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Espumante Brut, Carne de Porco, Arroz de Pato

23 de Dezembro de 2015

O título deste artigo em si pode não ter muito sentido, mas foram os três itens mais pesquisados ultimamente em Vinho Sem Segredo. Evidentemente, estes assuntos já foram convenientemente abordados. Contudo, vale a pena num só artigo ressaltar os principais pontos, esclarecendo dúvidas.

Espumante Brut

Brut quer dizer o nível de açúcar residual  do espumante que neste caso é seco. Muito cuidado com a nomenclatura extremamente confusa na área de espumantes. Em grau de doçura crescente temos: Extra-Brut, Brut, Extra-Dry, Sec ou Dry, Demi-Sec ou Rich.

Importadora Decanter

Quanto ao método de espumatização, temos o método Charmat ou Tanque, e o método Tradicional ou Clássico, com segunda fermentação na própria garrafa. Normalmente, os espumantes Charmat são mais simples e de preços mais modestos. Já os de método Clássico, que são os casos dos Cavas e Champagnes, são espumantes mais complexos e de preço mais elevado.

De modo geral, espumantes do método Charmat vão melhor fora da mesa, como aperitivo, pequenas entradas e recepções. Já os elaborados pelo método Clássico são mais gastronômicos, sobretudo os mais complexos.

Carne de Porco

A harmonização desta carne depende muito do corte e da receita executada. De todo modo, podemos falar de leitoa ou leitãozinho, carne macia, delicada e rica em gordura. Neste caso, os vinhos brancos caem melhor. Sua acidez e frescor combatem bem o lado gorduroso do prato. Aqui também cabe bons espumantes, inclusive os rosés.

O clássico pernil assado

Já no caso do pernil, temos uma carne mais fibrosa e sabores marcantes. Aí sim, os tintos são mais convidativos. Portugueses do Dão e do Alentejo vão bem, além de espanhóis  de Rioja. Do lado italiano, tintos da Toscana e alguns Valpolicellas pelo método Ripasso são opções interessantes. Do lado francês, tintos do sul do Rhône, Provence e Languedoc, enfrentam bem o prato.

Nos cortes defumados como Kassler e os embutidos, vinhos alemães com a uva Riesling são a pedida certa. Conforme o corpo e estrutura do prato, os alsacianos são muito bons também.

Arroz de Pato

Item muito procurado neste blog,  o arroz de pato têm sabores marcantes. Vinhos de personalidade, com taninos domados, e de certa idade, vão melhor na harmonização. Tintos do Douro, Ribera del Duero e Brunellos, todos com certa evolução, podem casar muito bem com a iguaria.

Suculência e sabores intensos

Os tintos ibéricos são sempre as primeiras opções, mas italianos da Toscana ou Piemonte com alguns anos de envelhecimento são boas alternativas. Do lado francês, pessoalmente acho que Bordeaux e Borgonha são muito sofisticados para o prato. Os tintos do Rhône Norte como Crozes-Hermitage, Cornas e alguns Saint-Joseph, são boas escolhas desde que com alguns anos de garrafa.

É importante salientar esta certa evolução dos vinhos com seus aromas terciários. A carne de pato transmite um gosto marcante ao arroz e além disso tem o gosto defumado da linguiça que faz parte da receita. Este tipo de sabor no conjunto final faz um belo casamento com as características citadas acima dos vinhos em questão.

Tanto a carne de porco com suas inúmeras receitas, como o arroz de pato, são ótimas opções para as festas de fim de ano. Boas Festas!

Entre um gole e outro

11 de Agosto de 2015

Mais um almoço entre amigos, belos vinhos, pratos e boa conversa. A vida não precisa muito mais que isso. Um dia ensolarado, aguardando a enogastronomia. Para iniciar, dois brancos acompanhando um prosciutto San Daniele com kiwi (quiuí no bom português) e melão, conforme fotos abaixo.

