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Harmonização: Doces Portugueses

8 de Agosto de 2016

A doçaria portuguesa além de famosa e diversificada, satisfaz os mais vorazes paladares. De sabores ricos, intensos e porque não dizer, inesquecíveis. Numa prova de quatro doces tradicionais e quatro vinhos fortificados não menos clássicos, o embate entre ambos não foi nada fácil. É sobretudo, uma imposição de sabores. Por isso, não tente combinar doces portugueses com vinhos delicados. Sabiamente, os portugueses inventaram a fortificação e a diversificaram para estas situações.

pão com damascos e sementes de abóbora

pão com damascos e sementes de abóbora

Antes propriamente dos doces, o pão com damascos e sementes de abóbora (foto acima) também entrou na brincadeira. O vinho que melhor escoltou a iguaria foi um Madeira 10 anos doce com a casta Tinta Negra Mole. As castas nobres para o Madeira são: Sercial, Verdelho, Boal, e Malvasia, em ordem crescente de doçura. Voltando à harmonização, os sabores do Madeira sintonizaram bem com os sabores do pão, além da similaridade de texturas de ambos. O grau de doçura do vinho também foi compatível com o prato.

moscatel de setubal 2004

versatilidade na harmonização

O Moscatel acima além de ser um belo vinho em si, foi o que mais agradou de maneira geral no confronto com os doces. De fato, sua intensidade de sabor e grau de doçura são componentes importantes nesta harmonização. É bem verdade, que em alguns casos, passou um pouco por cima do prato, mas sem distorções de sabores e conflitos importantes. Ficou bem com o cestinho de amêndoas e quase não foi páreo para o terrível Ovos Moles de Aveiro. A doçura e intensidade do vinho ficaram no limite da distorção de sabores. Neste caso, ao invés de tentarmos confrontar o doce com sabores ainda mais intensos no vinho como por exemplo, um Pedro Ximenez, é melhor aprecia-lo sozinho e depois finalizarmos com uma bela aguardente portuguesa, limpando o paladar.

Sobre o Moscatel de Setúbal, a casa José Maria da Fonseca é praticamente uma unanimidade nesta denominação. Este exemplar de coleção privada, é um Moscatel de safra (2004) envelhecido em madeira por dez anos. Como curiosidade, a aguardente vínica para sua fortificação é um Armagnac em sua forma bruta, importante destilado francês. Além de sua intensidade de aroma e sabores, sua textura é untuosa devido sobretudo ao elevado açúcar residual (182 g/l neste exemplar). Contudo, seu equilíbrio é fantástico e sua persistência aromática, expansiva. Os aromas de mel, flores, toques cítricos e um exótico perfume de salvia, são de grande harmonia e complexidade.

graham´s 10 anos

Porto 10 anos: um estilo difícil para os pratos

Embora o produtor Graham´s esteja acima de qualquer suspeita quanto a qualidade de seus ótimos Portos, este estilo 10 anos não ornou muito bem com os doces conventuais à base de ovos. Com o pastel de Belém a harmonização não comprometeu, mas faltou sintonia de sabores. O que melhor combinou foi o travesseiro de sintra com sua textura delicada e a pequena proporção de recheio, equilibrando o nível de açúcar. Os aromas de frutas passas como ameixa, figos e tâmaras, de grande destaque no vinho, não tiveram muita sintonia com os doces. Além disso, sua textura mais delgada, prejudicou muito nas harmonizações. Os outros Portos com declaração de idade como 20, 30 e 40 anos, com certeza saem-se melhor, pois além da doçura mais acentuada, os aromas de caramelo,  frutas secas como nozes e amêndoas,  ficam mais evidentes.

mouchão licoroso

Mouchão Licoroso: um estranho no ninho

Este foi o vinho que mais destoou do painel. Embora seja um  belo fortificado da região do Alentejo, região esta sem tradição neste tipo de vinho, seus sabores estavam completamente dissonantes com os pratos. O vinho em si é muito bem feito, até porque é proveniente da Herdade do Mouchão, uma propriedade de alta reputação. A uva é a Alicante Bouschet, tinta de muita estrutura e concentração. O vinho passa cerca de quatro anos em tonéis de madeira inerte, fazendo um estilo LBV, se comparado aos vinhos do Porto.

doces portugueses

quarteto português: intensidade e doçura

No sentido anti-horário, partimos do cestinho de amêndoas em maior destaque na foto acima, passando pelo pastel de Belém, depois o travesseiro de sintra, e por fim, os ovos moles de Aveiro em forma de coração.

