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Chateau Montrose x Sassicaia

13 de Março de 2015

Quer mais uma degustação ousada? A proposta acima é instigante, França versus Itália. Sassicaia, o pioneiro dos Supertoscanos, sacudiu o mundo no início dos anos 70. Um sonho do Marquês Mario Incisa della Rocchetta, apaixonado pelos vinhos bordaleses e com amizades nobres como Barão Éric de Rothschild, proprietário do mítico Château Lafite. O Marquês acreditava piamente que a região de Bolgheri, próxima ao mar Tirreno, e com solo pedregoso (Sassicaia vem de um dialeto local relacionado a pedras), era extremamente propício às castas bordalesas. No início da saga, as primeiras mudas de Cabernet foram trazidas do nobre Château acima. Como todo início, não foi nada fácil. Vinhas novas, métodos de cultivo e vinificação ainda experimentais, não animaram muito nas primeiras colheitas sendo as cobaias, familiares e amigos. Em certa ocasião, Piero Antinori, primo do Marquês, provou o vinho e vislumbrou seu potencial. Chamou então seu enólogo Giacomo Tachis, uma espécie de Émile Peynaud da Itália, para lapidar aquele diamante bruto. O sucesso não tardou a chegar, com críticos ingleses embasbacados diante de um simples Vino da Tavola. O caldo era muito sofisticado para humilde denominação. E assim foi criado o termo Super Tuscans.

O assemblage do Sassicaia é praticamente Cabernet Sauvignon (85%) com uma pequena porcentagem de Cabernet Franc (15%). É amadurecido em barricas de carvalho francês por 24 meses. Um modelo clássico bordalês de margem esquerda. Como todo italiano, seus taninos e sua acidez são firmes e presentes na juventude. Projetado como vinho de guarda, é um tanto difícil sua apreciação quando jovem. Contudo, envelhece maravilhosamente por décadas, de acordo com a potência da safra. O 1985 da foto abaixo, continua esplêndido.

A melhor safra: Nota 100

A descrição e características acima vão bem de encontro com o estilo Montrose, um Saint-Estèphe clássico e austero no juventude. Esta comuna, bem ao norte do Médoc, apresenta uma proporção maior de argila que as demais comunas famosas como Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Este solo mais frio faz com que o vinho seja mais duro, com taninos mais firmes, e acidez mais presente. Estes fatores faz de um Montrose um dos vinhos mais longevos e gastronômicos da margem esquerda. A foto abaixo, mostra um dos maiores Montroses da história.

Apesar de jovem, outro nota 100

O Assemblage de Montrose prevê em média, dois terços de Cabernet Sauvignon, quase um terço de Merlot, e uma pitada de Cabernet Franc. O vinho amadurece entre 16 e 18 meses em barricas francesas, sendo em média 40% novas. Montrose faz parte da elite de Saint-Estèphe juntamente com o Château Cos d´Estournel, embora os estilos sejam bem diferentes.

Quanto ao Sassicaia, da famosa Tenuta San Guido, começou humilde como um Vino da Távola até atingir a Denominação de Origem Bolgheri Sassicaia em 1994, diferenciando-se dos demais tintos sofisticados de Bolgheri como por exemplo, o grande Ornellaia.

Para esta degustação às cegas com dois ou três exemplares de cada lado, é imperativo uma decantação de pelo menos duas horas para os vinhos, sobretudo se forem jovens, ou seja, menos de dez anos de safra.

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte VII

27 de Outubro de 2014

Após o primeiro dia em Bordeaux, hospedados no Chateau Cos d´Estournel, um super deuxième da comuna de Saint-Estèphe, fomos dia seguinte assistir parte da colheita da promissora safra de 2014. Após almoço informal com o pessoal da colheita e toda a parte técnica que dita as regras para a concepção do “Grand Vin”, fomos à Saint-Emilion visitar o prestigiadíssimo Chateau Ângelus, maravilhosamente recebidos pelo proprietário, Hubert de Boüard. Recentemente, o Chateau foi promovido em 2012 na classificação oficial de Saint-Emilion a Premier Grand Cru Classe “A”, ladeando os míticos Chateaux, Cheval Blanc e Ausone.

