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Amigos descontraídos, Vinhos sérios: Parte II

2 de Abril de 2015

Após o belo almoço DRC do artigo passado, só o desejo de provar um Romanée-Conti poderia continuar a saga. Em Petit Comitê, seguimos à casa de outro confrade onde outras surpresas estavam reservadas. Logo que chegamos, o confrade responsável pela fera chegou com a garrafa do mito 1998. Como gentilezas não têm limites, ele trouxe também um Petrus 2001 para a adega do anfitrião.

Mais um pequeno infanticídio

A princípio, na minha opinião, um Romanée-Conti não deve ser tomado com menos de 20 anos de safra, e em alguns casos até mais. Contudo, não deixa de ser uma experiência interessante, nem que seja para tentar vislumbrar seu potencial de guarda. A cor predominantemente rubi, denota sua junventude. Os aromas apesar de extremamente elegantes, ainda são tímidos, tanto pelo vinho em si, como pela característica da safra. Em boca, um equilíbrio fantástico, taninos finíssimos a resolver, e final harmonioso. Estimo seu auge daqui uns dez anos.

Preços estratosféricos

Este é um dos americanos mais caros e mais badalados de Napa Valley. O terroir não poderia ser melhor, a sub-região  de Oakville, situada entre Rutherford e Stag´s Leap. O corte bordalês é baseado com alta porcentagem de Cabernet Sauvignon. A safra é relativamente nova de 2006 com 98 pontos Parker. Vinho potente, cor concentrada e aromas um tanto fechados. Em boca, muito macio, taninos ultra-finos e persistência longa. Um estilo moderno, mas muito bem delineado. Longos anos de adega pela frente. Essa é uma das provas que os americanos estão muito à frente em relação a outros países do Novo Mundo quando se trata de vinhos topo de gama.

Safra surpreendente: 94 pontos (RP)

Esta é uma bela compra para os bordaleses de margem esquerda da pouco badalada safra de 2006. Com 94 pontos de Parker, mostrou-se muito agradável para o momento com toda a tipicidade de um grande Saint-Esthèphe. Cor pouco evoluída, mas aromas relativamente abertos, com toques de frutas escuras (notadamente o cassis), toques de torrefação, especiarias e ervas finas. Em boca, muito receptivo, macio, e com um balanço de componentes digno de um Grand Cru Classé. Final agradável e extremamente elegante.

Potência e Elegância no mais alto nível

Como cantava Nara Leão, o barquinho vai, a tardinha cai …, e mais um tinto de tirar o fôlego. Simplesmente, Amarone Dal Forno Romano safra 2006. Um estilo moderno, superconcentrado, muito mais do que se espera de um Amarone. Para se ter uma ideia da concentração deste tinto, o vinhedo sofre um forte adensamento de vinhas, chegando a ultrapassar mais de 13000 pés por hectare. Como essas uvas são colhidas supermaduras e posteriormente, sofrem o processo de appassimento, os rendimentos são baixíssimos. De 100 kg de uvas faz-se apenas 15 litros de Amarone. Além disso, o proprietário não deixa por menos, utiliza 100% de barricas novas. Diz ele: se o vinho não aguentar a barrica, é porque ele não está à altura da mesma. E de fato, a madeira reina em plena harmonia. Cor quase impenetrável, aromas potentes de frutas em geleia, alcaçuz, especiarias, café, e um defumado inebriante. Em boca, extremamente macio, um veludo, taninos bem dóceis, e um bom suporte de acidez. Pode ser tomado com prazer, mas evolui por muitos anos de adega. Um de seus parceiros clássicos é o queijo Grana Padano, o qual foi provado e confirmado com esta garrafa.

Um Corton-Charlemagne de Exceção

O nosso confrade do Romanée-Conti não estava para brincadeiras. Como se não bastasse ter trazido a fera, não deixou por menos no branco. E que Branco! Um preciosíssimo Corton-Charlemagne 2009 de Madame Leroy de produção extremamente limitada. Um dos melhores brancos da Borgonha que provei, unindo potência e elegância como poucos. Frutas como pêssego, damasco, o famoso pão com manteiga na chapa, o tostado lembrando frutas secas secadas ao forno (amêndoas), toques florais, e vai por aí afora. Já era noite, mas este monumental branco levantou o ânimo e nos reavivou. Fantástico!

