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Montrachet e Le Montrachet

18 de Janeiro de 2016

Este é o melhor vinho branco seco da Terra! É a frase mais dita sobre o grande Montrachet. Respeito esta opinião, mas outras preferências bem escolhidas também são válidas. Enfim, não há dúvida que trata-se de um grandíssimo vinho. No mapa abaixo, podemos ver detalhes de seus diversos produtores que trabalham com parcelas reduzidas, dando seu toque pessoal na lapidação desta joia. No site, abaixo da figura, podemos ter uma visualização melhor.

Map credit: Fernando Beteta, MS

A Chardonnay em seu esplendor

http://www.tenzingws.com/blog/2016/1/12/interactive-map-of-le-montrachet-vineyard

Para entender este terroir é preciso entender seus vizinhos ilustres: Bâtard-Montrachet e Chevalier-Montrachet, sem contar com os diminutos em área plantada, Criots-Bâtard-Montrachet e Bienvenues-Bâtard-Montrachet. A altitude do vinhedo Montrachet parece-me o ponto chave da questão. Fala-se muito da perfeita insolação no vinhedo ( o sol no verão vai até às 21:00 hs), fruto da também perfeita declividade do terreno. De fato, Montrachet fica no meio dos outros dois Grands Crus (Bâtard a sul, e Chevalier a norte). A seguir, seguem algumas descrições sobre esses fabulosos vinhos de caráter fundamentalmente pessoal, embora embasadas em relatos e livros de fonte confiável.

Bâtard-Montrachet é um Grand Cru por volta de doze hectares de vinhas. Em seu solo a presença de argila é mais destacada do que nos demais Grands Crus, embora haja uma certa proporção de calcário. Este fator aliado a uma altitude mais baixa, gera vinhos mais encorpados, mais intensos e de destacada maciez. É como se fosse um Meursault com mais finesse. É esta finesse a mais que falta para um Meursault tornar-se Grand Cru.

Chevalier-Montrachet é pura elegância, mas uma elegância com profundidade. É exatamente esta profundidade que falta aos grandes Puligny-Montrachet para tornarem-se Grands Crus. Como aqui você tem uma altitude mais elevada, um solo pedregoso, rico em calcário, esta elegância, esta sutileza, são perfeitamente justificadas. E quando você pega um produtor como Domaine Leflaive neste terroir! Sua filosofia de trabalho priorizando  a delicadeza dos vinhos é absolutamente compatível com os terroirs de Chevalier-Montrachet e Puligny-Montrachet. Pessoalmente, não vejo concorrentes à altura. Resta saber, se a morte recente de Anne-Claude Leflaive não abalará esta precisa filosofia.

montrachet leflaive

estilo elegante

Agora sim, vamos ao grande Montrachet! Este é um vinho capaz de unir os dois Grands Crus acima descritos. Ao mesmo tempo que ele é forte, denso, encorpado, há um lado delicado, sutil e misterioso. Capaz de envelhecer por décadas, sua estrutura é monumental. A brincadeira maior em torno dele é comparar o estilo, a personalidade dos vários produtores desta obra-prima. Assim como Bâtard-Montrachet, o vinhedo Montrachet é partilhado exatamente em áreas iguais entre as duas comunas famosas: Chassagne-Montrachet e Puligny-Montrachet. Neste contexto, chegamos ao título do artigo. Os vinhedos pertencentes a Chassagne costumam ser chamados de “Le Montrachet”  e os vinhedos de Puligny, simplesmente “Montrachet”, embora este detalhe não seja grafado e respeitado em vários rótulos.

montrachet drc

Taça Riedel para Montrachet

Nas sutilezas que este Grand Cru nos mostra, temos uma tendência em enfatizar um perfil mais encorpado, mais denso, nos Montrachets elaborados no lado de Chassagne. De fato, os vinhos do Domaine de La Romanée-Conti são Montrachets mais densos, mais musculosos. Os Montrachets do Domaine Lafon, da mesma forma. A exceção fica por conta do Domaine Leflaive, onde a imposição de sua filosofia é mais forte do que as características do terreno. Neste mesmo raciocínio, os Montrachets do produtor Ramonet costumam ser mais elegantes, de acordo com o terreno da porção de Puligny-Montrachet, embora seja um grande produtor de Bâtard-Montrachet, um vinho mais denso.