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2012: Safra da promoção à classe “A”

Nesta visita, tivemos a oportunidade de provar a safra 2009 com 99 pontos de Parker e comprovar seu enorme potencial. Um agradável infanticídio com o vinho mostrando uma cor profunda, aromas de frutas muito concentrados, algo balsâmico, defumado e um final longo e muito bem acabado.

No almoço no Chateau Cos d´Estournel, uma pequena amostra do que provamos, conforme fotos abaixo:

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Pequena vertical do Château

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Torta de maça e amêndoas com Tokajis

Na foto acima, as três safras do Chateau, 2000, 1986 e 1982, mostraram-se bem distintas. A safra de 2000, ainda a evoluir com ótimo potencial. A safra de 1986, já acessível, mas com muita estrutura para guarda e a excepcional 1982, um vinho de corpo, estrutura, aromas evoluídos e taninos sedosos, além de um final longo e sedutor. Para encerrar o almoço, uma bela torta de maças e amêndoas, acompanhada de maravilhosos Tokajis da vinícola Hétzölö, pertencente ao grupo vinícola do próprio Château.

À noite, jantar refinado nas dependências do Château com vinhos especialíssimos. Iniciamos com Champagne Michel Reybier Premier Cru, também pertencente ao grupo vinícola do Château, seguido de uma bateria de brancos Cos d´Estounel, conforme fotos abaixo:

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Elefante: Logo do Château

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Cos d´Estournel Blanc: Relativamente recente

Em seguida, começou o desfile de vinhos. Inicialmente, um dos maiores tintos do Rhône Sul, Chateau de Beaucastel Hommage a Jacques Perrin 1990. Uma grande safra em todo seu esplendor. Rica em aromas balsâmicos, frutas em compota, especiarias e o característico toque animal deste domaine. Na sucessão, outro vinho de legenda, Tenuta San Guido Sassicaia 1985, o maior dos Sassicaias. Vinho ainda um pouco fechado, mas com taninos de rara textura. Corpo e equilíbrio de campeão. Talvez outras garrafas estejam mais abertas, mais aromáticas, e possam comprovar de fato a grande safra deste toscano. Para não baixar o nível, que tal um Chateau Cheval Blanc 1947?. Para muitos, o melhor Bordeaux já elaborado em toda a história. Contudo, nada é perfeito, esta garrafa não estava em bom estado. Não diria oxidado, mas extremamente cansado. É aquilo que falamos sempre: Em safras antigas, não existem grandes safras e sim, grandes garrafas. Uma pena de quinze mil euros! As fotos seguem abaixo.

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Grande cuvée deste belo château

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1985: Safra mítica deste toscano

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Uma garrafa ingrata

Agora finalizando, uma seleção da estrela da casa, Château Cos d´Estournel 1964, 61, 75, 82 e 85, de tirar o fôlego. Evidentemente, o 64 é um vinho pronto com aromas de evolução e taninos completamente polimerizados. Pronto para beber. Já o 75, sempre polêmico. Parece que existem taninos que nunca vão se resolver. Contudo, apresenta um conjunto agradável, além de ser um vinho bastante gastronômico. Quanto ao 61, sempre uma grande safra. Seu poder de longevidade impressiona, embora esteja num ótimo momento para ser tomado. Por último, as grandes safras de 82 e 85. Vinhos de corpo, estrutura, um autêntico margem esquerda. Apesar de 85 ser extremamente prazeroso nos aromas e em boca, 82 costuma amplificar tudo isso numa espécie de zoom. Os dois maravilhosos, inteiros e com vida pela frente. Platô amplo de evolução. As fotos seguem abaixo.

