Archive for Maio, 2011

Tokaji: O Rei da Hungria

16 de Maio de 2011

Na região nordeste da Hungria estão os famosos vinhedos de Tokaj-Hegyalja que geram os grandes vinhos Tokaji (o sufixo i quer dizer proveniente de Tokaj). Como a região faz divisa com a Eslováquia, existe também uma legislação neste país para vinhos semelhantes denominados Tokajské, que curiosamente elabora o único Tokaji 2 Puttonyos, que explicaremos mais adiante. Aliás, esta foi umas das questões teóricas da prova do Concurso Mundial de Sommeliers em 2004 na Grécia.

Tokaj: região nordeste da Hungria

Há um consenso que os grandes vinhos doces Tokaji sejam os pioneiros em vinhos botrytizados. Antes mesmo dos grandes vinhos alemães do Reno e também, da famosa região francesa de Sauternes.

A primeira menção de um Tokaji Aszú data de 1571. Aszú no caso, significa que existem uvas atacadas pela Botrytis Cinerea. Entretanto, a região descobriu sua vocação em 1650, quando a colheita teve de ser adiada devido a um iminente ataque turco. Com o atraso, as uvas sim foram atacadas pelo nobre fungo, sendo então vinificadas. Com este fato, estava decretada a descoberta do maravilhoso vinho.

Eszencia: Elixir da longa vida

A garrafa acima é o famoso Eszencia, vinho citado e glorificado por muitos, mas bebido por poucos. É elaborado só com uvas botrytizadas e separadas grão a grão. Faz-se uma pilha com estas uvas, e somente o néctar escorrido devido a pressão do peso próprio das mesmas é coletado. A produção é reduzidíssima e chega a conter 800 gramas de açúcar por litro (um terror para os diabéticos). O grande segredo é a estupenda acidez principalmente da uva Furmint, com níveis acima dos vinhos bases de Champagne. Nesta concentração de açúcar, a fermentação é quase nula, demorando vários anos para se completar. O resultado é um vinho com cerca de três por cento de álcool e uma persistência aromática interminável.

A lista de admiradores deste grande vinho é vasta, começando pelo Rei Sol Louis XIV, Madame Pompadour, Beethoven, Liszt, Schubert, Goethe, Votaire e muitos Czares da antiga Rússia. Proclamado Rei dos Vinhos, Vinho dos Reis!

Primeira região demarcada no mundo

Em 1700 o então príncipe Rakoczi começa a demarcação dos principais vinhedos da região, decretada em 1737 e complementada em 1772. Contudo, tradicionalmente, a região portuguesa do Douro é considerada a primeira, demarcada pelo Marques de Pombal em 1756.

Os  27 vinhedos de Tokaj foram classificados em primeira, segunda e terceira categorias, sendo a quarta categoria, vinhedos nos arredores menos importantes. Durante muitas décadas, o vinho Tokaji foi destaque em toda Europa nos séculos XVII e XVIII e XIX, sendo presença obrigatória nas principais cortes. O período sombrio na sua história deu-se na época do domínio comunista, onde vinhedos plantados em planícies e com altos rendimentos, geravam vinhos diluídos e misturados aos melhores vinhos, resultando num produto padronizado e muito aquém de sua fama.

Atualmente, o momento é de renovação, procurando resgatar os melhores períodos de glória. Neste contexto, há espaço também para um estilo modernista, onde a utilização do aço inox e e uma série de procedimentos, evitam de todas as maneiras o nostálgico lado oxidativo, tão reverenciado pela linha tradicionalista. O movimento Tokaj Renaissance iniciado em 1995, conta com vinícolas de grande prestígio, dispostas a manter e enaltecer este grande terroir. Maiores informações no site: www.tokaji.hu

No próximo post, falaremos com mais detalhes sobre este terroir e seus vários tipos de vinho, sem esquecer a explicação dos puttonyos, mencionados no começo do texto.

Terroir: Rheingau

12 de Maio de 2011

Para muitos, a Alemanha é o grande terroir da Riesling, uma das uvas mais difíceis de ser cultivada fora de sua região de origem. A disputa em terras germânicas entre Mosel-Saar-Ruwer e Rheingau é milenar na supremacia desta nobre casta.

A região do Mosel por ser muito mais ampla e diversificada em termos de terroir, mereceria uma série de artigos. Já a região do Rheingau, bem menor, apresenta características específicas de terroir, que serão abordadas a partir do mapa abaixo: 

As regiões clássicas concentram-se no sudoeste alemão

Observem no mapa acima o histórico rio Reno caminhando a partir da fronteira francesa (Alsace) na direção norte, entrando em território alemão. Num determinado ponto, observem como o rio faz um curva abrupta para oeste, percorre um certo trecho, e volta para a direção norte. Pois bem, este certo trecho é exatamente a nobre região do Rheingau, na belíssima foto abaixo.