Novamente, falando do lado pessoal, Baron de Thénard é o menos interessante dos Montrachets. Falta um pouco de personalidade em seus vinhos. Já Marquis de Laguiche, propriedade de Joseph Drouhin, Montrachet de maior área plantada (dois hectares), é um Grand Cru confiável, consistente, e um bom começo no desbravamento deste fantástico Grand Cru.

Corton-Charlemagne: A montanha mágica

30 de Dezembro de 2015

Em minhas aulas sobre Terroir, a montanha de Corton é um exemplo inconteste que este conceito existe e é palpável. A composição de solo neste caso, determina criteriosamente o plantio de Chardonnay e de Pinot Noir em porções bem definidas. Hugh Johnson em seu livro diz que há uma espécie de Alice no País das Maravilhas permeando esta montanha, capaz de mudar repentinamente o cenário e nossas percepções.

A parte mais alta da montanha, rodeando seu cume, é rica em fragmentos de calcário, fazendo um terroir perfeito para a Chardonnay. Abaixo desta zona, no meio da montanha, a argila ganha força na composição do marga (mistura judiciosa de argila e calcário), tornando o solo mais frio e propicio ao cultivo da Pinot Noir. Deste raciocínio saem dois vinhos mágicos, ambos Grand Cru, o branco Corton-Charlemagne e o tinto simplesmente Corton, o único Grand Cru em Pinot Noir da Côte de Beaune. Especialmente neste artigo, falaremos do branco Corton-Charlemagne de um produtor de destaque, referência para a apelação.

Bosque de Corton ao fundo

A primeira vez que provei um Bonneau du Martray, o vinho estava num período de latência, sem grande expressão, mas ao mesmo tempo, dava para perceber o grande potencial de guarda do mesmo. A safra era de 1985, grande ano na Borgonha, como de modo geral em toda a Europa. Este branco Corton-Charlemagne, é um dos Grands Crus da Côte Beaune com características totalmente distintas.

Se Chassagne-Montrachet, Puligny-Montrachet e Meursault, são vinhos que falam entre si, o branco de Corton tem personalidade diferente, mais próxima aos Grands Crus de Chablis. Seus aromas lembram a mineralidade do Chablis, mas a textura tem um Q de Beaune, sem perder a semelhança com um Les Clos, o mais vigoroso entre os Grands Crus de Yonne.

bonneau du martray

veja a luminosidade desta cor no decanter

No exemplar acima com onze anos de idade, a cor se destaca pela jovialidade e o brilho dos grandes vinhos. Os aromas têm sempre algum mistério, mas notas sutilmente cítricas, florais e um fino boisé, são claramente percebidos. Em boca, impressiona como um autêntico Grand Cru. Percebe-se de início aquela tensão e mineralidade do Chablis, mas ao mesmo tempo uma maciez, uma densidade, com aquele Q de Beaune. O frescor, a vibração, a persistência e o equilíbrio, são notáveis. Pelo seu vigor, podemos vislumbrar pelo menos mais dez anos de guarda.

Alguns dados sobre Bonneau du Martray Corton-Charlemagne: vinhas de 45 anos divididas em 16 parcelas. Fermentação com leveduras naturais. Utilização de carvalho na fermentação e amadurecimento por 12 meses, sendo somente 30% novo. Trabalho judicioso de bâtonnage (contato sur lies revolvendo as borras).

Os grandes brancos da Borgonha

  • Bâtard-Montrachet – textura semelhante a Meursault com mais complexidade
  • Chevalier-Montrachet – elegância de um Puligny-Montrachet beirando a perfeição
  • Montrachet – (Bâtard + Chevalier)²
  • Corton-Charlemagne – Chablis Les Clos com textura de Beaune
  • Chablis Grand Cru – mineralidade e intensidade

Grandes Vinhos, Grandes Safras: Parte I

9 de Outubro de 2014

Depois de um hiato na rotina de nossas publicações, começa aqui o relato de algumas degustações de alto nível com amigos na França. O nome desta série tenta reproduzir as sensações e o glamour de alguns mitos da enologia, sobretudo francesa. A primeira degustação começa já no avião com toda a energia e expectativa do grupo, conforme relato abaixo.

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Neste primeiro grupo de vinhos degustados, podemos começar pelo Vieux Chateau Certan 1990, um dos tintos entre os melhores do seleto grupo de Pomerol, embora não haja ainda uma classificação oficial para esta apelação. Um vinho muito bem pontuado, mas que não estava em sua melhor forma. De qualquer modo, muito agradável, apesar de haver garrafas melhores. Aliás, um ditado que vai ser recorrente neste artigo é: ¨Em vinhos antigos, não existem grandes safras. Existem grandes garrafas¨.

