Archive for the ‘Destilados’ Category

Bordeaux em quatro atos

27 de Abril de 2019

Neste cenário paradisíaco  aconteceu um belo almoço envolvendo Grand Cru Classés de Bordeaux, tanto da  margem direita, como da margem esquerda, em flights às cegas. A despeito da colocação  e preferência de cada um, não houve vencedores e perdedores. Todos os tintos mostraram seu valor, tipicidade de terroir, e porque são considerados ícones nas mais rigorosas avaliações da crítica especializada.

 

exclusividade para doze convidados

 

abrindo e encerrando o evento

Antes dos flights propriamente dito, a recepção foi regada a Dom Perignon 2006, uma safra generosa em aromas com certo toque de tropicalidade em seu estilo, geralmente mais austero. Champagne de 96 pontos já muito prazeroso no momento, mas com bom potencial de guarda.

Passando a régua, já com as sobremesas e charutos, um bebezinho em magnum foi servido para deleite dos convivas, Taylor´s Port Vintage 2003. Outra safra generosa em aromas, de grande corpo e concentração, mas ainda em tenra idade. Deve evoluir por décadas em garrafa, entrando na galeria dos grandes Vintages da Casa, a qual é uma de suas especialidades.

algumas das delicias do Chef Magaldi

O Chef Magaldi do buffet Fasano abrilhantou o almoço numa sucessão de pratos muitos bem executados. Alguns dos destaques que combinaram muito bem com os vinhos servidos foram o ravióli de zampone com ossobuco, e um corte de Wagyu ultra maturado e marmorizado de uma maciez e sabores impressionantes. Grande Magaldi!

img_6016confronto de margens

Sem mais delongas, vamos ao primeiro flight, num par de Moutons, ladeado por um Pomerol, Chateau L´Evangile. Na preferência dos convivas, L´Evangile ganhou com folga. Pudera, com 95 pontos Parker numa das melhores safras de Pomerol, o vinho esbanja fruta, certa maciez em boca, embora possa envelhecer com propriedade por longos anos. Com 72% Merlot e 28% Cabernet Franc, seu balanço entre graciosidade dada pela Merlot e uma certa estrutura e elegância advinda da Cabernet Franc, garantiram o primeiro lugar. 

Quanto aos Moutons, são muito parecidos em notas, 97 pontos para o 98, e 94 pontos para o de safra 96. A safra 98 para a margem esquerda, proporcionou vinhos um pouco mais duros, de taninos de longa guarda, razão pela qual o 96 mostrou-se mais gracioso, mais abordável no momento. Dois belos Moutons que devem envelhecer com muita dignidade.

img_6017sua Majestade, Chateau Latour

Um trio de Latours deu um ar de imponência à degustação. O Latour 88 já apresenta boa maturidade, embora possa envelhecer com tranquilidade por longos anos. Sua estrutura tânica e seu toque aromático de couro fino são notáveis. Foi o mais pronto do trio. A grande surpresa do flight foi a diferença de garrafas entre os dois 90 acima, provando mais uma vez que em vinhos antigos não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Uma delas estava divina, vinho elegante, taninos de rara textura, e longo em boca. Já o outro exemplar de mesmo ano, parecia um pouco cansado, com aromas evoluídos para esta idade de garrafa. Davam a impressão de dois vinhos de safras diferentes, bastante didático.

img_6018Destaque para o Chateau Margaux

No terceiro flight, aparece um vinho de 100 pontos, Chateau Margaux 1990. Em todas as avaliações de Parker, consistentemente 100 pontos com apogeu previsto para 2040. Uma das grandes safras deste Chateau com taninos de veludo. Boca perfeita, aromas elegantes envolvendo cedar box, especiarias, e um toque de sous-bois. Longa persistência aromática e um final arrebatador.

Os outros dois do páreo não eram do mesmo nível de perfeição. O Haut Brion 86 que alguns acharam um pouco cansado, estava delicioso mesmo assim. Talvez pela safra, potente em taninos, o vinho ainda apresenta um estrutura impressionante com mais de trinta anos. Os aromas de cacau, couro e incenso, ratificam a elegância deste Chateau. Quanto ao Latour 93, o infanticídio do almoço. Muito novo para um Latour num dos melhores vinhos da difícil safra 1993. Um tinto ainda com taninos potentes, aromas um tanto fechados, embora muito elegante. Vinho de longa decantação para ser apreciado no momento.

img_6023Pavie, o único em Magnum do painel

Chateau Pavie 2004 degustado em Magnum, mostrou a sensualidade da margem direita. Fruta deliciosa com toques florais e uma boca firme, embora sedutora, num blend que além da majoritária Merlot, conta com as duas Cabernets, Franc e Sauvignon, proporcionando mais estrutura. Deve envelhecer bem em adega.

