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Soldera, só em taça de Borgonha

23 de Fevereiro de 2019

Brunello di Montalcino, nos dizeres de Hugh Johnson, um vinho para heróis, para momentos épicos. Desde sua criação com Biondi-Santi, seus inúmeros seguidores propunham um vinho austero, imponente, para longo envelhecimento. Em seguida, num tempo bem mais recente, os chamados modernistas propuseram um Brunello mais macio, mais frutado, mais acessível na juventude. A casta é chamada de Sangiovese Grosso, um clone somente utilizado na região de Montalcino, pois sua maturação não ocorre perfeitamente na região do Chianti Classico, onde ali é cultivada a Sangiovese Piccolo.

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momento de descontração

Pois bem, Gianfranco Soldera, propos um Brunello diferente, delicado, sutil, um verdadeiro Borgonha dentro da Toscana, sem perder a autenticidade do terroir. Seus vinhos super valorizados, são disputados em leilões, sobretudo em safras mais antigas. Com seu recente falecimento, esses vinhos se tornarão históricos, e seus preços …

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a taça sempre Borgonha e os tonéis eslavônios 

Sempre a taça borgonhesa e os tonéis de carvalho eslavônio ao fundo num dia frio em Montalcino. Seus taninos delicados e seus sutis aromas se adequam perfeitamente à taça, sobretudo com o envelhecimento.

História

Case Basse é uma vinícola de 23 hectares, localizada na parte central da denominação de origem Brunello di Montalcino, a 320 metros de altitude num solo de origem vulcânica. 

Podemos dizer que é uma vinícola de história recente, já que as primeiras safras foram de 1972 e 1973. O cultivo e a vinificação é totalmente natural, e o amadurecimento dos vinhos se dá em grandes tonéis da Eslavônia, madeira tradicional utilizada na região, por pelo menos quatro anos.

A produção anual é em média 15 mil garrafas  que podem chegar ao preço unitário de 500 euros. Das trinta safras já produzidas, todas de altissimo nível, Gianfranco cita a safra 1979 como safra de emoção.

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Grandes safras: 79 e 90

O Símbolo no rótulo em forma de S vem da mitologia grega. Há um chafariz na propriedade com esta escultura. Para se ter uma ideia da pureza e naturalidade deste vinho, a Universidade de Enologia de Firenze participa da análise dos vinhos, relatando toda a microbiologia do processo. No início da fermentação participam vários tipos de leveduras naturais sem a presença ainda da Saccharomyces Cerevisiae, a qual só atua efetivamente no mosto a partir do terceiro dia de fermentação. O processo é lento e totalmente espontâneo, durando cerca de 60 dias. Toda a fermentação e amadurecimento é feito em madeira. A levedura natural dominante que atua após o processo fermentativo nos tonéis é a Oenoccocus Oeni. O amadurecimento em grandes Botti eslavônios pode chegar a cinco anos. O vinho é engarrafado sem filtração. 

Além do grande Soldera, sobretudo o Riserva, Case Basse elabora outros vinhos no portfolio, tais como: Soldera Pegasos, Soldera Intistieti e Rosso di Montalcino, este último um vinho mais simples, para consumo imediato. Quanto aos dois primeiros, são vinhos que passaram menos tempo em madeira, devido a características de safras específicas.

A novidade a partir de 2006, é que o grande Soldera abriu mão da denominação Brunello di Montalcino para uma denominação mais genérica chamada Toscana IGT com a menção 100% Sangiovese. O design do rótulo é idêntico ao Brunello tradicional da Casa. Só mesmo o prestígio do nome Soldera para dispensar uma denominação como Brunello, uma das mais prestigiadas da Itália. É quando a marca adquire terroir e diferenciais únicos. Angelo Gaja também fez isso com seus Barbarescos. Privilégio de poucos …

b6a89309-0eac-42e3-8fcb-5320fe8ef4b0vertical de Soldera

Com a devida introdução, vamos a uma bela vertical de Soldera realizada no restaurante Gero, Jardins. Foram sete safras, sendo a mais antiga 94, e a mais recente 2006. Todos os vinhos com mais dez anos, tempo suficiente para uma boa evolução em garrafa.

img_5699Leflaive brindando Soldera!