Começando pelo pastel de Belém, o único vinho que respeitou o doce foi o Porto 10 anos, embora não havendo sintonia de sabores e portanto, sem emoções. Já os demais vinhos, passaram por cima do prato. Como ressalva, o Moscatel de Setúbal com seu perfil aromático, foi o que mais se acomodou aos sabores do doce.

Para o cestinho de amêndoas, duas harmonizações foram muito bem. Tanto o Moscatel de Setúbal, como o Madeira, tiveram grau de doçura compatível com o doce, além de sintonia de sabores, sobretudo o Madeira. O Moscatel na verdade, acabou sendo um pouco invasivo, mas bastante prazeroso. Tanto o Mouchão, como o Porto, os sabores ficaram distorcidos na harmonização.

Com o travesseiro de Sintra, o Porto 10 anos foi o que se amoldou melhor, conforme comentário acima. Os demais vinhos passaram por cima do prato, sendo o Madeira um pouco menos invasivo.

Finalizando, os ovos moles de Aveiro passou como um trator por cima dos vinhos. O único que resistiu em seu limite foi o Moscatel de Setúbal, salvo pelo gongo. De fato, a doçura absurda do doce com a não menos viscosa textura, destruiram qualquer tentativa de harmonização. Qualquer alternativa de contraste é inútil. Por outro lado, a ideia óbvia de igualar açúcar e intensidade na escolha do vinho, satura em demasia o paladar.

Enfim, mais uma experiência enogastronômica sempre válida, mesmo que as harmonizações não saiam a contento. O mais importante é detectar os pontos conflitantes e procurar corrigi-los na medida do possível.

Peninsula Ibérica em Alto Nível

6 de Junho de 2016

O que acontece quando se defrontam lado a lado o grande alentejano Mouchão 2001 e o mítico Vega-Sicilia Único 1995?. Resposta: prazer redobrado. Eles foram escolhidos para escoltar um belo pernil de cordeiro assado preparado por um querido casal de amigos.

mouchao 2001Mouchão 2001

Herdade do Mouchão é uma propriedade alentejana da família Reynolds do inicio do século passado responsável pela produção de cortiça e azeite. Não tardou muito para começar o plantio de vinhas. Localiza-se em Portalegre, sub-região serrana a norte de Évora. Este terroir é diferenciado das demais sub-regiões do Alentejo, proporcionando mais frescor e a chamada amplitude térmica no período de maturação das uvas. Portanto, os vinhos desta área, especialmente o Mouchão, apresenta um frescor incomum, fugindo da habitual alcoolicidade dos demais tintos alentejanos. Para completar, adotou a casta francesa Alicante Bouschet num terroir único, onde o perfeito amadurecimento desta uva difícil faz a diferença no vinho, além de ser responsável por sua incrível longevidade, outro fator não habitual no Alentejo.

A incrível adaptação da Alicante Bouschet nesta propriedade deve-se a um solo particular de aluvião e argila. Com vinhas de idade avançada, sua concentração e profundidade de sabor são notáveis. Além disso, esta casta tintureira tinge as paredes da taça e apresenta uma estrutura de taninos portentosa. Nas demais terras da herdade cultiva-se entre outras castas, a famosa Trincadeira, a qual completa o corte final. Os métodos de cultivo e vinificação são os mais antigos e clássicos, inclusive com pisa a pé.

O esmagamento das uvas e vinificação dá-se com engaço em lagares de pedra, bem ao estilo vinho do Porto tradicional. Logo após, o vinho é trasfegado para toneis e pipas de varias capacidades. Não se usa madeira nova. Após 24 meses em madeira de carvalho português, macacaúba e mogno, além de 24 a 36 meses de engarrafamento, o vinho é liberado para comercialização. Deve ser provado depois de longos anos em adega (mínimo 10 anos, para os mais apressados). O blend geralmente fica com 70% (Alicante Bouschet) e 30% (Trincadeira).

vega sicilia 1995

Vega-Sicilia Único 1995

Ribera del Duero nunca teria o prestigio que tem sem a presença da mítica bodega Vega-Sicilia. Desde o século dezenove a propriedade passou por várias famílias, mas sempre mantendo o alto  nível de seus vinhos. Além das vinhas muito bem cuidadas, há o plantio de sobreiro (uma espécie de carvalho) que ajuda no fornecimento das rolhas de cortiça. O grande trunfo deste tinto, além da qualidade das uvas, é o trabalho na bodega tanto na vinificação, como no amadurecimento do vinho até estar pronto para a comercialização. Entre madeira e garrafa vão praticamente dez anos de trabalho para cada safra.

