Archive for the ‘Portugal’ Category

Abertura de Porto Vintage

25 de Abril de 2013

A abertura de Porto Vintage antigo, idealmente com algumas décadas, é sempre motivo de dúvida, além de ser uma ocasião especial. De fato, não tem sentido abri-lo novo, com menos de dez anos de safra. Geralmente, estes Portos antigos apresentam a rolha fragilizada pelo tempo. Existe uma corrente que diz para os Portos Vintages serem estocados com a garrafa em pé, e não deitada. Segundo estes, o natural ressecamento da rolha é compensado pelo não contato com o álcool, agente que pode degradá-la por sua ação corrosiva em longo tempo de armazenamento. Devemos lembrar que Portos são vinhos fortificados e portanto, sujeitos a graduações alcoólicas próximas de vinte graus. Por esse motivo, os portugueses criaram um instrumento de abertura chamada Tenaz, uma espécie de tesoura de jardineiro com as terminações forjadas em ferro de tal modo, que abraçam perfeitamente o gargalo da garrafa. O vídeo abaixo ilustra o fato.

http://youtu.be/8p0-gJF65q8

Além de toda a classe do Master sommelier Ronan Sayburn, alguns pontos devem ser atentamente observados. Em primeiro lugar, a remoção total da cápsula da garrafa. O copo de água gelada para provocar o choque térmico e a pena. Por fim, a utilização de um tecido, normalmente a musselina, servindo como filtro para a espessa borra destes grandes Vintages. Reparem que a vela serviu mais como um instrumento decorativo, sem grande utilidade. De fato, as garrafas escuras, quase negras, dos Portos Vintages, dificultam a perfeita visualização do sedimento ao passar pelo gargalo da garrafa. Esta é a verdadeira razão para a utilização do filtro em questão. Aliás, a musselina fornece a trama ideal de tecido para reter com eficiência os sedimentos destes vinhos. Na falta da pena, pode ser usado um guardanapo molhado ou então, cubos de gelo.

Harmonização: Toucinho do Céu

10 de Setembro de 2012

Toucinho do Céu, uma das jóias da doçaria portuguesa. Sobremesa calcada fundamentalmente em ovos (muitas gemas), açúcar e amêndoas. Contraindicada para diabéticos, o sabor doce é realmente marcante. Os vinhos portanto, devem ter boa dose de açúcar residual, além de forte aromaticidade.

Belo arremate após o bacalhau

Obviamente, os fortificados portugueses são as escolhas imediatas. Mas atenção, a maioria dos Portos e Madeiras não terão açúcar suficiente para esta sobremesa, exceto o Porto Lágrima o qual aliás, combina muito bem. Contudo, o clássico Moscatel de Setúbal é o vinho que naturalmente apresenta força aromática e doçura suficientes para o prato. Outras sobremesas bastante doces com toques cítricos (laranja ou limão) são parcerias certas para este tipo de vinho.

Outros moscatéis pelo mundo seguem como alternativas. Na França, o Muscat Beaumes de Venise tem a ver mais com sobremesas à base de pêssegos. Rivesaltes Ambré, fortificado de Roussillon (sul da França) que sofre também um processo oxidativo, composto pelas uvas Grenache Blanc e Muscat, pode fazer boa parceria com esta sobremesa.

Na Itália, Passito di Pantelleria, elaborado com a uva Zibibbo (nome local do Moscato d´Alessandria), é outra alternativa interessante. Neste mesmo blog, há um artigo específico sobre este belo vinho italiano.

Da Espanha, os grandes Moscatéis de Málaga, região próxima a Jerez, e um tanto esquecida, podem surpreender na harmonização, fugindo um pouco dos potentes e dominantes Pedro Ximenez. O produtor Telmo Rodriguez apresenta exemplares interessantes através da importadora Mistral (www.mistral.com.br). 

O importante é o vinho ter presença, doçura suficiente, e um certo toque oxidativo para as amêndoas. Nesta linha, Portugal tem excelentes opções a serem testadas.

