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Saint-Emilion: Terroir e Classificação

3 de Junho de 2013

Dentre as várias classificações na famosa região vinícola de Bordeaux, uma das mais polêmicas e porque não dizer das mais confusas, é a dos vinhos de Saint-Emilion, sub-região importante da chamada margem direita. Esta classificação criada em 1954, prometia ser revisada de dez em dez anos, acompanhando a evolução dos principais châteaux. Tudo corria relativamente bem até que em 2006, houve confusão generalizada, acabando nos tribunais da região. Somente em 2012, foi promulgada uma nova classificação, selecionando dezoito Premiers Grands Crus Classés e sessenta e quatro Grands Crus Classés, conforme tabela abaixo. É só clicar.

http://www.vins-saint-emilion.com/sites/default/files/vins-de-saint-emilion-classement-2012.pdf

É bom salientar que esta nomenclatura vale só para os vinhos de Saint-Emilion. A famosa classificação de 1855, referentes ao vinhos do Médoc, tem outro tipo de nomenclatura. Por isso, muitas vezes a confusão de vários termos. O pomposo termo Grand Cru Classe em Saint-Emilion na prática, não quer dizer muita coisa. Portanto, dentre esses sessenta e quatro châteaux descritos, talvez uma dúzia faça jus ao título. Por exemplo, château Berliquet, Pavie Decesse, Fonroque, Fombrauge, Clos de l´Oratoire, Couvent des Jacobins, La Dominique, Grand Mayne, La Serre e Clos des Jacobins.

Château Pavie: Polêmico, porém marcante

Já no grupo dos dezoito Premiers Grands Crus Classés, a confiabilidade é praticamente total. Vinhos de terroir, profundos, embora de estilos diversos. Evidentemente, Cheval Blanc e Ausone marcaram supremacia durante décadas com a designação A, diferenciando-se dos demais. Na classificação atual, ganharam a companhia dos châteaux Pavie (acima) e Angelus (abaixo) com a mesma designação. Se estão à altura, só o tempo dirá, mas os preços certamente subirão com o novo status.

Château Angélus: em ótima forma

 Angelus parece ser mais europeu, mais sóbrio, enquanto Pavie é mais direto, mais exuberante, mais invasivo. Talvez a grande proporção de Cabernet Franc no corte do Angelus, explique esta finesse, esta elegância, semelhante ao corte do grande Cheval Blanc. Do lado de Pavie, a grande proporção de Merlot, é responsável pela fruta exuberante, taninos dóceis, e textura macia, mesmo relativamente novo. Não nos esqueçamos que na famosa degustação às cegas, onde o plebeu Château Reignac balançou grandes nomes da margem direita e esquerda num artigo deste mesmo blog intulado: “Degustação às cegas: Existem Experts?”, o grande vencedor na média foi o Château Angelus, descrito como um vinho elegante e equilibrado. O equilíbrio entre argila, calcário e areia, nas várias partes da colina em seus vinhedos parece ser a chave do grande sucesso e ascensão.

Em tempo, a apelação rival de Pomerol continua sem classificação oficial. A única certeza é que Château Petrus segue seu reinado, seguido de perto pelo Château Le Pin, pelo menos em preços.

Harmonização: Magret de Canard

14 de Junho de 2010

Um clássico francês com diversas opções

O famoso peito de pato com a característica capa de gordura lembra visualmente um pouco a nossa tradicional picanha fatiada. Podemos até chamá-lo intimamente de picanha de pena.

Apesar de ser uma ave, que na maioria da vezes combina tão bem com os borgonhas, o pato é um caso à parte. Este corte em particular, deve ser apreciado mal passado. Tanto a textura mais rígida da carne, como o sabor mais pronunciado, faz-nos optar por tintos mais estruturados, como os bordeaux, por exemplo. Eles têm a força necessária, sem perder a habitual elegância. Mas isso não é o bastante. É fundamental, sabermos o tipo de molho que geralmente acompanha o magret e até eventualmente uma guarnição que fuja da típica neutralidade.