Clássico dos Alvarinhos

O consistente Palácio da Brejoeira mostrou-se com uma cor citrina, aromas florais, frutas brancas delicadas e boa mineralidade. A harmonização com o presunto foi positiva com a boa acidez do vinho combatendo o sal e a gordura do mesmo. Os sabores delicados de vinho e prato também deram as mãos. Com as frutas juntas, o kiwi saiu-se melhor. O lado cítrico da fruta foi mais favorável ao vinho. Como alternativa aos brancos do Friuli, combinação clássica deste presunto, este português cumpriu muito bem seu papel.

Gaja: a habitual elegância

Esse é um dos brancos de Gaja, gênio do Piemonte, elaborado com Sauvignon Blanc. Sua vinificação engloba um bom trabalho de bâtonnage e leve passagem por barricas, tornando o vinho macio e com boa complexidade aromática. Contudo, é difícil identifica-lo pela casta com os descritores aromáticos mais clássicos. Não importa, é um vinho de personalidade, equilibrado e muito bem acabado. Seu grande trunfo na harmonização foi com o melão e o presunto juntos. A sutil doçura da fruta casou bem com os aromas e a textura do vinho, culminando numa ótima delicadeza em boca. Enfim, uma bela entrada com bom exercício de harmonização.

Arroz de Pato: estrela da mesa

A foto acima mostra nosso prato de resistência, um belo e delicado arroz de pato. Sua surpreendente delicadeza acabou influenciando a harmonização com um embate de dois grandes tintos entre França e Itália. Um Bordeaux de Saint-Estèphe e um Barolo do inimitável Aldo Conterno.

A incrível longevidade dos Bordeaux

Os tintos de Saint-Estèphe possuem alta capacidade de envelhecimento. Sua acidez e estrutura tânica permitem comprovar esta característica. E este exemplar acima é considerado um Cru Bourgeois, hierarquia abaixo dos famosos Grands Crus Classés. Com seus 27 anos, a cor está predominantemente rubi com discretos traços alaranjados de borda. Aroma elegante, denotando ervas finas, frutas escuras, toques terrosos e defumados. Muito bem equilibrado, taninos presentes com boa polimerização e um final firme e longo. Se impôs um pouco sobre o prato, pedindo sabores mais intensos. Nada que comprometesse o conjunto. Este 1988 pode manter-se tranquilamente por mais cinco anos neste platô de evolução. Viva este solo sagrado!

Colonnello: um dos crus da trilogia

Agora, passemos ao tabernáculo do Barolo, Poderi Aldo Conterno. Colonnello é um de seus Crus formando a trilogia com os vinhedos Cicala e Romirasco. Este em questão, trata-se do lado mais feminino, mais elegante, de seu mentor. De fato, esta delicadeza camuflando um força extraordinária, principalmente por sua estrutura tânica, foi o grande trunfo para a harmonização com o prato. Seus taninos delicados e sua bela e refrescante acidez combateram de forma brilhante a gordura e a textura do arroz de pato. Os toques minerais do vinho, defumados e um resinoso elegante, aliaram-se perfeitamente aos sabores do pato permeados no arroz. Mais uma vez, vinhos italianos à mesa são praticamente imbatíveis nas harmonizações. Eles sempre dão um jeito de se amoldarem à comida, valorizando-a e por consequência, virando as estrelas naturalmente.

Produtor e safra excepcionais

O que falar do vinho acima? Safra histórica e uma casa do Porto de alta reputação. É neste patamar de 38 anos de idade que você começa ter a real dimensão do que são os Portos Vintages. A cor sem aquele aspecto retinto, dá lugar a um rubi com certa transparência e limpidez impressionantes. Os aromas tornam-se elegantes, sutis, longe daquela potência dos primeiros vinte anos de vida. Toques florais, de ervas, especiarias. O lado balsâmico, mineral e de todos os empireumáticos (chocolate, café, caramelo, …). Em boca, a fusão do álcool, taninos e acidez é harmoniosamente amalgamada, num final longo, limpo e interminável. Esse vinho é tudo isso e mais um pouco. Foi escoltado por pães-de-mel caseiros com cardamomo, passas e nozes. A Dolce Vita!

