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Queijos Azuis: A sublimação das texturas

4 de Setembro de 2014

Não é a primeira, nem a última vez, que a ABS-SP aborda o tema: Queijos Azuis x Vinhos Botrytisados. Também não é primeira vez que o assunto é comentado neste blog. O fato é que trata-se de umas das mais perfeitas harmonizações clássicas. Os contrates entre doce e salgado, além da acidez do vinho combatendo a gordura do queijo, a similaridade de texturas tem papel crucial e pouco abordado nos inúmeros comentários de eventos enogastronômicos.

Queijos azuis: sabores marcantes

Pela foto, é possível notar a textura de cada um dos queijos. Por ordem crescente de cremosidade, temos o Gorgonzola (número 3, o queijo da frente), o Roquefort (queijo número 1) e por fim, o Saint Agur (número 2), ao lado do Roquefort.

É bom esclarecermos que os chamados vinhos botrytisados são elaborados a partir do ataque benéfico do fungo Botrytis Cinerea ainda com as uvas na parreira. Esse ataque entre outras consequências, produz um aumento considerável do glicerol, proporcionando uma untuosidade e maciez extremamente particulares nesta categoria de vinho. Os exemplos mais clássicos e citados são os Sauternes (região bordalesa) e os Tokajis (região famosa da Hungria). Este ponto ficou  bastante claro  nesta degustação, conforme vinhos abaixo:

Painel diversificado

Os vinhos botrytisados de famosas regiões como Loire na França com as apelações Quarts de Chaume e Bonnezeaux, ou alguns da Alsace sob a apelação Seléction de Grains Nobles com as uvas Riesling e Pinot Gris principalmente, não apresentam normalmente textura compatível para enfrentar queijos azuis muito cremosos com Roquefort ou Saint Agur. Da mesma forma, os destacados austríacos da específica região de Burgenland ou distintos Trockenbeerenauslese alemães, apresentam as mesmas características mencionadas acima.

Quanto à degustação propriamente dita, o primeiro vinho na sequência da foto acima, o austríaco do ótimo produtor Alois Kracher (importadora Mistral – http://www.mistral.com.br), foi o que mais sofreu diante dos queijos. Embora as compatibilizações entre todos os queijos e os vinhos degustados estejam longe de serem desagradáveis, numa sintonia fina as afinidades ficam mais abaladas. O grande problema do primeiro vinho é sua delicadeza perante aos queijos. Em resumo, faltou textura e potência de aromas e sabores frente aos queijos. Já o segundo vinho, o sul-africano Nederburg (importado pela Casa Flora- http://www.casaflora.com.br), foi o que mais agradou no cômputo geral. Principalmente com os queijos Roquefort e Gorgonzola, sua potência e presença de açúcar foram componentes essenciais na harmonização. Já com o queijo Saint Agur, de sabor mais suave, a textura de ambos foi o ponto de união entre ambos.

Continuando na sequência, o terceiro vinho, Tokaji 5 Puttonyos (importadora Casa Flora), é bem diferente dos clássicos Tokajis antes da modernização na região. Embora seu equilíbrio fosse perfeito, com acidez refrescante, açúcar e álcool comedidos, tornou-se um tanto delicado para a harmonização. Com o Saint Agur saiu-se melhor, enfatizando a falta de textura para a cremosidade do queijo.

Por último, o quarto vinho, o Sauternes Château Les Justices do mesmo produtor do mítico Château Gilette (importadora Decanter – http://www.decanter.com.br), mostrou-se com relativa untuosidade e com o álcool dominando o equilíbrio frente a seus componentes de acidez e açúcar. A combinação com o Roquefort é clássica. Sua untuosidade e doçura foram fundamentais na harmonização. Já a textura cremosa do Saint Agur e sua delicadeza de sabor ficaram um ponto abaixo. Com o Gorgonzola, a potência do queijo ficou um pouco acima, só sendo perfeitamente combatida pelo sul-africano acima mencionado.

É evidente que essas considerações são pessoais, dando margem a inúmeros argumentos e discussões. Entretanto, queijos de uma maneira geral, costumam impor uma série de dificuldades para a perfeita harmonizações com vinhos, sobretudo queijos potentes como esses que foram testados.

