Archive for the ‘Sommellerie’ Category

Fazenda Sertão: Enogastronomia

26 de Dezembro de 2016

Num evento empresarial, interior de São Paulo, pratos e vinhos desfilaram em harmonia, comemorando o final do ano. A recepção não poderia ser melhor, Dom Pérignon 2000 em Magnum. Com seus dezesseis aninhos, parece que o tempo não passou. Vibrante, fresco, muito equilíbrio, e a elegância de sempre com seus toques de brioche.

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dando o tom do evento

Enquanto o pessoal chegava, o champagne ia refazendo paladares em meio a amuse-bouches diversos. Um pequeno grupo dentre os participantes, desceram à adega para degustar alguns vinhos. Um deles, o grande nome da apelação Hermitage, Paul Jaboulet La Chapelle da estupenda safra 1990, com 100 pontos Parker. Pode até não ter cem pontos, mas é uma maravilha. Depois de duas horas de decantação, começou a se abrir com toques de chocolate, cacau, defumados, geleia de frutas escuras, entre outros aromas. A boca é grandiosa com taninos em abundância, mas extremamente finos. Muito equilibrado e uma persistência monumental. Pelo seu atual vigor, podemos dizer que trata-se de um vinho imortal.

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grande safra em garrafa magnum

Para os primeiros pratos do jantar, uma Double Magnum (três litros) de Corton Charlemagne Grand Cru Bouchard Père & Fils safra 2004. Esplendoroso, lembra um pouco outro Grand Cru magnifico Chevalier-Montrachet, por sua elegância e delicadeza. Fruta expressiva, frescor estimulante, balanço incrível com os toques de barrica, e muito equilibrado. Com seus 12 anos, continua integro e com muita vida pela frente.

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Corton, a montanha dos Grands Crus

Abaixo, um dos pratos iniciais, acompanhado pelo branco acima. Ravioli de queijos com Brie ao molho de manteiga, trufa e pinolis sobre leito de couve. A gordura do queijo e da manteiga foi compensada pela acidez do vinho, enquanto os sabores delicados das trufas e pinolis casaram com a complexidade do mesmo.

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delicadeza e simplicidade

Já nos pratos mais robustos, sobretudo carnes, entra em cena uma Jeroboam (quatro litros e meio) de Chateau Haut Brion 1975. A safra é polêmica, mas o vinho beira a perfeição. Seus mais de 40 anos deram a maturidade que se espera de um grande Bordeaux. Os aromas terciários reinam em harmonia com toques de couro, tabaco, especiarias e um lado terroso de grande mineralidade. A boca é perfeita, equilibrada, taninos ultrafinos e agradavelmente persistente. Uma maravilha!

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a apelação nesta época ainda é Graves

Um dos pratos mais emblemáticos com esse vinho foram as costeletas de cordeiro (foto abaixo) com risoto de açafrão, molho do assado e trufas. A textura delicada do prato casou muito bem com a maciez do vinho e seus taninos totalmente polimerizados. Os aromas e sabores finos do prato arrematou toda a complexidade aromática do tinto. Enfim, prato e vinho se valorizando.

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costeletas tenras e saborosas

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cavaletes posicionados

No serviço de garrafas grandes, de tamanhos especiais, o uso do cavalete é muito útil, além de charmoso. Com esse mecanismo, sobretudo para os tintos, vamos abastecendo os decanters, de acordo com o consumo do vinho. Os sedimentos vão se assentando pouco a pouco no eixo da garrafa. No decanter final, tomamos o cuidado para desprezar (deixar na garrafa) uma pequena quantidade de vinho  com a borra.

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um Borgonha de sonhos

Nos últimos pratos do jantar, foi servido um dos maiores tintos da Borgonha de todos os tempos, DRC Romanée-St-Vivant 1978. A safra na verdade é estupenda, mas este vinho é tudo que se espera de um Borgonha envelhecido. Este Grand Cru de vizinhança nobre, faz valer a frase: “Em Vosne-Romanée não existem vinhos comuns”.  Os aromas de trufas, terra, rosas, licor de cerejas negras, especiarias, incenso, e vai por aí afora, são encantadores. Os taninos, se é que existem, são de outro mundo. Equilibrado, harmônico, e de final encantador. Um devaneio!

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filé Rossini: releitura

O prato acima coincidiu com a chegada do Romanée-St-Vivant 78. A textura da massa, e do próprio filé mignon se adequaram ao vinho. Os sabores do molho, das trufas, do foie gras, se entrelaçaram com todos os componentes terciários do vinho, numa rara harmonia. Um final de jantar glorioso.