Chateau Haut Brion 2000, outro infanticídio com apogeu prevista para 2050. Um vinho praticamente perfeito com 99+ pontos Parker. Gostaria de saber de onde ele tirou um ponto deste vinho. Boca grandiosa, equilíbrio perfeito, e longa persistência final. Os aromas ainda são tímidos, mas com muita tipicidade. Ervas, estrebaria e um toque de tabaco. Um grande vinho, ainda muito longe do que pode oferecer de pleno prazer. 

Por fim, a grande injustiça do almoço, ficando na lanterna deste flight. É bem verdade que 95 não é uma grande safra deste Chateau. Contudo, Cheval Blanc é um dos vinhos mais elegantes entre todos os Bordeaux. Um bouquet fino, ricos em ervas e especiarias. Em boca, taninos delicados, bem integrados, e um equilíbrio dos grandes vinhos. Talvez, pelo nível alcoólico do pessoal nesta altura do campeonato, esses detalhes passaram desapercebidos.

img_6026mais um embate entre margens

Deu tempo ainda para mais uma dupla poderosa com 95 pontos cada um. No caso do Mouton, a safra 95 proporciona vinhos muito macios, elegantes e de taninos suaves. É um vinho muito gostoso de ser tomado com as notas de cassis, café e um leve toque de tabaco que será amplificado com o tempo em garrafa. No caso do Valandraud 2000, a maciez e sensualidade continuam por uma questão de terroir, onde a Merlot confere maciez e elegância, enquanto a Cabernet Franc aporta estrutura e firmeza ao conjunto. 

De todo modo, foram flights diversificados, curiosos em certos aspectos, mostrando a grandeza e pluralidade da mais fina região de tintos do mundo. Agradecimentos a todos os confrades, que proporcionaram momentos de alegria e descontração.

a hora da fumaça!

Já fora da mesa, cafés, fortificados e destilados entraram em ação. Cohibas das mais variadas bitolas, inclusive Behikes estavam à disposição. Grappas Poli, das mais refinadas da Itália estavam presentes nas versões com e sem madeira. Um pouco mais de conversas, piadas e risadas. Essa é a essência da vida.

img_6030para aqueles que ainda tinham sede!

No apagar das luzes, para os que tinham sede e alguns amigos de última hora, foram abertas mais duas garrafas dos rivais, Bordeaux e Bourgogne. Maison Leroy e seu elegante Volnay, um tinto  de Beaune dos mais delicados, convivendo com os vinhos de Meursault. Safra precoce e já bastante abordável. No lado bordalês, um dos destaques da safra 2003. Um vinho cheio de vida, rico em frutas e toques empireumáticos, lembrando café e notas tostadas. Boca ampla, cheia de taninos finos, e final expansivo.

Hora de ir pra casa e sonhar com os anjos. Agradecimentos especiais ao anfitrião pela imensa generosidade e simpatia em nos agradar sem limites. Que Bacco nos proteja e nos proporcione mais encontros memoráveis. Abraços a todos!

Uma Seleção de Bordeaux

13 de Abril de 2019

A proposta foi a seguinte: trazer sua melhor garrafa de Bordeaux dos anos 80 e 90 para uma degustação às cegas. Foram onze garrafas abertas, formando uma verdadeira seleção onde o menos cotado pelos confrades, ainda assim, era craque frente aos inúmeros chateaux que desfilaram nestas duas décadas. Vamos então à escalação: Goleiro (Mouton 99), zaga (Leoville Las Cases 86, Mouton 83, Mouton 89), volantes (Vieux-Chateau-Certan 90, Beychevelle 82), meio de campo (Cheval Blanc 86, Chateau Certan de May 82), atacantes (Haut Brion 86, La Mission Haut Brion 89, Angelus 95). Um esquema com três zagueiros, dois volantes, sendo um de contenção e outro de ligação, um meio de campo criativo, e um ataque com centroavante goleador e pontas que voltam para marcar.