Harmonização: Arroz de Marisco

30 de Abril de 2012

Aproveitando a menção das sete maravilhas da gastronomia portuguesa citada no artigo publicado neste blog sobre o queijo Serra da Estrela, vale a pena comentarmos o tradicionalíssimo Arroz de Marisco, originário das regiões de Estremadura e Ribatejo.

Ícone da gastronomia portuguesa

Pode ser encarado como uma versão da famosa caldeirada com a inclusão do arroz ou até, como uma paella à moda  portuguesa.

A receita original fala em mariscos locais como amêijoas, sapateira e berbigão. Aqui podemos substituir por vôngoles, mexilhões, siri e camarões, por exemplo. Cozinhe todos eles juntos ou separadamente, reservando seus respectivos caldos. Pode-se acrescentar no caso dos camarões, cascas e cabeças para concentrar mais o caldo. Em seguida, refogue o arroz com azeite, alho, cebola e tomate, adicionando um cálice de vinho branco. Após este processo, adicione os diversos caldo dos mariscos para o devido cozimento. No final, acrescente os mariscos com um pouco de salsinha ou coentro, conforme gosto pessoal. O resultado deve ser parecido com a foto acima, não deixando o arroz secar.

A harmonização com vinhos brancos é óbvia, dada a presença de frutos do mar com forte tendência a metalizar a maioria dos tintos. Se pensarmos em termos regionais, a Denominação de Origem Bucelas nos revela ótimos brancos para este prato. A principal uva é a Arinto, conhecida também com Pedernã, podendo ser complementada com as uvas Sercial (Esgana Cão, outro sinônimo) e Rabo de Ovelha. O vinho apresenta textura adequada ao prato, boa mineralidade e acidez refrescante. As versões com presença discreta de madeira podem ser satisfatórias. Quinta da Romeira é referência desta denominação, trazido pela Mistral (www.mistral.com.br). Outra opção portuguesa é o branco do Tejo (antigo Ribatejo) do produtor Quinta da Alorna. É um reserva branco com as castas Arinto e um pouco de Chardonnay com leve passagem por barrica, trazido pela importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

Do lado italiano, duas ótimas sugestões. Um branco do Veneto da denominação Soave do belo produtor Pieropan com a uva local Garganega, trazido pela importadora Decanter (www.decanter.com.br). Outra opção, agora da Toscana, do sofisticado Angelo Gaja, é o Ca´Marcanda Vistamare. Um branco mesclando Chardonnay, Sauvignon Blanc, Vermentino e Viognier, da badalada sub-região de Bolgheri. Os dois apresentam boa mineralidade, aromas elegantes e discretos, sem arranhar os toques de maresia do prato.

 

 

Harmonização: Queijo Serra da Estrela

29 de Março de 2012

Considerado uma das sete maravilhas da gastronomia portuguesa, o queijo Serra da Estrela, ou mais comumente chamado de queijo da Serra, tem lugar de destaque, independente do requinte da refeição.

É um produto D.O.P. (Denominação de Origem Protegida) elaborado a partir de leite de ovelha em regiões específicas da Serra homônima. Existem muitas imitações, algumas até interessantes, levando-se em conta o alto custo do queijo, mas o autêntico tem características de terroir. Um concorrente à altura é outro queijo D.O.P. chamado Queijo de Azeitão, elaborado também a partir de leite de ovelhas, porém na região de Setúbal.

Cremosidade e sabores intensos

Voltando ao original, seus sabores intensos e sua textura amanteigada pedem vinhos robustos e espessos. Neste sentido, os Portos, Madeiras e outros fortificados da península ibérica são potencialmente boas companhias.

A grande discussão em relação aos melhores Portos, é escolher entre os Vintages e os Colheitas (assunto abordado neste blog sob o artigo, Vinho do Porto: Vintage ou Colheita). Pessoalmente, minha opção é pelos Colheitas. Os Vintages, sobretudo quando novos, com seus taninos ainda presentes, são desossados pela cremosidade do queijo, além do infanticídio de abrir tais preciosidades. Já os Vintages mais antigos, após seus 15 ou 20 anos de garrafa pelo menos, apresentam maiores afinidades, com aromas terciários em desenvolvimento, e taninos mais amansados.

