemos pensar de novo num Borgonha tinto, não da Côte de Beaune, e sim da Côte de Nuits. Um Chambertin pode ter a textura e a força necessária para o prato. Preferencialmente, envelhecido por pelo menos dez anos.

  • Oitavo prato: Cold Asparagus Vinaigrette

Este prato consiste em cozinhar os aspargos na água ou vapor e em seguida dispô-lo numa travessa e cobrir com um molho à base de alho, cebola, vinagre de vinho tinto, mostarda, azeite, suco ded limão e pimenta. Por cima, ovos cozidos fatiados. Neste caso, ovos e aspargos são ingredientes difíceis com vinho. Um bom Sauvignon Blanc do Novo Mundo, jovem e fresco, pode dar conta do recado. A sugestão é um sul-africano da região de Constantia, distrito pertencente à cidade do Cabo.

  • Nono prato: Patê de Foie Gras Celery

Este patê de foie gras é guarnecido com aipo (também conhecido como salsão, bastante perfumado). É evidente que um Sauternes ou algum dos clássicos vinhos botrytisados (franceses ou alemães) são companhia perfeita para o prato. Contudo, como teremos um Tokaji na sequência, conforme descrição abaixo, uma bela alternativa é um Porto Tawny, preferencialmente com declaração de idade de vinte anos.

waldorf-pudding

  • Décimo prato: Waldorf Pudding (foto acima)

Esta clássica sobremesa da época é composta por maças levemente caramelizadas com açúcar e manteiga, forrando posteriormente uma forma untada. O creme que será introduzido na forma é feito com leite, gemas de ovos, noz moscada, baunilha e uma mistura de uvas passas, gengibre e suco de limão. A forma é levada ao forno médio em banho-maria. Depois de desenformado, a torta é servida gelada com um molho leve à base de baunilha. Um Sauternes ou um Tokaji 5 Puttonyos (vinho húngaro de sobremesa, rival à altura dos vinhos doces bordaleses) será perfeito.

Vale a pena lembrar que o quarto, quinto e décimo (sobremesa) pratos  tinham duas ou mais opções de escolha. Não comentaremos neste artigo as mesmas para não ficar muito longa a dissertação.

Depois de todo esse pecado da gula, restaram aos “felizardos” rezar um Pai Nosso antes do fim trágico. O comandante do navio que o diga, “a pressa é inimiga da perfeição”.

Vale do Loire: Parte I

11 de Janeiro de 2012

Dando prosseguimento às regiões clássicas da França, nada mais propício que falarmos dos delicados vinhos do Loire nesses meses de verão. É uma região com inúmeras apelações, sub-regiões, uvas e estilos de vinhos. Para começarmos este estudo, o mapa abaixo nos mostra as principais referências:

 Loire: Quatro Climats importantes

O Loire é o maior rio da França com pouco mais de mil quilômetros de extensão, nascendo no Maciço Central em latitude próxima a Valence, norte do Rhône, e desaguando no Atlântico, próximo à cidade de Nantes, conforme mapa abaixo:

Fichier:France map with Loire highlighted.jpg

Regiões vinícolas na segunda metade do rio

Voltando ao primeiro mapa, obervamos quatro sub-regiões importantes com clima, solos e uvas diferentes, gerando vinhos que expressam seus respectivos terroirs.

Na porção mais a oeste, conhecida como Pays Nantais, é a terra do delicado branco Muscadet, elaborado com a uva homônima e também conhecida como Melon de Bourgogne. Existem várias apelações, mas a de maior prestígio e a mais famosa é conhecida como Muscadet de Sèvre et Maine sur lie. O contato prolongado com as borras, enriquece sabores e texturas. O clima é bastante úmido e chuvoso devido à proximidade do Atlântico, e o solo tem base granítica e de gnaisse (um metamorfismo do próprio granito).

A recente apelação Gros Plant compete em produção com a apelação Sèvre et Maine. No entanto, Gros Plant é elaborado com a uva Folle Blanche, gerando um vinho mais simples e bastante incisivo por conta de sua ríspida acidez.

Esses vinhos acompanham muito bem um prato de frutos do mar, especialmente as ostras. Sua bela acidez e seu sabor relativamente neutro deixam a harmonização sempre revigorante.

No Brasil, o produtor Haute Fevrie importado pela Zahil, é referência desta apelação (www.zahil.com.br).

Próximo post, a sub-região de Anjou-Saumur com a uva Chenin Blanc mostrando seus vários estilos.

Harmonização: Ostras

10 de Novembro de 2011

Não é todo mundo que gosta, mas um prato de ostras frescas tem seus fãs incondicionais. É um prato de entrada e muitas vezes, até precedendo a própria entrada. Portanto, temos que pensar em vinhos leves, com muito frescor e sobretudo, minerais. O forte caráter iodado das ostras frescas além da salinidade, exige tal mineralidade.

Visual que faz salivar

Este é o caso de esquecermos os tintos. Procuro ser sempre flexível nas harmonizações, mas aqui precisamos ser radicais. Por mais leve que seja o tinto, por menor que seja sua estrutura tânica, não haverá liga entre os sabores. Já os brancos, muitas alternativas. Brancos de muito frescor, com destacada acidez e  traços minerais, vão desde os clássicos Muscadets do extremo oeste do Loire (prefira os de Sèvre et Maine sur lies), passando por Pouilly-Fumé (outro extremo do Loire), Savennières (Chenin Blanc bem seco), Chablis (acompanhamento clássico), ou para quem prioriza sofisticação, um champagne Blanc de Blancs (elaborado só com Chardonnay). Rieslings de estilo seco como Maison Trimbach da Álsacia podem surpreender também.

Seguindo este raciocínio, na Espanha temos os Albariños, em Portugal os vinhos verdes ou brancos da casta Arinto, na Itália temos o Verdicchio de Castelli di Jesi ou Greco di Tufo da Campania.

Ostras Gratinadas: textura mais cremosa

A foto acima mostra uma entrada quente, onde a textura e sabores são mais ricos, além do caráter iodado ser rechaçado pelo cozimento. Portanto, os vinhos não precisam ser tão minerais e sua textura pode ser mais macia, embora a acidez deve ser sempre presente para combater a gordura do gratinado.

Aqui podemos ter um champagne mais estruturado, com a presença da Pinot Noir no corte. Um Chablis Grand Cru, mais rico e persistente. Rieslings da Alsace ou Áustria de textura mais rica, também são boas opções.