Rheingau na altura de Rüdesheim

Vejam no mapa abaixo o detalhe preciso na direção do Reno, que não é exatamente horizontal. Há uma leve inclinação fazendo com que os vinhedos posicionados na margem norte, sejam perfeitamente alinhados na direção sudeste, recebendo a melhor insolação possível, fato crucial nesta fria região.

A face norte em questão, é uma série de ladeiras contíguas, protegidas nas partes mais altas pela cadeia de montanhas Taunus, dos fortes e gelados ventos que sopram do norte. O rio neste trecho pode atingir oitocentos metros de largura e funciona como um moderador de temperatura, deixando os invernos menos dramáticos e os verões não tão quentes para as vinhas. Dependendo do ano e da altitude do vinhedo (altitude próxima ao rio), pode haver ocorrência da Botrytis Cinerea, dando mais elegância e concentração aos vinhos assim gerados.

Os solos formam um mosaico muito variado com predominância de ardósia e quartzo nas encostas mais altas (em torno de 300 metros de altitude), fornecendo aos vinhos o elegante toque mineral. Nas encostas mais baixas, os vinhos são mais pesados, perdendo em parte, a característica elegância.

Trecho com quase 30 km de exposição perfeita

Neste trecho perfeitamente exposto, várias vilarejos destacam-se como Johannisberg, Geisenheim, Erbach e Kiedrich, com vinícolas explêndidas. Um grande nome encontrado no Brasil é Robert Weil, importado pela Mistral (www.mistral.com.br). A importadora Decanter também traz o produtor Franz Künstler, de grande prestígio (www.decanter.com.br).

Numa sintonia fina, os vinhos do Rheingau costumam ser mais encorpados que os do Mosel, e portanto, mais gastronômicos. Salvo as devidas exceções, devem ser servidos os vinhos do Mosel como aperitivos e pratos leves, deixando os do Rheingau para os pratos principais. Pato, ganso ou porco com molho agridoce são combinações clássicas, além de torta de frutas frescas e também a torta de maçã, para os vinhos do Rheingau mais doces.

No geral, os Rieslings do Rheingau, a principal uva da região, são muito equilibrados, com uma acidez vibrante, longevos e de grande persistência aromática. Seus aromas possuem uma complexidade notável e sempre surpreendente ao longo dos anos em garrafa.

Vinhos Doces Alemães

9 de Maio de 2011

Neste post deixei para abordar propositalmente, os chamados vinhos doces alemães, simbolizados pelas esdrúxulas expressões Trockenbeerenauslese (TBA), Beerenauslese (BA) e a nem tanto Eiswein. São todos vinhos de predicado, conforme posts anteriores sobre vinhos alemães. Contudo, esses vinhos são realmente e naturalmente doces, sem a possibilidade dos termos Trocken ou Halbtrocken.

Normalmente, são caros, raros e de produção diminuta. Dependem muito das condições de cada safra e são elaborados por produtores diferenciados e artesanais.

 

Beerenauslese: grau elevado de açúcar

A foto acima mostra um cacho de uvas parcialmente botrytisado com níveis de açúcar compatíveis com a denominação Beerenauslese, ou seja, entre 110 e 128º Oe (grau Oechsle), dependendo da uva e da sub-região. Para se ter uma idéia, isto corresponde a 25,8 e 29,9 Brix, respectivamente, ou  a um potencial de álcool entre 13,8 e 15,9º. Estes são índices mínimos de teores de açúcar no mosto.

Essas uvas são selecionadas grão a grão, podendo ser parcialmente ou totalmente botrytizadas, num alto grau de amadurecimento.

Como boa parte deste potencial não é convertida em álcool, sobra uma considerável parcela de açúcar residual natural. Normalmente, são vinhos muito equilibrados pela incrível acidez que não os deixa ficar enjoativos, com o baixo teor alcoólico correndo por fora (em torno de 9 e 10º).

Trockenbeerenauslese: grau superlativo de açúcar

No caso dos raríssimos Trockenbeerenauslese (TBA), é só dar um zoom no conceito do Beerenauslese (BA). Pela lei alemã, os níveis de açúcar no mosto devem estar acima de 150ºOe (Oechsle), ou seja, mais de 150 gramas de açúcar por litro.

Essas uvas encontram-se no mais alto grau de maturação, totalmente ressecadas (daí o termo trocken), conforme foto acima, e muito comumente atacada de forma integral pela Botrytis Cinerea.

Eiswein: uvas congeladas

 Eiswein, Ice Wine, Vin de Glace ou Vinho do Gelo, é mais conhecido pelo Canadá, sendo atualmente seu vinho emblemático, mas sua origem é alemã. Elaborado principalmente, nas regiões do Mosel, Rheingau e Francônia, sua ocorrência depende de condições climáticas especiais. Na média, são duas ou três safras por década.