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Nossa turma com o Capo do Château na cabeceira

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Bela evolução de um antigo margem esquerda

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1961: Safra mítica em Bordeaux. Vida longa

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Safra 1982 é o 1985 com zoom

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Safra 1975: Polêmica, mas de respeito

Terminado o “sacrifício” à mesa, vamos filosofar um pouco com puros e digestivos. Afinal, ninguém é de ferro. Para o start, um Porto Vintage Warre´s 1983, devidamente decantado e mostrando uma bela evolução. É lógico que trata-se de um adolescente, pois estes Vintages evoluem por décadas. Acompanhou muito bem as primeiras baforadas do Cohiba safrado 1966. Numa sala extremamente aconchegante, os Puros evoluíram escoltados por uma primorosa seleção de Cognac e Bas-Armagnac antes de sonhar com os anjos. As fotos seguem abaixo.

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Warre´s: Casa do Porto inglesa mais antiga

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Uma das nobres salas do Château: Convite a belos Puros

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Os grandes cubanos também têm safra

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Cognac e Bas-Armagnac ultraselecionados

A seleção de destilados foi espetacular. Um Bas-Armagnac de 1985 com seus quase trinta anos apresentou-se macio e de persistência armática admirável. Já o Cognac Grande Champagne é um terroir raríssimo, normalmente mistura-se ao terroir secundário de Petite Champagne, formando então o Fine Champagne. Já fizemos artigo específico neste mesmo blog. Tudo tem a ver com a proporção de calcário no solo que transmite finesse e elegância ao destilado. Bom, chega de conversa, pois a cama me espera após esta longa jornada. Au Revoir!

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Chateau Calon-Ségur

15 de Maio de 2014

Em mais um almoço com o amigo Cesar Pigati, grande companheiro da boa mesa, dividimos uma garrafa de um Grand Cru Classé de Bordeaux. Trata-se do tradicional Troisième Château Calon-Segur safra 1996, uma das melhores das últimas décadas para o tinto em questão. De fato, o vinho estava num bom momento para consumo, embora tenha longa vida pela frente, pelo menos mais dez anos. Seus discretos 12,5 graus alcoólicos foram perfeitamente equilibrados com a habitual acidez de um Saint-Estèphe, de solo mais argiloso, além de uma estrutura tânica invejável. Taninos polidos, ainda não totalmente polimerizados, mas perfeitamente casados com a suculência e gordura de um belo carré de cordeiro.

chateau calon segurImponente como a foto

A história do Château remonta o século XVIII quando o marquês Nicolas-Alexandre de Ségur era proprietário dos Châteaux Lafite, Mouton e Latour, chamado por Luis XV de “Príncipe das vinhas”. Seu casamento unindo-se à família Gasqueton permitiu a posse de mais uma propriedade, denominando-a de Calon-Ségur. Calon era o nome dado a embarcações na idade média para a travessia do Gironde de uma margem à outra. O afeto pelo château era de tal maneira que proferiu a seguinte frase: “Faço os vinhos de Lafite e Latour, mas meu coração está em Calon”. Esta declaração é perpetuada em seu rótulo na forma de um coração envolvendo seu nome. Não confundi-lo com o Château Phelan-Ségur, este um Cru Bourgeois também de prestígio.

calon segur 1996A cor surpreendente de um Bordeaux na maioridade 

A foto acima traduz bem a lenta evolução dos grandes tintos de Bordeaux. Este com seus dezoito anos mal apresenta um leve indício atijolado nas bordas, sugerindo ainda bons anos de guarda. Um grande Saint-Estèphe pede longa guarda, pois na juventude é um tinto de taninos firmes e acidez insolente. Só o tempo é capaz de domar e integrar devidamente estes componentes. Sua composição segue a linha clássica do corte medoquino: 65% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot e 15% Cabernet Franc. As vinhas têm em média quarenta anos de idade e o vinho amdurece em barricas de carvalho por vinte e quatro meses, sendo de 30 a 50% novas.