Molhos à base de frutas escuras incorporados a caldo de carne, pedirão tintos com mais fruta e juventude, equilibrando melhor o fator agridoce do molho. Dentre os bordeaux, podemos optar pelos vinhos de Pomerol relativamente novos, seguidos de perto pelos de Saint Emilion, todos da margem direita. As escolhas do Novo Mundo com varietais como Merlot, Syrah ou Malbec costumam ter fruta e força suficientes, porém sempre com o risco de sobrepujar o prato. Normalmente, esses vinhos são muito potentes.

Molhos de redução que envolvam caldo de carne, deglassagens, incorporação de foie gras e/ou cogumelos, não transmitindo portanto esse caráter agridoce, pedem vinhos mais sofisticados, complexos e de certa evolução, com aromas terciários. Nestes casos, podemos pensar em bordeaux envelhecidos de margem esquerda, com taninos presentes e bem resolvidos. Côte-Rôtie, um Syrah do Rhône mais delicado que o Hermitage, também é uma ótima pedida. Tintos de alta gama do Novo Mundo com certo envelhecimento podem ter sucesso, desde que não sejam os chamados blockbusters.

Por último, o clássico molho de laranja, muda todo o panorama. O lado cítrico, além do caráter agridoce com acidez mais acentuada, aniquila praticamente todos os tintos. Portanto, a melhor alternativa é um branco com sabores marcantes, alguma tendência doce e aromas sintonizados com a laranja. Um alsaciano de estirpe com a uva Gewürztraminer (um excelente produtor como Zind-Humbrecht) é uma harmonização surpreendente. O corpo do vinho é compátivel com o prato, seu caráter agridoce é perfeito, e seus toques florais e de  especiarias complementam sob medida os sabores do prato. Procure fazer fatias não muito espessas de magret para uma sintonia precisa de texturas entre a carne e o vinho.

Outros clássicos como Confit de Canard, ficam para um futuro post. O pato de um modo geral, é muito difundido e apreciado no sul da França, mais especificamente no sudoeste francês. Portanto, vinhos regionais nos dão uma bela dica de harmonização e abrem caminho para prospectarmos outras opções compatíveis.

Bordeaux: Parte IV

19 de Fevereiro de 2010

 

 

 

 Margem Direita

  

Mais uma expressão clássica: vinhos da margem direita. Pelo mapa acima, percebemos que a referência é a margem direita do rio Dordogne, sendo as apelações de Pomerol e Saint-Emilion seus grandes expoentes. As apelações satélites que rodeiam essas famosas regiões também fazem parte da margem direita. A rigor, até as apelações Côtes de Blaye e Côtes de Bourg que não aparecem no mapa  por estarem na margem direita do Gironde, devem também ser incluídas.

Tudo muda aqui em relação ao Médoc em termos de solo e composição de uvas. A argila predomina nesta área, notadamente em Pomerol, o que favorece o bom desempenho da Merlot. Em algumas áreas onde destaca-se também o cascalho, a Cabernet Franc entra em ação. Portanto, são essas duas uvas,  com a Cabernet Franc complementando a Merlot, que  norteiam o chamado corte bordalês, deixando muito pouco espaço para a Cabernet Sauvignon.

Pomerol

Berço espiritual da Merlot com o mítico Château Petrus reinando absoluto. Não há uma classificação oficial, mas todos sabem que o grande Petrus é hors concours, seguido por uma dezena de excelentes opções.

Se dinheiro não for problema, Petrus e Le Pin são as estrelas da região. Como viraram grifes, os preços vão às alturas, embora sejam vinhos diferenciados. Baseado na Merlot em solos argilosos, os rendimentos por parreira são baixíssimos, além de um belo estágio em barricas novas de carvalho. Os demais châteaux que são para mortais seguem descritos abaixo e podem surpreender os mais exigentes paladares.