O grau de maturação mínimo das uvas para elaboração do Eiswein  é equivalente ao do Beerenauslese (BA). Portanto, teoricamente, o Trockenbeerenauslese (TBA) é vinho alemão com maior sensação de doçura. No caso do Eiswein, ele chega dar a sensação de menos doçura que o próprio Beerenauslese, pois sua acidez costuma ser brutal (em torno de 10 gramas por litro).

As uvas costumam ser colhidas em novembro, dezembro e até mesmo janeiro, sempre congeladas (vide foto acima). A colheita ocorre pela madrugada em temperaturas inferiores a menos 7ºC, conforme prevê a legislação. Quanto menor a temperatura, maior é a concentração de açúcar no mosto. A água contida nos grãos de uva transforma-se em cristais de gelo, separando naturalmente os demais componentes, principalmente, açúcares e ácidos.

Após a colheita dos cachos congelados, os mesmos serão prensados, liberando o denso néctar e deixando na prensa gelo, casca, sementes e engaços. Neste momento é medido o teor de açúcar na escala Oechsle. A prensagem dos vários lotes só é interrompida quando o índice aferido for inferior ao mínimo estipulado por lei (as mesmas exigências da categoria Beerenauslese).

A fermentação dá-se de forma lenta, atingindo em torno de 8 a 11º de álcool. O açúcar residual será perfeitamente equilibrado pela incrível acidez desses vinhos. Os rendimentos são de fato muito pequenos. Para cada tonelada de uvas, teremos de 60 a 70 litros de mosto. Devido aos baixos rendimentos e custos altos, a comercialização dá-se em meias-garrafas. Como curiosidade, a menção no rótulo da palavra Weihnachtlese, significa que a colheita ocorreu no dia Natal, ou também a expressão Dreikönigslese (vindimado no dia de Reis, ou seja, 06 de janeiro). São vinhos extremamente raros e que praticamente não saem da Alemanha.

Nomenclatura do Vinho Alemão II

5 de Maio de 2011

O mais alto nível de qualidade do vinho alemão tem haver com a sigla VDP (Verband Deutscher Prädikats), Associação Alemã de Qualidade, desde 1910. A mesma abrange as treze regiões vinícolas da Alemanha com cerca de 200 produtores.

 Logo de qualidade: Águia e cacho de uvas

Nesta classificação procura-se preservar todos os aspectos de terroir, tradição e amadurecimento perfeito das uvas, fator primordial de qualidade no conceito alemão.

Outros aspectos da Pirâmide Alemã

Voltando à classificação VDP, o mais alto grau de qualidade é dado pela expressão Erste Lage,  a qual não é permitida ser mencionada nos rótulos pela atual lei alemã. Contudo, o logo abaixo (número um acompanhado de um cacho de uvas) exprime esta distinção, sendo gravado em relevo na própria garrafa ou impresso de forma discreta no rótulo. As duas fotos abaixo em sequência, mostram estes exemplos.

Em termos de comparação, no próprio site (www.vdp.de) da associação, esta designação equivale aos Grands Crus da Borgonha, por exemplo.

Logo em relevo na garrafa

Além do símbolo gravado em relevo na garrafa ou discretamente no rótulo, é comum o símbolo da águia com o cacho de uvas ser impresso na cápsula, conforme primeira figura deste post.

Logo discreto no rótulo

Dentro da classificação Erste Lage, a qual abrange vários graus de doçura dos melhores produtores, há uma subdivisão quando os vinhos são secos ou em alemão, trocken. Neste caso, existe a expressão Grosses Gewächs, também abreviada por GG. O rótulo abaixo de um grande produtor do Nahe (uma das regiões clássicas da Alemanha), exemplifica o caso. Note que a simples menção GG, já denota que o vinho é seco (trocken).

Dönnhoff: referência do Nahe

Dentro da subdivisão Grosses Gewächs para vinhos secos de qualidade, há uma expressão equivalente só para os vinhos da famosa região do Rheingau denominada Erstes Gewächs. Esta sim, pode ser mencionada no rótulo, conforme foto abaixo:

Robert Weil: Referência obrigatória no Rheingau

Com esses cuidados fica muito mais seguro beber bons rótulos alemães. No fundo, caímos sempre no velho e bom ditado: o produtor (weingut em alemão) consciente e de categoria é que realmente garante vinhos diferenciados.

As uvas para toda esta classificação diferenciada depende da região em questão. Além da onipresente Riesling, outras uvas são autorizadas como a Silvaner na Francônia (Franken), Spätburgunder (Pinot Noir) no Rheingau, Ahr e Pfalz; e Weisser Burgunder (Pinot Blanc) na Francônia. A relação completa das uvas está à disposição no site oficial www.vdp.de (Verband Deutscher Prädikatsweingüter).