No caso dos Colheitas, normalmente seus aromas terciários estão desenvolvidos. Com taninos praticamente ausentes e acidez marcante, a qual caracteriza os mais destacados Colheitas, são elementos suficientes para uma bela harmonização. Sabores intensos no queijo e no vinho, contraste entre a acidez do vinho e a gordura do queijo, contraste da doçura do vinho com o sal do queijo, e por fim, similaridade de texturas entre queijo e vinho, formam os alicerces deste belo casamento.

Malmsey 5 Years Old

Cossart: O mais antigo produtor de Madeira

Na mesma linha de raciocínio dos Colheitas, por que não pensarmos num bom e velho Madeira? A foto acima é uma opção relativamente em conta da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Dentre as castas nobres da ilha, Malmsey é a que gera os Madeiras mais encorpados e doces (vide neste blog uma série de artigos sobre Vinho Madeira). Neste contexto, o Malmsey é o que apresenta doçura adequada, corpo e untuosidade suficientes para o queijo, com um suporte de acidez que só os fortificados da Madeira possuem.

No mais, é curtir esta harmonização tomando cuidado para não faltar o último gole depois do queijo, ou acabar o queijo antes do vinho.

Vinho do Porto: Estatísticas

28 de Março de 2011

Dados recentes (2009/2010) comprovam a importância do Vinho do Porto na região do Douro, com 773.708 hl (hectolitros) produzidos. Este número equivale a quase 60% do todo o vinho produzido no Douro (1.328.624 hectolitros). O Douro ainda é com folga a região mais produtiva de Portugal.

Números oficiais fornecidos pelo IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto) nos dão uma idéia de seu atual mercado:

Em 2010, cinco países incluindo Portugal, respondem por praticamente 80% do comércio de Vinho do Porto:

  • França ……………………………….. 28,5%
  • Holanda ……………………………… 14,2%
  • Portugal ……………………………… 14,0%
  • Bélgica ………………………………… 12,5%
  • Reino Unido ………………………… 10,4%

Esses números refletem o consumo maciço de Portos sem designação especial, ou seja, Tawnies e Rubies básicos.

Comercialização dos principais tipos de categoria especial de Portos em 2009:

  • Reino Unido ……………………………. 32,0%
  • França …………………………………….. 13,6%
  • Estados Unidos ……………………….. 12,1%
  • Portugal ………………………………….. 11,0%

 Esses países concentram 68,7% do comércio de Portos Especiais.

De toda a quantidade comercializada em 2009 de Portos de categoria especial (um milhão seiscentas e trinta e sete mil caixas de 12 garrafas), segue abaixo a participação de cada tipo:

  • Ruby Reserva ………………………………………………. 38,2%
  • Indicação de idade (10, 20, 30, 40 anos) ………. 25,9%
  • Porto LBV …………………………………………………….. 19,8%
  • Tawny Reserva ………………………………………………. 9,4%
  • Vintage …………………………………………………………… 5,1%
  • Colheita ………………………………………………………….. 1,6%

Por esses dados, percebemos a exclusividade de Vintages e Colheitas e compreendemos melhor seus preços. Portanto, quando beberem um Colheita, lembrem-se da raridade deste tipo de Porto.

Segundo dados de 2009, os Portos de categoria especial representam 33,3% dos valores comercializados de Vinho do Porto, e 17,6% em termos de produção (volume) neste mesmo ano.

Em breve, teremos uma série de artigos sobre vários aspectos de um dos vinhos mais adorados por ingleses e franceses, nascido das diferenças e conflitos dessas grandes nações, o Vinho do Porto.