Em cada lote de vinho separado por parcelas, é avaliado seu potencial e sua estrutura para a devida educação. Com isso, vários tipos de carvalho (americano e francês) de várias dimensões, podendo chegar a vinte mil litros, estão à disposição para a seleção dos lotes. Num acompanhamento constante, ano após ano, os vinhos são devidamente educados para o blend final. Em seguida, segue a etapa de descanso em garrafas em instalações próprias que dura em média de três a quatro anos, antes da comercialização. O vinho neste ponto pode ser consumido com a devida decantação, mas com enorme potencial de envelhecimento em adega.

Os cortes mais modernos do Vega mesclam Tempranillo, majoritariamente, e Cabernet Sauvignon. Este da safra 1995, vai de 85% Tempranillo e 15% Cabernet Sauvignon. Robert Parker dá 97 pontos com previsão de evolução até 2047.

Astros devidamente apresentados, vamos ao inicio do jantar com alguns pates de queijos e petiscos acompanhado pelo melhor espumante brasileiro (opinião pessoal), Cave Geisse. Este era um Blanc de Noir, fresco, equilibrado e muito agradável. É um 100% Pinot Noir.

cave geisse blanc de noirs

Terroir de Pinto Bandeira

Em seguida com uma bela entrada de endívias assadas com queijo brie, tivemos a companhia do um baita Pouilly-Fuissé. Branco de referência na apelação Pouilly-Fuissé, Domaine Ferret no sul da Borgonha, nesta cuvée “Autour de la Roche”, apresenta notável mineralidade, agradável textura em boca, sugerindo algo doce que contrasta com o típico e agradável amargor das endívias. Muito boa harmonização. Esta maciez e complexidade advêm de um criterioso trabalho com bâtonnage em barricas usadas para não haver interferência aromática da madeira. Vinhos secos como Chablis ou Pouilly-Fumé destacariam muito este amargor, tornando o conjunto desagradável.

A cuvée “Autour de la Roche” trabalha com os melhores vinhedos em torno da Rocha de Vergisson (norte da apelação Pouilly-Fuissé) em solos argilo-calcarios e vinhas entre 10 e 40 anos.

pouilly-fuisse ferret

Ferret: referência da apelação

Em seguida, o prato principal. Um pernil de cordeiro, acompanhado de batatas ao forno e cebolas caramelizadas no próprio caldo do assado. Embora, tivesse ficado bem com os dois tintos expostos acima, o Vega mais no estilo Bordeaux, tem uma afinidade natural com o cordeiro, e seus toques amadeirados e de evolução enriqueceram o conjunto. O Mouchão também ficou agradável, mas seus taninos ainda jovens ficaram meio sem função devido a maciez do assado. O termino dos dois tintos confirmaram o bom desempenho de ambos.

pernil de cordeiro assado

cordeiro assado com batatas

Na sobremesa, um verdadeiro buffet. Quindim, torta de chocolate e bolo de maçã e nozes. Os Portos Quinta da Romaneira 10 anos e Burmester Jockey Club escoltaram devidamente estas perdições. Sobretudo, o bolo de maçã e nozes com leve toque de açúcar, privilegiou os Portos, enaltecendo seus aromas e sabores. Contudo, o quindim e a torta também se entenderam bem. A propósito, não conheço nada melhor no estilo Tawny para a categoria Reserva do que este Burmester Jockey Club. Bem balanceado e de persistência notável. Já o Quinta da Romaneira com indicação de idade é um dos mais consistentes nesta categoria.

quindim, torta e bolo

quindim, torta de chocolate e bolo de maçã

Fora da mesa, a festa continuou com os Portos. Agora, escoltando um dos monumentos de Havana, o majestoso Hoyo de Monterrey Double Corona. Puro para umas duas horas de bom papo. Suavidade e elegância do começo ao fim, mesmo no terço final, onde é naturalmente mais potente. Em ordem crescente, Quinta da Romaneira parao inicio e primeiro terço, Burmester Jockey Club para o meio e terço intermediário, e finalmente um destilado para o gran finale. Neste caso, um Fine Calvados Père Magloire.

hoyo de monterrey double corona

um clássico de Havana

Este Double Corona é um dos meus Top Five clássicos de Havana. Embora de duração longa, os iniciantes não terão dificuldade com esta peça pela suavidade e hospitalidade oferecidas.

burmester jockey club

Tawny de destaque na categoria Reserva

quinta da romaneira 10 anos

Quinta da Romaneira: sempre confiável

Calvados é um destilado clássico francês feito de fermentado de maçãs (Cidra) na região da Normandia. Pode ser obtido por destilação continua ou dupla (em alambique). Existem regras rígidas para seu envelhecimento em madeira com várias categorias a exemplo da apelação Cognac: Fine, Vieux ou Réserve, V.S.O.P. ou Vieille Véserve, e X.O. ou Napoléon.

calvados

Calvados envelhecido em tonéis

Fim de expediente. Agradecimentos a todos os presentes por tudo; companhia, bom papo, nobres bebidas, boa mesa, e excelentes baforadas para espantar os maus agouros. Até a próxima, em breve!