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mil-folhas e crème pâtissière

Nas sobremesas que eram várias, a da foto acima acompanhou com competência o Chateau d´ Yquem 1999. Os sabores do prato casam bem com os toques de fruta e caramelo do vinho, além da textura cremosa de ambos. Num bom momento para consumo, mas Yquem evolui com tranquilidade por muitos anos em adega.

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o rei dos Sauternes

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pudim e bolo de chocolate caseiros

A sobremesa acima sintetiza a harmonização com os dois vinhos doces servidos. O pudim de leite com Yquem, fazendo a vez do crème brûlée, e o bolo de chocolate com Vinho do Porto. Neste caso, um Taylor´s Vintage 1985. Uma bela safra completando pouco mais de trinta anos. Em pleno vigor, seus aromas terciários começam a prevalecer, vislumbrando um futuro brilhante. Cor ainda escura, taninos presentes, mas bem moldados, e muita riqueza em boca. Os aromas primários de frutas escuras em geleia se fundem aos toques de especiarias, tabaco, chocolate e um fundo mineral, compondo o lado mais evolutivo do vinho.

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Taylor Fladgate: especializada em Vintages

O Porto ainda acompanhou os Puros na varanda com Cohibas de várias bitolas, incluindo os Behikes. Que o ano novo comece tão bem quanto o término deste. Feliz 2017!

Os Históricos Bordeaux 1982

14 de Novembro de 2016

É muito comum serem mencionadas safras “históricas” em regiões vinícolas europeias de grande prestigio, sobretudo em Bordeaux. As especulações são inevitáveis já que esses vinhos são verdadeiras comódites no mercado financeiro, funcionando de certo modo como uma forma de investimento. Depois de alguns anos com a poeira assentada, fica mais claro separar o joio do trigo.

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Dream Team: Lafleur em Magnum

Dentre essas safras “históricas”, existem aquelas que são mais históricas. Uma delas por exemplo é a de 1982, equiparada a anos como 1945, 1947, 1959 e 1961, para ficarmos no século XX. O abençoado ano de 1990 onde foi praticamente impossível se fazer vinhos ruins na Europa, ainda não emplacou definitivamente neste seleto rol, talvez por não estar totalmente pronta, no auge de sua evolução, principalmente para os grandes Bordeaux.

Dito isso, defrontamos quatro belos Bordeaux 82, dois margem esquerda, e dois margem direita, num embate de gigantes. Falar de vencedores é uma questão muito mais pessoal do que técnica. Cada qual fiel a seu terroir, a seu estilo, mas todos inteiros e impecáveis. Enfim, obras de arte não se comparam …

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o sonho de tomar um grande 82

Testados vários vezes, em várias épocas, e sempre muito consistente. Fico imaginando até quando esse platô de evolução vai se estender, pois ainda não há nenhum sinal de decadência. É muito fácil gostar deste vinho, mesmo para aqueles que tem problemas com taninos. Ele é sedutor nos aromas, macio em boca, muito equilibrado, e um final bastante longo. Sempre na elite dos campeões desta mítica safra.

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apelação Pessac-Léognan só em 1987

Pessoalmente, foi o que menos me impressionou, mas sem dúvida, é uma questão pessoal. Outra razão, foi a cruel comparação com os demais concorrentes ilustres. De todo modo, um perfil brilhante de Pessac-Léognan com seus aromas de estábulo e toques terrosos. Menos encorpado que o Mouton (Pauillac), é também de um equilíbrio notável. Taninos ultrafinos e longa persistência. Em comparação a seu grande rival, Chateau Haut-Brion, é um pouco mais potente e com menos elegância.

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inspiração para o rótulo americano Dominus

Apesar de estarmos falando de um margem direita na sub-região de Pomerol, é de uma austeridade impressionante. Lafleur é o único Pomerol comparável ao astro maior Petrus, não só pela fleuma e estilo mais introvertido, mas também por seu incrível poder de longevidade. Esta safra em particular, uma das mais perfeitas de sua história, foi elaborada por Jean-Claude Berrouet, o famoso enólogo de Petrus, com apenas 10% de barricas novas.

Seu solo é muito particular e multifacetado, mesclando argila, areia e importante pedregosidade. Com isso, seu corte de uvas também é único e bem especifico com Merlot e Cabernet Franc pareando as porcentagens. Talvez a presença importante da Cabernet Franc lhe forneça essa espinha dorsal e estrutura  incomuns para um típico Pomerol, mais calcado na Merlot.