img_5972Mouton acessível, embora possa ser guardado

Como todo bom goleiro, foi degustado isoladamente. Um Mouton acessível, bem de acordo com a característica da safra. Taninos bem moldados, os toques de café e chocolate que caracterizam o chateau, além de um belo equilíbrio em boca. Um goleiro ainda em formação, mas com belo potencial pela frente. Nota 92 (RP).

img_5968uma zaga segura

Leoville Las Cases, zagueiro consagrado, mas vindo de contusão (bouchonée), ainda assim mostrou sua classe. De fato, era para ser o vinho da almoço com uma estrutura e cor extraordinárias, 100 pontos Parker. Infelizmente, uma garrafa comprometida. Em compensação, a dupla de Moutons supriu a deficiência do ilustre zagueiro. O Mouton 83 no nariz tinha lindos toques de cogumelos, mais precisamente funghi porcini seco. Já o Mouton 89 tinha uma boca deliciosa, de acordo com a sensual safra 89. Taninos sedosos e textura glicerinada. Notas 90 e 93 de Parker para os Moutons 83 e 89, respectivamente.

img_5965grandes safras em Bordeaux

Nesta dupla de volantes, Vieux-Chateau-Certan estava mais contido, cobrindo a zaga. Este vinho costuma ser surpreendente nesta safra de 90, mas não era das melhores garrafas. É um margem direita diferente, lembrando a estrutura tânica dos vinhos do Médoc pela presença de certo destaque das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já o Beychevelle 82 é aquele volante que sai para o jogo. A safra 82 é o grande ano deste chateau de Saint-Julien. Especialmente esta garrafa estava muito bem adegada. O vinho tinha uma força extraordinária com frutas escuras presentes, notadamente o cassis. Um vinho de muito vigor e com vida pela frente.

img_5966outras grandes safras em Bordeaux

Neste meio de campo, Chateau Certan dá seus passes corretos, mas o Cheval Blanc bate um bolão. É o camisa 10 do time com imensa criatividade. Mesmo numa safra dura como 86, o vinho é de uma elegância ímpar. Em boca, esbanja equilíbrio e suavidade. Persistência aromática longa e expansiva. Voltando ao Chateau Certan, é um vinho que tem o charme de Pomerol numa bela safra. Tem uma boa estrutura tânica, embora seus taninos sejam um tanto rústicos para esta categoria de vinho. Notas: Cheval Blanc 86 (RP 93) e Chateau Certan 82 (RP 93).

img_5970ataque incisivo

Neste ataque de peso, os atacantes Haut-Brion e La Mission não estavam num grande dia. Opinião de muitos confrades com a qual não concordo. Haut Brion 86 tinha notas marcantes de chocolate amargo, cacau, e um toque terroso. Já o La Mission, 100 pontos Parker, é um vinho suntuoso, de grande poder aromático, boca ampla, e longa persistência aromática. De certo que as garrafas poderiam não ser as melhores, mas estavam longe de serem defeituosas. Enfim, são duas grandes safras de chateaux fora de série. Em compensação, em dias de atacantes pouco inspirados, eis que surge o goleador de quem menos se esperava, Angelus 95. Um vinho ainda novo, mas com uma bela estrutura. Taninos potentes e finos, bom corpo, e muito bem equilibrado. Tem muito poder de fruta, toques tostados e minerais de grande classe. Goleou de lavada seus dois companheiros de flight, supostamente superiores. Notas: Haut Brion (RP 93) e (RP 94). 

Para acompanhar esta seleção, o conceituado restaurante Picchi preparou um menu com pratos criativos e bem apropriados aos vinhos envelhecidos de Bordeaux.

sabores surpreendentes

Os pratos acima, lâminas de funghi porcini fresco grelhadas com pinoli, parecendo lâminas de berinjelas, estavam ótimas. Já a polenta cremosa com escargots no molho rôti, tinha muitas ligações de sabores com os tintos envelhecidos. Belos pratos!

Na foto abaixo, a massa Picchi, tradicional da Casa com molho de linguiça, e um dos melhores tiramisus na qual a foto, dispensa comentários.

tradicionais da Casa

final surpreendente

Finalizando o evento, uma bela Grappa di Sassicaia envelhecida em toneis de carvalho francês, acompanhando alguns mimos do restaurante no serviço de café. Uma Grappa sedosa, grande classe, e longa persistência.