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Degustação: Tintos do Douro

21 de Julho de 2014

As degustações na ABS-SP são rotineiras e sempre acontecem às quartas-feiras. Entretanto, algumas delas são especiais, reservando surpresas e novas perspectivas de consumo. Foi o caso desta última sobre os consistentes e originais vinhos do Douro, região consagrado do famoso Vinho do Porto, tão comentado neste mesmo blog em vários artigos específicos.

O painel completo

Só para contar um pouco da história da região, O Douro descoberto pelos ingleses na era moderna, adicionava aguardente em seus vinhos para suportar o longo e penoso trajeto até a Inglaterra. Neste acaso, descobriu-se com o tempo que a fortificação melhorava os vinhos da região. Com isso, cria-se o mais famoso fortificado, ou seja, o grande Vinho do Porto. Isso posto, praticamente a produção de vinhos de mesa na região restringiu-se ao consumo local e sem grandes atrativos. Contudo, na época da segunda guerra mundial surge um personagem ilustre chamado Fernando Nicolau de Almeida, exímio degustador, figura importante na Portocracia cultuada por ingleses e portugueses. Esse cidadão resolve vencer o desafio de criar um grande vinho do mesa da região onde até então, resumia-se nos grandes Portos. Através de muito estudo, pesquisas e tenacidade em seus objetivos, concebe um projeto ambicioso e inédito até o momento. Com muito critério, escolhe algumas quintas da região a dedo, sobretudo as quintas Vale do Meão e Leda, base estrutural de seu grande vinho, o mítico Barca Velha. Esse vinho de elaboração cuidadosa, passa um bom tempo em adega, não somente para amadurecer, mas principalmente para certificar-se e comprovar através de provas rigorosas que trata-se de algo distinto e seguro para uma aquisição especial por parte de uma seleta clientela. Quando rejeitado como tal, passa a ser chamado como Ferreirinha Reserva Especial, o qual na maioria das vezes, também é um belo exemplar, tal o rigor do julgamento nas provas. A primeira safra em 1952 mostra ao mundo do vinho o grande tinto de Portugal. Até pouco mais de uma década, os grandes vinhos de mesa do Douro resumia-se ao Barca Velha e num patamar abaixo, o Quinta do Côtto Grande Escolha, importado pela Mistral (www.mistral.com.br), além do Duas Quintas (importadora Franco Suissa – http://www.francosuissa.com.br) pertencente à Casa Adriano Ramos Pinto, cujo mentor do vinho é outra grande personalidade, João Nicolau de Almeida, filho do saudoso senhor Fernando (filho de peixe, peixinho é). Com o fenômeno Douro Boys recentemente, a qualidade e a diversidade de quintas toma um novo impulso, culminando em grandes degustações como esta feita na ABS-SP, explanada e comentada nos parágrafos abaixo.

Elegância e Autenticidade em profusão

Este foi o grande vinho do painel. Realmente, um ponto fora da curva. Cotado para ser o vencedor na teoria e comprovando na prática sua excelência. Ele foi por longos anos, a espinha dorsal do grande Barca Velha. Contudo, num certo momento, separou-se da Casa Ferreirinha e lançou-se em voo solo. A família Olazabal, muito competente na vinificação e fiel às suas raízes, soube interpretar esse grande terroir com um tinto autêntico, aliando potência e elegância como poucos. Nesta prova, após uma breve decantação revelou uma paleta de aromas digna dos grandes vinhos. Em boca, seu equilíbrio é notável e sua persistência, longa e expansiva. Tratando-se de Brasil, no rol dos grandes vinhos, seu preço ainda é atrativo. Importado pela Mistral (www.mistral.com.br).

Potente e Moderno

Esta parceria P+S (Prats e Symington) une Bordeaux e Douro na busca de um vinho moderno, mas fincado em suas origens. Bruno Prats comandou por longos anos um dos grandes châteaux do Médoc, o glorioso Cos d´Estournel, Deuxième Grand Cru Classé de alto nível. No terroir do Cima Corgo, as quintas de Roriz e da Perdiz fornecem ótima matéria-prima para um vinho destacadamente concentrado, sobretudo nesta excepcional safra de 2011 que será com certeza, uma das maiores do século vinte e um. Cor impenetrável, ainda muito fechado, já deixa transparecer todo seu potencial. Em boca é muito estruturado com abundância de taninos de grande qualidade. Deve-se esperar em adega uns bons dez anos onde então, começará a mostrar todo seu esplendor. Outra importação da Mistral.