Esta safra de 1982 considerada perfeita, é de uma cor impressionantemente jovem e intensa. Os aromas se desenrolam pouco a pouco na taça com forte presença mineral, frutas escuras, e toques de chocolate amargo, lembrando cacau. Deve ser obrigatoriamente decantado por pelo menos uma hora. O boca é de um pujança extraordinária, vislumbrando ainda bons anos de guarda. Um vinho realmente impressionante. Como conselho, se você tiver uma garrafa deste Chateau com menos de quinze anos, não abra. A paciência irá lhe recompensar, certamente.

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o singelo rótulo num vinho sofisticado

Reparem que no rótulo não está escrito Chateau. Realmente, a simplicidade  e a aparência mal cuidada de sua construção confirmam esta observação. O solo extremamente argiloso faz da Merlot praticamente seu território único com quase 100% do plantio, de vinhas muito antigas. As condições particulares deste terroir dão uma imponência, uma austeridade, e uma introspecção ao vinho, que o diferencia de maneira inconteste de todos os outros Pomerols.

Como curiosidade, a argila azulada de Petrus é rica em ferro, gerando vinhos com intensidade de cor marcante. Além disso, não há como aumentar a densidade de plantio das vinhas que fica em torno de 7000 plantas/hectare. A explicação vem de um subsolo extremamente duro onde a camada de argila para a ramificação e expansão das raízes é de apenas 70 centímetros, ou seja, pouca profundidade para uma competição entre as vinhas mais acirrada.

Além de uma boa conta bancária, você precisa de muita paciência para esperar seu Petrus acordar. Os infanticídios com este vinho mundo afora são rotineiros. Nesta safra em particular, ele não tem a potência de seu concorrente Lafleur, mas sobra elegância e finesse. O grande trunfo de 82 é que Petrus conseguiu se soltar, mostrando aromas terciários muito finos e de rara sutileza. Não é um vinho óbvio, mas sua sedosidade contrasta magnificamente com seu lado cerimonioso. Talvez por não ser uma safra especificamente concentrada, seu desabrochamento chegou mais cedo, concedendo prazer e expectativa esperados. Grande vinho!

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Esta é a cor do Lafleur 1982. Acreditem!

Como se não bastasse esses quatro prazeres em si, tivemos que analisa-los em duas taças não menos espetaculares e bem merecedoras destes grandes caldos. Riedel Sommeliers versus Zalto Bordeaux, num embate de titãs entre duas excepcionais cristalerias  austríacas.

Riedel Sommeliers é uma linha de taças maravilhosas com um bojo de 860 ml de capacidade para o modelo Bordeaux Grand Cru. Aromaticamente, mostra-se muito sutil captando aromas multifacetados dos mais complexos tintos bordaleses. Em boca, procura mostrar a essência de um grande Bordeaux com texturas delicadas, sem perder o frescor.

Zalto Bordeaux, como toda taça Zalto, é de uma leveza incrível, além da ínfima espessura do cristal. Dá medo de tocar na taça, tal a aparente fragilidade que ela transmite. Em relação à Riedel Sommeliers, seus aromas são mais concentrados, perdendo-se um pouco as nuances de vinhos mais sutis. Entretanto na boca, mostra com ênfase, o corpo e estrutura dos grandes Bordeaux, numa percepção ampliada da textura de seus finos taninos.

Qualquer que seja a escolha, você estará bem servido. De todo modo, é sem dúvida um diferencial, um detalhe relevante, quando se trata de vinhos de tamanha complexidade, em períodos de evolução onde as sutilezas devem sempre que possível, ser amplificadas.

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lingua com polenta cremosa

Eis um prato (foto acima) que muitos torcem o nariz, língua. Realmente, não é uma carne fácil de se trabalhar, mas quando bem feita, é digna dos mais finos tintos já com aromas evoluídos e taninos resolvidos. Foi o caso deste prato, do Nino Cucina, escoltado pelos Bordeaux acima comentados. O casamento foi perfeito pela delicadeza de sabores de ambos, prato e vinho. Em particular, Petrus agradeceu a parceria.

Sommelier: ser ou não ser?

8 de Outubro de 2016

Esta é uma profissão glamorosa em seu conceito, mas que requer dedicação e sacrifício em seu exercício. E aqui estou falando do verdadeiro sommelier de salão, dedicado a um restaurante. No Brasil, tornar-se um sommelier para exercer a profissão no mercado é relativamente simples. Basta por exemplo, fazer o curso na ABS-SP, passar pelas provas e com pouco mais de um ano, você está apto a ingressar no mercado de trabalho. Um pouco de dedicação e interesse são ingredientes suficientes para alcançar o objetivo.