Novidades no sul do Brasil

17 de Novembro de 2014

Confesso a vocês que não sou muito otimista com os vinhos brasileiros, sobretudo quanto à sua relação qualidade/preço. Isso é facilmente comprovado pelos poucos artigos descritos neste blog. Entretanto, quando há boas novidades, é um dever divulga-los. Além de se fazer justiça, é sempre um incentivo aos produtores em busca incessante pela qualidade e esmero em seus vinhos. Numa viagem recente, segue abaixo relato do que melhor tivemos a oportunidade de degustar.

Só para começar, dois Alvarinhos surpreendentes do sul do país. É! É isso mesmo, Alvarinho. Aquela casta do Minho português, das Rias Baixas espanhola. Não só cumpriram o desafio desta temperamental casta, como marcaram personalidade em seus vinhos. O primeiro, foto abaixo, é da vinícola Hermann, do mesmo Adolar, proprietário da destacada importadora Decanter (www.decanter.com.br). Branco elegante, delicado, com toques florais e de frutas brancas.

Bela expressão do varietal

O vinho abaixo, Alvarinho da vinícola Miolo, é elaborado na Campanha, região mais meridional do sul do país, fazendo divisa com terras uruguaias. Apresenta passagem por barrica, um procedimento sempre ousado para vinhos brancos, mas com grande êxito. A madeira só valorizou o vinho, acrescentando elegância e finesse.

Toque elegante de madeira

O vinho abaixo é outra grata surpresa. Um Alicante Bouschet da serra gaúcha elaborado pela competente vinícola Pizzato. Esta é a casta majoritária do grande Mouchão, um alentejano de primeira linha que pessoalmente, é o melhor e mais diferenciado da região. Um tinto de cor extremamente profunda a despeito de seus seis anos de idade (safra 2008). Os aromas concentrados de frutas escuras somam-se a toques de ervas e mentol muito bem casados. A estrutura tânica é notável  e sua persistência aromática bastante expansiva. Trata-se de um vinho de guarda para pelo menos mais oito anos. Vale a pena provar!

Casta exótica surpreendente

O vinho abaixo às cegas passaria facilmente por qualquer ícone chileno ou argentino. Sua cor é impenetrável  e seus aromas esbanjam frutas, especiarias e um refinado toque de madeira francesa. O corpo é impactante com um equilíbrio notável. Seus taninos ainda muito presentes, mas extremamente finos, se amoldarão certamente ao longo dos anos. Um vinho para colocar sem medo às cegas com tintos potentes do Novo Mundo. Este tinto é elaborado na Campanha (divisa com o Uruguai) com seis castas (Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Petit Verdot, Merlot, Tannat e Touriga Nacional(,

Encara qualquer ícone do Mercosul

Por fim, uma vertical completa de um dos melhores tintos gaúchos dos últimos tempos, o famoso Lote 43 da vinícola Miolo. Algumas impressões ficaram bem nítidas na degustação. Primeiramente, a boa concentração dos vinhos, bem equilibrados e bem casados com a madeira. A primeira safra histórica é a de 1999. Um tinto de quinze anos que ainda apresenta-se inteiro e com aromas muito elegantes. Deve ter mais uns cinco anos neste platô de evolução antes de sua fase final.