Château Lafleur e Château Trotanoy são opções quase unânimes para as estrelas acima, com muito requinte e personalidade. La Conseillante, L´Evangile e Petit- Village são também pedidas encantadoras. Vieux-Château-Certan, do mesmo proprietário do Le Pin, apesar de suntuoso, segue um estilo mais medoquino, mais austero, com menor porporção de Merlot e presença de Cabernet Sauvignon.

Em resumo, os vinhos de Pomerol são adoráveis, macios e com frutas exuberantes, porém muito caros. A região é minúscula com menos de 800 hectares, ou seja, um quadrado de menos de 3 km de lado. Resultado: baixa produção para uma demanda enorme.

Saint-Emilon

Comparada a Pomerol, esta apelação é bem maior (cerca de 5400 hectares) com solos extremamente complexos e diferenciados. Para não complicar muito, podemos dizer que os solos mais arenosos e os solos dos vales, próximos ao Dordogne dão origem a vinhos pouco expressivos. Os grandes vinhos  estão em torno da cidade de St Emilion nas chamadas Côtes (encostas), bem como, nos solos de cascalho (graves) nas proximidades de Pomerol.

A classificação oficial dos vinhos de Saint-Emilion passa por um momento conturbado. Iniciada em 1955 foi prevista uma revisão de 10 em 10 anos, sendo a úlitma em 2006, extremamente polêmica, diga-se de passagem. Esta classificação apresenta três níveis de hierarquia:

  • Premiers Grands Crus Classés A: Châtau Ausone e Château Cheval Blanc
  • Premiers Grands Crus Classés B: com treze châteaux
  • Grands Crus Classés: com cinquenta e três  châteaux

Neste último nível, a expressão Grands Crus Classés não tem nem de longe o peso que tem para os Grands Crus da Borgonha. São vinhos relativamente simples com raríssimas exceções. 

Falar dos châteaux classe A é chover no molhado. Seu único defeito é o preço. Château Ausone é um vinhedo quase dentro da cidade de St Emilon num solo extremamente calcário. É um vinho difícil, principalmente quando jovem. Revela-se aos poucos e exige paciência e experiência de quem o possui.

Já Cheval Blanc é totalmente oposto. De solo pedregoso, próximo a Pomerol, origina vinhos elegantes e extremamente receptivos, mesmo quando jovens. A Cabernet Franc tem participação marcante, sendo muitas vezes majoritária. É um vinho de sonhos com a safra de 1947 transformada no maior mito entre os grandes de Bordeaux. Château Figeac, da mesma região, é muito interessante, mas evidentemente, sem o mesmo brilho e glamour.

Os châteaux do grupo B são as grandes pedidas sem gastar uma fortuna. Château Canon, Pavie, Angelus, Magdelaine  e La Gafferière são  grandes experiências para sentir o terroir de Saint Emilion.

Satélites de St Emilion e Pomerol

Lalande de Pomerol, Montagne-St-Emilion, St-Georges-St-Emilion, Lussac-St-Emilion, Puisseguin-St-Emilion, Fronsac e Canon-Fronsac São apelações que circundam os grandes astros (Pomerol e St Emilion). São vinhos não tão complexos, mas podem ser interessantes, a medida em que o produtor possa exprimir com fidelidade seu respectivo terroir. Infelizmente, a oferta destes vinhos no Brasil é escassa. Vieux Château Saint-André, Château Les Hauts Conseillants e Château Fontenil são boas opções.

Vins de Garage

Tradição e notoriedade têm seus efeitos colaterais em Bordeaux. A Rigidez e inflexibilidade das classificações não dão margem a novos châteaux. Foi desta revolta que surgiram os garagistas nas regiões de Pomerol e St Emilion. São vinhedos minúsculos com uvas vinificadas em espaço reduzido (num cômodo como uma garagem). Os vinhos são concentrados, bastante extraídos e com passagem obrigatória por barricas novas, às vezes 200% em carvalho. É quando você passa um vinho no primeiro ano em barrica nova e no segundo ano você troca novamente a barrica por outra nova. Em resumo, são vinhos parkerizados, extremamente concentrados e acarvalhados. Muitos consideram o Le Pin como precursor desta categoria, mas pessoalmente considero um exagero. Os châteaux Valandraud e Le Dôme resumem melhor este conceito. São vinhos caros, pontuados e de prestígio. Enfim, conseguiram seu objetivo, mas altamente polêmicos quanto ao terroir.