Ocorre que este é apenas o começo do que deve ser uma longa estrada. O mundo dos vinhos, bebidas, gastronomia, e toda a arte em torno da mesa, é extenso, dinâmico, exigindo permanentes estudos, aperfeiçoamentos, e atualizações. E é exatamente neste ponto que mora o problema. A maioria das pessoas contentam-se com o mínimo necessário, apenas para executar com relativa eficiência os trabalhos corriqueiros do dia a dia.

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Exótico Moscatel seco

(sem passagem por madeira, aromas intensos de frutas e flores, textura macia e final persistente)

A ABS-SP periodicamente, realiza certificações a candidatos que tenham interesse e competência na realização dessas provas, outorgando um pin diferenciado que poucos sommeliers possuem no país. É sem dúvida, uma maneira de motiva-los e incentiva-los em busca permanente de novos conhecimentos e aperfeiçoamentos na profissão.

Nesta última certificação ficou bem claro o nível dos sommeliers disponíveis em nosso mercado, que longe de ser ruim, ao mesmo tempo, está longe da excelência. Dos cincos candidatos, pelo menos dois estouraram o tempo de trinta minutos para a realização total da prova. Falaremos a seguir, das várias etapas.

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margem direira em frente ao Médoc

(excelente safra, mostra-se jovem, taninos presentes e bem equilibrado)

A primeira etapa tratava-se da análise de vinhos e bebidas. Inicialmente, três vinhos às cegas. Um branco da Alsace (Muscat d´Alsace), um Bordeaux tinto (Côte de Blaye) e um IGP (Indicazione Geografica Protetta) da Puglia. Independentemente dos detalhes, os candidatos pecaram numa análise extremamente prolongada, mostrando claramente a falta de objetividade na questão, sobretudo se levarmos em conta que esta primeira etapa tem uma participação bastante modesta no cômputo geral das notas. Disso, certamente resultou a principal razão de estourar o tempo ou faze-lo em seu limite.

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frutado exuberante da Puglia

(cor intensa, muita fruta, maciez, e agradavelmente quente)

Sequencialmente aos três vinhos, foram apresentados às cegas, em taças negras, quatro destilados absolutamente corriqueiros no principais bares de restaurantes, e de conhecimento da imensa maioria das pessoas acostumadas com este tipo de bebida. Gim, tequila, cachaça, e rum, respectivamente. Bastava somente identificar a bebida. Tanto a tequila, como o rum, foram as bebidas suscetíveis de maior erro.

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presentes nas boas casas do ramo

Já à mesa, os candidatos deveriam atender um grupo de quatro amigos que gostariam de provar um menu completo da cozinha árabe (libanesa) com entrada, dois pratos e sobremesa, acompanhado por vinhos brasileiros. As opções de harmonização foram mais variadas para o prato de kafta (espeto de carne moída) com diversos tintos, mudando o tipo de uva. Na sobremesa que envolvia massa folhada, frutas secas e calda de flor de laranjeira, a sugestão recaiu sobre um espumante Moscatel pela similaridade de toques cítricos e florais, embora faltasse textura e talvez até mesmo açúcar para confrontar o doce. O mais correto seria um Moscatel de Setúbal, pois as opções de vinhos de sobremesa brasileiros são limitadas.

Como itens obrigatórios neste tipo de prova, tivemos o serviço de um espumante como cortesia da casa, e a decantação de um tinto envelhecido com claras evidências de sedimentos na garrafa (Chateau Latour 1966). O serviço do espumante, fato corriqueiro no dia a dia dos sommeliers de salão, foi relativamente bem executado por todos. Já a decantação à vela, fato na prática, extremamente raro em mesas brasileiras, decepcionou de modo geral. O mais incrível é que ninguém tirou o vinho do cesto para proceder a decantação, operação costumeiramente vista em vários vídeos demonstrando a operação.

As perguntas sobre o queijo espanhol Manchego, sobre a uva Boal, e sobre a uva Muscat, foram respondidas de forma extremamente sucinta, sem maiores considerações. Isso quando respondidas corretamente. Por fim, uma correção de carta de vinhos com erros relativamente simples, respondida adequadamente por alguns de forma parcial.