Para aguçar as papilas, uma dupla de brancos de respeito com a assinatura Domaine Leflaive. Começando com o raro Bienvenues Batard-Montrachet safra 2002. Um vinhedo que parece mais um jardim com 1,15 hectare de vinhas datadas de 1958 e 1959. Toda a elegância de Madame Leflaive num branco harmônico, em sua plenitude, com frescor e complexidade. O vinho é profundo sem ser pesado. Notas de flores, mel, pêssegos, e um fino tostado, permeiam a taça. Já seu oponente, o maravilhoso Chevalier-Montrachet, especialidade da Casa, estava um pouco cansado. Mesmo assim, era notável sua estrutura e sua riqueza aromática. Em sua melhor forma atinge 97 pontos como uma das melhores safras já elaboradas. 

img_5700um trio de respeito

Quase o mais antigo com o mais novo, as safras 1994 e 2003 se confrontaram. Mas quem se saiu muito bem foi o vinho da esquerda, o envolvente Soldera Riserva 2000. Um Brunello na sua plenitude, ótimo momento evolutivo, e com a marca Soldera de pura elegância. Tem 93 pontos Parker e bem o merece. Tinto macio, taninos finos, belo meio de boca, aromas de cerejas escuras, alcaçuz, e finas especiarias. Pessoalmente, o mais prazeroso da degustação.

Já o Soldera Riserva 1994 impressionou por sua estrutura e longevidade com taninos firmes e presentes. Um lado mais viril dentro da delicadeza Soldera. É bom lembrar que neste ano tivemos as duas versões, Riserva e não Riserva. O que difere esses vinhos é um ano a mais nos tonéis para o Riserva, antes da comercialização. Neste exemplar, podemos notar frutas em licor, especiarias como cardamomo, e algumas notas de chá, ou seja, aromas terciários em profusão. Por fim, o Riserva 2003 não emocionou tanto como os demais, embora ainda muito jovem. De qualquer modo, parece não ter o mesmo extrato que seus parceiros.

0016b4bd-417a-45a6-beeb-afc384aad9c2grandes safras em momentos distintos

Neste flight, temos vinhos semelhantes em estrutura, mas momentos distintos de evolução. As safras 2005 e 97 têm 92 e 93 pontos, respectivamente. Neste exemplar 2005, ainda muito vigor, vinho em evolução, mas com muita fruta, especiarias, notas defumadas, e um belo equilíbrio. Já o 97, um vinho maduro, com notas terciárias de tabaco, algo cítrico que lembra laranjas sanguíneas, de polpa vermelha, e um mineral terroso. Neste ponto do almoço, alguns pratos que acompanharam bem os vinhos, conforme foto abaixo.

pratos do Piemonte

Embora os Brunellos remetam a pratos de carne mais estruturados como a Bistecca alla  Fiorentina, por exemplo, os vinhos de Gianfranco Soldera são mais delicados e femininos, buscando uma cozinha mais requintada como a do norte da Itália. O risoto de funghi porcini fresco com os vinhos mais evoluídos ficou perfeito, enquanto o rico Bollito Misto teve mais presença com os vinhos jovens, mais vigorosos. Tudo bem executado pelo restaurante Gero, sob o comando impecável do maître Ismael.

img_5705embate de gigantes

Enfim, o gran finale, dois Solderas Riservas altamente pontuados das belas safras 2004 e 2006 com 97+ e 95+ pontos, respectivamente. Foi muito difícil julga-los, tal a semelhança de estrutura de ambos. Devem ser decantados com pelo menos duas horas de antecedência, pois ainda estão em evolução para pelo menos mais uma década. Todo o vigor das grandes safras, mas sempre com a elegância de um autêntico Soldera. Bom corpo de ambos, muita fruta madura e fresca, rico em especiarias, alcaçuz, e um fundo defumado. Taninos muito presentes e extremamente finos. No fotochart, o 2004 justifica seus dois pontos a mais com uma expansão de boca um pouco mais ampla. Contudo, dois belos Solderas fechando o almoço com promessas certeiras para as próximas décadas. 

clássicos italianos

As sobremesas com os clássicos do norte e sul da Itália, Tiramisu e Cannoli de Pistache, respectivamente, muito bem executadas, gentilezas de Rogerio Fasano.

