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Bourgogne: Confronto de Terroirs

1 de Dezembro de 2014

Discutir sobre a Borgonha é sempre prazeroso, instigante e sobretudo, sem conclusões definitivas, lembrando um pouco as infindáveis discussões sobre futebol, ou seja, não se chega a lugar algum. Dentro desta perspectiva, o tema de hoje pode ser interessante, principalmente para aqueles que estão iniciando no assunto. Um dos fatores que mais intrigam os degustadores é desvendar as peculiaridades de cada “climat”, termo muito típico para designar terroirs específicos nesta região. Só para ficar nas comunas mais famosas como Chambolle-Musigny, Vosne-Romanée, Pommard, Volnay, Chambertin, entre outras, os escritores, críticos e apaixonados por este vinhos, tentam marcar as principais características específicas de cada uma delas. Seguindo este raciocínio, podemos propor alguns paineis em dupla, comparando vinhos aparentemente diversos, distintos. Seguem abaixo alguns exemplos:

Côte d´Or: O coração da Borgonha

Volnay x Chambolle-Musigny

Num primeiro momento, temos uma comuna da Côte de Beaune (Volnay) e uma comuna da Côte de Nuits (Chambolle). Terroirs bem separados, já que na Borgonha, mesmo em vinhedos lado a lado, as diferenças podem ser marcantes.  O ponto principal a ser comparado é a delicadeza, a elegância e a sutileza destes respectivos vinhos. A priori, os vinhos de Chambolle parecem vencer o páreo. Teoricamente, teriam mais profundidade, poderiam ser mais marcantes. Só que treino é treino e jogo é jogo. Na prática, às cegas, dependendo do produtor, os respectivos terrenos e a filosofia do produtor, tudo pode mudar. Entretanto, vale a bincadeira. Dois belos Premiers Crus, lado a lado, um de cada comuna, às cegas. Como sugestão, um Chambolle do craque Mugnier e um Volnay do diferenciado Lafarge.

Pommard x Nuits-Saint-Georges

Força, personalidade e até uma certa rusticidade, marcam esses tintos robustos para padrões borgonheses. Pommard é também chamado o “Barolo” da Borgonha. Já o terroir de Nuits-Saint-Georges é mais complexo. A porção que me refiro é mais ao sul, mais afastado de Vosne-Romanée. Aqui sim, são vinhos robustos, mais duros na juventude, porém podem envelhecer maravilhosamente. Nas duas comunas não existem Grands Crus. Como disse, para padrões borgonheses, falta-lhes algo mais refinado numa sintonia mais ajustada. Proponho para Pommard, os produtores Domaine Courcel ou Comte Armand, e para Nuits-Saint-Georges, Henri Gouges ou Faiveley.

Henri Gouges: Meu preferido de Nuits-St-Georges

Corton x Gevrey-Chambertin

Vinhos firmes, uma certa austeridade, um cunho másculo e novamente o antagonismo: Côte de Beaune x Côte de Nuits. Corton é a exceção. Único Grand Cru tinto da Côte de Beaune e Chambertin da Côte de Nuits, com o maior número de Grands Crus por comuna (são nove no total). Ambos geologicamente apresentam influência direta de um subsolo calcário, fornecendo finesse e elegância. Corton do produtor Chandon de Briailles e Chambertin do inacessível Rousseau. Na impossibilidade deste último, Domaine Trapet.

Embate de Gigantes

Vosne-Romanée x Morey-Saint-Denis

Aqui a proposta é mais ousada e até certo ponto, leviana. Comparar Vosne-Romanée com outros tintos da Borgonha pode ser para alguns um verdadeiro insulto. Contudo, como experiência vale. Um grande Bonnes-Mares, um Clos de Tart ou o grande Musigny, este último de Chambolle, podem ás cegas, surpreenderem degustadores até mesmo com os DRCs à mesa. Entenda-se DRC como os fabulosos Grands Crus da Domaine de La Romanée-Conti. Sem a presença de rótulos, os soberbos tintos de Vosne tornam o embate mais democrático.

Quase sempre uma surpresa às cegas

Enfim, esse é um dos caminhos divertidos para tentar compreender a Borgonha. É como as mulheres. É divertido, prazeroso, enriquecedor e necessário este contato, mas entende-las é uma outra história. Quanto mais estudamos, quanto mais formulamos teses, menos compreendemos. Eis é o fascínio.

