Posts Tagged ‘haut-brion’

Uma Seleção de Bordeaux

13 de Abril de 2019

A proposta foi a seguinte: trazer sua melhor garrafa de Bordeaux dos anos 80 e 90 para uma degustação às cegas. Foram onze garrafas abertas, formando uma verdadeira seleção onde o menos cotado pelos confrades, ainda assim, era craque frente aos inúmeros chateaux que desfilaram nestas duas décadas. Vamos então à escalação: Goleiro (Mouton 99), zaga (Leoville Las Cases 86, Mouton 83, Mouton 89), volantes (Vieux-Chateau-Certan 90, Beychevelle 82), meio de campo (Cheval Blanc 86, Chateau Certan de May 82), atacantes (Haut Brion 86, La Mission Haut Brion 89, Angelus 95). Um esquema com três zagueiros, dois volantes, sendo um de contenção e outro de ligação, um meio de campo criativo, e um ataque com centroavante goleador e pontas que voltam para marcar.

img_5972Mouton acessível, embora possa ser guardado

Como todo bom goleiro, foi degustado isoladamente. Um Mouton acessível, bem de acordo com a característica da safra. Taninos bem moldados, os toques de café e chocolate que caracterizam o chateau, além de um belo equilíbrio em boca. Um goleiro ainda em formação, mas com belo potencial pela frente. Nota 92 (RP).

img_5968uma zaga segura

Leoville Las Cases, zagueiro consagrado, mas vindo de contusão (bouchonée), ainda assim mostrou sua classe. De fato, era para ser o vinho da almoço com uma estrutura e cor extraordinárias, 100 pontos Parker. Infelizmente, uma garrafa comprometida. Em compensação, a dupla de Moutons supriu a deficiência do ilustre zagueiro. O Mouton 83 no nariz tinha lindos toques de cogumelos, mais precisamente funghi porcini seco. Já o Mouton 89 tinha uma boca deliciosa, de acordo com a sensual safra 89. Taninos sedosos e textura glicerinada. Notas 90 e 93 de Parker para os Moutons 83 e 89, respectivamente.

img_5965grandes safras em Bordeaux

Nesta dupla de volantes, Vieux-Chateau-Certan estava mais contido, cobrindo a zaga. Este vinho costuma ser surpreendente nesta safra de 90, mas não era das melhores garrafas. É um margem direita diferente, lembrando a estrutura tânica dos vinhos do Médoc pela presença de certo destaque das uvas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Já o Beychevelle 82 é aquele volante que sai para o jogo. A safra 82 é o grande ano deste chateau de Saint-Julien. Especialmente esta garrafa estava muito bem adegada. O vinho tinha uma força extraordinária com frutas escuras presentes, notadamente o cassis. Um vinho de muito vigor e com vida pela frente.

img_5966outras grandes safras em Bordeaux

Neste meio de campo, Chateau Certan dá seus passes corretos, mas o Cheval Blanc bate um bolão. É o camisa 10 do time com imensa criatividade. Mesmo numa safra dura como 86, o vinho é de uma elegância ímpar. Em boca, esbanja equilíbrio e suavidade. Persistência aromática longa e expansiva. Voltando ao Chateau Certan, é um vinho que tem o charme de Pomerol numa bela safra. Tem uma boa estrutura tânica, embora seus taninos sejam um tanto rústicos para esta categoria de vinho. Notas: Cheval Blanc 86 (RP 93) e Chateau Certan 82 (RP 93).

img_5970ataque incisivo

Neste ataque de peso, os atacantes Haut-Brion e La Mission não estavam num grande dia. Opinião de muitos confrades com a qual não concordo. Haut Brion 86 tinha notas marcantes de chocolate amargo, cacau, e um toque terroso. Já o La Mission, 100 pontos Parker, é um vinho suntuoso, de grande poder aromático, boca ampla, e longa persistência aromática. De certo que as garrafas poderiam não ser as melhores, mas estavam longe de serem defeituosas. Enfim, são duas grandes safras de chateaux fora de série. Em compensação, em dias de atacantes pouco inspirados, eis que surge o goleador de quem menos se esperava, Angelus 95. Um vinho ainda novo, mas com uma bela estrutura. Taninos potentes e finos, bom corpo, e muito bem equilibrado. Tem muito poder de fruta, toques tostados e minerais de grande classe. Goleou de lavada seus dois companheiros de flight, supostamente superiores. Notas: Haut Brion (RP 93) e (RP 94). 

