Posts Tagged ‘douro’

Grandes Portos

29 de Janeiro de 2015

Nada como encerrar um jantar, uma noite, com belos Portos, sobretudo após um arrebatador Chateau Margaux 1990. A seleção abaixo selou o evento desfilando grandes casas do Douro. Com exceção da garrafa à esquerda na foto abaixo, todos eram Vintages, a categoria de Porto mais reverenciada deste incrível fortificado.

Grandes Casas de Porto

Só para relembrar, Vintage é uma categoria de Porto de safra reconhecidamente diferenciada que permanece de dois a três anos em madeira, e logo em seguida engarrafada. Seu desenvolvimento acontecerá lentamente por décadas em ambiente reduzido, ou seja, na ausência de oxigênio, nas adegas dos felizardos que os adquiriram. É obrigatório a menção da safra e a data de engarrafamento. Se você possuir um Vintage em adega relativamente novo, não pense nele por pelo menos quinze anos.

Porto Taylor´s: Vintages impecáveis

Começando pela garrafa acima, este Taylor´s 1992 acompanhou a sobremesa, encerrando o jantar. Apesar de seus vinte e três anos, é ainda um adolescente. Estamos falando de uma das melhores entre todas as casas de Porto. A cor ainda é retinta, seus aromas essencialmente primários, mostrando muita concentração de frutas escuras. A boca é vigorosa, macia, e com longo final. Boa parceria com chocolates e queijos curados de personalidade, sobretudo o grande Serra da Estrela. Uma curiosidade lembrada por um amigo: esta safra comemorativa refere-se aos 300 anos da Taylor´s, ou seja, data de fundação em 1692. O detalhe é o emblema da casa moldado na própria garrafa em vidro. Após 2020, vai começar a se tornar um homenzinho!

Uma das grandes safras desta Casa

Este pessoalmente, foi o grande Porto da noite. Devidamente decantado por mais de oito horas antes de chegar aos convivas. O que impressiona neste Graham´s 1970 é sua extraordinária força. A cor evidentemente com sinais atijolados tinha ainda muita intensidade e o brilho dos grandes vinhos. Seus aromas, intensos, mesclando o lado frutado com toques de evolução. Persistente, longo e bem equilibrado. Acompanhou muito bem os Puros que se seguiram. Vida longa pela frente, mostrando grande potencial. É um quarentão em forma!

Quinta do Noval: Um Clássico

Como vinho bom dura pouco, não podíamos terminar os Puros a seco. Abrimos então a toque de caixa, um Noval 1970. Outra Casa de Porto irrepreensível. Porém um surpresa, um Porto um pouco cansado. Talvez tenha sido um problema desta garrafa em particular. Entretanto, valeu para nos mostrar um grande Vintage em sua fase final de evolução. Não vai chegar tão longe como Graham´s, mas mostrou aromas, sensações gustativas e um grande final dos belos Portos evoluídos.

Enfim, três grandes Casas, três grandes histórias, cada qual mostrando algumas facetas deste que é o Rei dos vinhos fortificados, o supremo Porto Vintage!

Quando comecei o blog, não tinha a menor ideia do tema referente ao 500º artigo (quinhentos artigos escritos). Nada melhor para comemorar esta marco com o histórico Vinho do Porto e a primeira Denominação de Origem no mundo do vinho. Obrigado a todos por esta conquista!

Wine Spectator: Douro em destaque

24 de Novembro de 2014

A tão esperada lista de final de ano da revista americana Wine Spectator já está na mídia com o famoso TOP 100. O grande destaque para as primeiras colocações é a região portuguesa do Douro. Não só abocanhou o primeiro lugar com um Porto da espetacular safra de 2011, como dois grandes vinhos de mesa ícones da região foram muito bem ranqueados. Um deles, o respeitado Vale do Meão, conhecido também como “Barca Nova”, foi durante muito tempo um tinto fundamental no assemblage do mítico Barca Velha. O outro de estilo mais moderno, trata-se do Chryseia, parceria vitoriosa da família Symingnton (tradicional em Vinho do Porto) com a família Prats (ex-Cos d´Estournel), de tintos bordaleses de alto nível. Aliás, numa degustação relativamente recente na ABS-SP, ainda neste semestre corrente, esses dois vinhos de mesa estavam presentes. A degustação foi um sucesso.

Um clássico moderno

De um modo geral, a lista premiou 24 vinhos americanos, 19 italianos, 14 franceses, 9 espanhóis, 6 portuguese, 6 chilenos, 6 australianos e o restante dividido entre Argentina, Alemanha, África do Sul, Grécia, Hungria, Áustria, e Nova Zelândia. Dentre os destaques podemos citar algumas figurinhas carimbadas tais como: Don Melchor (Chile), Château Guiraud (Sauternes), Flaccianello (Toscana), Two Hands Shiraz (Barossa Valley), Château de Beaucastel (Châteauneuf-du-Pape), e Clos de Papes (Châteauneuf-du-Pape).