De todo modo, uma bela homenagem a um dos grandes mestres da enologia italiana, Gianfranco Soldera, colocando seu talento acima do terroir de Brunello di Montalcino. Nos dizeres do próprio mestre, suas safras eram como filhos, sem distinção: “Non ce n´è annata meglio o peggio, sono diverse”. Descanse em paz Mestre, o céu tem muito a comemorar!

Espanha x Italia, será?

21 de Maio de 2018

Lamentavelmente nas vésperas da Copa na Rússia, não teremos este embate, já que a esquadra Azzurra vacilou em sua classificação. Contudo, no restaurante Parigi, foi show de bola com direito à prorrogação. Os Ais do lado  italiano e Vegas do lado espanhol, mediram forças num jogo cheio de variações. Ao final, a plateia (nós confrades) é que se deliciou em várias fases da partida num confronto de gigantes, um verdadeiro clássico.

times em campo

Logo de cara, Pingus x Masseto da calorosa safra 2003. Que embate de titãs! Os dois com uma força e conservação incríveis. Masseto com um frescor vibrante, 100% Merlot, mas com a marca da Itália. Não tem o perfil dos granes Pomerols, pelo menos nesta safra, mas ainda com muito vigor e se soltando e crescendo a cada instante na taça. Já o Pingus, um Tempranillo puro sangue de Ribera del Duero do craque dinamarquês Peter Sisseck com a primeira safra em 1995. Um vinho musculoso, elaborado a partir de parreiras muitos antigas de baixíssimos rendimentos (em  torno de 15 hl/ha). Da mesma maneira que mostrava potência, tinha uma suavidade em boca e taninos de rolimã. Grande persistência aromática, sendo de fato, um dos mitos da Espanha. Os dois com notas altíssimas, em torno de 94 pontos. A torcida ficou dividida, mas Masseto encantou por estar mais pronto.

IMG_4649.jpgdisputa acirrada

Em um nível um pouco abaixo de potência, os Aias da Toscana se confrontaram. Um da Itália central, Solaia, região do Chianti Classico, e outro de Maremma, Ornellaia, região litorânea da Toscana, ambos supertoscanos. Os dois foram vinhos do ano na revista Wine Spectator. Solaia no ano 2000, e Ornellaia no ano seguinte, 2001.

Um embate equilibrado, mas com vantagem para o Solaia, tendo mais vigor e vida pela frente. Ornellaia é um típico corte bordalês de Bolgheri, terra também do grande Sassicaia. O vinho atingiu seu apogeu com toques e nuances de belos Bordeaux. Naturalmente, não tem a força de um Premier Grand Cru Classé, mas briga bem no time de cima de margem esquerda. Já o Solaia, tem a espinha dorsal baseada na Cabernet Sauvignon, mas com o charme da Toscana onde 20% de Sangiovese entram no blend. Belo frescor, taninos bem moldados, e boa presença em boca. Deve evoluir bem por mais dez anos em adega, embora possa  ser provado no momento com a devida decantação. Solaia desta vez mostrou-se superior.

IMG_4650.jpgdois vinhos premiados em anos seguidos

Nesta sucessão de partidas, a boa mesa deve estar presente. Nada melhor que a clássica cozinha do Fasano para nos confortar em um de seus restaurantes, no caso, Parigi. Risoto de Codorna no vinho tinto e o emblemático Filé Rossini, fotos abaixo. A delicadeza e sabores dos pratos casaram bem com a complexidade dos vinhos. Destaque também para o sommelier Fábio Lima, pelo belo serviço de todos os vinhos com precisão e eficiência.

pratos para vinhos finos

Neste último confronto entre Vegas, o nível subiu absurdamente. São Reservas Especiais antigas, mesclando as melhores safras de suas épocas respectivas em lindas garrafas foscas. É um trabalho longo em cantina, mais de dez anos, até a comercialização. A comparação é sempre cruel, os dois estavam espetaculares. O vinho da esquerda na foto abaixo, é uma mescla das safras 91, 94, e 95, com apenas 15298 garrafas. A safra 91 aporta complexidade, a 94 em maior quantidade, a estrutura, e a 95, a elegância. O vinho tem 99 pontos Robert Parker e bem merecidos. Seu apogeu está previsto para 2035, mas já está uma maravilha. Seus aromas balsâmicos, rico em especiarias, cedro, quase uma loja da L´Occitane. Boca maravilhosa, componentes perfeitamente integrados, não sobrando, nem faltando nada, e uma persistência longa e expansiva.

