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É disso que o Polvo gosta!

12 de Março de 2020

Voltando aos assuntos de enogastronomia, temos o Polvo, um molusco sofisticado encontrado facilmente em nosso mercado. Para tanto, temos unúmeras receitas caseiras, clássicas e vários pratos em restaurantes. Neste caso, o vinho é parte importante do processo, dirigindo a um prazer maior à mesa.

O polvo se bem cozido, tem uma carne tenra de certa textura e um sabor peculiar que combina muito bem com a acidez e mineralidade dos vinhos. Pode ter eventualmente os mesmos problemas da lula em cozimento de poder ficar rijo ou borrachudo. É um prato que admite vinhos brancos nas preparações mais leves, passando por rosés, e eventualmente até tintos de certa leveza. Vamos a eles!

polvo salada

Salada de Polvo

Uma receita muito variada com ingredientes e a gosto do freguês. Em linhas gerais, tempos o polvo cozido com águas, caldos e temperos. As batatas corretamente cozidas, além de ervas como salsinha, coentro, cebolinha, pimentões, ceboba e azeitonas pretas. O ovo é opcional. Tempera-se com bastante azeite, acrescentando-se o limão, vinagre, ou balsâmico. Deve ser servida fria ou gelada. Um prato de entrada ou verão.

Na foto, uma versão sem batatas e ovos, mas com muito frescor. Neste caso, pela leveza do prato e por ser uma entrada, vinhos brancos frescor à base de Sauvignon Blanc vão bem. Procure por Sauvignons chilenos de vales frios, preservando a mineralidade e de textura mais rica. Combina melhor com a carne do polvo.

Voltando a Portugal, o Alvarinho da região do vinhos verdes é um bom parceiro, sobretudo de certa textura e com um leve toque de madeira. A uva Encruzado no Dão tem boa mineralidade e textura para o prato. Os espumantes portugueses de Tavora-Varosa de estilo Brut  pelo método clássico vão bem, sobretudo os rosés, um pouco mais encorpados.

polvo a lagareiro

Polvo a Lagareiro

Uma versão aproximada da salada de polvo, só que desta vez quente com as batatas assadas e muito azeite. O polvo é cozido da mesma maneira acima com temperos e depois e cortado. As batatas pequenas são cozidas com as casca em água e sal grosso. Posteriormente são secas e feitas ao murro. Além de ervas, temperos, alho e eventualmente azeitonas pretas, as batatas ao murro é adicionada na mesma travessa com temperos, polvo cortado e muito azeite antes do tudo ser servido.

Uma receita rica, de forno, que ainda deve ser acompanhada de vinho branco mais estruturado. Os brancos do Douro e Dão com alguma passagem por madeira vão muito bem. Se você gosta de mais acidez, os tradicionais Bucelas com a casta Arinto cumprem bem o papel com muita personalidade.

Se quiser algo mais para o tinto, um bom rosé estruturado pode cair bem. Os novos rosés de Portugal e a turma do Rhône mais ao sul são boas pedidas. Para os tintos, os taninos podem atrapalhar e para escolher vinhos de baixos taninos, falta personalidade ao vinho de uma maneira geral.

polvo arroz

Arroz de Polvo

Essa é a versão que não vai batatas na receita e sim, arroz. Ela não tem tantos temperos e acidez como a salada, mas é muito saborosa. Tem mais textura em boca e uma sugestão de vinho tinto em sua preparação. O polvo é cozido como nas outras vezes e o arroz é puxado no próprio molho do polvo. De todo modo, a umidade do prato para cada um é absolutamente individual. Pessoalmente, gosta de sentir uma certa umidade no conjunto.

Como trata-se de um prato principal, aqui podemos admitir certos tintos para a harmonização, sobretudo se eles fizerrem parte da receita. Os tintos do Dão um pouco mais jovens, sem passagem por madeira, podem ir bem por sua elegância, frescor, e taninos comedidos. Alguns tintos modernos da denominação Lisboa tem frescor para o prato. Entretanto, acho que rosés mais encorpados chegam melhor ao resultado final. Um bom rosé Bruto da Bairrada pode cair muito bem, assim como os rosés de Navarra na Espanha são boas pedidas.