Em resumo, os vinhos de St Emilion não apresentam um estilo bem definido. Ora são mais frutados e abertos tendendo a Pomerol, ora são mais austeros e fechados tendendo ao Médoc, sem falar nos garagistas que costumam anabolizar seus vinhos, tornando-os verdadeiros blockbusters.

Bordeaux: Parte I

18 de Janeiro de 2010

O mapa acima mostra a aparente complexidade dos vinhos de Bordeaux, a maior região vinícola francesa  perfeitamente delimitada em 57 apelações de origem. Os números de Bordeaux (dados de 2007) impressionam em vários quesitos:

  • 120 mil hectares de vinhas
  • Produção anual: 760 milhões de garrafas
  • 3,4 bilhões de euros, sendo 1,4 em exportações
  • 32% da exportação de vinhos traquilos franceses

A fama dos Bordeaux é toda voltada para os tintos que são a maciça maioria da produção. Contudo, os brancos são injustamente esquecidos e não devem ser desprezados, sobretudo os da região de Graves.

Quanto aos doces, o grande Yquem se encarrega de valorizá-los, colocando a região de Sauternes no podium. Châteaux classificados e bem administrados são as melhores pedidas da região. Rieussec, Suduiraut, Fargues e Guiraud são exemplos  clássicos.

 

A foto acima mostra a junção dos dois grandes rios da região (Dordogne e Garonne) formando o Gironde que desaguará no Atlântico 80 km adiante. Paradoxialmente, é uma região com muita água, a princípio, imprópria à cultura da vinha. Na verdade, toda esta massa de água funciona como um verdadeiro ar condicionado, resfriando as vinhas no verão e amenizando os invernos mais rigorosos.

As classificações de vinhos em Bordeaux é uma verdadeira torre de Babel. Sem dúvida, a mais famosa é a de 1855, onde foram avaliados os melhores vinhos do Médoc e os melhores doces da região de Sauternes. Eram os vinhos mais prestigiados da época. Esta classificação torna-se cada vez mais polêmica porque é imutável. Sendo assim, esses châteaux sofreram mudanças ao longo do tempo e não podem eternamente viver das glórias do passado. Felizmente, a grande maioria faz jus à classificação, sabendo renovar-se  de acordo com sua época.

A segunda grande classificação ocorreu com os vinhos de Graves (tintos e brancos). Iniciou-se em 1953 e foi completamente definida em 1959 com dezesseis châteaux.

A terceira grande classificação são dos vinhos de Saint-Emilion iniciada em 1958, prevendo revisões de 10 em 10 anos. Seguiram-se então as de 1969, 1986, 1996 e 2006. Esta última com grande polêmica.

A tradicional classificação de Crus Bourgeois está anulada até o momento, desde sua última revisão em 2003. Existe também uma classificação pouco conhecida e também irrelevante chamada Crus Artisans, relacionada à tradicional aristocracia do Médoc.

Apesar do tinto mais famoso e caro de Bordeaux (Château Petrus), Pomerol ainda não possui classificação oficial de seus vinhos, embora não falte um grupo extremamente seleto para sua inauguração.

De todo modo, é bom  que fique bem claro que todas essas classificações são independentes entre si e absolutamente restritas às suas respectivas subregiões.

Neste primeiro apanhado geral sobre Bordeaux devemos sempre ter em mente que a fama, reputação e alta qualidade de seus vinhos estão restritas a menos de 2% de seus mais de 10.000 châteaux. Mesmo assim, estamos falando em mais de 200 châteaux de alta qualidade, batendo de longe qualquer comparação com outras grandes regiões vinícolas do planeta.

Detalhando a região, no próximo artigo abordaremos especificamente o terroir do Médoc.