Para acompanhar esta seleção, o conceituado restaurante Picchi preparou um menu com pratos criativos e bem apropriados aos vinhos envelhecidos de Bordeaux.

sabores surpreendentes

Os pratos acima, lâminas de funghi porcini fresco grelhadas com pinoli, parecendo lâminas de berinjelas, estavam ótimas. Já a polenta cremosa com escargots no molho rôti, tinha muitas ligações de sabores com os tintos envelhecidos. Belos pratos!

Na foto abaixo, a massa Picchi, tradicional da Casa com molho de linguiça, e um dos melhores tiramisus na qual a foto, dispensa comentários.

tradicionais da Casa

final surpreendente

Finalizando o evento, uma bela Grappa di Sassicaia envelhecida em toneis de carvalho francês, acompanhando alguns mimos do restaurante no serviço de café. Uma Grappa sedosa, grande classe, e longa persistência.

Agradecimentos finais a todos os confrades pela companhia, boa conversa, e imensa generosidade de todos. Que Bacco nos proteja e nos guie sempre nos melhores caminhos dos grandes vinhos! Abraços a todos!

 

 

Sommellerie: O Podium 2019 é da Juventude

20 de Março de 2019

Neste último mundial realizado na Bélgica pela ASI (Association de la Sommellerie Internacionale), os dezenove finalistas são extremamente jovens com raras exceções. Para a grande final, foram escolhidos os três melhores com  dois deles, abaixo de trinta anos. O sommelier campeão de 2019, o alemão Marc Almert de 27 anos, repetiu o feito de Enrico Bernardo. Um jovem sommelier que pela primeira vez participando de um mundial, levou a taça sem contestações. Isso vem provar que só a experiência não basta, é preciso conhecimento e atualização neste mundo extremamente dinâmico.

ASI sommelier 2019site: http://www.starwinelist.com

Os outros dois concorrentes, a dinamarquesa Nina Hojgaard Jensen e o letão Raimonds Tomsons, competiram de igual para igual. Muitos acharam que Nina pudesse ser perfeitamente a campeã mundial, a primeira mulher  nesta competição. Marc Almert, ao centro da foto.

Para não alongarmos a história, vamos detalhar os passos do campeão. A grande final começa com o serviço de um suposto Sauternes para um casal de amigos e uma cerveja belga para um  outro amigo em comum. O jovem campeão tira a cerveja com extrema técnica, preservando a mousse na hora do serviço em copo adequado, fato esperado para um autêntico alemão. O serviço do Sauternes tem um inconveniente, no qual o único vinho doce encontrado no balde de gelo é o famoso Late Harvest Vin de Constantia, África do Sul, normalmente vedado com cera. A regra manda que o vinho seja aberto sem a retirada da cera, o que facilita o serviço. A mulher do casal, prefere o serviço com um pouco de gelo, onde o sommelier executa sem contestação.

ASI semifinalistas 2019os dezenove semifinalistas

Na foto acima, David Biraud, o segundo da segunda linha, sommelier francês de larga experiência, ficou fora da grande final. Outro destaque, foram dois japoneses entre os semifinalistas. Martin Bruno da Argentina, foi o único representante sul-americano nas semifinais. 

Continuando a saga, o sommelier Marc Almert é chamado para uma degustação às cegas de um vinho tinto. O vinho é um australiano Henschke, um dos mais afamados do país dos cangurus com parreiras pré-filoxera. Este exemplar trata-se do Mount Edelstone, um 100% Shiraz de parreiras com mais de 85 anos de vida. O vinho é confundido com um grande Bordeaux de  margem direita, citando o Chateau Canon-Gaffelière safra 1997, provando mais uma vez que degustação às cegas não é fácil.