Zacapa: a sublimação de um grande rum

Após muitas taças, garfadas, conversas, risadas, vamos à varanda para os cafés e chás. Um suave brisa vai direcionar o espirito dos Puros que virão a seguir. Por sinal, deve ser algo de alto calibre, à altura do destilado na foto acima, o espetacular rum guatemalteco Zacapa. Neste caso, foi escolhido um Partagás E2 bitola 54. Charuto de grande força aromática, fluxo intenso e sabores marcantes.

Voltando á nossa joia acima, este Gran Reserva X.O. é o máximo em refinamento da casa. Vejamos alguns detalhes: o canavial encontra-se a 350 metros de altitude em solo vulcânico. A extração deste néctar leva-se em conta apenas a primeira prensagem chamada “miel virgen”. Há um trabalho lento e minucioso de fermentação com leveduras especialmente cultivadas. Após a destilação, o envelhecimento do produto dá-se a 2300 metros de altitude num sistema de soleras de alta complexidade. A idade média dos runs neste blend varia de 6 a 25 anos, amadurecidos em tonéis antigos de Cognac. Com todo respeito aos grandes Cognacs, Armagnacs e Malt Whisky, este rum ombreia-se neste grupo. A cor está descrita na foto. Os aromas são intensos e altamente complexos, mesclando mel, pâtisserie, baunilha, caramelo, chocolate, entre outros. Em boca, uma bela untuosidade, com a acidez equilibrando bem os açúcares e álcoois. Sua presença no palato, sua potência e persistência foram decisivas para uma harmonização espetacular com nosso Partagas.

Agradecimentos aos amigos e companheiros de copo, já aguardando nosso próximo encontro. Como fiel gladiador lhe saúdo amigo: Ave César!

Parte II: Entre goles e amigos!

24 de Junho de 2015

A vida é dura, mas temos que continuar o sacrifício. Após a apresentação  e a recepção com o belo La Grande Dame Rosé do artigo anterior, vamos ao início do almoço.

Menu amplo e bem executado

O foie gras em  linhas retas.

A cebola assada com creme de mexilhões e o foie gras com brioche, chutney de cebolas e avelãs, escoltaram bem o primeiro e único branco do almoço, o Imperial em todos os sentidos (garrafa de seis litros), Corton-Charlemagne Grand Cru 2006 da Maison Champy (Hospices de Beaune), conforme foto abaixo.

Montagne de Corton: terroir diferenciado

O que são nove anos para um Corton-Charlemagne? quase nada. Cor pouco evoluída, aromas com predomínio de cítricos e minerais. Muito frescor em boca, denso na medida certa e muito bem acabado, fruto de um belo equilíbrio. Persistente, marcante, vislumbrando bons anos de guarda. Muito bem conservado e adegado.

Fazendo o par borgonhês, entramos no mundo DRC, um Grands-Échézeaux Grand Cru 1988. Apesar da idade, quanto caminho ainda a percorrer. É bem verdade que o nariz apesar da seriedade, estava extremamente prazeroso. Sous-bois, as rosas, as especiarias, estavam todos lá. Em boca, seus taninos poderosos perpetuam sua vida sem pressa. Meu grande amigo Marcos diz de maneira sucinta: “DRC Grands-Échézeaux é um vinho duro”. De fato, comparado a seu irmão, o Grand Cru Échézeaux, sobressai claramente sua incrível masculinidade. Enfim, um grande Vosne-Romanée que exige pelo menos duas horas de decantação, além de densos sedimentos.

