Archive for the ‘Sommellerie’ Category

Vinho no restaurante: Posso servir?

20 de Janeiro de 2014

Posso servir? Esta é a pergunta que o sommelier faz ao anfitrião da mesa para prosseguir o serviço do vinho. Pergunta embaraçosa, dependendo do conhecimento do responsável pela mesa. Portanto, vamos esclarecer o assunto.

Quando o anfitrião tem muito pouco conhecimento técnico sobre vinhos, a resposta é geralmente hedonista, ou seja, o sujeito gostou ou não gostou do vinho. Embora, seja uma sensação importante gostar da bebida que será servida, tecnicamente não serve como justificativa para troca do vinho quando a resposta é negativa. É como você pedir uma dobradinha (bucho), detestando este tipo de prato. Em outras palavras, você pode estar diante da melhor dobradinha tecnicamente elaborada e ainda assim será detestável a seu paladar. Portanto, é importante analisar bem os vinhos da carta, procurando a ajuda do sommelier se for o caso, sempre focando no seu gosto pessoal, ou seja, que sensações me agradam quando gosto de determinados estilos de vinho. É evidente que o lado enogastronômico ou de harmonização devem influenciar na sua escolha, contudo não faz parte propriamente da recusa do vinho.

Tecnicamente, devemos recusar um vinho quando o mesmo apresenta-se bouchonné ou quando está oxidado. Bouchonné vem da palavra bouchon que em francês quer dizer rolha. Em outras palavras, o vinho está com gosto de rolha. Para quem nunca experimentou esta sensação, fica um tanto subjetivo explicar em palavras. De qualquer modo, o vinho perde a sensação de fruta, de frescor, e adquiri um aroma de pano molhado, papelão úmido, gaveta ou armário embolorado. Para complicar a questão, há vários níveis de bouchonné. Alguns facilmente perceptíveis, e outros, nem tanto.

O vinho oxidado, geralmente está ligado a um vinho com certa idade em relação à sua safra. Normalmente, passou do ponto de ser consumido e está numa fase decadente. Geralmente, lembra um aroma avermutado (vermute), a sensação de fruta é bem discreta, quase nula, e a boca apresenta uma secura desagradável. Também há vários níveis de oxidação e aqueles mais sutis geram muita polêmica. Outra fator importante, é não confundir um vinho evoluído com um vinho oxidado. O vinho evoluído está numa fase final, mas pode apresentar aromas raros e muito agradáveis ditos aromas terciários tais como: estrebaria, couro, sous-bois (aroma de terra úmida com vegetais em decomposição), cogumelos, entre outros. São aromas de gosto muito pessoal, tendo seus defensores e inimigos fervorosos. 

Paolo Basso: Referência em Sommellerie

Para encerrar a questão, se você não tiver preparado para esta decisão, certifique-se de estar diante de um bom sommelier. De fato, o bom profissional tem a obrigação de provar o vinho, dizimar estas dúvidas e providenciar a troca do mesmo quando for necessário. Com isso, a pergunta posso servir? será um simples protocolo com a sua permissão para a continuidade do serviço.

Sommellerie: Two-Prong Cork Puller

1 de Julho de 2013

Já falamos algumas vezes sobre acessórios no serviço do vinho, mencionando inclusive o misterioso abridor de lâminas paralelas, também chamado amigo do mordomo. Este acessório é usado em casos especiais onde temos pela frente garrafas antigas e portanto, rolhas também antigas e fragilizadas pelo tempo. Estamos falando em rolhas com mais de vinte anos a serem removidas. São casos muito específicos que fogem de nosso dia a dia.

 Butler´s Friend (amigo do mordomo)

A maioria dos vídeos e demonstrações sobre a utilização deste tipo de abridor normalmente não refletem a situação real. Geralmente, são abertas garrafas de vinhos jovens e que portanto, nem precisariam deste procedimento. A pessoa introduz primeiramente a lâmina mais comprida e em seguida, a lâmina mais curta. Seus movimentos são rápidos e envolvem uma pressão exagerada na fixação do instrumento. Ocorre que na sua real utilização, a rolha está muito fragilizada, podendo romper com facilidade e normalmente bastante úmida quase em toda sua extensão. Nesses casos, o atrito lateral entre a parede interna do gargalo e a rolha costuma ser bem sútil. Com isso, a introdução mesmo que de maneira delicada, há grandes chances da rolha cair dentro da garrafa e por conseguinte, impossibilitar sua extração. Veja o vídeo abaixo, como podemos eliminar este problema quase inevitável em garrafas muito antigas.

http://youtu.be/2Os08NMUetA

Veja no vídeo, que o primeiro procedimento é travar a possibilidade da rolha cair dentro da garrafa. Com todo o cuidado, é introduzido um saca-rolhas em T até o final. Posteriormente, começamos a utilizar cuidadosamente o abridor de lâminas paralelas com toda a segurança em abraçar a rolha como se deve. Se você não possuir este acessório dois em um, bem acoplado, um saca-rolhas em T de pouca espessura apresenta desempenho semelhante.