A costumeira elegância Dom Pérignon

Com a chegada da noite ninguém é de ferro, sobretudo com um Dom Pérignon Rosé 2003. Para uma bela harmonização, que tal comida japonesa de alta qualidade e esmero. Foi um sucesso, principalmente com os pratos que envolviam atum. A acidez, a elegância e frescor deste champagne são pontos-chaves para um casamento perfeito. Se um Dom Pérignon já é exclusivo, um Rosé de produção baixíssima nem se fala. Além do mais, a safra 2003, um tanto calorosa, foi ideal para o perfeito amadurecimento da Pinot Noir, uva importante neste estilo de vinho. E assim terminamos o dia, a noite, e os sonhos …

Uma das sensações da Borgonha

Só para encerrar o artigo, esqueci de comentar o Borgonha acima degustado no final do almoço, após os DRCs. Um Vosne-Romanée exclusivíssimo do Domaine Prieuré-Roch,  o qual seu proprietário, Henry-Frédéric Roch, assinou muitas safras de Romanée-Conti. Este exemplar denominado Le Clos Goillotte da safra 2006 parte de vinhas com mais de quarenta anos, situadas a cinquenta metros dos limites do vinhedo La Tâche. A produção não passa de duas mil garrafas/ano. Um vinho de estilo mais moderno e muito abordável na juventude. Aromas abertos, francos, frutas deliciosas, toques florais, defumados e de especiarias, muito bem integrado à madeira. Para quem não tem paciência de esperar anos em adega, é uma boa pedida.

Sem mais delongas, agradeço mais uma vez aos confrades que proporcionaram momentos inesquecíveis com boa conversa e belos vinhos. Se esqueci de algum outro detalhe, é porque o inevitável abuso do álcool não permitiu. Grande abraço, e até as próximas!

California Wine Regions: Parte II

24 de Fevereiro de 2014

Tendo como base nosso mapa abaixo, vamos explorar a nobre sub-região de North Coast, abrigando os excepcionais condados de Sonoma e Napa Valley. A região de Napa foi esmiuçada numa série de artigos neste mesmo blog intitulada Napa Valley (Partes I, II, III e IV).

North Coast: influência oceânica

Ampliando um pouco o mapa da Costa Norte californiana, observamos os condados de Mendocino e Lake no esquema abaixo. Evidentemente, os mesmos não têm a notoriedade de Sonoma e Napa, mas elaboram vinhos bem feitos em suas especialidades.

Mendocino e Lake: sem as brisas do Pacífico

Lake County

São três mil e duzentos hectares de vinhas distribuídos em cinco AVAs (Benmore Valley, Clear Lake, Guenoc Valley, High Valley e Red Hills Lake County). Clear Lake, o maior lago da Califórnia é fator moderador de temperatura, mantendo noites frias e arrefecendo o forte calor no verão. Sauvignon Blanc na AVA homônima é um dos destaques da região. As AVAs High Valley e Red Hills produzem bons tintos à base de Cabernet Sauvignon, Zinfandel e Merlot em altas colinas de solos vulcânicos.

Anderson Valley e a famosa neblina (fog)

Mendocino County

São dez AVAs distribuídas em pouco mais de seis mil hectares de vinhas. Região protegida da influência do Pacífico por uma cadeia de montanhas que podem chegar a novecentos metros de altitude. Exceto sua AVA mais famosa, Anderson Valley, é capaz de sugar as brisas frias do Pacífico através do rio Navarro, fazendo deste local um destaque para a Pinot Noir, castas brancas como Gewurztraminer e Riesling, além de bons vinhos-bases na elaboração de espumantes. Não é à toa que Maison Roederer (Cristal) tem raízes neste vale. A vinícola Eike Vineyards é uma bela referência para Pinot Noir.

Bons tintos baseados em Cabernet Sauvignon e Zinfandel vêm da AVA Redwood Valley. A parcial influência marítima prolonga a estação de amadurecimento das uvas, gerando vinhos finos e complexos.

Terroir da costa californiana

Nos condados de Sonoma e Napa é fundamental a compreensão do terroir acima, mostrando a influência benéfica e refrescante das neblinas que adentram pelo continente. De fato, a fria corrente marítima da Califórnia provoca ventos gelados na faixa litorânea. Os mesmos em contato com o ar quente do continente formam as famosas neblinas. Qualquer fenda no continente é capaz de sugar o nevoeiro, refrescando as vinhas e promovendo notável amplitude térmica. Em Sonoma, o rio Russian (Russian River) é uma das fendas importantes. Entretanto, a mais destacada encontra-se na baía de San Pablo através do ponte Golden Gate. Por esta fenda, a neblina inunda a famosa AVA de Los Carneros e propaga-se pelos condados de Sonoma e Napa, dissipando seus efeitos ao longo do continente.