O vinho do Ano 2014

O vinho do ano, Dow Vintage Port 2011 surpreendeu até mesmo o espetacular Fonseca de mesma safra. Castello di Ama com seus vinhedos sublimes é sempre tiro certo na concorrida região do Chianti Classico. A safra de 2010 na Toscana e no Vale do Rhône promete grandes vinhos. Vários Pinot Noir foram destaque na Califórnia, mostrando grande potencial. Pessoalmente, algumas regiões são notáveis para esta temperamental casta, incluindo Russian River.

Douro de mesa potente

Apesar de toda a polêmica que cerca o lado ético da revista, a mesma exerce forte influência no mercado, sobretudo nas vendas para bebedores de rótulos. A habitual tendência em enfatizar os norte-americanos é sempre comentada. Contudo, a despeito dos rótulos premiados a cada ano, os Estados Unidos continua de longe fornecendo os melhores vinhos do Novo Mundo, sobretudo em padrões de exigência mais elevados. Além disso, é um grande produtor mundial da bebida e expressivo país importador não só de vinhos, como de destilados.

O primeiro nº 1 em 1988 da safra de 1985

Desde 1988, quando deu-se a primeira edição dos TOP 100, Estados Unidos e França travam uma disputa acirrada pelo vinho do ano. Bem atrás, vêm Itália com três toscanos (Solaia, Ornellaia e Casa Nova de Neri) e Portugal com dois Portos (Fonseca e Dow´s, o atual número um).

Quinta dos Murças: Uma joia do Douro

4 de Novembro de 2014

Não é de hoje que os tintos durienses vêm ganhando destaque no cenário internacional num terroir que tradicionalmente foi e ainda é, do Vinho do Porto, um dos mais importantes fortificados do mundo, se não for o mais expressivo entre todos. As tradicionais quintas que até pouco tempo preocupavam-se exclusivamente com seu Vinho do Porto, hoje elaboram naturalmente tintos de grande expressão e que também são aptos a longa guarda. É o caso do vinho abaixo, Quinta dos Murças Reserva 2009.

Propriedade tradicional com vinhas antigas

Situada no Cima Corgo, região nobre do Douro, Quinta dos Murças encontra-se em terrenos íngremes, de declive acentuado, em solos xistosos e de baixa produtividade. Um patrimônio valioso de vinhas antigas plantadas todas juntas com castas típicas da região como Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Amarela (Trincadeira no Alentejo), Tinta Barroca, Touriga Francesa ou Franca, e Sousão. Vale a pena ressaltar, a destacada amplitude térmica neste trecho do Douro (Cima Corgo), onde estão situadas as melhores e mais tradicionais Quintas de toda a região. Isso faz com que os níveis de maturação das uvas sejam ideais sem perder o fresco e portanto, proporcionar um notável equilíbrio. A vinificação é feita com pisa a pé, como nos mais tradicionais lagares para a elaboração dos melhores Portos. Em seguida, o amadurecimento do vinho dá-se em barricas de carvalho francês e americano durante aproximadamente doze meses.

Tinto de bom corpo, aromas agradáveis, mesclando bem a madeira com a fruta. Taninos sedosos, macios e com persistência aromática expansiva. Bom parceiro com a enogastronomia , desde  carnes grelhadas até carnes com molhos intensos. Apesar de sua prontidão, vislumbra bons anos de guarda. Importado atualmente pela Qualimpor (www.qualimpor.com.br). Além deste tinto, a importadora traz belos vinhos da Quinta do Crasto e o excepcional Porto Taylor´s.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Arroz de Pato: Que Marravilha!

11 de Agosto de 2014

Voltando aos pratos do grande Chef Claude Troisgros no programa Que Marravilha!, vamos abordar a complexa receita do Arroz de Pato. Dá trabalho, mas vale a pena quando temos uma boa turma disposta a pratos saborosos. A foto abaixo e o link para o vídeo, ajudam na elaboração.

http://gnt.globo.com/programas/que-marravilha/videos/3315758.htm

O primeiro passo é fazer a marinada, temperar o pato e deixa-lo um bom tempo na geladeira para incorporar o tempero. Em seguida, assar o pato, desfiar a carne e separar os ossos para fazer o caldo. Tudo isso deve ser feito com antecedência. Continuado, preparar os cogumelos e reservar o respectivo caldo para ser acrescentado no caldo de pato. Neste último, teremos os miúdos do pato, o pescoço, vinho tinto e nosso caldo de cogumelos, além dos temperos. Próximo passo, fazer o arroz, puxado na gordura do pato com paio ou chouriço. Cozinhe o arroz no caldo que acabamos de mencionar. Por último, vamos preparar as frutas secas (macadâmia ou amêndoas, por exemplo), azeitonas, ervilhas, os cogumelos, adicionando o pato desfiado e o arroz já cozido. Na montagem  do prato, acrescente as castanhas portuguesas cozidas que podem fazer parte do prato, ou mera decoração.

VEJA A RECEITA: ARROZ DE PATO

Como fazer a marinada:
Ingredientes:
Tomilho, louro e alecrim picados (a gosto)
Pimenta-do-reino branca e preta (a gosto)
2 colheres (sopa) de alho picado
½ pimenta dedo-de-moça picada
Flor de sal (para decorar)
200ml de azeite extravirgem
1 colher (sopa) de urucum

Modo de preparo:
Misture tudo e reserve.