Agradecimentos finais a todos os confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade de todos. Que Bacco nos proteja e nos guie sempre nos melhores caminhos dos grandes vinhos! Abraços a todos!

 

 

Sommellerie: O Podium 2019 é da Juventude

20 de Março de 2019

Neste último mundial realizado na Bélgica pela ASI (Association de la Sommellerie Internacionale), os dezenove finalistas são extremamente jovens com raras exceções. Para a grande final, foram escolhidos os três melhores com  dois deles, abaixo de trinta anos. O sommelier campeão de 2019, o alemão Marc Almert de 27 anos, repetiu o feito de Enrico Bernardo. Um jovem sommelier que pela primeira vez participando de um mundial, levou a taça sem contestações. Isso vem provar que só a experiência não basta, é preciso conhecimento e atualização neste mundo extremamente dinâmico.

ASI sommelier 2019site: http://www.starwinelist.com

Os outros dois concorrentes, a dinamarquesa Nina Hojgaard Jensen e o letão Raimonds Tomsons, competiram de igual para igual. Muitos acharam que Nina pudesse ser perfeitamente a campeã mundial, a primeira mulher  nesta competição. Marc Almert, ao centro da foto.

Para não alongarmos a história, vamos detalhar os passos do campeão. A grande final começa com o serviço de um suposto Sauternes para um casal de amigos e uma cerveja belga para um  outro amigo em comum. O jovem campeão tira a cerveja com extrema técnica, preservando a mousse na hora do serviço em copo adequado, fato esperado para um autêntico alemão. O serviço do Sauternes tem um inconveniente, no qual o único vinho doce encontrado no balde de gelo é o famoso Late Harvest Vin de Constantia, África do Sul, normalmente vedado com cera. A regra manda que o vinho seja aberto sem a retirada da cera, o que facilita o serviço. A mulher do casal, prefere o serviço com um pouco de gelo, onde o sommelier executa sem contestação.

ASI semifinalistas 2019os dezenove semifinalistas

Na foto acima, David Biraud, o segundo da segunda linha, sommelier francês de larga experiência, ficou fora da grande final. Outro destaque, foram dois japoneses entre os semifinalistas. Martin Bruno da Argentina, foi o único representante sul-americano nas semifinais. 

Continuando a saga, o sommelier Marc Almert é chamado para uma degustação às cegas de um vinho tinto. O vinho é um australiano Henschke, um dos mais afamados do país dos cangurus com parreiras pré-filoxera. Este exemplar trata-se do Mount Edelstone, um 100% Shiraz de parreiras com mais de 85 anos de vida. O vinho é confundido com um grande Bordeaux de  margem direita, citando o Chateau Canon-Gaffelière safra 1997, provando mais uma vez que degustação às cegas não é fácil.

Continuando o trajeto, Marc é solicitado para decantar um Vega-Sicilia Reserva Especial para oito pessoas. Ele explica que normalmente os Reservas Especiais são fruto de uma mistura de três safras altamente cotadas. O serviço é feito com cesto à luz de vela, como manda o ritual no tempo solicitado. O Vega-Sicilia decantado é um lançamento de 2016 onde foram mescladas as safras 96, 98 e 2002. O primeiro lançamento na história do Reserva Especial deu-se no ano de 1965, uma das perguntas de um dos componentes na mesa.

rheingau pinot noir beerenauslese

um raro Pinot Noir doce

Na sequência, uma bateria com quatro vinhos às cegas. Um Mouchão, tinto alentejano, um Malvasia da Croácia, um Chateau Chalon (Jura), e um raro Pinot Noir alemão doce do produtor Assmannshauser, vinhedo Holleberg, Spatburgunder categoria Beerensauslese do Rheingau, safra 1989. O da foto acima não é da degustação por ser safra 1977. Mesmo o melhor do mundo, não acertou nenhum, provando mais uma vez que degustação às cegas é um ato de humildade. Na sua avaliação, o Mouchão passou por um belo Rioja Reserva, Chaton Chalon passou por Jerez, fato unanime entre os três finalistas, Malvasia passou por um Riesling austríaco do Wachau, e finalmente, o Pinot Noir doce passou por um Madeira Boal, mesma opinião de Nina Jensen. Já Raimonds Tomsons optou por um Tokaji 6 Puttonyos.