Na elite desta apelação (comuna de Saint-Estèphe) temos os Châteaux Montrose e Cos d´Estounel. O primeiro de estilo mais tradicional, enquanto o segundo tem seu exotismo, inclusive em sua arquitetura. Mas como disse o Marquês, temos sempre um lugar no coração para um belo Calon-Ségur. Santé!

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Sommellerie: Concursos

31 de Março de 2014

Depois de acompanhar vários campeonatos de sommeliers, tanto regionais, nacionais e alguns mundiais, sempre questiono o formato dos mesmos. É claro que trata-se de uma opinião pessoal. Longe de mim, pretender ou influenciar alguma mudança em seus padrões clássicos. Ocorre que certas etapas poderiam ser renovadas, proporcionando outra dinâmica a esses campeonatos. É o caso da degustação às cegas onde geralmente três vinhos são apresentados ao candidato sem nenhuma pista de sua origem quanto às uvas, regiões, denominações, safras, ou quaisquer outros parâmetros. Na prática, torna-se quase impossível adivinhar tais vinhos, mesmo com degustadores experimentados e de largo conhecimento. Além disso, são geralmente escolhidos vinhos de uvas raras, denominações quase desconhecidas, propositalmente para não serem identificados. Fica sendo mais uma diversão aos jurados, analisando os argumentos dos tensos candidatos. Mesmo para os melhores do mundo, não é tarefa fácil.

Paolo Basso: O atual campeão mundial

Na minha ótica, seria muito mais proveitoso, além de testar com lógica e eficiência os candidatos, propor-lhes uma degustação didática com temas interessantes. Por exemplo, três tintos de Bordeaux às cegas, sendo um de cada comuna do Médoc. Digamos, Pauillac, Saint-Estèphe e Margaux. Os candidatos poderiam através das taças, exporem as características específicas de cada comuna com um grau de detalhamento proporcional ao conhecimento técnico de cada um. Os candidatos ficariam mais à vontade para uma argumentação e o julgamento teria dados mais palpáveis para uma avaliação justa.

Vin Jaune do Jura e um velho Comté

Outra proposta interessante, seria pedir para cada candidato citar três vinhos diferentes de sua preferência. Conforme a resposta de cada um, viria a segunda pergunta. Para cada um dos vinhos citados, que tipos de prato o candidato em questão, proporia para seus vinhos escolhidos. Evidentemente, as características dos vinhos escolhidos teriam que ser comentadas, bem como os argumentos enogastronômicos para os pratos escolhidos. Neste tipo de avaliação, o conhecimento técnico e a experiência de cada candidato fariam uma enorme diferença entre os mesmos. Se por um lado, a escolha de vinhos mais simples e compatibilizações mais óbvias empobreceriam o desempenho de certos candidatos, em contrapartida, a escolha de vinhos mais complexos e compatibilizações mais surpreendentes dentro de um perfil técnico por parte de sommeliers mais diferenciados, resultariam em avaliações mais precisas e mais justas, separando claramente o joio do trigo.

Estas são apenas algumas ideias de renovação. O argumento mais citado para a permanência de padrões clássicos dos campeonatos reside no fato de proporcionar condições exatamente idênticas a todos os candidatos. Mesmo assim, continuo achando que a avaliação é imprecisa e amputa a oportunidade de percepção dos vários níveis de conhecimento dos candidatos, os quais estão calcados nas diversas experiências e trajetória de carreira de cada um. É como a seleção de executivos para um determinado cargo. O entrevistador deve ter a perspicácia de explorar pontos interessantes na conversa, de acordo com as experiências do candidato. Sendo assim, as entrevistas são sempre diferentes entre si e muito mais criteriosas.