Uma surpresa em sua faixa de preço

Quinta do Noval é uma das Casas mais cotadas em Vinho do Porto. Nos vinhos de mesa parece não ser diferente. O exemplar acima foi uma grata surpresa na degustação, principalmente levando-se em conta o preço. Seus aromas francos e bem delineados encantaram a plateia. Muito equilibrado em boca, cabendo uma comparação interessante: mais equilibrado em álcool que o próprio Chryseia (vinho de outro patamar de preço). Apesar de já prazeroso em bebe-lo, suporta com folga alguns anos de guarda. Também oriundo da sub-região do Cima Corgo, pende mais para elegância do que potência. Importado atualmente pela Adega Alentejana (www.adegaalentejana.com.br).

Por fim, os outros dois exemplares, Carm Reserva e Duorum Reserva, foram muito bem, mas sem o destaque dos demais. As safras, condições peculiares e pontuais de maturação das uvas, além da vinificação, podem ser fatores de justificação. Contudo, reforço, vinhos agradáveis e sem defeitos.

A sábia sequência dos vinhos nesta degustação soube valorizar o que tem de melhor cada exemplar. Oxalá, tenhamos outros bons painéis como este.

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Vinhos da Áustria: Parte V

16 de Julho de 2014

Dando prosseguimento às famosas denominações DAC (Districtus Austriae Controllatus), deixamos as três últimas mais emblemáticas para este artigo (Kremstal DAC, Kamptal DAC e Neusiedlersee DAC), as quais serão esplanadas abaixo:

DAC Gebiete

Kamptal e Kremstal: Reino da Gruner Veltliner

Kremstal DAC

Os 2243 hectares de vinhas desta nobre área dividem-se em dois tipos de solos: um solo sedimentar com a formação de loess (solo formado sob a ação do vento) de boa capacidade hídrica, ideal para o cultivo da Gruner Veltliner, além de solos rochosos, propícios para o bom desenvolvimento da Riesling. Os profundos vales são bem protegidos dos gélidos ventos do norte, enquanto a leste, o clima quente da Panônia facilita a maturação das uvas.

As duas uvas são apresentadas nas versões Classic e Reserve, sendo a primeira para vinhos aromáticos, frescos, sem notas de madeira. A versão Reserve apresenta vinhos mais encorpados, ricos, com alguma presença de madeira e eventuais toques de Botrytis.

Kamptal: vinhedos em terraços

Kamptal DAC

Região imediatamente a norte de Kremstal com 3.800 hectares de vinhas. As estrelas também são as mesmas de Kremstal, as uvas Gruner Veltliner e Riesling nos estilos Classic e Reserve.

Muitos dos vinhedos desenvolvem-se em terraços combinando solos de gneisse (origem vulcânica), sandstone (origem sedimentar), loess e gravel, de origem vulcânica e sedimentar. O clima mescla os ventos frios do norte com o clima quente da Panônia, proporcionando notável amplitude térmica. Com esses fatores, temos rieslings potentes, minerais e de grande longevidade. Da mesma forma, a Gruner Veltliner mostrar vinhos encorpados e de bom impacto. Essas características ficam potencializadas no estilo Reserve.

Neusiedlersee: Lago raso rodeado de juncos

Neusiedlersee DAC

Finalmente, temos o lar da outra grande uva tinta austríaca, Zweigelt. Como varietal ou blend (mistura), desde que tenha pelo menos sessenta por cento no corte juntamente com outras uvas nativas. Fruto do cruzamento das cepas Blaufränkisch e St Laurent, a Zweigelt gera vinhos coloridos, taninos suaves e aromas intensos de frutas, notadamente as cerejas. O estilo Classic preserva o lado frutado e de especiarias destes tintos maturados em aço inox, ou eventualmente, com alguma passagem por madeira. Já o estilo Reserve, mostra vinhos mais potentes, estruturados com madeira mais evidente (grandes tonéis ou barricas).