Chambolle-Musigny pelo maestro Mugnier

21 de Agosto de 2014

Mais uma aula de Borgonha inspirada pelo amigo e aficionado no assunto, Roberto Rockmann. Juntamente com Lucas Gavião e o onipresente doutor Cesar Pigati, formamos o quarteto para a orquestração. Tema: Chambolle-Musigny. Maestros: Mugnier e Roumier. Safra: a abordável 2009. Degustação às cegas, sem partituras.

mugnier 2009

Mugnier: A essência de Chambolle-Musigny

Finalmente, a degustação fez-me entender o que é um Mugnier. Embora fosse um vinho comunal, pude vislumbrar seus tintos de maior quilate como Les Amoureuses ou o enigmático Musigny Grand Cru. Este exemplar é o típico vinho didático, de sala de aula. Expressa com perfeição o que é a delicadeza e feminilidade de um autêntico Chambolle-Musigny. A boca é fresca, sedosa, toda em sutileza. Os aromas florais, de frutas vermelhas delicadas e um bouquet garni de especiarias doces, formam um triunvirato em perfeita harmonia. Muito cuidado na harmonização para não destoar nenhuma nota.

roumier 2009

Roumier: Tipicidade confusa

Já o meu favorito a priori, antes da degustação começar, perdeu-se um pouco em sua tipicidade. A despeito de ser um belo vinho, mostrou-se como uma mulher muito austera, fria, tentando sustentar uma seriedade que não possui. Faltou feminilidade. De fato, de início, um pouco fechado e misterioso, tanto em boca, como nos aromas. Seus taninos, bem presentes, pareciam por demais extraídos, não tendo sustentação com os demais componentes. Faltou algo mais sedutor e sua tipicidade ficou em xeque.

chambolle na taça

Mugnier: cor tênue na taça A

As considerações no que diz respeito à interpretação do terroir são importantes para entendermos a degustação. Frédéric Mugnier utiliza parte das uvas de um de seus vinhedos classificado como Premier Cru, mas ele resolveu vinifica-las como Village, o que confere mais personalidade ao conjunto. Outro ponto importante é o desengaço total das uvas para posterior vinificação. A extração de taninos é a mais suave possível e a madeira procura ter um mínimo de interferência. Já Roumier, imprime uma extração mais potente e pratica um desengaço parcial das uvas. A própria diferença de cores entre as duas taças evidencia estas observações.

louis carillon puligny

A elegância de Puligny-Montrachet

Para complementar e enriquecer a harmonização do jantar, tínhamos também um  belo branco de Puligny-Montrachet, do produtor Louis-Carillon. Trata-se de um Premier Cru 2006 Les Perrières. Este vinhedo confunde-se na comuna de Meursault, proporcionando diferenças sutis. No lado de Puligny, predominam a elegância e sutileza. Já os Meursaults, a intensidade e potência tornam-se mais presentes. Cometemos um pequeno infanticídio, pois o vinho tem muita vida pela frente.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Borgonha: Terroir, tipicidade e dúvidas

24 de Julho de 2014

O intrincado mosaico borgonhês deixa qualquer aficionado pelos seus vinhos de cabelos em pé. Por mais estudos, teorias, e uma certa racionalidade em entender seus vinhos, a Borgonha desafia enófilos, enólogos, críticos e apaixonados pela região, caindo por terra todas suas convicções. E este é certamente, um dos motivos, talvez o principal, pela fascinação e admiração por este desafio quase intransponível. Foi o que aconteceu numa degustação às cegas proposta pelo amigo Roberto Rockmann, viciado e alucinado por estes tintos sutis e misteriosos.

Na mesa com as letras A, B e C, três tintos da Côte de Nuits de comunas diferentes. Chambolle-Musigny, Vougeot e Nuits Saint-Georges, interpretadas por produtores de respeito, tentando passar a tipicidade de seus vinhos. A safra 2007 foi comum a todos. Safra sabidamente de característica precoce, acessível em tenra idade, e já com seus sete anos podendo proporcionar alguns aromas de evolução. Todos também estão na categoria Premier Cru, bastante restrita em termos de produção e que é capaz de expressar com clareza a respectiva tipicidade de sua comuna.

Feita essas considerações e apresentações, vamos aos detalhes de cada um dos vinhos abaixo:

chambolle-musigny

O fator humano pesou neste rótulo

Na minha modesta opinião sobre a comuna de Chambolle-Musigny, a primeira sensação esperada nestes vinhos é a elegância, a delicadeza, a sutileza. Infelizmente, o produtor abusou da madeira neste exemplar. Erro crucial para ofuscar os predicados descritos acima. Mesmo assim, um bom vinho, mas nunca um verdadeiro Chambolle-Musigny.