Voltando aos concursos, esta nova dinâmica obrigaria os jurados a serem mais interativos, proporcionando situações bem menos previsíveis e por que não, por vezes surpreendentes. Neste contexto, a banca de jurados tem experiência e grau de conhecimento suficientes para lidar com situações diferentes e realizar julgamentos precisos e justos dentro do rigor técnico esperado.

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Particularidades: Saint-Estèphe e Margaux

15 de Julho de 2013

Nesta última degustação na ABS-SP (10/07/13) com vinhos de Bordeaux, dois tintos foram destaques: Château Sociando-Mallet 2005, apelação Haut-Médoc e Château Prieuré-Lichine 2009, Troisième Grand Cru Classé de Margaux. Duas safras de prestígio, não tendo portanto as desculpas de fatores climáticos.

Bela safra a ser guardada

Ficou bem claro, as diferenças de estilo entre os dois vinhos. Prieuré-Lichine, mostrou as principais características de Margaux, com toques florais e de sous-bois (folhas secas e úmidas em decomposição), a textura macia em boca, taninos sedosos, e a expansão de um Grand Cru Classé. Um leve pecado, foi uma ponta de álcool a mais, deixando-o um pouco quente. É um dos melhores em toda a história do Château, merecendo de Parker a nota 93. Pessoalmente, fiquei em 91 pontos. Importado pela Casa Flora ou Porto a Porto (www.casaflora.com.br). 

Um Haut-Médoc de respeito

Passando agora ao Sociando-Mallet, ele tem a marca de um grande Saint-Estèphe. Embora pertença à apelação Haut-Médoc, ele fica muito próximo da comuna mencionada. Saint-Estèphe apresenta limites a sul pela vala de drenagem denominada Jalle du Breuil ou Chenal du Lazaret, e a norte, o canal denominado Estey d´Un. Pois bem, o Château Sociando-Mallet fica na comuna de Saint-Seurin-de-Cadourne, vizinha a norte de Saint-Estèphe. Propriedade de Jean Gautreau, este ex-Cru Bourgeois (retirou-se desta classificação após inúmeras confusões para uma nova reclassificação) é pessoalmente o melhor Château de margem esquerda, excetuando os Grands Crus Classés, embora às cegas, já tenha pregado muitas peças. A safra de 2005 mostra uma estrutura tânica vigorosa e bem delineada com taninos de grande qualidade. A acidez de Saint-Estèphe é bem marcada neste vinho, dando mais um componente de estrutura em busca da longevidade. É bom lembrar que o solo aqui é mais argiloso, proporcionando vinhos mais firmes e austeros. Os aromas são o clássico Cassis (frutas escuras), tabaco, couro, chocolate e ervas finas. Bons anos pela frente, se bem adegado. Parker cravou 91+ pontos. Pessoalmente, acho que ele merecia um pontinho a mais. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br). 

Croupes Graveleuses: O caminho das pedras

24 de Junho de 2013

Médoc: Margem esquerda de Bordeaux

Mais uma vez voltamos a Bordeaux, mais especificamente em Médoc, a chamada margem esquerda. De todos os inúmeros fatores que fazem desta região um terroir de grande prestígio, o fator drenagem do terreno é em última análise o que determina a qualidade de um verdadeiro “Grand Cru Classé”. 

Para entendermos melhor esta história, voltemos ao século dezessete, onde engenheiros holandeses, especialistas em represamento de águas, drenaram toda a região do Médoc, até então encharcada de água, dificultando muito a agricultura local. Neste trabalho, foram executadas algumas valas de drenagem, muitas delas  servindo de divisa entre as comunas mais famosas como Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien e Margaux. Como resultado, em algumas áreas distintas, observou-se uma suave elevação de terreno (croupe), semelhante ao relevo de um campo de golfe. No entanto, em vez de grama, um solo pedregoso (graves), permitindo excelente drenagem e assim, acumulando água em camadas mais profundas. Para se ter uma ideia deste relevo em termos de altitude, o ponto mais alto do Médoc não passa de quarenta e três metros em relação ao nível do mar, sendo que os melhores vinhedos estão bem longe desta marca.