IMG_4653.jpgnovamente, a escolha de Sofia

Agora, o que falar do vinho à direita, uma poesia liquida de apenas 9880 garrafas. Segundo o site cellartracker, este release de 1987 engloba as safras de 65, 73, e 75, com uma pontuação acima de 95. De fato, é um vinho de silenciar. Tem um aroma muito fino de grãos de café, alcaçuz, cardamomo, algo de curry, é sensacional. São aromas etéreos e de difícil identificação. Na boca, o vinho é um deslumbre, totalmente macio e harmônico. Não dá par dar nota neste caso …

Soldera: apresentação Solo

Como a conversa estava muito boa, resolvemos fechar a tarde com o Brunello de pureza extrema, o grande Soldera Riserva 2000. É considerado com méritos, o Borgonha da Toscana. Cor clarinha, aromas etéreos, mas com uma força e presença extraordinárias. Um vinho de muita tradição, trabalhado com longa maceração e envelhecido em Botti (grandes toneis eslavônios). O chamado “vino di meditazione¨. Com este queijinho Grana Padano da foto, o entardecer ficou mais bonito …

Agradecimentos a todos os presentes nesta tarde memorável, lamentando sempre a falta dos demais confrades que por razões diversas não cumpriram suas orações com Bacco. Que Deus os perdoem! 

Um italiano na tropa de elite

11 de Março de 2017

Quando se trata do alto escalão francês, é sempre um problema mostrarmos belos vinhos de outros países, de outras regiões. Embora eles possam ser bastante atrativos, em muitos casos a comparação torna-se cruel. Não foi o caso deste Soldera Riserva 2005 em garrafa Magnum que não se intimidou frente a grandes bordaleses, sobretudo à mesa acompanhando os pratos.

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elegância em Montalcino

Apesar de jovem, o estilo tradicionalista Soldera agrada sempre pela elegância e sutileza de aromas. Envelhecido por até cinco anos em botti (toneis grandes de madeira) da Eslavônia, o vinho se clarifica naturalmente, além da devida micro-oxigenação dada pela madeira. A cor é de pouca concentração, lembrando alguns Nebbiolos do Piemonte. Os aromas são etéreos, balsâmicos, rico em especiarias sutis. Embora aparente uma certa fragilidade, esses vinhos são capazes de evoluírem por décadas, pois possuem grande acidez e uma bela estrutura tânica. Aliás, falando em taninos, estes são de uma finesse notável, fruto da boa polimerização advinda do processo de envelhecimento. Além disso, como todo bom italiano, enfrentou bem os diversos pratos do almoço, especialmente um ragu de linguiça toscana acompanhado de polenta cremosa, foto abaixo.

gero ragu de linguiça toscana

textura e sabores sintonizados com o vinho

gero tropa francesa

elite francesa para intimidar

O ataque francês já começa arrasador, Batard-Montrachet Domaine Leflaive da ótima safra 2005. Apesar deste Grand Cru ter um estilo mais encorpado, comparado ao Chevalier-Montrachet por exemplo, Madame consegue um refinamento e uma delicadeza quase inacreditáveis. A área de vinhas para este Batard não chega a dois hectares. As parcelas variam as idades desde 1962, 1974, 1979, até 1989. Além das vinhas antigas, o trabalho de vinificação é primoroso. Vinificado e amadurecido em barricas de carvalho, sendo 25% em barricas novas. O vinho passa cerca de doze meses nessas barricas cujo o carvalho provem de Vosges (Alsace) e Allier (florestas do Centro). A comunhão da fruta e madeira é de perfeita integração. Os toques tostados e amanteigados são sutis, harmônicos, sustentados por uma acidez refrescante na justa medida. Um primor da Terra Santa.

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a hierarquia de um terroir

Embora não haja uma classificação oficial para os vinhos de Pomerol, existe de fato uma hierarquia em sua elite muito clara. O primeiro tinto à esquerda, Chateau Certan de May, não confundir com Vieux-Chateau-Certan, outro grande Pomerol, é uma propriedade antiga na região com vinhas em terrenos argilosos e em parte, rico em pedras. Daí, 70% das vinhas serem Merlot, 25% Cabernet Franc e 5% Cabernet Sauvignon, sendo os Cabernets para os solos pedregosos. O vinho passa de 12 a 14 meses em barricas de carvalho, sendo entre 60 e 80% novas, conforme a safra.

