Archive for Janeiro, 2018

Comunas e Estilos

8 de Janeiro de 2018

Quando tentamos traçar um paralelo entre as regiões francesas de Bordeaux e Bourgogne é sempre algo muito mais contrastante do que semelhante. Tudo que cerca esses dois terroirs são conceitos muito diferentes, além de solos, climas e uvas. Um dos únicos pontos em comum é que são vinhos igualmente divinos, que envelhecem bem, e atinge uma complexidade difícil de parear com outras regiões vinícolas. Evidentemente, estamos falando do que há de melhor nestes respectivos terroirs. Assim sendo, as mais nobres sub-regiões de cada um destes terrenos estão exemplificadas no mapa abaixo: Médoc em Bordeaux e Côte de Nuits em Bourgogne.

correlação de estilos

As principais comunas dessas regiões fornecem vinhos distintos e de muita personalidade. O estilo particular de cada comuna permite fazer uma analogia entre as duas regiões. A intensidade, sabor, aroma, e textura, não são os mesmos, mas há uma linha mestra que permite a comparação. Senão, vejamos.

Margaux e Chambolle-Musigny

São comunas que afloram sobretudo a elegância. Portanto, textura e aromas delicados, escondendo com sutileza a força e profundidade desses vinhos. Quando nos deparamos com os respectivos astros maiores, a comparação faz ainda mais sentido. Um grande Chateau Margaux possui uma estrutura fabulosa, capaz de vencer décadas em garrafa, sempre envolto em muita elegância. O Grand Cru Le Musigny é outro vinho monumental que segue o mesmo caminho, profundo e elegante. São vinhos com discrição, que precisam ser descobertos e apreciados com atenção e paciência.

Saint-Julien e Morey-Saint-Denis

O ponto em comum entre essas comunas é a imprecisão de estilos de seus vinhos. Saint-Julien, colada em Pauillac, tenta ter a mesma força com vinhos muito equilibrados. Às vezes, o estilo pende para Margaux. Da mesma forma, os tintos de Morey-Saint-Denis procuram ter a força de Chambertin com alguma delicadeza de Chambolle-Musigny. De toda a forma, ambas comunas fazem vinhos de grande consistência e longevidade.

Pauillac e Gevrey-Chambertin

Duas comunas de grande prestígio e com o maior número de Grands Crus em seus respectivos terroirs. Pauillac tem três dos cinco primeiros de Bordeaux. Gevrey-Chambertin possui nove Grands Crus, liderados pelos espetaculares Chambertin e Clos de Bèze. Outros vinhos logo abaixo do primeiro escalão procuram manter o alto nível dos grandes astros. Já os demais vinhos de cada uma das comunas ficam sensivelmente abaixo da perfeição. De fato, são terroirs muito distintos, de difícil replicação.   

Saint-Estèphe e Nuits-Saint-Georges

Comunas que não possuem Grands Crus em seus repectivos terroirs. Saint-Estèphe tem vinhos longevos e de muita distinção, mas falta-lhes um certo refinamento que os difere de um Pauillac, por exemplo. Nuits-Saint-Georges segue o mesmo caminho. Embora seja uma comuna relativamente extensa, os tintos produzidos mais perto de Vosne-Romanée tendem a ser mais delicados, mas falta-lhes finesse, a elegância suprema de Vosne. Pessoalmente, prefiro a autêntica rusticidade de um Gouges ou Faiveley. São mais verdadeiros e envelhecem muito bem.

Vosne-Romanée

Aqui não há comparação. Aqui não temos vinhos comuns. São tintos que aliam profundidade e elegância sem paralelos. Isso fica potencializado quando nos deparamos com produtores como Domaine de La Romanée-Conti, Domaine Leroy, e Henri Jayer. A Pinot Noir toma outra dimensão, gerando vinhos de alta complexidade e enorme longevidade. Do trio mágico acima, os DRCs costumam ser menos lapidados. Precisam de muito tempo em garrafa para mostrarem o que são. Agora, a alta costura dos vinhos de Madame Leroy e Jayer são indescritíveis. Eles imprimem uma elegância extrema, parecendo ser quase frágeis, mas com uma profundidade soberba.

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duas obras-primas sem paralelos

Para não ficar em cima do muro, um grande Vosne em algum momento de sua evolução apresenta uma intersecção com um belo Lafite envelhecido, o mais borgonhês de todo o Médoc. Lafite, sempre é um tinto discreto, misterioso, difícil de se mostrar quando novo. Contudo, quando envelhece, seus aromas etéreos lembrando flores e cedro, além da textura delicada, alguma coisa da Borgonha parece dançar pela taça.