Graves: boa drenagem e calor para as vinhas

A origem destas pedras remonta milhões de anos, envolvendo cataclismos e eras glaciais, incluindo os Pirineus e o Maciço Central. Com o cíclico movimento das marés no rio Gironde, essas pedras acumularam-se exatamente nestas croupes, dando origem ao velho dita medoquino que diz: “as melhores vinhas são aquelas que olham o rio”. 

Pauillac - Vignes du Château Latour  en bordure de Gironde - Photo Michel CRIVELLARO

Château Latour: Vinhas olhando o rio

Esse fator, de certo modo, acaba influenciando na famosa classificação de 1855 dos crus bordaleses com a polêmica divisão em cinco níveis ou grupos, ou seja, do primeiro ao quinto caldo. Evidentemente, os cinco primeiros do Médoc (Haut-Brion, Lafite, Mouton, Latour e Margaux) não se discute. Seus vinhedos estão plantados nas melhores e mais espessas croupes da região. Entretanto, do segundo ao quinto caldo há muita dispersão entre as comunas.

Começando pelos Deuxièmes (segundos classificados), dos catorze châteaux escolhidos, cinco são da comuna de Saint-Julien e outros cinco da comuna de  Margaux. Embora Saint-Julien não tenha nenhum Premier Grand Cru Classé, as croupes estão bem espalhadas na comuna com châteaux de altíssimo nível. A comuna de Margaux impressiona mais ainda, por não ser tão compacta como Saint-Julien. É uma comuna mais extensa, mas mantém uma ótima distribuição das croupes. Isso é confirmado na classificação dos Troisièmes (terceiros caldos) com dez châteaux de Margaux entre os catorze classificados. Novamente, Saint-Julien e Margaux equilibram-se na classificação seguinte dos Quatrièmes (quartos classificados), onde temos dez châteaux no total. 

Já na última classificação, dos dezoito châteaux Cinquièmes (quintos classificados), doze são da comuna de Pauillac, ainda não mencionada nesta análise. Sabemos que dos cinco Premiers do Médoc, três são desta famosa comuna (Latour, Lafite e Mouton). Entretanto, a natureza não foi tão igualitária na distribuição das croupes, concentrando o que há de melhor para os três châteaux, com as camadas mais espessas de cascalho de todo o Médoc. Com isso, Pauillac é a comuna com maior disparidade entre os châteaux, confirmando outra máxima medoquina: “o solo do Médoc muda a cada passo”.

Saint-Estèphe - Château Cos d'Estournel -Deuxième Grand Cru Classé- Photo Marion CRIVELLARO

Cos d´Estournel: Château em grande forma

Saint-Estèphe, comuna ainda não mencionada, não foi tão abençoada pelas croupes, talvez até por sua posição geográfica em relação ao Gironde (é a comuna mais ao norte do Médoc). Contudo, as duas belas exceções são os châteaux Montrose e Cos d´Estournel. Aliás, na linguagem do Médoc, Cos significa Croupe.

Saint-Estèphe et PauillacJalle du Breuil: divisa de comunas

O mapa acima mostra na parte superior a divisa entre as comunas de Saint-Estèphe e Pauillac através da vala ou canal de Breuil, em francês Jalle du Breuil. Apenas quinhentos metros separam o Chãteau Cos d´Estournel do Château Lafite. Distância suficiente para diferenciar um Premier Cru de um Deuxième Cru. É a morfologia das croupes fazendo a diferença.

Bordeaux: Parte II

4 de Fevereiro de 2010

 

Margem Esquerda

Para começarmos a detalhar Bordeaux, vamos direto ao ponto: Vinhos da Margem Esquerda. Mas margem esquerda do que? margem esquerda do rio Gironde, sempre no sentido de olhar o mapa de Bordeaux, nunca esquecendo dos três grandes rios mostrados no artigo passado (Garonne, Dordogne e Gironde). A rigor, podemos incluir também a margem esquerda do Garonne, mas de fato é o Médoc, o grande astro desta constelação.