Continuamos no próximo artigo com Sonoma County.

California Wine Regions: Parte I

20 de Fevereiro de 2014

Iremos falar de vinhos americanos a partir deste artigo, explorando os vinhos californianos. A razão é muito simples, noventa porcento dos vinhos produzidos neste país vêm deste estado localizado na costa oeste, junto ao Pacífico. Como os Estados Unidos são o quarto maior produtor de vinhos do mundo, a Califórnia sozinha produz mais que qualquer país do chamado Novo Mundo. Vejam alguns números recentes abaixo:

  • 3.540 vinícolas
  • 543.000 acres (aproximadamente 220.000 hectares de vinhas)
  • US$ 19,9 bilhões de dólares (vendas nos Estados Unidos)
  • 211,9 milhões de caixas de 12 garrafas (vendas nos Estados Unidos)
  • US$ 1,39 bilhões de dólares (exportações)
  • 51 milhões de caixas de 12 garrafas (exportações)

O mapa abaixo mostra as principais sub-regiões da Califórnia, seu relevo montanhoso e a proximidade do Pacífico. O chamado Vale Central é o maior responsável pelos números acima. Evidentemente, a qualidade fica em segundo plano.

Os  badalados condados de Sonoma e Napa na Costa Norte

No mapa abaixo, mais alguns condados famosos como Santa Bárbara e Santa Ynes no sul da Costa Central. O Pacífico banha cerca de mil e trezentos quilômetros de costa californiana desde o Oregon a norte, até o México, ao sul. Cada uma destas sub-regiões é dividida em condados (county), e estes por sua vez, são divididos em AVAs (American Viticultural Areas), uma espécie de Denominação de Origem européia. Atualmente, são cento e onze AVAs em todo o estado.

Califórnia e os estados limítrofes 

http://mappery.com/maps/California-Wine-Map.jpg

Clique no endereço acima e vejas detalhes de todas as AVAs nos vários condados californianos.

O esquema abaixo mostra aspectos do terroir californiano sob a influência do oceano, sobretudo nas sub-regiões da costa. A alta temperatura e a insolação no continente chocam-se com as brisas frias do oceano nesta região, formando as famosas neblinas à noite, que serão dissipadas no dia seguinte, à medida em que sol volta a brilhar forte.

Próxima parada: Costa Norte (North Coast) com os condados de Lake, Los Carneros, Mendocino, Sonoma e Napa Valley. Seus badalados vinhos fazem a fama deste grande estado.

Napa Valley: Parte IV

29 de Outubro de 2012

Voltando ao nosso mapa original, notamos que outras AVAs de Napa Valley não têm a mesma importância que as já citadas em artigos anteriores. Uma que merece menção especial é Los Carneros, bem ao sul da região, com toda a influência das brisas frias da baía de San Pablo. É fonte de bons Chardonnays e Pinot Noir.

Napa Valley: aproximadamente 18.000 hectares de vinhas

Nos três artigos anteriores, tentamos mostrar o pioneirismo e a supremacia da Califórnia, especialmente Napa Valley, na elaboração de grandes vinhos do chamado bloco dos países do Novo Mundo. O clássico corte bordalês tão reproduzido em várias regiões e países, parece ter encontrado em Napa Valley sua cópia mais fiel. Evidentemente, a classe e elegância francesas não estão em xeque, mas os tintos de Napa baseados em Cabernet Sauvignon chegam muito perto em refinamento e também em preços. Na maioria das vezes, os americanos pecam por serem um tanto potentes, amadeirados e com um toque mentolado característico. Entretanto, os grandes exemplares mencionados nos artigos descritos, corrigem estes “defeitos crônicos”, deixando os melhores “grand cru classé” com a pulga atrás da orelha, e são um tormento para degustadores experimentados quando degustados às cegas.

Por razões de preço e baixa oferta, poucas importadores trazem vinhos americanos. Entretanto, citaremos alguns endereços abaixo onde podem ser encontrados alguns dos vinhos citados nesses artigos específicos sobre Napa Valley. Como dissemos, não são vinhos baratos, mas para aqueles viajam ou estão acostumados a adquirir vinhos ícones, vale a pena a experiência. Além disso, podem surgir gratas surpresas  para aqueles que veneram os grandes bordeaux.