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delicadeza bordalesa com traços borgonheses    

Enfim, apenas um pouco de filosofia comparando duas pequenas porções de terreno onde os maiores tintos do planeta se expressam. O dia em que cair a última gota de chuva e for removido o último estrato geológico na terra, ainda não se saberá porque a França é a indiscutível mestra dos vinhos.  Hugh Johnson!  

 

 

Obrigado, Maestro

4 de Janeiro de 2018

Iniciando 2018, Vinho Sem Segredo agradece a todos seus seguidores, sempre ávidos e em busca da boa mesa, dos bons vinhos, e de alguma fumaça azul. O ano que se foi há pouco, teve grandes momentos enogastronômicos, mas um disparadamente mereceu destaque, inclusive internacional. Reveja artigo neste blog, Quando o céu é o limite!

Recordando o evento numa mesa exclusiva para dez pessoas, John Kapon, um dos presentes, e um dos maiores degustadores e conhecedores de vinhos raros, habituado a grandes eventos, postou em seu site http://www.ackerwines.com, sua análise, e sobretudo sua enorme satisfação de participar no Brasil de um almoço com vinhos deste quilate. O link abaixo, detalha suas impressões. Muitos desses vinhos estão na sua lista do ano de 2017.

marcos flight john kapon

Obrigado, Maestro – Acker Merrall & Condit

Todo mundo idealiza uma degustação de vinhos excepcionais, vinhos de sonhos, que dificilmente estarão reunidos ao mesmo tempo, num mesmo evento. Neste caso, os vinhos e safras são irrepreensíveis. Senão vejamos, recordar sempre é bom.

Logo de cara, um trio de Krugs envelhecidos. Para muitos, o melhor champagne. Mesmo que você não concorde, é uma Maison de prestígio e qualidade irrefutáveis. Em seguida, um trio de Montrachets. Novamente, produtores como DRC e Ramonet da bela safra 1999 dispensam apresentações.

Passando aos tintos, Richebourgs DRC e Domaine Leroy safra 1988 mostraram a delicadeza e poder de envelhecimento destes Grands Crus. Pulando para o Rhône, quatro tintos de sonhos com safras maravilhosas. Primeiramente, o embate de Chateauneufs. Chateau Rayas e Henri Bonneau, ambos 1990, deram um show de expressão da casta Grenache. Em seguida, no Rhône Norte, Hermitages La Chapelle e Jean-Louis Chave de outra excepcional safra 1978. Momento, raro de provar essas preciosidades de Syrahs envelhecidos numa apelação que exige esse tempo em garrafa. A finalização se deu com dois Pauillacs de primeiro escalão, Mouton e Latour da safra 1959, felizmente meu ano. Decididamente, uma safra de Mouton daquelas inesquecíveis. E olha que bater um Latour 59 é quase uma missão impossível. De fato, a decisão foi no fotochart.

Como é difícil finalizar um almoço desse nível após desfile de vinhos encantadores. É claro que o anfitrião pensou em tudo, e o final tinha que ser arrebatador. Um trio de vinhos de sobremesa, de vinhos doces, ou melhor ainda, de néctares. O que falar de um Yquem 1921, um Porto Colheita Krohn 1900, e um Taylor´s Single Harvest 1863, pré-filoxera. Para escolher o melhor, só no palitinho. 

2018 promete, mas vai ser difícil superar este almoço. Contudo, se tratando do “Maestro”, nada é impossível. Ele conhece o caminho das pedras …

Falando agora de novidades, acaba de entrar na rede o site http://www.pisandoemuvas.com do meu grande amigo Roberto Rockmann. Fanático pelos vinhos da Borgonha, suas postagens são detalhistas sobre o assunto. Ele é capaz de esmiuçar cada um dos 640 Climats Premiers Crus, por exemplo. Além disso, têm vídeos, entrevistas, e belas dicas de enogastronomia.

Feliz 2018 a todos!

 

Espíritos do Caribe

2 de Janeiro de 2018

Nessas festas, além da bebida e comida, muitos Puros energizaram as expectativas do ano vindouro. Com eles, alguns espíritos e as inevitáveis comparações e harmonizações.

Cohiba  

Embora não seja uma marca de grande tradição, sua ligação com o comandante Fidel é visceral. Inicialmente criada exclusivamente para o governo cubano após a revolução, a marca foi comercializada em 1982. Rapidamente, o próprio Fidel, embaixador da novidade, fez dos Cohibas, o Puro mais sofisticado e de preços elevados. De fato, a marca alia potência e elegância numa sintonia admirável.