A safra de 1999 não está entre as grandes, mas é bastante agradável, além de encontrar-se num bom ponto de evolução. Neste caso, os aromas de cacau, tabaco, cogumelos e toques terrosos estão bem presentes. Vinho de bom corpo, taninos presentes e talvez, extraídos demais. Precisa de decantação (aeração) e pratos substanciosos como o cordeiro abaixo.

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massa e cordeiro para o Pomerol

Este Jarret de cordeiro guarnecido pelo Tagliolini com manteiga e sálvia escoltou muito bem os dois Pomerols. A textura macia da carne, o molho cheio de sabor, mas ao mesmo tempo delicado, enriqueceram os vinhos, além da sálvia alinhar-se com os toques de ervas dados pelos Cabernets. 

Quanto ao Trotanoy 2005, está no pelotão de frente dos grandes Pomerols. Com maior porporção de Merlot (90%) e o restante de Cabernet Franc, os solos são em parte argilosos com um subsolo rico em ferro (crasse de fer), e parte pedregosos num solo mais quente. De fato, a localização do vinhedo é excelente em termos de terroir. Em média, o vinho passa cerca de 18 meses em barricas de carvalho, sendo no máximo 50% novas.

Neste exemplar, o vinho encontra-se num período difícil que chamamos de latência. Os aromas ficam meio tímidos, relutando a surgirem. Mesmo assim, a fruta bem colocada, a mineralidade, são perceptíveis e de grande finesse. Percebe-se que a boca é de um grande tinto, com taninos finíssimos, muito bem equilibrado, e final bem acabado. Deve-se abrir nos próximos anos, podendo e devendo evoluir por décadas.

Mais uma vez, fica provado que os grandes Pomerols são vinhos difíceis na juventude, contrariando aqueles que pensam que a Merlot sempre gera vinhos fáceis de beber e bem acessíveis em tenra idade. A longevidade e lenta evolução destes tintos são impressionantes.

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a felicidade é palpável

Encerramos o almoço como começamos, vinhos extremamente prazerosos, independente da idade. Neste caso, estamos falando de um margem esquerda com quase 30 anos de uma safra que não está entre as excepcionais. Mas tratando-se de Haut Brion, o prazer é sempre garantido. Mesmo quando novo, abaixo de dez anos, é um tinto sempre abordável. Contudo, é capaz de evoluir por décadas. Os aromas além de complexos, são de uma tipicidade invejável. Os toques terrosos, de húmus, estrebaria, cogumelos, ervas, são marcantes e envolventes. Em boca, sempre harmonioso, não muito encorpado, mas com um equilíbrio fantástico. O fim de boca é preciso e intenso. Nem precisa da sobremesa.

Resta somente agradecer aos amigos, confrades de grandes jornadas, compartilhando companheirismo, alegria, boas conversas, tudo em torno da boa mesa e boa bebida. Aos ausentes, fica o puxão de orelha dos presentes. Abraço a todos!

Brunello di Montalcino e sua longevidade

13 de Dezembro de 2016

Existem produtores que marcam de tal maneira a história do vinho, que viram lendas, que criam verdadeiras denominações de origem, as quais acabam enriquecendo ainda mais países já consagrados no cenário mundial. Citando alguns exemplos, Vega-Sicilia para Ribera del Duero, Barca Velha para o Douro, Sassicaia para os Supertoscanos (embora não seja uma denominação propriamente dita) e Biondi-Santi para Brunello di Montalcino. É desse último que falaremos a seguir.

Ferruccio Biondi Santi (1848 a 1917)

Na segunda metade do século XIX, Ferrucio Biondi-Santi começa desenvolver na região de Montalcino um novo clone para a uva Sangiovese, emblemática na região da Toscana, sobretudo na zona histórica de Chianti, que futuramente daria origem ao Chianti Classico. Esse clone tem uma casca mais espessa, mais matéria corante, e por conseguinte, mais taninos. Como a região, a sul de Siena, é mais quente, mais ensolarada, que a região de colinas no Chianti Classico, não há dificuldade para seu amadurecimento, havendo assim um casamente perfeito entre uva, clima, solo, e homem, ou seja, o que conhecemos por terroir. Portanto, Sangiovese Grosso para Brunello, e Sangiovese Piccolo para Chianti.