Continuando o trajeto, Marc é solicitado para decantar um Vega-Sicilia Reserva Especial para oito pessoas. Ele explica que normalmente os Reservas Especiais são fruto de uma mistura de três safras altamente cotadas. O serviço é feito com cesto à luz de vela, como manda o ritual no tempo solicitado. O Vega-Sicilia decantado é um lançamento de 2016 onde foram mescladas as safras 96, 98 e 2002. O primeiro lançamento na história do Reserva Especial deu-se no ano de 1965, uma das perguntas de um dos componentes na mesa.

rheingau pinot noir beerenauslese

um raro Pinot Noir doce

Na sequência, uma bateria com quatro vinhos às cegas. Um Mouchão, tinto alentejano, um Malvasia da Croácia, um Chateau Chalon (Jura), e um raro Pinot Noir alemão doce do produtor Assmannshauser, vinhedo Holleberg, Spatburgunder categoria Beerensauslese do Rheingau, safra 1989. O da foto acima não é da degustação por ser safra 1977. Mesmo o melhor do mundo, não acertou nenhum, provando mais uma vez que degustação às cegas é um ato de humildade. Na sua avaliação, o Mouchão passou por um belo Rioja Reserva, Chaton Chalon passou por Jerez, fato unanime entre os três finalistas, Malvasia passou por um Riesling austríaco do Wachau, e finalmente, o Pinot Noir doce passou por um Madeira Boal, mesma opinião de Nina Jensen. Já Raimonds Tomsons optou por um Tokaji 6 Puttonyos.

Continuando a trilha, é proposta uma harmonização com um menu de quatro pratos, a seguir:

  • Carpaccio of lighty seared Norwegian scallops with mango, avocado e coriander
  • Médallion of monkfish in a mushroom and chicken broth with périgord truffle and pata negra crisp
  • Beef cheeks braised in red wine with a celeriac and truffle purée
  • Belgian chocolate and walnult soufflé with roquefort sorbet

Marc Almert propõe os seguintes vinhos:

  • um branco alemão da casta Sylvaner bem fresco com a entrada
  • um Chateau Haut-Brion branco 2008 com o Tamboril
  • um Chardonnay americano de Carneros pela imposição de um dos componentes da mesa em tomar vinho branco com beef cheeks
  • um Porto Quinta de la Rosa LBV para a sobremesa de chocolate

As indicações foram boas, não fugindo muito dos clássicos. O Sylvaner alemão é bastante revigorante para a entrada de vieiras, proporcionando sabores delicados do prato, frente a discreta aromaticidade do vinho. O Haut-Brion branco tem estrutura para o Tamboril, peixe de carne firme e rico em sabores. Os cogumelos e as trufas casam bem com um certo envelhecimento do vinho, sendo a safra sugerida 2008. O Chardonnay americano de Carneros com passagem por barrica, tem estrutura para o prato de bochechas com pure de trufas. A escolha de um vinho branco foi imposição de um dos convivas da mesa. Por fim, uma escolha segura pelo Porto LBV, combinando tanto com o chocolate, como com o sorvete de queijo gorgonzola (similaridade com o Stilton inglês). 

Seguindo as tarefas, é proposto dois quadros com oito uvas, as quais têm correspondência com 24 vinhos de grande fama mundial. Portanto, um quadro com varietais brancas (Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling, Aligotè), e outro com varietais tintas (Sangiovese, Merlot, Pinot Noir, Syrah). Alguns dos 24 vinhos famosos foram: Soldera Pegasus (Sangiovese), Chacra 55 (Pinot Noir), Isole e Olena Cepparello (Sangiovese), Chave Cuvée Cathelin (Syrah), A&P de Villaine Bouzeron (Aligoté), entre outros. 

Por fim, a sétima tarefa na tensa competição foi degustar às cegas dez tipos de bebidas das mais variadas origens, tipos e estilos. Achei um pouco exagerado o número de bebidas. Poderia ser perfeitamente seis bebidas, no máximo. Enfim, o campeão não se deu muito bem nesta última prova, confessando ao final que foi o teste mais complicado para ele. Das dez bebidas, ele respondeu apenas sete, acertando apenas duas. Chegou a confundir nossa cachaça com vodka polonesa. Neste teste em particular, o letão Raimonds Tomsons saiu-se melhor.

marc almert bellavista rose magnumASI – Association de la Sommellerie Internacionale

Antes da divulgação das colocações, os três finalistas serviram um Magnum de espumante Bellavista Franciacorta Rosé em dezesseis taças (foto acima), tomando o cuidado de servir a mesma quantidade por taça, sem sobrar espumante na garrafa. O campeão fez o serviço com eficiência e em menos tempo.

Passar por todos esses percalços numa prova de sete etapas diante de uma plateia lotada, vários campeões mundiais à mesa, num cenário de restaurante, e com tempo contado sem muita margem de folga, exige nervos de aço dos sommeliers. Neste sentido, o alemão levou vantagem, mantendo a frieza alemã na medida do possível. Além disso, por ser sua primeira vez num mundial, o mérito fica ainda maior. Agora com este título e uma carreira inteira pela frente, o caminho fica mais fácil para o estrelato. Parabéns Marc Almert!