Acima de Clos de Vougeot reina o Grand Cru da foto no alto da colina

Logo em seguida, o primeiro infanticídio, Château Petrus 1998. Grande safra, 98 pontos de Parker, mas e daí; ele não quer conversar. Ele é quase o João Gilberto dos vinhos, de difícil abordagem, mas quando quer cantar, todo mundo silencia para ouvi-lo. Cor absolutamente jovem, aromas fechados, tímidos, algo de mineral, frutas escuras contidas, e muitos segredos guardados. Em boca, apesar dos poderosos taninos, um equilíbrio fantástico, digno dos grandes tintos. Haja paciência, mas um dia ainda pego ele de jeito.

O Rei Petrus canta quando quer

Quer mais um pequeno infanticídio? Château Mouton-Rothschild 1988. Safra fechada, de taninos poderosos. Um pouco mais abordável que nosso João Gilberto. Cor ainda densa, aromas um tanto reticentes, mas deixa transparecer os belos toques animais, chocolate e o característico café torrado. Boca poderosa, com taninos de rara textura. Marcante, profundo e amplo em seu final extremamente equilibrado. Marcas registradas de um Premier Grand Cru Classe. Mais uns dez anos de promissora evolução.

Um dos poderosos Pauillacs

O arroz de pato abaixo moldou-se bem frente ao vinho. Enquanto isso, seu irmãozinho mais velho estava chegando, o fabuloso Mouton 1982. Um dos cem pontos desta safra histórica e que mostra atualmente porque os tintos de Bordeaux fazem jus ao prestigio e sua incrível longevidade.

Arroz de Pato

Eu sou altamente suspeito para falar de Mouton 82. Degustados várias vezes e sempre com extrema consistência. Conversa fácil com as pessoas. Seus aromas são sedutores, mesclando tabaco, café, as frutas escuras e concentradas (cassis) e um toque de fazenda nas boas estrebarias. Em boca, se agiganta com um equilíbrio maravilhoso, onde o álcool se funde a seus poderosos e aveludados taninos. Seu final reverbera todas essas sensações nos deixando silenciosos. É o respeito aos grandes vinhos. Perdão, acho que me empolguei demais …

Deslumbrante Double Magnum

Para acompanhar o Mouton e o último tinto do almoço (Vieux-Chateau-Certan), um leitão de leite na foto abaixo e uma costela de boi cozida a baixa temperatura. A gordura dos pratos moldou-se bem com os taninos e acidez dos tintos.

Leitão de Leite e  um delicado Vinagrete de Vagem

A apoteose estava reservada para um belo margem direita, Vieux-Chateau-Certan 1986, uma das melhores safras do chateau nesta década. Apesar de ser um Pomerol, reino absoluto da Merlot, este tinto tem um Q de margem esquerda, pois em sua composição, embora haja uma predominância da casta emblemática, há também boas porcentagens de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, o que não é habitual neste terroir. De todo modo, o vinho estava magnifico, no ponto certo de ser apreciado. Aromas amplos com toques de ameixa, trufa e um mineral maravilhoso (terroso). Seus taninos sedosos chancelam os tintos de Pomerol com um final de alta costura.

O tinto que encarou o todo-poderoso Mouton 82

Para encerrar o almoço e acompanhando a sobremesa, que tal um Yquem 1976! Uma das grandes safras antigas deste mito juntamente com o Yquem 1975. Cor âmbar brilhante, combinando com os aromas de damascos, entre outras frutas secas, mel, caramelo, e os toques de Botrytis como esmalte de unha e curry. Em  boca, glicerinado, untuoso e perfeitamente equilibrado entre açúcar e acidez. Bom momento de evolução, mas promete mais para quem tiver paciência. Neste instante, fiquei com saudades do foie gras …

O rei dos Sauternes numa grande safra

Este já seria um grande final se não fosse o pelotão de raros fortificados à nossa espera. Uns velhinhos de tirar o fôlego. Safras de 1863, 1880, 1860, entre outros. Mas isso é assunto para o próximo artigo. Preciso respirar um pouco.

Arroz de Pato: Que Marravilha!

11 de Agosto de 2014

Arroz de Pato: Que Marravilha!.