Médoc é a contração de uma expressão latina ¨in medio acquae¨, ou seja, entre as águas (Gironde e Atlântico). Essas águas até o século XVII, proporcionaram terras extremamente lodosas na região, impróprias para a viticultura. Duas ações muito importantes foram decisivas para mudar este cenário: plantação de pinheiros em todo lado atlântico do Médoc e um trabalho especializado de drenagem em todo lado direito por engenheiros holandeses (mestres nesta arte). Podemos dizer literalmente que o terroir medoquino foi forjado pelo homem.

As consequências foram extremamente positivas. Os pinheiros que hoje formam a floresta denominada Landes, com mais de um milhão de hectares, limitada a sul pelos Pirineus, barram os ventos úmidos e salinos do Atlântico. Já a drenagem próxima ao Gironde, fez aflorar um solo de cascalho, conhecido também como graves, oriundo de outras eras geológicas relacionadas a cataclismas tanto nos Pirineus, como no Maciço Central, além evidentemente, do próprio leito do Gironde. Devido a vários fatores como topografia e heterogeneidade do terreno, a drenagem em toda a região é bastante variável, dando margem a um velho ditado: o solo do Médoc muda a cada passo. Portanto, o fator drenagem é preponderante aos demais quando se fala de terroir em Bordeaux, notadamente na chamada margem esquerda, principalmente, porque a altitude é muito baixa, tendo como pico, 43 metros acima do nível do mar.

Disso tudo, vem a explicação para as famosas comunas do Médoc, como mostra o mapa acima. É interessante notar que Saint-Estèphe, Pauillac e Saint-Julien estão coladas e Margaux um pouco mais abaixo, isolada. Aqui percebemos claramente a ação da drenagem. O cascalho aflora com grande vigor nas três primeiras comunas e depois desaparece, voltando a florescer na comuna de Margaux.

Em consequência da boa drenagem, solo destacadamente pedregoso, e clima ameno permitindo um período de amadurecimento longo das uvas, a Cabernet Sauvignon sente-se em casa, mostrando todo seu potencial. Essas condições de terroir mostram vinhos extremamente estruturados, tânicos, longevos, sem jamais perder uma elegância singular.

A Cabernet Sauvignon no Médoc é complementada pela Merlot e Cabernet Franc, alem da Petit Verdot e Malbec eventualmente em proporções diminutas, formando o chamado corte bordalês. A Merlot principalmente, procura aparar as arestas da Cabernet Sauvignon, deixando o vinho mais macio e menos austero, sobretudo quando jovem. Em seu longo envelhecimento na garrafa, o famoso corte aportará complexidade aromática e textura diferenciada.

A proporção dos cortes, a vinificação cuidadosa e o amadurecimento criterioso  em barricas de carvalho são mais alguns segredos dos grandes bordeaux.

As quatro principais comunas guardam diferenças importantes entre si, além do estilo imprimido pelo  produtor tanto no campo, como na cantina.

Saint-Estèphe

Esta é a comuna de menor prestígio embora sem nenhum demérito. Costuma-se dizer que seus vinhos não possuem a finesse das demais comunas. Entretanto, há um certo exagero. Aqui notamos um solo um pouco frio, menos pedregoso e mais argiloso. Esses fatores provocam vinhos com mais acidez e certa austeridade, principalmente quando jovens, necessitando de algum tempo em garrafa. São vinhos para quem tem paciência em esperar seus ricos aromas terciários.

Do exposto acima, o vinho que mais emblematiza esta comuna é o Château Montrose, além de seu segundo vinho ser uma boa pedida (La Dame de Montrose). Seu grande rival é o Château Cos d´Estournel. Um estilo mais macio e moderno, mas extremamente elegante.