Cohibas de alta gama

O da foto à esquerda, é o clássico Cohiba Lanceros numa edição limitada de 2011. Conhecido como Laguito nº 1, é um charuto de 19 centímetros com um ring de 38, formato esguio e de capa escura. Muito bem construído, podemos começa-lo com um espresso forte, passando por um Madeira Boal ou Malmsey. Do meio pra frente ou no seu terço final, a intensidade da bebida precisa ser elevada mantendo a mesma textura. Neste caso, o guatemalteco Ron Zacapa XO tem força e elegância para um final intenso e macio. O Lanceros de cabo a rabo, mantem uma elegância ímpar, aumentando a potência final sem sobressaltos, mas pleno de sabor.

transição similar de texturas

Na foto à direita dos charutos acima, temos o mais exclusivo dos Cohibas, a linha Behike. Este em questão, é o de maior ring 56, que dá nome ao charuto. Um blend de folhas de maior potência, sempre mantendo a elegância como referência. Neste caso, podemos começar com um Negroni ou um Mojito, um pouco mais refrescante no verão. Em seguida, no terço final, um rum um pouco mais austero e potente, acompanhando a elegância de fundo neste Puro excepcional. O rum em questão é o da foto abaixo, Barceló Imperial Premium Blend, um dominicano com partidas extremamente envelhecidas e muito bem mescladas. Menos untuoso que o Zacapa mencionado, mas com uma força extraordinária.

potência crescente com final amplo

Falar de Montecristo, segunda foto abaixo, é falar da marca cubana mais vendida e de ampla tradição. Nascida a partir da H. Upmann, outra grande marca de Puros, sua linha segue  a receita de uma fortaleza média, agradando uma legião de fãs. Entretanto, Montecristo nº 2 foge do padrão da Casa, com sabores intensos e potentes. Cafés, Portos, Madeiras, e drinks clássicos, podem acompanhar bem o primeiro terço. Daí em diante, os destilados dominam a área. Runs de grande potência com o Barceló, podem cumprir bem o papel. Contudo, para emoções mais fortes, o poderoso Talisker, um Single Malt da ilha de Skye, tem explosão suficiente para encarar este incrível torpedo.   

um time respeitável dos grandes Havanas 

Na primeira foto acima, uma dupla de grandes módulos, mas com propostas extremamente diferentes. O da esquerda, o clássico dos clássicos, Romeo Y Julieta Churchill, imortalizado pelo grande primeiro-ministro inglês. Um show de elegância, jamais cansativo. Sua evolução é lenta e gradual num terço final marcante, mas muito agradável. Pode ser  perfeitamente acompanhado por Porto ou Madeira. Se a ideia for um destilado, cognac ou armagnac maduro na categoria XO. Se a mega-sena ajudar, vá de Louis XIII ou Richard, tudo que um cognac pode oferecer.

Já o Partagas Lusitanias, um double corona de grande fortaleza. Mantem uma relativa acessibilidade, mas não abre mão de fumadores experientes. Não tem a explosão do Montecristo nº 2, porém seus aromas vão num crescendo, pedindo certamente um grande destilado. Novamente, o Ron Barceló mencionado, é um final arrebatador para este Havana dos mais respeitados. Um Puro que pede paciência e reflexão.

Continuando nos potentes da marca Partagas, a primeira foto do artigo, mostra o duplo figurado Partagas Salomones com o incrivle ring 57. Definitivamente, para fumadores experientes. Sua construção é espetacular, exigindo os mais experientes torcedores. Não tem um impacto tão potente de início, mas sua evolução sinaliza sabores e aromas de grande intensidade. Decididamente, no terço final sobretudo, pede destilados de alto calibre. Por exemplo, o Talisker acima mencionado. Exige tempo e ritmo pausado em sua apreciação.

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Negroni, um clássico do coquetelaria 

Um dos charutos ainda não mencionado e presente nas fotos acima, é o torpedo Bolivar Belicosos. De construção impecável, foge totalmente da fortaleza da marca. Extremamente elegante, mostra-se ao longo de sua evolução, sabores e aromas sedutores sem perder em nenhum momento sua notável elegância. Pode ser acompanhado por Portos e Madeiras, ou drinks clássicos como Negroni, foto acima. Bebida e fumaça em grande sintonia. Um Puro de módulo versátil, jamais cansativo, perfeito para fazer parte do seu time para o dia a dia.