Como preparar o pato:
Ingredientes:
1 pato de 3kg
Alecrim, tomilho e louro (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino branca moída na hora (a gosto)

Modo de preparo:
Abra o pato em dois, pelo peito. Descole a pele dos peitos e das coxas. Insira a marinada com a mão entre a pele e a carne. Acrescente alecrim, tomilho e louro no centro do pato e feche. Coloque o pato dentro de um saco de assar, feche e deixe marinar na geladeira durante 6 horas. Asse dentro do saco de assar durante 3 a 4 horas, a 110ºC, com o peito para baixo. Retire o saco de assar e desfie a carne sem pele. Guarde os ossos para o caldo e reserve também a gordura.

Como fazer os cogumelos:
Ingredientes:
150g de funghi porcini seco
8 cogumelos de Paris grandes
4 cogumelos shitake

Modo de preparo:
Ferva água e coloque os cogumelos de Paris e os shitakes para cozinhar durante 5 minutos. Retire e coloque os funghi porcini, deixando cozinhar durante 10 minutos. Retire e reserve.

Como fazer o caldo:
Ingredientes:
1 cenoura
1 cebola
2 talos de aipo
Ossos, pescoço, fígado, asas e moela do pato
Zimbro picado
500ml de vinho tinto português
½ pimenta dedo-de-moça fatiada
Tomilho, louro e alecrim (a gosto)
Flor de sal (a gosto)

Modo de preparo:
Esquente bem uma panela com azeite. Coloque os ossos, o pescoço, o fígado, as asas e a moela de pato com os legumes e as ervas para tostar nessa panela. Deglacear com vinho tinto e cobrir com o caldo de cogumelos, temperando com um pouco de flor de sal. Junte com a pimenta dedo-de-moça e o zimbro. Deixe cozinhar 20 a 30 minutos e depois, peneire.

Como fazer o arroz:
Ingredientes:
1 colher (sopa) de gordura do pato guardada
300g de chouriço espanhol em rodelas.
½ cebola picada fina
1 cebola em cubos
3 xícaras de arroz parboilizado
Sal, pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Numa panela de barro, refogue o chouriço na gordura de pato. Junte as cebolas e deixe suar mais. Coloque o arroz e deixe tostar um pouco. Cubra com o caldo de cogumelos, ferva e cozinhe até ficar al dente, durante 15 minutos.

Como preparar os legumes:
150g de noz de macadâmia
Cogumelos fatiados (porcini, Paris e shitake)
2 dentes de alho picados
Salsa picada
15 azeitonas pretas portuguesas (sem caroço)
300g de ervilha fresca
Cebolinha picada (a gosto)
Sal e pimenta-do-reino (a gosto)

Modo de preparo:
Toste as macadâmias no azeite e reserve. Puxe no azeite quente os cogumelos cozidos e tempere. Coloque o alho, a salsa e a cebolinha e deixe suar mais. Junte o pato desfiado, as ervilhas e as azeitonas.

Toque final:
Ingredientes:
20 castanhas portuguesas já cozidas
Folhas de salsa
Azeite extravirgem

Modo de preparo:
Misture os legumes e a macadâmia tostada com o arroz. Verifique os temperos e enforme. Desenforme no prato e regue com azeite. Decore com as folhas de salsa e castanhas portuguesas.

Depois de todos esses procedimentos, ingredientes e temperos diversos, vamos aos vinhos. A primeira opção natural é sempre pelos vinhos regionais. Como a receita é do norte de Portugal, os vinhos do Douro são os mais lembrados. De fato, são vinhos de bom corpo, sabores acentuados, frescor no ponto para o lado gorduroso do prato, e taninos presentes para a suculência do mesmo. A passagem por madeira e uma certa evolução aromática (aromas terciários) com alguns anos de adega, encontra eco nos sabores defumados e tostados, além da presença dos cogumelos e das frutas secas. Os tintos do Dão podem ser a segunda opção. Embora tenham bom frescor, tendem a ser mais elegantes e sutis, talvez carecendo de alguma potência para os sabores do prato. Já os tintos alentejanos, costumam ter corpo para a harmonização, mas faltam-lhes o frescor, tornando o conjunto um pouco pesado.

Saindo de Portugal, o vizinho ibérico, Espanha, tem em Ribera del Duero seu maior aliado. São vinhos de corpo e com bom frescor. Já o lado de Rioja, acaba tendo as mesmas considerações da região portuguesa do Dão, exceto os Riojas mais modernos, de mais corpo e potência.

Italianos da região toscana podem ter sucesso na harmonização, sobretudo um autêntico Brunello di Montalcino em estilo mais clássico, com algum envelhecimento em garrafa. Dos tintos sulinos, um bom Taurasi (tinto com a uva Aglianico) da Campania é uma opção interessante. Embora a latitude não favoreça, a altitude dos vinhedos imprimem boa amplitude térmica, culminando em vinhos de boa acidez.