 

Mission quase Impossível!

19 de Dezembro de 2018

Muito se fala da reclassificação dos Chateaux em Bordeaux. Afinal, muita coisa mudou do fim do século XIX para cá. Um dos chateaux mais reivindicados para ocupar a posição de Premier Grand Cru Classé é o Chateau La Mission Haut Brion. Embora seja um chateau de Graves, mais especificamente de Pessac-Léognan, fica difícil manter só o Haut Brion, seu rival vizinho, como exceção na lista dos grandes do Médoc.

Nesta degustação que iremos comentar a seguir, fica mais uma vez provado, sua extrema qualidade, tradição, e consistência, safra após safra. As semelhanças de solos e da própria composição do corte bordalês, o deixa em pé de igualdade com o grande Haut Brion, embora a diferença de estilo entre os dois seja marcante. Segundo a crítica especializada, inclusive Parker, La Mission Haut Brion tem um estilo mais potente que seu arquirrival Haut Brion com maior estrutura tânica, sobretudo.

chateau la mission e haut brion

parte do La Mission colada em Haut Brion

Esclarecendo o mapa acima, Chateau La Tour Haut Brion era um chateau independente ligado ao La Mission. E assim, até 2005, sua última safra, foi considerado tradicionalmente como segundo vinho do La Mission. A partir de 2006, deixa de existir La Tour Haut Brion para ser nomeado o Chateau La Chapelle La Mission Haut Brion como segundo vinho do La Mission.

Chateau La Mission Haut Brion

Área de vinhas tintas: 25,44 ha (48% Cabernet Sauvignon, 41% Merlot e 11% Cabernet Franc). 5000 a 5600 caixa por ano. 100% carvalho novo com 22 meses de maturação.

Área de vinhas brancas: 3,74 ha (63% Sémillon e 37% Sauvignon Blanc). 550 a 650 caixas por ano. 100% carvalho novo de 13 a 16 meses de maturação. Vale lembrar que a partir de 2009 passamos a ter o La Mission Haut Brion Blanc, até então conhecido como Laville Haut Brion.

Feitas as devidas considerações, vamos aos flights degustados, mostrando características de safra e sua evolução em garrafa, principalmente em anos mais antigos. De modo geral, os vinhos surpreenderam muito em termos de conservação e longevidade. A década de 70 por exemplo, apresentou vários anos abaixo da média com notas desanimadores para a maioria dos chateaux. Com exceção da safra 69 com problemas de rolha afundada e entrada de ar na garrafa, além da oxidação do grande 75, os demais apresentaram um desempenho bastante satisfatório.

IMG_5429Flight 1

La Mission 68, plenamente evoluído, mas sem sinais de oxidação. As safras 72 e 80 apresentaram um pouco mais de extrato e meio de boca, embora também já plenamente evoluídas. O 69 apresentou problemas nesta garrafa, conforme descrito acima. Começo animador!

fazenda sertão la mission 73 77 84flight 2

Um flight que poderia ser catastrófico, mostrou-se com muita consistência, embora com vinhos plenamente evoluídos. O La Mission 73 abaixo da média, mas o 74 surpreendeu pela elegância. O 77 e 84 se portaram muito bem, de acordo com as expectativas das safras. O 74 não aparece na foto.

IMG_5431Flight 3

No flight acima, muito equilíbrio. Embora sem nenhum grande vinho, eles estavam corretos e plenamente evoluídos. 67 e 70, um pouco abaixo em termos de concentração. O 76 surpreendeu positivamente numa safra crítica. Por fim, o 81 um pouco acima dos outros, mais estruturado e vigoroso.

IMG_5432Flight 4

É lógico que neste flight, a superioridade da dupla 78 e 85 foi marcante. La Mission 66 ainda com aromas deliciosos, embora bastante frágil nesta altura da vida. La Mission 78 tem uma estrutura impressionante. Parece não sentir o peso da idade com taninos poderosos. Já o 85, mais prazeroso, com menos arestas e aromas de grande finesse com toques terrosos e de estrabaria. Um salto considerável na degustação.

