Archive for the ‘peixes’ Category

Harmonização: Truta com Amêndoas

13 de Maio de 2010

Truta: Inspiração para receitas de inverno

Peixe de águas geladas, geralmente cultivados em rios e lagos de montanha, é uma das atrações no cardápio de inverno dos restaurantes, com versões clássicas como Truite Meunière.

Nossa versão em foco também é um clássico, Truite aux Amandes, que pessoalmente, é um dos meus favoritos. O importante é você preparar as amêndoas in loco. Ferva-as brevemente em água, o suficiente para soltarem a pele. Em seguida, corte-as em lâminas ou pedaços de sua preferência. Numa bandeja, elas serão colocadas no forno até tostá-las adequadamente. Pronto, você terá amendôas frescas, crocantes e sem sal, com um sabor inigualável.

A receita inclui além da truta e amêndoas, manteiga, suco de limão e salsinha, basicamente. Trata-se de um prato delicado com teores de gordura (manteiga) e acidez (limão) consideráveis. Esses fatores nos levam fatalmente a um branco, que geralmente tem delicadeza e acidez requeridas para a ocasião. Como trata-se de um peixe de rio, o sabor levemente terroso pede alguma mineralidade em relação ao vinho. Por outro lado, as amêndoas tostadas podem sugerir tanto um branco com passagem por barrica, como um branco evoluído que tenha toques minerais mais acentuados. A primeira hípótese nos leva ao clássico Chardonnay fermentado em barrica que geralmente é macio e encorpado, características conflitantes com as do prato. Portanto, o fator mineral é a alternativa mais coerente.

Chablis, Pouilly-Fumé e Riesling da Alsácia  apresentam geralmente sutilezas, ótima acidez e acentuada mineralidade. As duas primeiras opções me parecem mais adequadas. Já o Riesling, pode apresentar corpo acima do prato, além da mineralidade lembrando petróleo, não ter perfeita sintonia com as amêndoas.

Por outro lado, um Chenin Blanc do vale do Loire, mais especificamente da apelação Savennières é uma bela solução, sobretudo com toques de evolução. É um vinho seco, de ótima acidez, corpo adequado, e pode desenvolver com o tempo aromas clássicos de marzipã, que evidentemente encontrarão ressonância nas amêndoas tostadas. Para os que buscam a perfeição e onde o dinheiro não é problema e sim a solução, Coulée de Serrant de Nicolas Joly é a pedida certa (www.casadoportovinhos.com.br). Só tem um detalhe: ou você espera para tomá-lo com pelo menos 10 anos de safra, ou você precisa decantá-lo com vinte e quatro horas de antecedência (conselho do próprio Joly).

Para os mortais, podemos ficar com o Savennières do Domaine Baumard importado pela Mistral (www.mistral.com.br), que é também um excelente produtor. Procure pelo Clos du Papillon, uma de suas especialidades.

Enfim, caímos no óbvio. Vinhos locais com pratos locais, ou seja, o vasto rio Loire oferece inúmeras alternativas, tanto de peixes, quanto de vinhos sob várias denominações de origem. A truta com amêndoas encaixa-se perfeitamente neste contexto.

Harmonização: Moqueca Capixaba

7 de Maio de 2010

A típica panela de barro é um dos segredos

Para quem não suporta dendê, esta é a melhor alternativa. Como o próprio nome diz, vem do Espírito Santo (deixem a religiosidade de lado). Os ingredientes mais comuns são: peixes de carne firme para suportar longo cozimento (cação, badejo, garoupa, robalo, entre outros), tomates, azeite, limão, cebolas, pimenta a gosto, urucum ou colorau, coentro ou salsinha como alternativa e farinha de mandioca (para fazer o pirão com o próprio caldo da moqueca).

É um prato relativamente encorpado, baixo teor de gordura, suculento e com os aromas e sabores marcantes do tomate e do coentro. O pirão, praticamente obrigatório,  fornece uma textura mais espessa ao conjunto.