Do lado francês, as melhores opções são do sul do Rhône. Tintos da apelação Vacqueyras ou Gigondas costumam apresentar boa estrutura e uma certa rusticidade, no bom sentido da palavra, para o prato em questão. Os tintos do norte como Côte Rôtie e Hermitage podem ter algumas inconveniências. O primeiro é muito elegante para o prato, e o segundo, muito tânico e estruturado. Já os tintos provençais calcados na cepa Mourvèdre como a apelação Bandol, por exemplo, podem ser bem interessantes.

Para o Novo Mundo, as opções de tintos com corpo e estrutura são fartas, mas a falta de frescor  na maioria deles costuma ser o maior inconveniente. Malbecs ou cortes argentinos das zonas mais altas de Mendoza podem ser interessantes, por exemplo, Valle de Uco (Tupungato). Alguns Syrahs do Chile em zonas mais temperadas com boa amplitude térmica (Vales de Elqui e Leyda) são outras opções. Tintos de corte bordalês da Nova Zelândia, sobretudo da Ilha Norte (Hawke´s Bay), é mais uma bela alternativa. Do lado australiano, Shiraz ou Cabernet de Coonawarra, são vinhos de presença e bom frescor, fugindo dos padrões clássicos deste país.

Depois de tudo isso, resta testar as opções, ou seja, razões não faltarão para inúmeras repetições desta saborosa receita. Para aqueles que desejam evitar a complexidade da receita, os bons restaurantes portugueses facilitam o trabalho em busca da melhor harmonização. Bom apetite!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Degustação: Tintos do Douro

21 de Julho de 2014

As degustações na ABS-SP são rotineiras e sempre acontecem às quartas-feiras. Entretanto, algumas delas são especiais, reservando surpresas e novas perspectivas de consumo. Foi o caso desta última sobre os consistentes e originais vinhos do Douro, região consagrado do famoso Vinho do Porto, tão comentado neste mesmo blog em vários artigos específicos.

O painel completo

Só para contar um pouco da história da região, O Douro descoberto pelos ingleses na era moderna, adicionava aguardente em seus vinhos para suportar o longo e penoso trajeto até a Inglaterra. Neste acaso, descobriu-se com o tempo que a fortificação melhorava os vinhos da região. Com isso, cria-se o mais famoso fortificado, ou seja, o grande Vinho do Porto. Isso posto, praticamente a produção de vinhos de mesa na região restringiu-se ao consumo local e sem grandes atrativos. Contudo, na época da segunda guerra mundial surge um personagem ilustre chamado Fernando Nicolau de Almeida, exímio degustador, figura importante na Portocracia cultuada por ingleses e portugueses. Esse cidadão resolve vencer o desafio de criar um grande vinho do mesa da região onde até então, resumia-se nos grandes Portos. Através de muito estudo, pesquisas e tenacidade em seus objetivos, concebe um projeto ambicioso e inédito até o momento. Com muito critério, escolhe algumas quintas da região a dedo, sobretudo as quintas Vale do Meão e Leda, base estrutural de seu grande vinho, o mítico Barca Velha. Esse vinho de elaboração cuidadosa, passa um bom tempo em adega, não somente para amadurecer, mas principalmente para certificar-se e comprovar através de provas rigorosas que trata-se de algo distinto e seguro para uma aquisição especial por parte de uma seleta clientela. Quando rejeitado como tal, passa a ser chamado como Ferreirinha Reserva Especial, o qual na maioria das vezes, também é um belo exemplar, tal o rigor do julgamento nas provas. A primeira safra em 1952 mostra ao mundo do vinho o grande tinto de Portugal. Até pouco mais de uma década, os grandes vinhos de mesa do Douro resumia-se ao Barca Velha e num patamar abaixo, o Quinta do Côtto Grande Escolha, importado pela Mistral (www.mistral.com.br), além do Duas Quintas (importadora Franco Suissa – http://www.francosuissa.com.br) pertencente à Casa Adriano Ramos Pinto, cujo mentor do vinho é outra grande personalidade, João Nicolau de Almeida, filho do saudoso senhor Fernando (filho de peixe, peixinho é). Com o fenômeno Douro Boys recentemente, a qualidade e a diversidade de quintas toma um novo impulso, culminando em grandes degustações como esta feita na ABS-SP, explanada e comentada nos parágrafos abaixo.

Elegância e Autenticidade em profusão

Este foi o grande vinho do painel. Realmente, um ponto fora da curva. Cotado para ser o vencedor na teoria e comprovando na prática sua excelência. Ele foi por longos anos, a espinha dorsal do grande Barca Velha. Contudo, num certo momento, separou-se da Casa Ferreirinha e lançou-se em voo solo. A família Olazabal, muito competente na vinificação e fiel às suas raízes, soube interpretar esse grande terroir com um tinto autêntico, aliando potência e elegância como poucos. Nesta prova, após uma breve decantação revelou uma paleta de aromas digna dos grandes vinhos. Em boca, seu equilíbrio é notável e sua persistência, longa e expansiva. Tratando-se de Brasil, no rol dos grandes vinhos, seu preço ainda é atrativo. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

Potente e Moderno

Esta parceria P+S (Prats e Symington) une Bordeaux e Douro na busca de um vinho moderno, mas fincado em suas origens. Bruno Prats comandou por longos anos um dos grandes châteaux do Médoc, o glorioso Cos d´Estournel, Deuxième Grand Cru Classé de alto nível. No terroir do Cima Corgo, as quintas de Roriz e da Perdiz fornecem ótima matéria-prima para um vinho destacadamente concentrado, sobretudo nesta excepcional safra de 2011 que será com certeza, uma das maiores do século vinte e um. Cor impenetrável, ainda muito fechado, já deixa transparecer todo seu potencial. Em boca é muito estruturado com abundância de taninos de grande qualidade. Deve-se esperar em adega uns bons dez anos onde então, começará a mostrar todo seu esplendor. Outra importação da Mistral.