Em resumo, fica o alerta para aqueles que pretendem destacar-se na profissão e que principalmente, desejem participar de concursos internacionais; mais afinco e objetividade no conhecimento teórico, e traquejo no serviço de salão com rapidez e eficiência.

Taças: Champagne e Espumantes

26 de Julho de 2016

Até a década de setenta do século passado, as taças de champagne abertas, conhecidas como Maria Antonieta, eram comuns nas mesas de restaurantes, eventos e filmes de Hollywood. De certo modo, havia coerência neste modelo, visto que os champagnes não eram totalmente secos. O estilo Brut como conhecemos hoje e amplamente consumido foi criado nos anos 30. Portanto, esta secura e alta acidez evidenciadas não eram apreciadas em outras épocas. Atualmente, este modelo de taça é indicado pela marca Riedel para o consumo de Moscato d´Asti ou champagnes e espumantes doces. De fato, a borda mais aberta favorece a apreciação da acidez, do frescor, contrastando com a evidente doçura da bebida, e portanto, promovendo um ótimo equilíbrio em boca.

A flute de certo modo, revolucionou um novo estilo de taça, muito mais de acordo com o estilo Brut. A área de contato com o ar  é bem menor, preservando o perlage, e a borda mais fechada, favorece os sabores frutados e mais delicados da bebida, frente a uma acidez extremamente presente. Com isso, a apreciação da acidez é mais comedida, dando equilíbrio ao conjunto. Para espumantes elaborados pelo método Charmat, onde os aromas de frutas e flores são mais evidentes e ao mesmo tempo, sem grande complexidade, a flute parece ser a taça ideal.

taça champagne

taças: belle époque e tulipe

No caso de champagnes e espumantes elaborados pelo método Tradicional (champenoise), as taças tulipas sempre foram as opções mais corretas. Inclusive, a Riedel oferece modelos bem apropriados. Contudo, há forte tendência para uma nova mudança. Utilizar taças a princípio para vinhos brancos na apreciação de champagnes, principalmente nas cuvées especiais. No caso do Dom Pérignon, o próprio chef de cave Richard Geoffroy, sugere a taça Spiegelau linha Authentis para vinhos brancos bordaleses na apreciação de seu champagne, sobretudo para o P2, champagne de envelhecimento prolongado e de grande complexidade aromática.

Para esta nova tendência, é importante que a escolha de taças seja para vinhos brancos de estilo bordalês, Sauvignon Blanc, Riesling, entre outros, onde a boca mais fechada restrinja a percepção exacerbada da acidez. Afinal, o champagne principalmente, tem neste componente sua mais importante característica. Taças muito abertas como as dos borgonhas brancos, evidenciariam demais a acidez, tornado seu equilíbrio em boca comprometido. Como exceção, champagnes muito antigos, onde o perlage é bastante deficiente e quase inexistente, a acidez normalmente está bem mais contida, restando apenas a eventual qualidade do chamado vinho-base. Neste caso, para levantar um pouco mais o frescor da bebida, essa taças borgonhesas mais abertas, podem funcionar a contento.

taças espumantes

prosecco, champagnes, cuvée de luxo, respectivamente

Em resumo, sugiro a flute para o Prosecco e todos os espumantes elaborados pelo método Charmat. Para os champagnes e outros espumantes elaborados pelo mesmo método, tradicional ou clássico (champenoise), a taça tulipa é pessoalmente minha melhor opção. Entretanto, é bom atentar para o tamanho do bojo. Estou falando em tulipas com capacidade em torno de 300 ml, similares à linha Sommelier da Riedel.

Em casos excepcionais de grandes cuvées de champagne envelhecidas, a taça estilo bordalês proposta por Richard Geoffroy podem ser muito interessantes. De fato, nestes casos, a qualidade do vinho-base é tão superior, que vale a pena uma câmara de expansão de aromas mais ampla, sobretudo se as borbulhas já estiverem um tanto comprometidas.

No caso dos cavas, por definição, método clássico, aqueles de menor contato sur lies com a designação reserva, as flutes ainda são aceitáveis. Já para a categoria gran reserva, a tulipa é primordial. Voltando aos champagnes, se a ideia é servi-los em taças do tipo bordalês, atentem para a complexidade dos mesmos. À medida em que o champagne torna-se mais complexo, é preciso aumentar o bojo da taça paulatinamente.

É sempre bom lembrar, que o serviço de vinhos de uma maneira geral depende muito da escolha da taça adequada, além da correta temperatura de serviço. Esta por sinal, nunca muito baixa quando o corpo, a estrutura, e a distinção de um grande espumante está presente.