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safra 1988: cotação máxima

Brunello, não só o nome da Sangiovese na região, passa a ser o nome da denominação de origem Brunello di Montalcino, uma das mais prestigiadas de toda a Itália. A Tenuta Greppo, propriedade dos Biondi Santi, cultiva Sangiovese Grosso em altitude entre 380 e 500 metros. Sua vinificação clássica prevê amadurecimento em botti (grandes toneis eslavônios) por pelo menos três anos.

A diferença básica de seu Brunello di Annata para o Brunello Riserva está na idade das vinhas. Para o Riserva, as mesmas devem ter pelo menos 25 anos. Só devem ser elaborados em anos excepcionais como 1955, um dos Brunellos históricos desta cantina, participando da famosa caixa do século XX da Wine Spectator, como único vinho italiano.

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fundo negro para os rótulos mais sóbrios

A longevidade desses Brunellos, especialmente Biondi Santi, pode ser comprovada em almoço recente com a safra de 1988 Annata, ou seja, não Riserva. Com quase trinta anos, eu esperava encontrar um tinto cansado, com sinais de oxidação, meio que respirando por aparelhos. Ledo engano, o vinho estava vigoroso, em seu auge, com tudo que podia entregar em seus longos anos de evolução em garrafa. O aroma de fato, era todo terciário, mas com muita harmonia. A fruta ainda presente, meio passificada, com toques de torrefação, caramelo, cacau, bala de cevada, belos defumados, entre outros. Bom corpo, acidez presente e deliciosa, e um final longo e bem acabado. Em certos momentos, lembrava grandes Riojas envelhecidos. Enfim, um grata surpresa!

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assado com ervas para harmonizar

À mesa, esperava-nos belas costeletas de porco assadas com batatas ao alecrim. A gordura do prato foi bem compensada pela acidez do vinho, e os toques de ervas e defumados  do assado também casaram com os aromas do tinto. Por sinal, um outro belo Brunello fazendo parceria ao convidado ilustre, Brunello di Montalcino La Torre safra 2005, comportou-se muito bem. Seus vinhedos são um pouco mais ao sul  da Tenuta Greppo, mas com a mesma filosofia de trabalho em cantina, envelhecendo seus tintos em botti eslavônios. Casou muito bem com o prato. Embora sem a mesma exuberância do Biondi Santi, mostrou equilíbrio, tipicidade, e boa evolução no decanter.

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Puligny-Montrachet: elegância e graça

No inicio dos trabalhos, toda a elegância e delicadeza de um belo Puligny-Montrachet de J.M. Boillot safra 2011. Um delicado cítrico lembrando limão siciliano permeava os aromas com muito frescor. Notável equilíbrio em boca, bem acabado, e num ótimo momento de evolução. Acompanhou bem um queijo Boursin com ervas, e também empanadas com creme de milho.

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uma tâmara invasora!

O final apoteótico uniu algumas preciosidades fora da mesa; Porto, Marc, e Puros. O Porto Tawny 10 anos Quinta da Romaneira (Casa Santa Luzia) é um maravilha em sua categoria. Belos aromas, macio, equilibrado, e um final encantador. Seu casamento, já comentado em outras oportunidades neste blog, com tâmaras Medjool (tamanho jumbo) é marcante e inesquecível. Acompanhou muito bem os dois primeiros terços de um Havana emblemático que falaremos a seguir.

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trilogia da fumaça

Hoyo de Monterrey Double Corona, o mais icônico no formato. Mantendo a delicadeza e elegância da marca, este Double Corona ganha força ao longo dos terços, sem perder a sutileza nos aromas. O Porto acima, em sintonia com essas características poderia acompanha-lo do começo ao fim. Contudo, um grande Marc estava presente, Domaine Dujac Marc de Bourgogne Hors d´age, o equivalente às ótimas Grappas italianas. Apesar da força intrínseca à sua origem, mostrou elegância e refinamento num terço final de alta contemplação. E assim a noite cai …