Uma surpresa em sua faixa de preço

Quinta do Noval é uma das Casas mais cotadas em Vinho do Porto. Nos vinhos de mesa parece não ser diferente. O exemplar acima foi uma grata surpresa na degustação, principalmente levando-se em conta o preço. Seus aromas francos e bem delineados encantaram a plateia. Muito equilibrado em boca, cabendo uma comparação interessante: mais equilibrado em álcool que o próprio Chryseia (vinho de outro patamar de preço). Apesar de já prazeroso em bebe-lo, suporta com folga alguns anos de guarda. Também oriundo da sub-região do Cima Corgo, pende mais para elegância do que potência. Importado atualmente pela Adega Alentejana (www.adegaalentejana.com.br).

Por fim, os outros dois exemplares, Carm Reserva e Duorum Reserva, foram muito bem, mas sem o destaque dos demais. As safras, condições peculiares e pontuais de maturação das uvas, além da vinificação, podem ser fatores de justificação. Contudo, reforço, vinhos agradáveis e sem defeitos.

A sábia sequência dos vinhos nesta degustação soube valorizar o que tem de melhor cada exemplar. Oxalá, tenhamos outros bons painéis como este.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

 

Wine Spectator: Top Ten

21 de Novembro de 2013

Dando prosseguimento à lista dos cem melhores vinhos de 2013, segundo a revista americana Wine Spectator, farei um Top Ten pessoal. A ordem dos vinhos apresentada abaixo não obedece nenhum critério, apenas visa sugerir alguns vinhos interessantes para serem provados e evidentemente, encontrados nas grandes importadoras do Brasil.

Analisando a lista, percebemos que um terço dos vinhos são norte-americanos, naturalmente enaltecendo exemplares de seu país. A despeito de ser justa ou não a inclusão dos mesmos, é inegável que os Estados Unidos ainda lidera com folga uma grande diversidade e qualidade dentre os países do chamado Novo Mundo. Pena que chegam poucos exemplares ao Brasil a preços praticamente proibitivos. Sem mais delongas, vamos à lista sugerida: 

  1. Croft Vintage Port 2011 – WS 97 pontos
  2. Hamilton Russell Chardonnay 2012 – WS 93 pontos
  3. Rioja Alta Viña Ardanza Reserva 2004 – WS 94 pontos
  4. Château Doisy Daëne Barsac 2010 – WS 94 pontos
  5. Achaval Ferrer Finca Mirador Malbec 2011 – WS 96 pontos
  6. Quinta do Crasto Reserva Old Vines 2010 – WS 93 pontos
  7. Wynns Cabernet Sauvignon Coonawarra Black Label 2010 – WS 91 pontos
  8. Champagne Louis Roederer Brut Vintage 2006 – WS 94 pontos
  9. Mastroberardino Taurasi Radici DOCG 2006 – WS 94 pontos
  10. Seghesio Zinfandel Dry Creek Valley Cortina 2010 – WS 94 pontos

Croft Vintage Port 2011

Além da Croft, as duas casas de vinho do Porto na foto acima, dispensam apresentações. A safra 2011 promete vida longa como uma das melhores deste novo século. Evidentemente, degustá-lo agora trata-se de um infanticídio completo. Quem tiver paciência, estará com um tesouro em mãos. Importadora World Wine (www.worldwine.com.br). 

Pioneiro na África do Sul

Hamilton Russell, apaixonado pelos vinhos da Borgonha, sonhou em ter um pedacinho dela na fria região de Walker Bay, África do Sul. Em parte conseguiu, com vinhos bem elaborados, cheios de personalidade, sendo sempre lembrados nas principais publicações. Vale a pena prová-lo. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Rioja Alta: Ícone da região

Sou suspeito em falar desta bodega, já comentada em artigos especiais neste mesmo blog. Seus vinhos são considerados os “borgonhas” da região. Elegantes, profundos e perfumados. Bela relação qualidade/preço em seu seleto portfólio. Importadora Zahil (www.zahilvinhos.com.br).

Doisy Daëne ao lado de grandes Sauternes

Para quem gosta de Sauternes delicados e elegantes, Barsac é a comuna a ser procurada. O rei é o Château Climens, com preços de realeza. Château Doisy Daëne, do grande enólogo Denis Dubourdieu, nos mostra toda a essência deste grande terroir. Importadora Casa Flora (www.casaflora.com.br). 

Achaval Ferrer: Artesanato em vinho

Outra bodega irrepreensível. Atuando em Valle de Uco na região de Mendoza (Argentina), procura sempre em seus vinhos, concentração, profundidade e definição de terroir. Finca Mirador forma a trilogia de seus grandes ícones (os outros são Altamira e Bella Vista). São necessários frutos de três parreiras para a elaboração de uma garrafa (rendimento de Romanée-Conti). Importadora Inovini (www.inovini.com.br). 