IMG_5433Flight 5

Este flight só não se equiparou com o anterior porque o La Mission 75 estava oxidado, uma pena. A safra 79 bastante agradável, mas a dupla 82 e 83 se destacaram para encerrar a degustação. O La Mission 82 foi o mais próximo do monstruoso 78 com muita estrutura e vigor. Seus taninos são de uma textura incrível. O La Mission 83 embora delicioso e muito bem equilibrado, foi eclipsado pelo 82 bem a seu lado. De todo modo, um belo vinho.

IMG_5434o rival chegou para o almoço

Para enfrentar 20 safras de La Mission, o rival Haut Brion precisou apresentar-se no formato Imperial com a safra inquestionável de 1998. Apesar de mais jovem do que a média degustada dos La Mission, o vinho estava esplendoroso com 99 pontos Parker. No momento, tem muita fruta, muitos taninos finíssimos, e todo o perfil aromático dos grandes Haut Brion. Mesmo com 20 anos de idade, tem vigor de sobra para mais 20 anos em adega. Sem dúvida, será um dos grandes Haut Brion da história deste belíssimo Chateau.

recordando Babette …

No preâmbulo do almoço, foi servido um autêntico Caviar Beluga, impecavelmente fresco, fazendo par e à altura do champagne Cristal 2009, nota 95+ Parker. Aromas e texturas se fundiram perfeitamente, num final limpo e de grande frescor. Não sei o caviar, mas o champagne melhorou muito em relação ao filme …

fazenda sertao la mission 66 a 75La Mission Ato 1

Acima e abaixo, fotos da turma. Muito interessante esta experiência de uma vertical longa, passando pelas décadas de 60 ,70, e 85. Os vinhos foram decantados perto do momento da degustação, exceto safras como 75, 78, 82 e 85, abertas com mais antecedência, devido ao vigor das mesmas.

fazenda sertao la mission 76 a 85La Mission Ato 2

Fechamos o ano em alto estilo, confirmando o viés francófilo desta turma. Safras garimpadas com muita dedicação e conhecimento, procurando garrafas de ótimo estado e procedência segura. O nível de vinho nas garrafas surpreendeu positivamente e não tivemos nenhum bouchonné. 

um fantasma apareceu!

No apagar das luzes, eis que surge um Madeira 1880. Que elegância, que equilíbrio, que profundidade. Um Terrantez, uva praticamente extinta na ilha, provando que esses vinhos são realmente imortais. Eu não acredito em bruxas, mas elas existem …

Agradecimentos sinceros pela presença e generosidade de todos ao longo do ano, e em especial ao anfitrião, que nos recebeu com muito carinho, cuidando de todos os detalhes. Que venha 2019 com muita força, capaz de superar um ano tão intenso como 2018. Boas Festas a todos!

Os grã-finos dos anos 50

24 de Novembro de 2018

A década de 50 é marcada por grandes acontecimentos: o início da televisão, auge das carreiras de Elvis Presley e Marylin Monroe, nascimento da Bossa Nova, primeiro título mundial da Seleção brasileira de futebol, Ernest Hemingway ganha o Prêmio Nobel de Literatura. Além disso, grandes anos para os vinhos de Bordeaux: 1950, 1953, 1955, e 1959. Em 1950, a margem direita com grandes notas (Lafleur e Petrus perfeitos). Em 1955, vários chateaux com notas altíssimas, em especial, Chateau La Mission Haut-Brion em ano glorioso. Contudo, vamos falar dos anos 53 e 59 com alguns exemplares degustados num belo almoço no restaurante Parigi em São Paulo.

as entradinhas com Madame Leflaive

Grand Cru com aproximadamente 3,7 hectares, Bienvenues Batard-Montrachet tem seu auge nas mãos de Domaine Leflaive, maior proprietário desta apelação com 1,15 hectares de vinhas plantadas no final dos anos 50. Embora ainda muito novo, a bela safra 2015 proporciona aromas maravilhosos com a fruta bem mesclada à madeira. Seu equilíbrio e persistência aromática são notáveis, vislumbrando um grande futuro. Começamos bem!

mais de 50 anos os separam

Antes de entrarmos nos destaques, algumas baixas do almoço. Dois belos chateaux em duas grandes safras. Contudo, duas garrafas com problemas. O Haut Brion 98 com 99 pontos Parker e previsão de apogeu para 2045 estava oxidado, embora ainda muito novo. Mesmo assim, exibiu toques de chocolate escuro ou cacau com taninos poderosos, confirmando que se trata de um grande ano para este chateau. O Beychevelle 45, ano da vitória, com aromas plenamente desenvolvidos de Bordeaux antigo e taninos todos polimerizados. Havia um pequeno indício de TCA que o prejudicou um pouco. Mesmo assim, percebe-se uma das grandes safras para este chateau de Saint-Julien.

img_5355vinhos soberbos!

