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Harmonização: Ossobuco e Vinho

1 de Julho de 2010

Especialidade Lombarda em muitas versões contemporâneas

A combinação clássica do famoso Ossobuco alla Milanese é o vinho piemontês com a uva Dolcetto, de baixa tanicidade. A guarnição com risoto de açafrão ou polenta cremosa não modifica a harmonização. Já a carne de vitelo, mais delicada, bem como, cenoura, aipo, e molho de tomate, principalmente, corroboram para um vinho mais simples, aromático e jovem. Não nos esqueçamos da Gremolata ou Gremolada, mistura de alho, salsinha e casca de limão, finalizando a receita.

Em versões mais contemporâneas, o caldo, o cozimento e os ingredientes, podem e devem modificar a escolha dos vinhos. A opção mais comum e barata por carne de boi, modifica a textura, pedindo vinhos mais estruturados. Some-se a isso, um caldo de carne mais substancioso, a exclusão dos tomates e introdução de cogumelos, por exemplo, e teremos um cenário convidativo a vinhos mais complexos, envelhecidos, sem abrir mão de um bom suporte de acidez. O frescor neste caso é muito importante para dinamizar a harmonização, sem tornar o conjunto um tanto pesado, enfadonho. Portanto, neste outro extremo, podemos pensar em italianos mais estruturados, como Barolo, Barbaresco, Brunello ou Chianti Classico Riserva.

Outras opções européias podem ser um bom Rioja Reserva, que normalmente apresenta fruta e madeira na medida certa. Um bom português do Douro ou do Dão. Quinta da Leda e Quinta dos Carvalhais, respectivamente, ambos da importadora Zahil (www.zahil.com.br). Do lado francês, é bom lembrarmos da Borgonha com algumas ressalvas. Normalmente, os vinhos são muito sutis para o prato. As melhores comunas, onde você pode aliar um pouco mais de força com uma ponta de rusticidade, são as de Nuits-Saint-Georges e Pommard.

Quanto ao Novo Mundo, os problemas de sempre. Um tanto dominadores, excesso de madeira, álcool sobrando, sobretudo, nos argentinos, chilenos e australianos. Sul-africanos como Rupert & Rothschild (importadora Zahil) e neozelandeses como Rippon Pinot Noir (importadora Premium), são boas opções alternativas.

Harmonização: Filet de Boeuf Béarnaise

6 de Junho de 2010

Molho Béarnaise: Preparação e combinação desafiadoras

Um filé alto de carne bovina ao ponto naturalmente pede um tinto robusto, mas aquele “inofensivo” molho intrínseco ao prato pode mudar tudo.

O molho béarnaise exige uma execução atenta, pois envolve ingredientes que precisam incorparar-se entre si de maneira precisa. São eles: vinagre, gemas de ovos, manteiga clarificada, pimenta, estragão, cebola e sal, basicamente. Esta incorporação deve ser lenta, preferencialmente em banho maria.

O segundo desafio é a escolha do vinho. A carne pede um tinto, mas o molho inclina-se para um branco. Temos realmente vários problemas, principalmente os ovos e o vinagre. O molho é gorduroso, com tendência ácida, tendo tudo a ver com brancos.

Se a opção for por um tinto, precisa ter muita fruta, boa acidez, boa concentração, tanicidade baixa e bem resolvida. Dentro destas características, pode faltar um pouco de corpo ao vinho em relação ao  prato. Contudo, não há solução perfeita. A meu ver, um bom Cru du Beaujolais é a melhor alternativa. As opções italianas são um Dolcetto de vinhedo próprio ou um Valpolicella no estilo ripasso. Todos esses vinhos precisam ser jovens, com bastante frescor.

No caso de brancos, eles precisam ter corpo e estrutura, sobretudo pela carne vermelha. Chardonnays jovens corretamente fermentados em barrica podem surpreender. Pode até ser um borgonha, mas jamais um Grand Cru. Sauvignon Blanc do Novo Mundo tem seu espaço também, mas é fundamental que tenha corpo e estrutura, como alguns da Nova Zelândia e África do Sul.

Uma boa dica na opção de brancos, é preparar a carne em escalopes. O sabor tostado da grelha é mais evidente frente ao pequeno volume da carne, além de sua textura ser mais delicada. Esses dois fatores ajustam-se melhor ao conjunto. O tostado vai de encontro aos toques empireumáticos do Chardonnay e a calibragem entre corpo do prato e corpo do vinho é  melhor sintonizada.

A receita clássica pode ser incrementada como na foto acima, acrescentando-se tomates que vão de encontro à fruta do vinho, além de aspargos e cogumelos que foram banhados pelo molho béarnaise.

Se você gosta da receita, vai ter muitos motivos para repetí-la até encontrar o vinho de sua preferência. Bon appétit!

Harmonização: Frango Xadrez e Vinho

21 de Abril de 2010

A qualquer hora, um dos campeões do Delivery!