É importante nos casos de rolhas muito antigas, remover toda a cápsula para uma total visualização do estado da rolha em todos os ângulos. Em seguida, remover bem todo o mofo de topo de rolha e qualquer outro vestígio impregnado no gargalo. Após a retirada da rolha com todo o cuidado, novamente faz-se necessário mais uma limpeza, principalmente no interior do gargalo. Em casa, é melhor utilizar bons guardanapos de papel não só pela higiene, como também por ser descartável, evitando lavagens demoradas com muitos produtos de remoção no caso dos guardanapos de tecidos.

Maiores informações sobre o vídeo, acessar o site www.durand.com mostrando mais detalhes.

Este artigo foi desenvolvido especialmente para um grande amigo que terá a cruel missão de abrir um Vintage Port 1977 (data de seu aniversário) em breve. Sugira você também um tema em sessão específica neste mesmo blog.

Onde estão as referências no mundo dos vinhos?

20 de Junho de 2013

Ultimamente, temos tido várias notícias, artigos, tentando derrubar o norte da bússola, ou seja, as poucas referências que nos fazem crer na magia  do vinho, no ritual do serviço do vinho, e até mesmo, nas combinações clássicas da enogastronomia. Nada contra a contestação, nada contra em prospectar novos rumos na elucidação de questões, rituais, e métodos, na compreensão cada vez melhor num mundo recheado de subjetividades. Contudo, é preciso assimilar com certo ceticismo as chamadas “novas descobertas” tentando apenas provar que tudo que tem sido pesquisado e passado para os entusiastas do vinho através de cursos, palestras e degustações didáticas, são teorias ultrapassadas, deixando as pessoas extremamente confusas, sem saber em que acreditar, já que essas mesmas “teorias” também não são exatas e estão longe de um rigor científico.

Detalhes de algumas taças Riedel

Fiz esta introdução, para poder inicialmente falar das taças Riedel. Estão tentando desmistificar a eficiência das mesmas em degustações às cegas, deixando nas entrelinhas a inutilidade em tê-las como objeto de desejo e compra. Dá a impressão que todo o trabalho da família Riedel em confeccionar taças muito bem elaboradas, tanto do ponto de vista estético, como principalmente do ponto de vista técnico, acaba sendo inútil ou no mínimo, muito pouco eficiente. É quase um trabalho de engenharia, buscando o formato ideal para determinados tipos de vinhos, sobretudo das clássicas regiões europeias. E eles fazem questão em demonstrar estes detalhes, degustando um mesmo vinho em taças diferentes com resultados bem evidentes. Pelo menos in loco, as pessoas ficam maravilhadas com a demonstração. Além disso, a Riedel prima por comungar a confecção de uma nova taça com produtores da região em questão, propondo vários tipos das mesmas em degustação, e consequentemente buscando aliar a parte prática e técnica em sua elaboração. Não tenho nenhum vínculo comercial com esta marca, e portanto sinto-me bastante à vontade em defende-la não apenas pela marca, mas pela repercussão em incentivar outras cristalerias mundo afora, na elaboração de taças com estas prerrogativas. Alguns exemplos como, Spiegelau, Schott Zwiesel e a nossa brasileira Strauss, são ótimas alternativas. Sem o pioneirismo da Riedel, estaríamos tomando vinhos até hoje no chamado conjuntinho de taças da vovó (geralmente cinco taças muito bem lapidadas, escalonadas em alturas, onde a maior normalmente não passar de 80 ml (mililitros). 

Quem sabe um dia, em uma degustação às cegas,  escolham esses copos 

Passando agora para a questão da mineralidade, altamente lincada ao conceito de terroir, tema este exaustivamente comentado neste blog, essas “novas teorias” tem como objetivo desmistificar qualquer correlação do solo com o vinho na questão acima citada. É evidente, que ainda não temos provas científicas destes fatos. Porém, é incontestável que vinhos como Pouilly-Fumé, Chablis, Riesling alemão ou alsaciano, possuem aromas diferenciados, e ainda não devidamente explicados cientificamente. Se os terroiristas não conseguem provar suas teorias, pelo menos nos dão a possibilidade de tentar compreender esses aromas através de seus vinhedos únicos e mágicos.

Este esquema de diversidade de solos pode não ser tão importante para a magia  dos grandes borgonhas

Se os chamados formadores de opinião, sommeliers, enólogos, palestrantes, professores de cursos desta nobre bebida, levarem ao pé da letra todas estas contestações, não falaremos mais de taças específicas, não falaremos mais de zonas de sabores na língua, não falaremos mais de particularidades de solos das grandes regiões clássicas, porque de nada valem essas explicações. Portanto, vai imperar a subjetividade, a dúvida e principalmente, a falta de referência. Além disso, ficará muito chato, perdendo a magia do vinho.