Embora o rótulo do Trotanoy esteja de ponta-cabeça, o vinho é deslumbrante. A disputa foi tão acirrada como as notas de cada um, Lafite 99 pontos e Trotanoy 98 pontos. Trotanoy, um dos grandes Pomerol depois do rei Petrus, começou estonteante com aromas delicados e uma maciez impressionante, dando mostras que iria levar fácil este flight. Lafite por sua vez, começou tímido, um tanto austero com sua acidez marcante. Pouco a pouco, ele foi crescendo na taça e mostrando porque é um dos cinco Premier Grand Cru Classé do Médoc. Seus aromas de cedro, tabaco e especiarias finas são muito elegantes. Essa delicadeza com uma textura em boca mais delgada o credencia a ser o Borgonha entre os bordaleses. De todo modo, um flight belíssimo com empate técnico.

img_5363os dois melhores do ano 53

Este flight foi bem mais fácil. Lafite 53 foi o melhor dos Lafites que já provei. Estava mais inteiro que o 59 e ainda com vida pela frente. Um monumento de vinho com aquela acidez cortante e taninos ainda firmes, embora extremamente finos. O Margaux 53 com nota 98 Parker não foi tão feliz nesta garrafa. Estava até um pouco turvo. Seus aromas eram o ponto alto com muita elegância, mas em boca um tanto cansado, sem aquela persistência aromática. Mas claramente, é uma questão de garrafa, pois trata-se de um grande vinho para esta safra. Lafite brilhando mais uma vez …

os pratos e mais um 59

Não era mesmo dia de Haut-Brion. Embora 59 não seja a melhor safra para este chateau, já provei outros 59 soberbos. Este estava um pouco prejudicado, um pouco cansado, sem o mesmo brilho que lhe é peculiar. Mesmo assim, é super equilibrado, aparecendo na taça um toque intrigante de menta. Taninos totalmente resolvidos.

Quanto aos pratos, foto acima, eles foram escolhidos pela delicadeza, deixando os velhinhos bordaleses mais à vontade. A omelete com foie gras e molho de vinho tinto, tinha uma textura delicada e sabores compatíveis aos vinhos. Já a massa na manteiga com trufas, dispensa comentários.

img_5364a estrela do almoço!

Ele nem está relacionado nas notas de Parker, mas nunca duvide de um Cheval Blanc, independente da safra. Sem querer compara-lo ao estupendo Lafite 53, comentado a pouco, este Cheval foi o vinho que mais impressionou pela força, pela intensidade de cor, e pela estrutura de taninos, podendo ainda ser adegado por longo tempo. Eu não diria que podemos compara-lo ao mítico 1947, mas ele faz um boa sombra. Sem dúvida nenhuma, Cheval é o mais elegante entre todos os de Saint-Emilion com alta proporção de Cabernet Franc, o que lhe confere extrema longevidade.

mosaico de cores

Olha a cor deste Cheval 53 à esquerda, impressionante. As taças à direita sempre Zalto, estão com alguns dos Bordeaux 59. É quando eles atingem a devida maturidade. Muita paciência até chegar este momento. São vinhos de evolução muito lenta.

foto invertida do Trotanoy

De sobremesa num almoço bordalês, não podia faltar o majestoso Yquem. Como curiosidade, as duas meias-garrafas da foto acima, oriundas da mesma adega, apresentaram evoluções diferentes, inclusive na cor. Uma mais desenvolvida com lindos toques de mel, caramelo e frutas passas com damasco, por exemplo. O outra, um pouco mais contida, mas igualmente bem equilibrada. A safra de 90 é praticamente perfeita com 99 pontos e muita vida pela frente. Certamente, será um dos grandes Yquems apreciados no século XXI. 

Encerrando a esbórnia, ficam os agradecimentos a todos os confrades presentes e o lamento pelos ausentes. Uma experiência sensorial divina com Bordeaux de alto coturno no auge de sua apreciação. Confraria de grande generosidade, sem frescuras, e alto conhecimento de pessoas acostumadas com grandes ampolas. Abraços a todos e que Bacco nos proteja sempre!.