Atire a primeira pedra quem já não discou para os chineses. Mesmo que não seja seu prato favorito, é uma bela solução numa hora de apuros. E até mesmo nestas horas, uma prosaica garrafa de vinho pode e deve tornar o momento agradável e muito mais interessante sensorialmente.

As variações da receita são inúmeras, mas vamos dividí-las com legumes ou com amendoim. Os ingredientes onipresentes são frango em cubos, pimentões, cebola e shoyu. Os legumes podem incluir cenouras, brócolis, acelga, entre outros. O amendoim é uma questão de gosto, pode ser acrescentado ou não.

O prato tem peso médio (normalmente peito de frango)  e é relativamente simples. Portanto, nada de vinhos sofisticados. Lembre-se que temos pimentões que costumam ofuscar sutilezas de grandes vinhos. Um ponto importante é a textura do molho, bastante aveludada quando o prato é bem executado. A crocância dos ingredientes é também uma marca registrada da culinária chinesa.

Uma das melhores opções é um bom espumante, inclusive os nacionais de leve a médio corpo. A acidez e efervescência destes vinhos animam o prato, limpando agradavelmente o paladar da delicada textura oleosa do molho. Se sua opção for pelos legumes, opte por um espumante do método Charmat, onde os sabores frutados e florais vão de encontro ao sabor do prato. Proseccos de boa procedência no estilo Extra-Dry (não tão secos como o Brut) são benvindos.

Se a opção for com amendoim, os espumantes pelo método Champenoise (método Tradicional ou Clássico são sinônimos) apresentam melhor sintonia. Os aromas advindos do contato relativamente prolongado com as  leveduras, além de uma eventual mineralidade, casam melhor com o perfil de frutas secas dado pelo amendoim. Um Cava (espumante espanhol elaborado obrigatoriamente pelo método Clássico) relativamente simples é uma ótima pedida. Não desperdiçe um Cava sofisticado, nem tão pouco um Champagne com amendoins. Não estamos falando de avelãs, amêndoas, nem nozes, e sim de uma semente tupiniquim.

Além dos espumantes, vinhos brancos relativamente leves, frescos e frutados caem bem. Evite vinhos de aromas austeros e minerais como um Chablis por exemplo. O mesmo vale para os tintos. Um Sancerre (Pinot Noir do Loire), um Dolcetto, um Tempranillo Joven ou nacionais sem passagem por madeira são alternativas interessantes.

Por fim, a culinária chinesa é extremamente rica e vai muito além do nosso frango xadrez. Em linhas gerais, os brancos alemães combinam muito bem, principalmente com molhos agridoces e receitas com carne suína. Oportunamente, falaremos sobre o assunto.

 

Harmonização: Carpaccio e vinho

17 de Abril de 2010

 

Carne com a cara do verão

Embora hoje em dia carpaccio tenha várias versões e não seja somente de carne bovina, estamos nos referindo àquele criado no lendário Harry´s Bar de Veneza com as devidas adaptações que individualizam cada receita.

Sem entrar em polêmica sobre a receita ideal, na maioria das versões  resume-se em lâminas de carne dispostas sobre  a superfície do prato besuntadas com um molho à base de mostarda, azeite e alcaparras (por favor devidamente dessalgadas). Eventualmente podemos acrescentar ao molho  aceto balsâmico e cebolas finamente fatiadas em cubinhos.

Aqui observamos o quão importante é a textura de um determinado alimento, no caso, a carne bovina. É evidente que quando pensamos em carne vermelha, imediatamente lembramos de um belo vinho tinto, muitas vezes encorpado.

Neste exemplo, a lâmina de carne oferece uma textura tão delicada que a força de um tinto não é mais necessária. O que realmente determina a escolha do vinho são as armadilhas do molho onde comumente temos acidez, picância e eventualmente uma tendência salgada. Devemos lembrar também que este prato trata-se de uma entrada, embora esporadicamente, pode tornar-se o prato principal para os adeptos de uma dieta saudável.

 Com esses elementos podemos pensar até num vinho branco leve e de boa acidez. Um Sauvignon Blanc com toques herbáceos ou um Albariño de boa mineralidade. Para aqueles que não abrem mão de um vinho tinto, os critérios são os mesmos: corpo relativamente leve, boa acidez e baixa tanicidade. Italianos como Chianti, Docetto, Valpolicella ou Barbera, todos simples e sem passagem por madeira são escolhas imediatas. Do lado francês, um bom Cabernet Franc do Loire de estilo leve é uma das melhores pedidas. A opção de espalhar lascas de parmesão sobre o carpaccio em sua finalização ajuda a escolha pelos tintos.

Vinhos do Novo Mundo, sobretudo os tintos, geralmente sobrepujam o prato, além de não apresentarem frescor suficiente. Somados a fatores como tanicidade e presença de madeira, o sucesso da harmonização fica seriamente comprometido.