Vougeot premier cru

Elegância: marca inconteste da Borgonha

Pouca gente sabe que existem outros vinhos nesta comuna, além do emblemático Clos de Vougeot, o maior Grand Cru da Borgonha com cerca de cinquenta hectares de vinhas distribuídas dentre inúmeros produtores. O rótulo acima, um belo Premier Cru “Les Cras”, numa localização pouco privilegiada na colina, demonstrou finesse, própria de sua comuna e sua nobre vizinhança. É bem verdade, que sua persistência aromática não é tão expansiva, mas o competente produtor Bertrand Ambroise soube extrair com astúcia a essência de seu terroir.

les saint georgesFaltou elegância neste rótulo

Este produtor, Thibault Liger-Belair, reverenciado pelos melhores críticos da região, inclusive o papa Clive Coates, acabou me decepcionando, sobretudo no quesito elegância. E não há contradição nesta afirmação. Explico melhor, nesta região de Nuits-Saint-Georges, os vinhos costumam ser mais rústicos, evidentemente dentro de uma sintonia fina com o que há de melhor na sagrada sub-região de Côte de Nuits. Entretanto, neste Premier Cru Les Saint Georges, trata-se de mais uma exceção, entre tantas quando se trata da capciosa Borgonha. Os vinhos deste vinhedo costumam ser elegantes e longevos. No exemplar acima, não contesto a longevidade, pois o mesmo possui uma estrutura tânica invejável. Contudo, dentro do alto padrão de Les Saint Georges, e por tratar-se de um produtor de alto nível, seus taninos são relativamente rústicos, provocando uma secura e uma adstringência desagradáveis no final de boca. Repito, na minha modesta opinião. E esta opinião não foi nem de longe unanimidade entre os degustadores desta noite.

Não é preciso dizer que errei todos os exemplares, mas degustação às cegas é sempre um ato de humildade. É mais um incentivo e motivação para continuarmos os desafios desta fascinante região. Como dizem os entendidos, Borgonha é sempre o estágio final da longa jornada do degustador persistente e inquieto. Que venham mais desafios, meu caro Roberto!

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Borgonha: Parte IV

12 de Março de 2012

As famosas comunas da Côte de Nuits são reverenciadas com vinhos sublimes, proporcionando borgonhas tintos perto da perfeição. Mas atenção, este é um campo minado, repleto de armadilhas que só os especialistas em áreas específicas são capazes de traduzir todo este esplendor. De fato, a proporção de calcário e argila deve ser sempre respeitada, e dela tirar o melhor proveito possível. O calcário dá elegância ao vinho, enquanto a argila fornece estrutura e vigor. Porém, cada um destes fatores tem seus limites.

Observando o mapa acima, vamos nos fixar nas comunas de Gevrey-Chambertin e Nuits-St-Georges, diametralmente opostas, a primeira no limite a norte, a segunda no limite a sul. As duas porporcionam vinhos estruturados, encorpados, aptos a longo envelhecimento. Evidentemente, sempre pensando nos melhores locais e produtores. A diferença básica entre as duas está na elegância. Gevrey-Chambertin possui maior proporção de calcário, enquanto em Nuits-St-Georges a argila predomina demais. Numa sintonia fina, os tintos de Nuits-St-Georges são um tanto rústicos se comparado ao seu concorrente mais ilustre. Pessoalmente, os dois são excelentes.

Alguns produtores: Rossignol-Trapet (www.cellar-af.com.br), Armand Rousseau (era trazido pela Expand). Os dois são excelentes em Chambertin. Domaine Henri Gouges (www.zahil.com.br) e Jacques-Frédéric Mugnier (www.cellar-af.com.br) são grandes nomes em Nuits-St-Georges.

Chambolle-Musigny e Vosne-Romanée

Novamente, uma comparação interessante. As duas comunas são famosas por fornecerem os tintos mais femininos e elegantes da Côte de Nuits. De fato, a presença de boa proporção de calcário em Chambolle promove esta elegância, principalmente em seu famoso vinhedo “Les Amoureusses”. No entanto, uma proporção um pouco maior de argila na comuna de Vosne-Romanée mantém esta elegância, mas com um ganho de profundidade e estrutura. Talvez aqui, a argila e o calcário tenham encontrado a proporção ideal, justificando o velho ditado: “Em Vosne não existem vinhos comuns”.

Esta análise é absolutamente genérica e um tanto superficial. Existem inúmeras exceções nos dois lados que podem contrariar esta tese. Contudo, de maneira geral, ela é relativamente consistente. O vinhedo “Le Musigny”, espetacular Grand Cru da comuna de Chambolle-Musigny é uma das exceções, onde a proporção de argila em relação ao calcário, é maior.

Produtores como Comte Vogüé, Georges Roumier e Jacques-Frédéric Mugnier são belas referências na apelação Chambolle-Musigny. Já para Vosne-Romanée, além da lendária Domaine de La Romanée-Conti, temos Méo-Camuzet, Anne-Françoise Gros e Jean Grivot, bastante confiáveis.

Os importadores destes produtores são: www.mistral.com.br (Vogüé, Camuzet e Grivot), www.cellar-af.com.br (Gros e Mugnier) e alguns exemplares da Domaine de La Romanée-Conti na Expand (www.expand.com.br).