Vinho do Porto: Vintage ou Colheita

20 de Maio de 2010

Niepoort: uma das maiores referências na categoria

Embora num primeiro momento os termos pareçam ser semelhantes, na verdade são duas grandes categorias de Vinho do Porto com propostas antagônicas.

O chamado Porto Colheita é elaborado com uvas de somente uma safra, a qual é obrigatoriamente declarada no rótulo. Seu processo de elaboração prevê um amadurecimeto de pelo menos sete anos em madeira, antes do engarrafamento e comercialização. Evidentemente, os grandes Colheitas ficam muito mais tempo. De qualquer modo, é obrigatório também, a data do engarrafamento, mencionando que o vinho passou em madeira todo este período, conforme exemplo ilustrativo acima.

As características principais desta categoria são calcadas em sua elaboração de caráter oxidativo, ou seja, neste período longo em contato com a madeira, o vinho adquire notas interessantes de frutas secas, baunilha e toda a família de empireumáticos (caramelo, café e chocolate, por exemplo). É importante ressaltar que a madeira em questão não é nova. Geralmente são pipas de carvalho já utilizadas para não marcar o vinho de maneira agressiva. As uvas selecionadas para esta categoria apresentam certas peculiaridades, sobretudo quanto ao ótimo nível de acidez e rendimentos baixos para uma boa concentração de sabores.

Em termos de gastronomia, este tipo combina muito bem com doces de frutas secas, boa parte dos doces portugueses à base de ovos (é a categoria de Porto mais próximas dos Moscatéis Fortificados) e até alguns pratos com foie gras. Faz grande parceira com os charutos, notamente os “puros”. Para safras especiais e antigas, pode ser apreciado como vinho de meditação.

Fonseca Guimaraens: grande reputação em safra excepcional

A despeito da categoria Vintage gozar de glamour e prestígio irrefutáveis, não faz o menor sentido compará-la aos Colheitas, os quais apresentam conceitos de elaboração diferenciados, descritos acima.

O Vintage também é elaborado com uvas de somente uma safra, obrigatorimente declarada no rótulo. Pela legislação, deve passar de dois a três anos em madeira (normalmente em balseiros de grande capacidade para evitar ao máximo a oxidação), com posterior engarrafamento, também com obrigatoriedade da respectiva data. Seu envelhecimento deve ser feito em garrafa por muitos anos (no mínimo 10 anos para os mais anciosos). Dependendo da safra, pode evoluir por décadas. Deve ser obrigatoriamente decantado algumas horas antes de ser servido, pelos motivos de sedimentação (borras) e aeração.

Os Vintages quando relativamente jovens, apresentam uma concentração de geléia de frutas escuras excepcional. Os taninos são presentes e abundantes, e a persistência sempre muito longa. Com o envelhecimento, além da fruta, começam a desenvolver notas minerais, toques de chocolate, balsâmicos, ervas, especiarias, entre outros. As uvas para este tipo de vinho devem apresentar maturação extraordinária, grande concentração e destacada estrutura tânica. Daí, sua longa evolução em garrafa, em ambiente redutivo (ausência de oxigênio), proporcionando uma polimerização de taninos lenta e gradual.

Na mesa, combina muito bem com sobremesas à base de chocolates que envolvam frutas secas, caldas de frutas vermelhas, além de queijos azuis (o clássico inglês Stilton) e charutos potentes com notas achocolatadas. No caso dos queijos, é necessário que o Vintage tenha certa evolução com a devida polimerização de taninos, evitando arestas com o sal mais evidente.

Portanto, duas categorias nobres e incomparáveis. Para os especialistas, os Colheitas são obras do homem. Jà os Vintages, são obras de Deus.

Polemizando um pouquinho mais, a combinação ideal do famoso queijo Serra da Estrela divide opiniões fervorosas. Faça você mesmo a prova, colocando estes dois grandes vinhos lado a lado. Provavelmente você  não chegará a um veredito, mas que vai faltar queijo ou vinho, isso vai.

Niepoort – importadora Mistral (www.mistral.com.br)

Fonseca – importadora Vinci (www.vinci.com.br)