O vinho precisa ser relativamente encorpado, exuberante em aromas, fresco e bastante frutado, formando um conjunto harmonioso. Se ainda houver um toque de ervas, fará sintonia perfeita com o coentro. A melhor alternativa é um típico Sauvignon Blanc da Nova Zelândia. Exemplares chilenos de Casablanca e Vale San Antonio, bem como sul-africanos, ficam igualmente muito bem.

O segredo aqui é o vinho ter força de aromas, muita fruta, muita juventude e textura macia. A suculência do prato sobrepuja vinhos magros, mesmo que jovens e de boa acidez. A ação da pimenta se for incisiva, dependendo da coragem dos convivas, exige o frescor dos brancos geralmente jovens. Chardonnays fermentados em barrica, sobretudo com certa evolução, tendem a ser muito marcantes, sobrando madeira sem sintonia com o prato, além de faltar o frescor tão necessário, principalmente para a opção mais apimentada.

Nesses pratos de peixes de textura mais firme, longo cozimento, caldo suculento e rico em aromas são também um dos melhores exemplos onde a opção por um tinto pode ser surpreendente. No caso da nossa moqueca, um Tempranillo, um Syrah ou um Sangiovese, todos relativamente encorpados e obrigatoriamente jovens, apresentam força de aromas, acidez e fruta suficientes para o prato. Quanto aos taninos, não sendo vinhos provenientes de longas macerações, serão absorvidos pela suculência do molho. Mesmo o risco de metalização torna-se remoto, já que o longo cozimento abranda muito o efeito da maresia.

Quanto aos rosés, as opções mais encorpadas do Novo Mundo pelo método de sangria podem ser interessantes, sobretudo aqueles provenientes de Cabernet Sauvignon, que costumam ter um toque herbáceo. Enfim, um prato versátil, bem brasileiro, que exige frescor, juventude e vibração.

Harmonização: Bacalhau e Vinho

3 de Março de 2010

 

Com a aproximação da semana santa o tema bacalhau é quase uma unanimidade. Embora possamos pensar em outras possibilidades de pescados, não há muito espaço além do sagrado bacalhau. Felizmente hoje em dia, a iguaria é muito apreciada em inúmeros momentos do ano, sendo parte integrante do cardápio de vários restaurantes.

Em termos de enogastronomia, o assunto parece ser polêmico já com a cor do vinho: tinto ou branco?

Em homenagem ao meu amigo Roberto Rockmann, vou discorrer sobre o tema. Partamos da famosa cena de um restaurante português, onde o sommelier questionado sobre a indicação de um tinto para acompanhar o bacalhau, resume em poucas palavras a sábia justificativa: Bacalhau não é peixe, bacalhau não é carne, bacalhau é bacalhau!

A princípio, embora pareça ser uma resposta evaziva, está implícita a definição exata do bacalhau. Na verdade, bacalhau não é um peixe. Não encontramos o bacalhau pronto na natureza. Sua origem está numa espécie de peixe do mar do Norte denominada Cod Fish ou Gadus Morhua. É desta matéria prima  que começa um processo de transformação, cujo produto final chama-se bacalhau. E é este processo que nos interessa para montarmos as bases de nossa harmonização.

Depois de devidamente limpo e precisamente cortado, o peixe é submetido a um processo de salga onde ocorrerão importantes transformações. O sal vai desidratar a carne concentrando aromas e sabores e modificar sua textura, tornando-a mais compacta. Mesmo depois de pronto, o bacalhau sofre uma oxidação parcial devido principalmente  à sua exposição nos pontos de venda.

Quando preparamos o bacalhau, fazemos o processo inverso, evidentemente com sequelas. Hidratamos o bacalhau com várias demolhas, retirando de forma adequada o excesso de sal. Aliás, esta é uma premissa importante na harmonização. Eu discordo totalmente que o sal seja um fator relevante na harmonização. Bacalhau bem feito tem sal na medida certa como qualquer outro prato salgado.