Linhagem autêntica de um clássico

Falar sobre um vinho brasileiro que se destaca no mercado e é sempre lembrado como um dos melhores do sul do país, pode significar uma questão de marketing, de comodismo ou ainda, de interesses escusos. Não é o caso do vinho acima. O Lote 43 desde sua primeira safra heroica nos idos de 1999, primou por concentração e qualidade em todas as etapas de elaboração. Sou suspeito em falar desta safra pioneira, pois já degustei-o em várias oportunidades e em todas elas, sempre com muita classe, personalidade e consistência. Quem diria que um tinto nacional de quinze anos de guarda estaria em perfeito estado? Naturalmente, com as marcas da idade, aromas terciários, taninos polimerizados, mas ainda proporcionando grande prazer. Evidentemente, as demais safras a despeito de julgamentos técnicos, pesa o gosto pessoal e algumas peculiaridades respectivas de cada amostra. Por isso, os anos de 2002, 2004, 2008 e os recentes, 2011 e 2012, apresentam um belo padrão de tipicidade e consistência. Contudo, devo destacar a singular safra de 2005. Vários exemplares desta safra já me impressionaram favoravelmente, mas o Lote 43 2005 é um “tour de force” neste batalhão. Um tinto potente, de grande estrato, cores profundas, não denotando a idade. Seus aromas são intensos e marcantes, além de uma boca muito bem equilibrada e agradavelmente quente. Um vinho para inverno, belos assados e molhos densos. Seus taninos apesar da abundância, são finos e agradavelmente firmes. Persistência longa e expansiva. Muitos anos pela frente e para os mais apressados, uma decantação obrigatória de pelo menos uma hora. O 99 pode descansar em paz quando chegar a sua hora, pois tem um sucessor à altura.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Tintos de Portugal

29 de Julho de 2013

Nesta quarta-feira (24/07/13) com muito frio, tivemos uma interessante degustação didática na ABS-SP sobre as principais regiões vinícolas de Portugal. Os vinhos, todos tintos, representaram bem as características locais, conforme mapa abaixo:

Mapa atualizado das regiões

Só para esclarecer, a região Lisboa refere-se à antiga Estremadura, Ribatejo agora é simplesmente Tejo, e Península de Setúbal substitui a antiga Terras do Sado. Vamos aos vinhos:

Campolargo é um produtor excêntrico da Bairrada, misturando modernidade com tradição. Neste rótulo de nome bem apropriado, o vinho nasce de videiras antigas plantadas todas misturadas com diferentes cepas (Baga, Castelão, Trincadeira, Sousão, Bastardo, Alfrocheiro e Tinta Pinheira). A vinificação também é conjunta com posterior amadurecimento por doze meses em barricas usadas. A acidez da Bairrada está bem presente, embora seus 15,5° de álcool incomodem um pouco. Outra característica é a agressividade de seus taninos que precisam de longo tempo em garrafa. Enfim, boa tipicidade, crescendo muito à mesa na companhia de carnes estufadas, ou melhor dizendo, carnes ensopadas.

Conceito é uma vinícola recente do Douro Superior mesclando também modernidade com tradição. Neste exemplar com as duas Tourigas (Nacional e Franca), a novidade é o amadurecimento em aço inox por dezoito meses após a vinificação. É bem verdade que as características locais ficam mais evidentes com notas florais, frutas escuras vibrantes e um toque mineral (terroso). Contudo, nada como a barrica de carvalho para domar a boa tanicidade deste tinto. Vinho interessante, muito bem equilibrado, e de longo envelhecimento. O preço é outro atrativo, pouco mais de cinquenta reais.

Este é um moderno exemplar do Dão com a típica uva local Touriga Nacional. Fermentado em aço inox e amadurecido em barricas novas francesas por dezoito meses. Vinho ainda um pouco fechado, bela estrutura tânica, com bons anos de envelhecimento em adega. O frescor dos tintos do Dão geram sempre vinhos muito bem equilibrados. A grande dúvida deste exemplar é até que ponto  esta carga de madeira não compromete o vinho. Aposto com alguma dúvida que haverá uma integração harmônica com o mesmo no seu envelhecimento em garrafa. Os típicos aromas florais da Touriga ainda estão tímidos frente aos aromas amadeirados (baunilha, especiarias e chocolate amargo). Gostaria de revê-lo daqui há dez anos.

Este alentejano é diferenciado por dois motivos: Terroir de Portalegre (Serra de São Mamede) e elaboração do competente Paulo Laureano (intimamente ligado ao espetacular Mouchão). Apesar de ser um dos mais simples do portfólio, este Colheita prima por sua elegância e equilíbrio. As uvas são Trincadeira, Argonês e Alicante Bouschet. O terroir de Portalegre diferencia-se das demais sub-regiões alentejanas por ser um vinhedo de altitude, preservando altos níveis de acidez, fator este, sempre em carência nos macios e quentes vinhos da região. Este exemplar encontra-se num ótimo momento para consumo com aromas terciários de couro, toques balsâmicos e um leve mentol. Beber com prazer.

Talvez o vinho mais polêmico da noite quanto à sua estrutura e poder de evolução. Este é um vinho moderno da região do Tejo com as uvas Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Passa cerca de doze meses em barricas francesas. Pessoalmente, achei um vinho um pouco carente de estrutura e com taninos não muito agradáveis, um pouco ásperos. A Cabernet tem presença tímida no corte. Tenho sérias dúvidas quanto ao seu futuro. É uma aposta arriscada.