Continuando a trilha, é proposta uma harmonização com um menu de quatro pratos, a seguir:

  • Carpaccio of lighty seared Norwegian scallops with mango, avocado e coriander
  • Médallion of monkfish in a mushroom and chicken broth with périgord truffle and pata negra crisp
  • Beef cheeks braised in red wine with a celeriac and truffle purée
  • Belgian chocolate and walnult soufflé with roquefort sorbet

Marc Almert propõe os seguintes vinhos:

  • um branco alemão da casta Sylvaner bem fresco com a entrada
  • um Chateau Haut-Brion branco 2008 com o Tamboril
  • um Chardonnay americano de Carneros pela imposição de um dos componentes da mesa em tomar vinho branco com beef cheeks
  • um Porto Quinta de la Rosa LBV para a sobremesa de chocolate

As indicações foram boas, não fugindo muito dos clássicos. O Sylvaner alemão é bastante revigorante para a entrada de vieiras, proporcionando sabores delicados do prato, frente a discreta aromaticidade do vinho. O Haut-Brion branco tem estrutura para o Tamboril, peixe de carne firme e rico em sabores. Os cogumelos e as trufas casam bem com um certo envelhecimento do vinho, sendo a safra sugerida 2008. O Chardonnay americano de Carneros com passagem por barrica, tem estrutura para o prato de bochechas com pure de trufas. A escolha de um vinho branco foi imposição de um dos convivas da mesa. Por fim, uma escolha segura pelo Porto LBV, combinando tanto com o chocolate, como com o sorvete de queijo gorgonzola (similaridade com o Stilton inglês). 

Seguindo as tarefas, é proposto dois quadros com oito uvas, as quais têm correspondência com 24 vinhos de grande fama mundial. Portanto, um quadro com varietais brancas (Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling, Aligotè), e outro com varietais tintas (Sangiovese, Merlot, Pinot Noir, Syrah). Alguns dos 24 vinhos famosos foram: Soldera Pegasus (Sangiovese), Chacra 55 (Pinot Noir), Isole e Olena Cepparello (Sangiovese), Chave Cuvée Cathelin (Syrah), A&P de Villaine Bouzeron (Aligoté), entre outros. 

Por fim, a sétima tarefa na tensa competição foi degustar às cegas dez tipos de bebidas das mais variadas origens, tipos e estilos. Achei um pouco exagerado o número de bebidas. Poderia ser perfeitamente seis bebidas, no máximo. Enfim, o campeão não se deu muito bem nesta última prova, confessando ao final que foi o teste mais complicado para ele. Das dez bebidas, ele respondeu apenas sete, acertando apenas duas. Chegou a confundir nossa cachaça com vodka polonesa. Neste teste em particular, o letão Raimonds Tomsons saiu-se melhor.

marc almert bellavista rose magnumASI – Association de la Sommellerie Internacionale

Antes da divulgação das colocações, os três finalistas serviram um Magnum de espumante Bellavista Franciacorta Rosé em dezesseis taças (foto acima), tomando o cuidado de servir a mesma quantidade por taça, sem sobrar espumante na garrafa. O campeão fez o serviço com eficiência e em menos tempo.

Passar por todos esses percalços numa prova de sete etapas diante de uma plateia lotada, vários campeões mundiais à mesa, num cenário de restaurante, e com tempo contado sem muita margem de folga, exige nervos de aço dos sommeliers. Neste sentido, o alemão levou vantagem, mantendo a frieza alemã na medida do possível. Além disso, por ser sua primeira vez num mundial, o mérito fica ainda maior. Agora com este título e uma carreira inteira pela frente, o caminho fica mais fácil para o estrelato. Parabéns Marc Almert!

 

Comidinhas e Charuto

28 de Janeiro de 2019

Comer e fumar ao mesmo tempo definitivamente não é uma prática saudável. Mesmo os fumantes inveterados, dão uma pausa quando se trata das refeições. Contudo, há situações no dia a dia que devem ser encaradas, além de procurarmos soluções através delas.

Adepto ao charuto gourmet, pessoalmente, é muito bom complementar uma bela refeição com vinhos, acendendo um Puro no final como digestivo e combustível para boas conversas. Entretanto, existem pessoas que gostam de fazer um happy-hour com charutos justamente quando estão de estômago vazio e bate aquela fome nesta hora. Elas não estão a fim de refeições fartas e sim comer alguma coisa jogando conversa fora.