Do exposto acima, vamos agora à procura dos vinhos. Em primeiro lugar, o vinho deve ser estruturado, com sabores marcantes, pois o prato tem personalidade. É lógico que há inúmeras receitas e maneiras de preparar bacalhau. Iremos nos ater sobretudo, em postas de bacalhau como prato principal.

Aqueles que preferem branco, o chardonnay acarvalhado resume bem o vinho ideal. É um vinho potente, aromático, com frutas tropicais, baunilha, especiarias e um toque defumado que casa muito bem com os aromas do prato. Sua acidez embora discreta, é suficiente para contrabalançar a gordura e a oleosidade. O ideal  são chardonnays relativamente simples, com um estilo mais potente do Novo Mundo e até razoavelmente  evoluídos. Os aromas terciários enriquecem o conjunto. Não tem sentido persarmos em Montrachet ou sua nobre vizinhança. Apesar  de estruturalmente serem adequados, as sutilezas serão perdidas, ou seja, o prato é um tanto rústico para a sofisticação do vinho. Já para os vinhos ibéricos, seus parceiros naturais, os brancos portugueses da casta Encruzado (Dão) e Antão Vaz (Alentejo) passados em barricas parecem ideais. Os brancos riojanos reservas com a famosa casta Viura ficam ótimos também. Encerrando o capítulo de brancos, as receitas que envolvem creme de leite, molho branco e afins reforçam as opções acima.

Entrando agora no terreno dos tintos, a polêmica é maior. Novamente, por uma questão de afinidade, os ibéricos sobressaem. De qualquer forma, os tintos precisam ser estruturados, mas sem sutilezas exageradas. Aqueles que apostam na Pinot Noir, pode não haver conflitos, mas dificilmente o vinho apresenta força suficiente para o prato. Já os grandes borgonhas, me parecem muito sofisticados.

Existem duas linhas de raciocínio para os tintos. A primeira, é encontrarmos vinhos estruturados e evoluídos, onde os taninos estejam totalmente domados. O problema dos taninos marcantes, principalmente nos vinhos jovens é que pode haver uma pequena metalização no sabor, já que no bacalhau há sempre um resquício de peixe, sua origem, e não o excesso de sal. Neste sentido, Douros e Dãos reservas evoluídos podem combinar muito bem, pois apresentam estrutura suficiente, acidez desejada, taninos domados, madeira integrada  e aromas terciários importantes, formando um conjunto harmonioso com o bacalhau. Da parte espanhola, os riojas reservas e gran reservas podem ser surpreendentes, principalemente aqueles de estilo mais clássico. Os vinhos da bodega La Rioja Alta (importadora Zahil) exemplificam com maestria este raciocínio.

A segunda possibilidade seria com tintos potentes, frutados e pouco tânicos, sendo estes taninos bem trabalhados. É o caso por exemplo dos alentejanos, não os reservas que costumam ter estrutura tânica mais acentuada, e sim os mais simples, que não tem contato com madeira, mas precisam ser concentrados em aromas primários. No caso da tradicional bacalhoada, os tomates, as azeitonas, pimentões e cebolas encontram eco na juventude e vivacidade destes vinhos.

Quanto aos chamados Vinhos Verdes, essencialmente os brancos, faltam corpo e estrutura para o bacalhau, apesar de seu incrível frescor. No entanto, saladas e risotos que incorporem o bacalhau podem ter peso adequado ao vinho. As típicas brandades ou mesmo bolinhos de bacalhau caem muito bem com esses vinhos. Voltando às postas de bacalhau, somente o Alvarinho é capaz de fazer frente ao prato. Algumas versões mais modernas onde há passagem por madeira podem ser ideais. O produtor Anselmo Mendes (importadora Decanter) é um dos destaques da atualidade.

O assunto é vasto e intrigante, não havendo soluções perfeitas e definitivas. Na enogastronomia vale sempre experimentar novas alternativas baseadas na peculiaridade de cada receita.