Para terminar, a enogastronomia também anda por este caminho, perdendo suas referências. O cordeiro não combina mais com Bordeaux, agora é Pinot Noir. Churrasco (carne vermelha) com vinho branco ou espumante. Vinho tinto com peixe, queijos azuis com vinhos tânicos, e vai por aí afora. Ficamos reféns das seguintes frases: “vinho é aquele que você mais gosta”, e a pedra filosofal dos vendedores de vinho: “não existe vinho ruim, existe vinho mal vendido”, e a mais batida de todas “gosto não se discute”, magnificamente complementada pelo saudoso Doutor Sérgio de Paula Santos, “mas educa-se”.

Tannat com gorgonzola: A vitória do amargor

Em resumo, bebam o que quiser, sem se preocupar com taças, regiões clássicas, e combinem com a comida mediante seu próprio gosto. Mas não se esqueçam: ninguém compra vinhos às cegas, e nem taças. Quanto à enogastronomia, infelizmente na prática é quase uma utopia. A escolha é de cada um. Abraços,

Harmonização: Riesling

17 de Junho de 2013

Voltando ao tema harmonização, muitas vezes temos que ser detalhistas, na medida em que a variedade de estilos de determinados vinhos ou determinadas uvas específicas se fazem presente. É o caso de uma questão da prova escrita no concurso mundial de sommeliers, realizado em Atenas no ano de 2004. Segue abaixo a questão:

Fazer a escolha de quatro vinhos da uva Riesling com diferentes características, para acompanhar quatro pratos descritos abaixo:

  1. Lagosta pocheada com molho levemente cremoso ao sabor de capim-limão
  2. Filé de veado ao ragú de marron-glacé e pera
  3. Suflê de queijo de cabra com molho de marmelo
  4. Frutas exóticas gratinadas com sobert de tangerina

Vinhos a serem harmonizados:

a. Riesling Polish Hill, Grosset, Clare Valley

b. Riesling Grand Cru Muenchberg, Ostertag, Alsace

c. Riesling Eiswein, Ernst Triebaumer, Neusiedlersee Hugelland

d. Riesling, Brauneberger Juffer Sonnenuhr Auslese, Fritz Haag, Mosel-Saar-Ruwer

Grosset: referência em Clare Valley

Começando pela lagosta, trata-se de um prato delicado, sobretudo pelo cozimento em água. O molho também delicado sugere notas cítricas (limão) em seu sabor. Dentre os rieslings propostos, o australiano Grosset de Clare Valley proporciona um exemplar bastante típico com notas de lima. Trazido ao Brasil pela importadora Vinci (www.vinci.com.br).  Portanto, esses sabores vão reverberar na harmonização. Resposta: letra a.

Riesling de longa guarda

O prato seguinte, filé de veado, trata-se de um prato de caça. Sabor pronunciado com molho agridoce baseado em marron-glacé (castanhas portuguesas) e pera. Precisamos aqui de um vinho de presença, com boa concentração e um toque de doçura. Dentre as opções acima, o auslese germânico Fritz Haag parece ser o mais adequado. É um vinho persistente e intenso. O produtor Fritz Haag é importado pela Grand Cru (www.grandcru.com.br). Resposta: letra d.

 

Ostertag: biodinâmico detalhista

Agora temos um suflê de queijo de cabra com molho de marmelo. É um prato delicado, mas saboroso. A acidez do queijo de cabra, aliado ao toque acre, quase cítrico do marmelo, pede um riesling de personalidade com boa mineralidade. O grand cru Muenchberg da Alsácia possui estas prerrogativas. Este produtor é representado no Brasil pela importadora Zahil (www.zahil.com.br). Resposta: letra b.

Grandes vinhos doces da Áustria

Por fim, as frutas exóticas gratinadas com sorbet de tangerina, exige um vinho com certa doçura e um bom suporte de acidez. Acidez essa presente não só nas frutas, como também no sorbert (sorvete à base da própria essência da fruta, água e açúcar, sem adição de leite ou creme de leite). Por exclusão, o Eiswein austríaco cumpre bem esta missão. É um vinho delicado, de presença, doçura muito bem balanceada e suficiente para o prato, por conta de sua marcante acidez tão bem casada com a acidez do prato. Resposta: letra c.

Portanto, esta é apenas uma das oitenta e sete questões propostas nesta prova em treze tópicos com os mais variados assuntos: viticultura, vinicultura, geografia, uvas, personalidades no mundo do vinho, legislação, destilados, bebidas em geral, cerveja, charutos, harmonização, entre outros. Convenhamos, ser campeão mundial com questões deste grau de dificuldade em um curto espaço de tempo para as respostas, é tarefa nada fácil.