Se a opção for brancos, que eles sejam um pouco mais estruturados e ricos em textura. A turma do Alentejo tem na casta Antão Vaz, a Chardonnnay local, com breve passagem por barrica, respostas seguras. Chardonnays de um modo geral vão bem com farta oferta no mercado. Desde que sejam equilibrados e com madeira elegante, podem cumprir o papel. Se a opção ainda for local e portuguesa, um belo Alvarinho das regiões de Monção e Melgaço com alguma passagem por barrica,tem força para o prato e a tão bem vinda mineralidade.

Enfim, o Polvo gosta de vinhos frescos, minerais e de certa textura em boca. A carga de madeira deve ser comedida, conforme a receita exija mais estrutura. Os rosés sâo muito bem vindos, desde que tenham certa estrutura e não sejam muito leves. Alguns tintos podem ser  admitidos, mas com muito cuidado. À medida em que sublimamos os taninos, o vinho pode ficar muito leve, atrapalhando a harmonização.

Harmonização: Arroz de Marisco

30 de Abril de 2012

Aproveitando a menção das sete maravilhas da gastronomia portuguesa citada no artigo publicado neste blog sobre o queijo Serra da Estrela, vale a pena comentarmos o tradicionalíssimo Arroz de Marisco, originário das regiões de Estremadura e Ribatejo.

Ícone da gastronomia portuguesa

Pode ser encarado como uma versão da famosa caldeirada com a inclusão do arroz ou até, como uma paella à moda  portuguesa.

A receita original fala em mariscos locais como amêijoas, sapateira e berbigão. Aqui podemos substituir por vôngoles, mexilhões, siri e camarões, por exemplo. Cozinhe todos eles juntos ou separadamente, reservando seus respectivos caldos. Pode-se acrescentar no caso dos camarões, cascas e cabeças para concentrar mais o caldo. Em seguida, refogue o arroz com azeite, alho, cebola e tomate, adicionando um cálice de vinho branco. Após este processo, adicione os diversos caldo dos mariscos para o devido cozimento. No final, acrescente os mariscos com um pouco de salsinha ou coentro, conforme gosto pessoal. O resultado deve ser parecido com a foto acima, não deixando o arroz secar.

A harmonização com vinhos brancos é óbvia, dada a presença de frutos do mar com forte tendência a metalizar a maioria dos tintos. Se pensarmos em termos regionais, a Denominação de Origem Bucelas nos revela ótimos brancos para este prato. A principal uva é a Arinto, conhecida também com Pedernã, podendo ser complementada com as uvas Sercial (Esgana Cão, outro sinônimo) e Rabo de Ovelha. O vinho apresenta textura adequada ao prato, boa mineralidade e acidez refrescante. As versões com presença discreta de madeira podem ser satisfatórias. Quinta da Romeira é referência desta denominação, trazido pela Mistral (www.mistral.com.br). Outra opção portuguesa é o branco do Tejo (antigo Ribatejo) do produtor Quinta da Alorna. É um reserva branco com as castas Arinto e um pouco de Chardonnay com leve passagem por barrica, trazido pela importadora Adega Alentejana (www.alentejana.com.br).

Do lado italiano, duas ótimas sugestões. Um branco do Veneto da denominação Soave do belo produtor Pieropan com a uva local Garganega, trazido pela importadora Decanter (www.decanter.com.br). Outra opção, agora da Toscana, do sofisticado Angelo Gaja, é o Ca´Marcanda Vistamare. Um branco mesclando Chardonnay, Sauvignon Blanc, Vermentino e Viognier, da badalada sub-região de Bolgheri. Os dois apresentam boa mineralidade, aromas elegantes e discretos, sem arranhar os toques de maresia do prato.

 

 


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