Pauillac

Para muitos, a perfeição em Médoc. Daqui saem três dos cinco primeiros classificados em 1855: Château Lafite, Mouton e Latour. Elegância enigmática, exuberância e imponência são respectivamente, expressões vagas para tentar definí-los.

Nesta comuna, a proporção de cascalho é alta, favorecendo toda a potencialidade da Cabernet Sauvignon. Os aromas de cassis na juventude e de tabaco na maturidade são notáveis. São vinhos sedutores, mesmo quando jovens, a exemplo do grande Château Pichon Lalande. Para completar, envelhecem com grande propriedade.

Outros châteaux de destaque: Lynch-Bages, Pichon Baron e Pontet-Canet.

Saint-Julien

Apesar de não possuir nenhum Premier Grand Cru Classé, seus vinhos são de tirar o fôlego, além de uma consistência impressionante.  O terroir é muito próximo a Pauillac com uma camada igualmente expressiva de cascalho. Mas como a vida é feita de detalhes, falta o imponderável que sobra em sua vizinhança. Dois châteaux exprimem bem a riqueza, a força e a personalidade desta comuna: o maior dos Léovilles, Château Léoville Las Cases e o irretocável Château Ducru-Beaucaillou.

Château Léoville Barton e Gruaud Larose  merecem destaque também.

Margaux

Elegância e feminilidade são marcas registradas desta comuna. Um pouco mais de cálcario no solo e um cascalho mais fino e abundante tentam explicar estas características. Aromas florais (violetas) principalmente quando jovem e um toque de sous bois quando evoluído, ditam suas principais características. O mítico Château Margaux é atualmente um dos melhores  entre os seletos Premiers Grands Crus Classés. Paul Pontalier, seu grande mentor, faz um trabalho preciso, discreto e contínuo desde 1983.

O segundo nome, quase uma unanimidade, é o exemplar Château Palmer, seguido de perto pelo Rauzan-Ségla. Château Durfort-Vivens pode ser uma boa experiência também.

Considerações finais

Todos os chãteaux mencionados até agora nas quatro famosas comunas do Médoc fazem parte da imutável classificação de 1855 que dividiu em cinco grupos os sessenta melhores vinhos da época, ou seja, premiers, deuxièmes, troisièmes, quatrièmes e cinquièmes crus, no linguajar francês. Esta classificação dos crus classés  está disponível no site oficial de Bordeaux (www.bordeaux.com).

Olhando mais uma vez o mapa acima, as quatro comunas fazem parte do chamado haut-médoc (toda área rosa claro), que inclui também as comunas não tão famosas, Listrac e Moulis.

Muitos châteaux não classificados dentro do haut-médoc tem boa reputação e muita regularidade, sendo portanto, discriminados por não fazerem parte da pomposa classificação aristocrática. Desta injustiça, nasceu a interessante classificação da burguesia, os chamados crus bourgeois. Podem ser excelentes pedidas tanto pelo preço, como pela evolução mais rápida em garrafa. Neste contexto, a menção do château Sociando-Mallet é obrigatória. Vinho de alta distinção com todas as credenciais do estilo médoc. Os châteaux Chasse-Spleen, Gloria e Phélan-Ségur geralmente são pedidas certas.

Em resumo, podemos dizer que os vinhos da margem esquerda fundamentam-se na Cabernet Sauvignon, monstrando-se austeros e estruturados. Portanto, aptos ao envelhecimento.

Fora da classificação de 1855 e da relação de Crus Bourgeois, ainda que anulada temporariamente desde sua última revisão em 2003, as chances de sucesso nos demais châteaux, que não são poucos, tornam-se diminutas. Nestas situações, conhecer a fundo o produtor é fundamental para a perfeita expressão de seu respectivo terroir.

Próxima parada: Graves com seus grandes brancos e tintos.