De todo modo, é difícil colocar um alimento na boca e em seguida ingerir fumaça. Definitivamente, o estado sólido com o gasoso não conversam diretamente. É preciso um elemento liquido para tentar fazer esta união. Daí, surgem os vários tipos de bebidas. Procurando concilia-las com os alimentos, pode surgir uma nova combinação interessante e um elo de harmonia entre os três estados da matéria.

Sabemos que os melhores parceiros para os charutos são bebidas de grande força e personalidade como os destilados, por exemplo. Evidentemente, há alternativas com vinhos, cervejas, e toda a sorte de coquetéis, mas a presença de um destilado é soberana. Seguindo esta linha, vamos a exemplos práticos.

Nesta linha de happy-hour e descontração, nada como finger foods para facilitar o serviço e deixa-lo mais casual. Que tal um canapé de salmão defumado!

salmao defumado e whisky

Excelente pretexto para um Single Malt de Islay, um dos terroirs escoceses mais distintos desta nobre bebida. O alto teor de turfa deste tipo de whisky com toques medicinais complementa perfeitamente os distintos sabores do salmão defumado. Com isso, o whisky ingerido após um bocado, prepara o palato para os sabores do charuto que neste caso, podem até ser grande fortaleza. Sugestão: Lagavulin Islay Single Malt 16 years.

jamon-sherry

bela foto do site acima

Jamón Ibérico, Pata Negra, e Jerez. Fatias finas de um dos melhores presuntos do planeta, acompanhado por Jerez Amontillado. Sendo um vinho fortificado, constitui outra ponte interessante para charutos. Embora bastante seco, seus sabores e aromas conversam bem com toques esfumaçados.

patês e terrines com armagnac

A foto acima remete a patês e terrines tendo torradas como berço. Partindo do princípio que várias receitas de patês, sobretudo de caça, levam aguardente como cognac ou armagnac, fica fácil imaginar esta perfeita combinação. Dependendo da carne utilizada no patê e seus acentuados temperos, a força de uma aguardente casa muito bem com esses sabores. Daí a combinação com charutos fica uma covardia. Quase nada se compara à perfeita harmonia de Puros com Cognacs ou Armagnacs. Embora de regiões e métodos de elaboração diferentes, suas sutis diferenças só são realmente detectadas por especialistas, partindo evidentemente de bebidas de mesma categoria de envelhecimento. O cognac parece ter mais finesse, enquanto seu concorrente da Gasconha tem mais punch, mais pegada. Enfim, os dois são maravilhosos.

bolinho de carne-seca com abóbora

Para pratos mais brasileiros, o bolinho acima, além do caldinho de feijão, acarajés, queijo coalho, entre outros, todos vão bem com uma autêntica caipirinha, aquela com cachaça boa. Sobretudo nos dias quentes de verão, é uma bebida refrescante. De certo parentesco com mojito, bebida caribenha, é outra combinação ideal com Puros, sobretudo os mais leves e elegantes como Hoyo de Monterrey.

bruschetta de funghi porcini

Voltando aos vinhos, nada como um bom Madeira com funghi porcini. Os Jerezes Olorosos também dão certo, mas são muito secos. Prefira versões menos doces dos Madeiras como Sercial ou Verdelho. São nomes de uvas mencionadas nos rótulos e têm a ver com a doçura da bebida. Sercial mais seco, e Verdelho menos seco. Além da combinação ser perfeita, os aromas de torrefação, frutas secas e notas balsâmicas do Madeira, vão de encontro às essenciais notas dos charutos que impregnam o palato.

rum e chocolate

Fechando o assunto, um final com chocolate é sempre reconfortante. Seja ele puro com alto teor de cacau, tortas, pavês, ou um ótimo tiramisu como da foto acima. Nesta hora, um bom expresso também da conta do recado. No entanto, uma bebida aromática, potente, e com um toque adocicado como os grandes rums da América Central e Caribe, são parceiros ideais para este casamento. Como Sugestão, o conceituado rum guatemalteco Zacapa, tanto na versão reserva, como na versão X.O. (Extra-Old).

Enfim, com uma boa turma de amigos, várias opções de bebidas, e uma seleção bem pensada de canapés, as baforadas estão garantidas. Aquele charuto que parecia isolado da enogastronomia, de repente pode agregar novas e surpreendentes experiências.

Em tempo, vou falar sobre harmonizações num curso de charutos na Casa Murdock em Moema, fevereiro próximo. Maiores informações: http://www.casamurdock.com