Dos 7.649 hectares de vinhas, 1.812 hectares são destinados ao cultivo da uva tinta acima (Zweigelt). O restante é destinado sobretudo a uvas brancas como Chardonnay, Pinot Blanc e Welschriesling (Riesling Itálico). Esta última, é a uva branca mais plantada na Áustria, depois da emblemática Gruner Veltliner. Os solos franco-arenosos, calcários e eventualmente pedregosos, aliados a um clima relativamente quente oriundo da Panônia (vale), produz uvas bastante aromáticas. A pouca profundidade do lago Neusiedl e sua grande extensão propiciam a necessária evaporação para o bom desenvolvimento do fungo Botrytis Cinerea (podridão nobre). Neste particular, esse lago é reduto do local mais certeiro para vinhos botrytrisados. Vale lembrar que a ocorrência e intensidade da infecção do fungo em regiões clássicas como Sauternes, Tokaj, alguns lugares do Loire e da Alemanha, é sempre incerta e motivo de grande preocupação. Portanto, Neusiedlersee ainda é fonte segura e presente em todas as safras de ótimos vinhos botrytisados a preços ainda atrativos. As versões Beerenauslese e Trockenbeerenauslese respondem por este tipo de vinho.

Com este artigo, chegamos ao fim desta série. Oportunamente, voltaremos ao assunto sempre que esses vinhos, uvas ou harmonizações específicas fizerem-se necessários. Os artigos desta série específica foram baseados no site http://www.austrianwine.com

Apesar da pouca oferta de vinhos austríacos no Brasil, a importadora Mistral traz alguns exemplares (www.mistral.com.br) e também uma importadora pouco conhecida chamada Vinhos da Áustria (www.vinhosdaaustria.com.br).

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Riesling: Alsácia x Alemanha

17 de Fevereiro de 2014

A nobre Riesling coleciona cada vez mais admiradores pelo mundo. Quem já provou, costuma virar fã. Quem ainda não provou, dificilmente decepciona-se. O grande problema é que esta casta exige condições muito específicas de terroir. Sendo assim, além da Alemanha, seu país de origem, praticamente só a região francesa da Alsácia (Alsace), limítrofe com a Alemanha, pode fazer um embate à altura. E para realizar uma degustação às cegas tecnicamente viável, é primordial equalizar os níveis de açúcar residual dos vinhos em questão.

Alsace: quase integrada aos vinhedos alemães

No mapa acima, percebemos a latitude do vinhedo alsaciano claramente mais baixa em comparação aos vinhedos alemães. Somado a este fator, o bloqueio de chuvas pela cadeia montanhosa dos Vosges a oeste, garantem dias ensolarados na Alsácia, sobretudo na época de maturação das uvas. Via de regra, as safras alsacianas são muito mais consistentes que as safras germânicas.

Os brancos alsacianos costumam ser secos e com bons níveis de álcool (normalmente entre 12 e 14ºC). Uma minoria encontra-se nas categorias VT (Vendage Tardive) e a rara SGN (Sélection de Grains Nobles), conferindo destacados níveis de açúcar residual. 

Marcel Deiss: Filósofo do terroir alsaciano

Do lado alemão, os estilos são muito mais diversos e sútis em termos de açúcar residual. Temos o clássico estilo que vem perdendo terreno ao longo do tempo denominado lieblich (meio doce em alemão), onde os chamados vinhos de predicado (QmP) exibem as denominações Kabinett, Spätlese e Auslese, por exemplo. Esse estilo é facilmente reconhecível, pois o açúcar é evidente e o vinho apresenta um corpo mais leve.

Robert Weil: Produtor de elite do Rheingau

Portanto, para um degustação de real confronto, é necessário que busquemos nos rótulos alemães a palavra Trocken (seco em alemão). Dependendo do nível de acidez deste tipo de vinho, podemos ter até nove gramas de açúcar residual por litro. Sabemos que a alta acidez mascara a sensação de doçura, haja vista os champagnes que mostram níveis de açúcares residuais nominalmente altos para o estilo Brut, por exemplo. Eventualmente, podemos admitir um estilo Halbtrocken (meio seco), se for muito bem escolhido, respeitando o balanço entre acidez e açúcar residual.

Os dois rótulos acima, Alsace e Alemanha, respectivamente, são importados pela Mistral (www.mistral.com.br). Belos exemplares para a inspiração de um grande painel de provas. Provavelmente, não há perdedores.