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Em seguida, fomos para Pauillac com o belo Chateau Latour 1982. Um dos grandes desta safra e muita estrutura em boca. Nariz ainda um pouco fechado e taninos abundantes. Vai evoluir por algumas décadas e mesmo em seu apogeu, permanecerá por longo tempo.

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Os dois tintos foram precedidos pelo Champagne Cristal 2002 e pelo trio de ferro dos brancos de Beaune: Corton Charlemagne Coche-Dury, Ramonet Bienvenue Batart Montrachet e DomaineMichel Niellon Chevalier Montrachet, todos Grand Crus.

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Produtor excepcional

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Vinho raro do Ramonet

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Muita vida pela frente

O champagne Cristal dispensa comentários, sobretudo numa safra relevante como 2002. Bienvenue do Ramonet é um vinho raro e neste exemplar mostrou um toque cítrico sensacional. Já o Corton Coche Dury estava aberto e extremamente cativante enquanto o Chevalier de Michel Niellon mostrava-se introspectivo. Só após algum tempo, seus aromas e sabores desabrocharam.

Enfim, para um início de viagem, nada mal. No próximo artigo, chegada à Borgonha, Dijon, Côte de Nuits.

Lembrete: Vinho Sem Segredo na Radio Bandeirantes (FM 90,9) às terças e quintas-feiras. Pela manhã, no programa Manhã Bandeirantes e à tarde, no Jornal em Três Tempos.

Domaine Leflaive: Montrachet em todos os prefixos

22 de Julho de 2013

Quando pensamos em Montrachet, imediatamente nos transportamos para a essência de um grande Borgonha. E quando falamos de Le Montrachet, falamos do Romanée-Conti de todos os grandes brancos da Côte de Beaune. Contudo, seria mais prudente compararmos este esplêndido vinhedo de pouco mais de oito hectares à comuna de Vosne-Romanée, pois temos vários produtores. Dentre os grandes, numa verdadeira batalha de titãs, Domaine Leflaive, pessoalmente, é a grande referência. A razão é simples, é especialista neste pequeno pedaço de terra com todos os prefixos Montrachet, sendo cinco hectares na apelação Grand Cru, e pouco mais de onze hectares na apelação Premier Cru, todos de altíssimo nível. Veja o vídeo abaixo, com madame Anne-Claude Leflaive e sua filosofia biodinâmica.

http://youtu.be/Q6Ebqm5Eud4

O quadro abaixo nos mostra os principais vinhedos do domaine com Premiers Crus notáveis. O trabalho na vinha dispensa comentários; é preciso, e com todo o rigor biodinâmico.

Lotes muito bem selecionados

Quanto à vinificação, de acordo com a matéria-prima, o processo desenvolve-se naturalmente, respeitando os respectivos terroirs. Para o Grand Vin, Le Montrachet, a fermentação dá-se em barricas de carvalho novas de Allier (carvalho ultra refinado), seguindo-se doze meses de amadurecimento sur lies com bâtonnage, e mais seis meses em carvalho de um ano de uso, antes do engarrafamento com filtragem extremamente ligeira, se necessário.

Montrachet: Berço espiritual da Chardonnay

Para os demais Grands Crus (Chevalier, Bâtard e Bienvenues), o processo é semelhante com algumas variações: apenas 25% de madeira nova. O carvalho, além de Allier, participa o da floresta de Vosges. E o amadurecimento de doze meses em barricas, é complementado por mais seis meses em cubas.

Para os Premiers Crus, todo o ritual é praticamente igual a dos vinhos acima citados, com pequenas variações na porcentagem de madeira nova. Os vinhos são de grande categoria, sendo os vinhedos Les Pucelles e Le Clavoillon, os maiores em área (em torno de quatro hectares cada um). 

Para aqueles que querem se aventurar na magia destes Grands Crus, podemos dizer que Chevalier-Montrachet é o mais delicado, com uma elegância ímpar. Seu solo é o mais pedregoso e de ótima drenagem. Já Bâtard-Montrachet é o mais denso, encorpado, por conta de seu solo mais argiloso em relação ao calcário. Por fim, Le Montrachet, a perfeição, unindo a elegância de Chevalier e a robustez de Bâtard, com muito equilíbrio, profundidade e expansão. Todos eles de grande guarda. Tenha paciência para pelo menos dez anos de espera, antes de abri-los.