Um dos melhores exemplares do Douro

Partindo de vinhas com mais de setenta anos, plantadas conjuntamente entre 25 e 30 variedades, o vinho surge com uma complexidade e concentração singulares. Tinto de longa guarda que exige decantação para melhor expressar-se. Importadora Qualimpor (www.qualimpor.com.br).

Coonawarra: região diferenciada

Esta região australiana (Coonawarra) e em especial esta vinícola (Wynns) já foram devidamente comentadas em artigo específico neste mesmo blog. Região relativamente fria para os padrões australianos, Coonawarra costuma gerar tintos concentrados e com uma acidez vibrante. Os aromas de frutas em compota e um toque refrescante de menta são atrativos mais que suficientes para provar este tinto surpreendente. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Louis Roederer: Magia e Excelência

Sua cuvée de luxo Cristal faz o sonho desde os tempos dos Czares. Entretanto, toda sua linha é elaborada nos mínimos detalhes. Num degrau acima do Brut Premier, estão os millésimes de alta qualidade. Neste caso, o blend é composto de 70% Pinot Noir e 30% Chardonnay. O vinho-base é parcialmente elaborado em madeira e após a espumatização, o vinho passa quatro anos sur lies (em contato com as leveduras). Importadora Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br). 

Mastroberardino: Referência na denominação Taurasi

Este belo tinto da Campania, sul da Itália, envelhece maravilhosamente bem. Elaborado com a estruturada uva Aglianico, o vinho passa por longa maceração e afinamento em barricas de carvalho. Potente, intenso e de grande personalidade. Importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

Dry Creek Valley: grandes Zinfandéis

Este típico tinto californiano é elaborado com a uva Zinfandel proveniente do vinhedo Cortina em Dry Creek Valley, plantado em 1942.  Passa cerca de quatorze meses em barricas de carvalho, predominantemente francesas. Vinho de muito fruta, concentração e longa persistência. Uva de grande identidade americana. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

Evidentemente, o tinto do ano, CVNE Imperial Gran Reserva 2004, merece ser provado e foi objeto de artigo exclusivo na postagem anterior. Fica assim, algumas dicas para as festas de final de ano.

Vinhos do Douro: Porto e Tintos de Mesa

26 de Agosto de 2013

A região do Douro sempre foi emblematizada pelo grande Vinho do Porto durante várias décadas com forte influência inglesa. Entretanto, nos últimos anos houve um notável interesse sobre a possibilidade de elaborar belos tintos de mesa, sobretudo com o movimento recente dos chamados “Douro Boys”, uma nova geração de enólogos, viticultores, muitos deles com nomes de tradição da região duriense.

Partindo do pioneiro Barca Velha na década de cinquenta do século passado, a produção de tintos de mesa sempre foi bastante tímida. Apenas alguns nomes como Quinta do Côtto com seu irretocável Grande Escolha, além de Duas Quintas com produção no Alto Douro ou Douro Superior pelo competente enólogo João Nicolau de Almeida, podem ser lembrados com grande destaque. Mais recentemente, temos belos tintos de mesa como Vale do Meão (deixando de fornecer uvas para a produção do Barca Velha e engarrafando seu próprio vinho), Quinta do Crasto, Quinta Vale Dona Maria, entre outros.

Neste cenário, a proporção de vinhos de mesa em relação ao todo poderoso Porto tem oscilado substancialmente, conforme alguns dados abaixo:

produção douro e porto (clique outra vez na tela seguinte)

A produção de vinho do Porto tem oscilado menos em relação ao total de vinho produzido no Douro do que a produção de tintos de mesa com denominação de origem. A produção de Porto na média é de aproximadamente metada (50%) do que se produz em todo o Douro. Já a produção de tintos de mesa com denominação de origem oscila bastante conforme o ano. Contudo, verifica-se uma certa tendência de alta nesta proporção para os próximos anos.

Um dos grandes tintos do Douro

A proporção na produção dos tintos de mesa em relação ao vinho do Porto varia bastante. Normalmente girava em torno de 35 a 40%, e atualmente, este número tende a ser acima de 50%. Conforme tabela acima, no período 2011/2012 este número chegou a ser de 71%, ou seja, fora da curva.

Outro dado interessante na tabela é que os vinhos de mesa comuns, mais simples, tendem a diminuir claramente sua produção. Já os espumantes que podem ser muito bons, apresentam expressivo crescimento nos últimos anos. 

O Douro Superior, a última das três grandes sub-regiões na produção de vinhos, está revelando grandes tintos de mesa e com certeza, nos revelará muitas surpresas num breve tempo. Numa comparação francesa, se o Alentejo é o Rhône de Portugal e o Dão é a Borgonha, O Douro está nos mostrando os Bordeaux de Portugal. Não é à toa que o respeitável Château Lynch-Bages associou-se à Quinta do Crasto para elaborar um tinto elegante chamado Xisto (referência ao grande solo do Douro).

Tintos de Portugal

29 de Julho de 2013

Nesta quarta-feira (24/07/13) com muito frio, tivemos uma interessante degustação didática na ABS-SP sobre as principais regiões vinícolas de Portugal. Os vinhos, todos tintos, representaram bem as características locais, conforme mapa abaixo:

Mapa atualizado das regiões

Só para esclarecer, a região Lisboa refere-se à antiga Estremadura, Ribatejo agora é simplesmente Tejo, e Península de Setúbal substitui a antiga Terras do Sado. Vamos aos vinhos:

Campolargo é um produtor excêntrico da Bairrada, misturando modernidade com tradição. Neste rótulo de nome bem apropriado, o vinho nasce de videiras antigas plantadas todas misturadas com diferentes cepas (Baga, Castelão, Trincadeira, Sousão, Bastardo, Alfrocheiro e Tinta Pinheira). A vinificação também é conjunta com posterior amadurecimento por doze meses em barricas usadas. A acidez da Bairrada está bem presente, embora seus 15,5° de álcool incomodem um pouco. Outra característica é a agressividade de seus taninos que precisam de longo tempo em garrafa. Enfim, boa tipicidade, crescendo muito à mesa na companhia de carnes estufadas, ou melhor dizendo, carnes ensopadas.

Conceito é uma vinícola recente do Douro Superior mesclando também modernidade com tradição. Neste exemplar com as duas Tourigas (Nacional e Franca), a novidade é o amadurecimento em aço inox por dezoito meses após a vinificação. É bem verdade que as características locais ficam mais evidentes com notas florais, frutas escuras vibrantes e um toque mineral (terroso). Contudo, nada como a barrica de carvalho para domar a boa tanicidade deste tinto. Vinho interessante, muito bem equilibrado, e de longo envelhecimento. O preço é outro atrativo, pouco mais de cinquenta reais.

Este é um moderno exemplar do Dão com a típica uva local Touriga Nacional. Fermentado em aço inox e amadurecido em barricas novas francesas por dezoito meses. Vinho ainda um pouco fechado, bela estrutura tânica, com bons anos de envelhecimento em adega. O frescor dos tintos do Dão geram sempre vinhos muito bem equilibrados. A grande dúvida deste exemplar é até que ponto  esta carga de madeira não compromete o vinho. Aposto com alguma dúvida que haverá uma integração harmônica com o mesmo no seu envelhecimento em garrafa. Os típicos aromas florais da Touriga ainda estão tímidos frente aos aromas amadeirados (baunilha, especiarias e chocolate amargo). Gostaria de revê-lo daqui há dez anos.

Este alentejano é diferenciado por dois motivos: Terroir de Portalegre (Serra de São Mamede) e elaboração do competente Paulo Laureano (intimamente ligado ao espetacular Mouchão). Apesar de ser um dos mais simples do portfólio, este Colheita prima por sua elegância e equilíbrio. As uvas são Trincadeira, Argonês e Alicante Bouschet. O terroir de Portalegre diferencia-se das demais sub-regiões alentejanas por ser um vinhedo de altitude, preservando altos níveis de acidez, fator este, sempre em carência nos macios e quentes vinhos da região. Este exemplar encontra-se num ótimo momento para consumo com aromas terciários de couro, toques balsâmicos e um leve mentol. Beber com prazer.

Talvez o vinho mais polêmico da noite quanto à sua estrutura e poder de evolução. Este é um vinho moderno da região do Tejo com as uvas Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Passa cerca de doze meses em barricas francesas. Pessoalmente, achei um vinho um pouco carente de estrutura e com taninos não muito agradáveis, um pouco ásperos. A Cabernet tem presença tímida no corte. Tenho sérias dúvidas quanto ao seu futuro. É uma aposta arriscada.

Hermitage e Porto Vintage

18 de Julho de 2013

Há tempos estou para escrever este artigo, sempre prospectando os fatores de terroir. Apesar de serem duas regiões clássicas europeias distantes entre si, vale a pena compará-las e discutir o fator humano que as fizeram elaborar vinhos aparentemente tão diferentes. A montanha de Hemitage em certa fotos assemelha-se bastante com a região do Douro, sobretudo por seu relevo íngreme. Vamos então, citar alguns pontos em comum destes dois grandes terroirs:

  • Relevo íngreme e subsolo granítico
  • Regiões de clima continental
  • Vinhos potentes e de longo envelhecimento
  • Elaboração do vinho a partir de vários vinhedos
  • Tanicidade destacada a ser domada pelo tempo

Colina de Hermitage: semelhança com o Douro

A região do Douro foi escolhida pelos ingleses no século dezessete para suprir o fornecimento de vinhos franceses, devido a várias guerras entre os dois países. Como o transporte deste vinho rústico duriense era extremamente demorado não só pela distância, mas principalmente pela dificuldade do relevo e inexistência de estradas, optou-se pela fortificação, dando mais resistência ao produto. Maiores detalhes, favor verificar neste mesmo blog artigos sobre Vinho do Porto em várias partes.

O importante nesta história é a perspicácia do homem como fator humano do chamado terroir, interferindo num estilo de vinho e marcando-o profundamente através da tradição. Recentemente, os vinhos de mesa do Douro ganharam notoriedade por conta novamente de uma mudança de mentalidade, ou seja, o fator humano mudando os rumos de uma região e trazendo novas opções de consumo.

Cores intensas: Porto (acima) e Hermitage (abaixo)

Já a região de Hermitage (apelação francesa no chamado Rhône do Norte), sempre optou por vinhos de mesa robustos, encorpados e em certa época, misturado aos vinhos de Bordeaux de safras problemáticas para darem mais corpo e estrutura aos tintos bordaleses. Se fosse o caso, este vinho poderia ser perfeitamente fortificado, tornando-se quem sabe, numa das mais autênticas cópias do grande fortificado português. 

Paisagem duriense

Enfim, a semelhança que deve ser observada entre estes dois grandes tintos é a potência e o poder de longevidade dos mesmos. A peculiaridade pouco comum desses dois vinhos partirem de um grupo de vinhedos é também notável. Os melhores Hermitages como Chave e La Chapelle (do produtor Paul Jaboulet) provêm de um maior número de vinhedos ou como os franceses preferem, climats (Méal, Bessards, Greffieux, Baumes, entre outros). Do lado do Porto, os melhores Vintages, os chamados clássicos, provêm também de várias parcelas (quintas) das melhores casas de Porto. Nos dois casos, cada parcela apresenta características distintas onde a mistura ou assemblage das mesmas geram vinhos mais equilibrados e complexos, melhorando o conjunto. Só para citar um exemplo, o belíssimo Porto Taylor´s Vintage provém das quintas de Vargellas, Terra Feita e Junco. Cada qual com características distintas, formando um todo harmonioso.

Outra coincidência relevante é a crescente individualização dos vinhedos. Atualmente, está em voga os chamados Hermitages de vinhedo e também, os chamados Portos de Quinta. A idéia é mostrar certas pecualiridades de terroir que compõem as melhores quintas de cada Casa. A Taylor´s por exemplo, engarrafa o espetacular Quinta de Vargellas, famosa por proporcionar aos vintages o caracteristico aroma de violetas. Mas a grande quinta em toda a região é o mítico Quinta do Noval Nacional, elaborado em certos anos sob rendimentos mínimos com parreiras pré-filoxera. A qualidade é magistral, contudo os preços são proibitivos. Quanto aos Hermitages de vinhedo, a Maison Chapoutier tem um ótimo grupo de vinhos, com destaque especial para o L´Ermite.

Harmonização: Vaca Atolada

16 de Agosto de 2012

Prato saboroso da cozinha mineira, embora suas origens possam não ser necessariamente de Minas Gerais. De qualquer modo, a costela de boi é o ingrediente principal, agregando gordura e muito sabor ao prato. Em termos de harmonização, há certa semelhança com a rabada. Apesar de serem carnes de partes diferentes do animal, as duas são muito saborosas, gordurosas e intensas. Outro ingrediente que deve ser levado em conta na harmonização é a mandioca que faz parte deste ensopado. Como ela tem um caráter adocicado, precisamos de vinhos jovens, com muita fruta. Neste sentido, teremos também uma certa acidez  ou frescor, além de taninos mais presentes, no caso de tintos. Acidez e tanicidade são componentes que irão combater o lado gorduroso do prato. Com seu sabor marcante e intenso, precisamos de vinhos com bom impacto aromático e corpo adequado. Trata-se de um prato relativamente simples, sem grandes sofisticações. Portanto, tipologicamente os vinhos a serem escolhidos também devem apresentar um lado mais frugal. Lembre-se que ingredientes como alho, pimenta, e ervas mais intensas podem fazer parte do prato. Então, não vamos arriscar preciosidades em nossa adega.


Pensando na colonização portuguesa que deu origem a muitos pratos de nossa cozinha, opções do Douro ou Alentejo são minhas primeiras escolhas. Os dois têm força aromática suficiente para o prato, com os vinhos durienses apresentando componentes de acidez e taninos um pouco mais acentuados. Entretanto, os alentejanos têm aquela fruta bastante presente e extremamente benvinda ao nosso prato. É só calibrar a acidez e taninos num vinho jovem e a questão está resolvida.

Do Novo Mundo, penso que um bom Shiraz, um bom Malbec, ou um bom Merlot, todos jovens, frutados e de bom corpo, podem ser belas opções. Um toque de madeira sem exageros, não deve afetar a harmonização. Países com Austrália, Argentina e Brasil respectivamente, são boas escolhas para as uvas citadas. No caso do Brasil, a uva Merlot tem mostrado resultados satisfatórios, principalmente em vinhos topo de gama das principais vinícolas. Acho que é a uva tinta de melhor desempenho em solo gaúcho, embora com preços pouco competitivos.

Como sugestão, o alentejano Altas Quintas Colheita do enólogo Paulo Laureano está disponível na importadora Decanter (www.decanter.com.br). Tem um estilo mais viril, fugindo um pouco do padrão clássico do Alentejo. O terroir diferenciado de Portalegre com a influência da serra de São Mamede molda vinhos mais frescos e estruturados, culminando no grande Mouchão, já abordado neste blog em artigo especial.


%d bloggers like this: