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Números: Distribuição do vinho francês

30 de Maio de 2017

Sabemos de longa data que França e Itália disputam ano a ano a hegemonia do vinho no mundo, sobretudo em termos de produção. Entretanto, a divisão do vinho francês quanto a tipos e categorias, não é um assunto tão corriqueiro. Vamos então a alguns números relativamente recentes da safra 2015.

frança colheita 2015

Num total de quase 47 milhões de hectolitros, 40% são vinhos tintos, 15% vinhos rosés e 45% vinhos brancos. Tudo isso de vinho branco? sim !!!. Esqueceram que Cognac é feito de vinho branco? e que é preciso de 9 a 10 litros para fazer um litro de Cognac? Pois bem, só de vinho branco para esta finalidade são quase 10 milhões de hectolitros.

frança vinhos 2005 a 2015

queda acentuada de tintos no período

No gráfico acima, percebemos a queda acentuada de tintos no período (2005/2015) e uma queda mais branda nos vinhos brancos. Quanto aos rosés, uma progressão discreta, mas consistente. O mesmo podemos dizer quanto aos vinhos brancos destinados à produção sobretudo de Cognac.

Quanto às categorias de vinho, podemos dizer que de um total de 47 milhões de hectolitros, 45% são vinhos AOC (appellation d´origine contrôlée), 29% são VDP (vins de pays), 20% (vinhos destinados ao Cognac, sobretudo) e apenas 6% de vins de table. Colocando os vinhos AOC e VDP de um modo geral, como vinhos de boa qualidade, sobram poucos vinhos sob suspeita. Evidentemente, aqueles vinhos diferenciados, artesanais, de produtores meticulosos, continuam e continuarão a serem raridades.

O dossiê ainda fala sobre vinhos elaborados por produtores (mis en bouteille au domaine) ou por cooperativas. O sul da França de modo geral tem grande concentração de cooperativas com ênfase para Languedoc-Roussillon e sul do Rhône.

frança regiões vinicolas

regiões vinícolas

Em termos regionais, Languedoc-Roussillon continua sendo a área mais produtiva, embora sem a mesma pujança de outros tempos. Resumindo, menos porcaria em quantidade e mais qualidade média nos produtos. A região de Cognac tem muita expressão na produção, a despeito da maioria das pessoas desconhecerem o fato. Vale do Rhône e Provence têm muito vinho a oferecer, mesclando produtos do dia a dia até alguns ícones de produção exclusiva. A Aquitânia emglobando a região de Bordeaux alia quantidade e qualidade como nenhuma outra região.

nelson-sauvignons

Acima e abaixo, dois exemplos de vins de pays de alta qualidade a preços convidativos. Jaja de Jau (à direita) é uma linha de vinhos que expressa com fidelidade seus respectivos terroirs. Neste exemplo, temos um Sauvignon Blanc de Gaillac, sudoeste francês, região famosa por seus brancos e espumantes vibrantes, de grande acidez. Dentro da denominação VDP Côtes de Gascogne.

brumont rosé

rosé vibrante

Da mesma apelação VDP Côtes de Gascogne, este rosé do produtor Brumont, referência absoluta no Madiran na elaboração de Tannats, mostra um perfil aromático, muito fresco, e muito gastronômico. Substitui com méritos os bons e agradáveis rosés provençais, num balanço de elegância e frescor único. Importado pela Decanter (www.decanter.com.br).

O Sudoeste francês, bem como o Languedoc-Roussillon, ainda têm potencial para revelar muitas surpresas. Da mesma forma, a Provence e o sul do Rhône são celeiros de belos vinhos a serem descobertos. Basta ter coragem e curiosidade e sairmos do óbvio.

Harmonização com Sushis

16 de Fevereiro de 2017

Segundo Philippe Faure-Brac, grande sommelier francês e campeão mundial, sushi combina com sakê ou saquê, se preferirem. Assim como pão combina com cerveja, faz todo sentido sushi combinar com saquê, já que ambos têm o arroz em comum. Pessoalmente, partilho dessa harmonização. Essa opinião é contraditória tanto que, a melhor indicação para uma harmonização tradicional que os próprios japoneses praticam é o chá verde.

Contudo, como o assunto é vinho, vamos analisar alguns exemplares e conferir suas afinidades ou não com o prato. Para isso, foram testados três tipos de sushi, conforme foto abaixo.

sushi-abs-sp

peixes: namorado, salmão e atum

Não é uma harmonização fácil, pois lidamos ao mesmo tempo com peixe in natura, arroz levemente avinagrado e adocicado, e um conjunto muito delicado. O shoyu (molho de soja) entra na brincadeira, dando um toque salgado importante. Para não complicar e de fato, deve ser evitado, não consideramos o wasabi, aquela pastinha verde, extremamente picante.

vallontano-extra-brutriesling-kabinett-vindame

harmonizações interessantes

Vallontano Espumante Extra Brut  LH. Zanini 2012

Este espumante nacional é elaborado no Vale dos Vinhedos, Serra Gaúcha, pelo método Tradicional com as uvas Chardonnay (75%) e Pinot Noir (25%). O vinho-base não tem passagem por barrica e as garrafas permanecem sur lies por 24 meses após a espumatização. A designação Extra Brut sugere que a bebida seja bastante seca. Importadora Mistral (www.mistral.com.br).

A maior proporção de Chardonnay dá leveza ao conjunto. A austeridade da bebida por ser Extra Brut combina bem isoladamente com o peixe in natura. Contudo, temos que analisar o conjunto onde o arroz é parte importante. Neste caso, falta textura ao espumante e principalmente um lado mais macio e adocicado.

Conclusão: Vá de espumante Brut ou até Extra-Dry, onde aquele açúcar residual é mascarado pela alta acidez do espumante e ao mesmo tempo, quebra a austeridade desnecessária de um Extra-Brut ou Brut Nature. Deixe essas versões para o sashimi. Aí sim, só a maresia do peixe sem interferência do arroz, cria uma sinergia de texturas. Quanto mais mineral for o espumante, melhor o casamento com o peixe in natura.

Portal do Fidalgo Alvarinho 2014

Este branco português do Minho é elaborado pela Provam, uma espécie de cooperativa das sub-regiões Monção e Melgaço, referentes à denominação Alvarinho. Totalmente vinificado em aço inox, não tem nenhum contato com madeira. Seus aromas são citrinos, minerais e florais.

Na harmonização, este branco mostrou bela acidez, corpo adequado e mineralidade interessante para o prato. O grande problema é que ele tinha um amargor importante, inerente ao vinho. Na combinação, esse amargor foi intensificado, faltando um lado um pouco mais frutado do vinho.

Normalmente, vinhos verdes, não necessariamente Alvarinhos, podem dar certo. Eles são mais delicados, álcool comedido, e comumente apresentam um lado off-dry interessante para a harmonização.

rose-saint-hilairealvarinho-portal-do-fidalgo-2014

harmonizações complicadas

Chateau St Hilaire Rosé Tradition Coteaux d´Aix-en-Provence 2015

Tradicional rosé da Provence com as uvas Grenache (60%) e Syrah (40%) elaborado pelo método de Pressurage Direct. Rosé bem claro, delicado, sem nenhum contato com madeira. Seus aromas cítricos, florais e de ervas, caracterizam bem a tipicidade desses rosés. É bom frisar um lado extremamente seco do vinho. Importadora Premium (www.premiumwines.com.br).

Os rosés da Provence costumam mostrar belo frescor e fruta vermelha mais comedida. O vinho mostrou-se adequado quanto ao corpo e textura para o prato. Porém, impróprio na harmonização, devido à extrema secura do vinho. O lado adocicado do arroz agrediu sua acidez, além da maresia do peixe metalizar levemente o vinho. O atum, por ter um sabor mais pronunciado,  mais estruturado, foi o que menos apresentou conflitos.

Deve-se evitar rosés com sushis. Em novas experiências, talvez rosés delicados mas com um lado frutado mais intenso, possam dar certo. Por exemplo, alguns rosés do Loire com a uva Gamay, a mesma uva do Beaujolais.

S.A. Prüm Wehlener Sonnenuhr Kabinnet Riesling 2012

Belo Riesling alemão do Mosel do vinhedo Wehlener Sonnenuhr em solo de ardósia. Classificação máxima para padrões alemães, VDP Grosse Lage é o equivalente ao Grand Cru francês. A inclinação de 70% do terreno garante uma boa incidência solar em elevadas latitudes. A vinificação é feita em grandes tonéis de madeira inerte com longo contato sur lies na maturação. A categoria Kabinett admite um final off-dry com um teor máximo de 9 g/l de açúcar residual. Importadora Vindame (www.vindame.com.br).

Foi a combinação de menor conflito de um modo geral, mostrando que esse tipo de Riesling alemão apresenta corpo, textura, acidez, mineralidade e um certo adocicado interessante ao prato. Entretanto, esse adocicado ficou um pouco acima do esperado. Além disso, o vinho aromaticamente era muito potente para o prato, sobrepondo-se um pouco no conjunto. O ideal é um Riesling Trocken ou Halbtrocken (meio seco) da região do Mosel, mais delicado. Pode ser também um alsaciano, desde que não seja muito austero e seco.

Um vinho interessante a ser testado para este casamento é o Jerez, fortificado espanhol do sul do país. Este vinho apresenta um teor alcoólico semelhante ao saquê, porém é extremamente seco. É exatamente este detalhe que pode atrapalhar na harmonização com um Fino ou Manzanilla, os jerezes mais minerais com crianza biológica.

Em resumo, trata-se de uma harmonização delicada, onde a sintonia fina pode fazer grande diferença. Em linhas gerais, a indicação de espumantes Brut e Rieslings são as mais seguras.

Rosés pelo mundo em números

8 de Novembro de 2015

Em recente estudo realizado pela OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho) veremos a seguir alguns números de 2015. A produção mundial de rosés parece estabilizar-se em torno de 24 milhões de hectolitros, aproximadamente 10% da produção mundial de vinhos.

roses 2014

Pouca variação na produção

Dentre os principais produtores mundiais de rosés estão a França, indiscutivelmente, Espanha, Estados Unidos e Itália. Esses quatro países respondem por três quartos da produção mundial de rosés. Só a França, produz 30% do total mundial. O mapa abaixo ilustra a situação.

rose grafico 2014

No topo: França, Espanha, Estados Unidos e Itália

Quanto ao consumo mundial, a França também tem larga vantagem. Mais de 30% dos rosés do mundo são consumidos por lá. Em seguida, Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, puxam a fila.

rose 2014 consumo

França: domínio absoluto

No quesito exportações, A Espanha lidera com larga vantagem em termos de volume, seguida pela Itália, França e Estados Unidos. As exportações mundiais estão em torno de nove milhões de hectolitros por ano. Os quatro primeiros países exportadores do gráfico abaixo (Espanha, Italia, França e Estados Unidos) respondem por 80% do volume mundial exportado.

roses exportação 2014

Espanha comanda as exportações de rosés

Neste final de ano que se aproxima, os rosés são bem versáteis, quer seja pela facilidade de harmonização, quer seja pela conveniência de temperaturas mais elevadas. A mistura de pratos, entradas e várias comidinhas servidas num tempo só, torna os vinhos rosés uma espécie de coringa, agradando os mais diversos paladares e compatibilizações.

Como indicações, a França tem muitas opções. Evidentemente, a Provença é uma dica certeira. Porém, os vales do Rhône e do Loire, mostram diversidades de sabores e de preços. Em linhas gerais, os rosés do Loire são mais leves e delicados, enquanto os rosés do Rhône tendem a ser mais encorpados e gastronômicos.

Do lado italiano, a Toscana tem boas opções, sobretudo na região de Bolgheri, próximo ao litoral tirreno. Abruzzo, no litoral adriático, tem rosés interessantes. O nordeste italiano com as regiões do Veneto, Friuli, e Trentino, apresentam inúmeras opções. Nestas regiões mais frias, os rosés costumam ser mais frescos.

Na Espanha, os rosés de Navarra, região contigua a Rioja, apresentam-se bem equilibrados. Rioja produz praticamente o mesmo volume que Navarra. Em seguida, temos as regiões de La Mancha, Valencia e Catalunha juntas, perfazendo o mesmo volume de Navarra ou Rioja. As uvas mais utilizadas são Garnacha, Bobal e Tempranillo. Os rosés à base de Garnacha tendem a ser mais macios e gastronômicos. Já a Tempranillo, dificilmente é utilizada como varietal. Por se tratar da melhor uva para tintos de longa guarda, os cortes são mais frequentes.

Algumas sugestões:

  • Chivite Gran Feudo Rosado – espanhol da Mistral (www.mistral.com.br)
  • Zaccagnini Montepulciano d´Abruzzo Cerasuolo – italiano da Ravin (www.ravin.com.br)
  • Chateau St-Hilaire Tradition – francês provençal da Premium (www.premiumwines.com.br)
  • Paul Jaboulet Côtes-du-Rhône Rosé – francês do Rhône (www.mistral.com.br)

Vinho Rosé: o começo de tudo

18 de Outubro de 2015

Falar de rosé no mundo é falar de França. E falar de França, é falar de Provence, seu grande vinho emblemático. A produção mundial de vinho rosé beira os dez por cento, ou seja, mais de 22 milhões de hectolitros. Deste total, a França responde por 28%, seguido da Itália com 20%, Estados Unidos com 15% e Espanha com 10%. Só aqui temos mais de 70% da produção mundial de vinho rosé.

Dos rosés franceses com apelação de origem (AOC), 35% são da Provence, 18% do Loire e 12% do Rhône, conforme gráfico abaixo. Estes rosés, grande parte é consumido na própria França que detém 36% do consumo mundial, seguida pelos Estados Unidos 13%, Alemanha 7% e Reino Unido 6%.

Do pouco rosé provençal exportado, mais da metade vai para os Estados Unidos (27,6%) e Bélgica (23%).

rosés frança

historia do vinho

História e Evolução do Vinho

Na milenar história do vinho, conforme esquema acima, os vinhos claros sempre tomaram conta do cenário. Evidentemente, o termo rosé não era empregado, mas o aspecto lembrava muito essas cores rosadas, alaranjadas e as várias tonalidades assumidas pelo rosé. Isso é mais ou menos intuitivo de conceber, pois em épocas remotas a técnica de vinificação era rudimentar e pouco dominada. Portanto, as macerações eram relativamente curtas e os vinhos eram tomados normalmente jovens. Além disso, era muito comum fermentarem juntas, uvas brancas e tintas. Não havia o conceito de envelhecimento do vinho, sobretudo antes da existência da garrafa e da rolha. Este gosto antigo chamava esses vinhos como vinhos de prazer. Os vinhos de cores mais acentuadas, semelhantes ao que conhecemos hoje, eram denominados vinhos de alimentação, destinados a trabalhadores braçais, gente rude, de pouca educação. Eram frutos de macerações longas, prensagens grosseiras, elaborados com pouco cuidado. Os termos usados para esses vinhos eram vin nourriture e vinum rubeum.

Na Idade Média vários quadros onde o vinho aparece, notamos uma cor que nos lembra os vinhos rosés. Na época, chamado de Vinum Clarum ou Claret. A foto abaixo ilustra este fato.

vinum clarum

Vinum Clarum

A partir do século XIII com a ascensão dos vinhos de Bordeaux, esses vinhos claros foram chamados na região de “Clairets”, sobretudo por ingleses e Holandeses, grandes apreciadores e compradores deste produto. Até o século XVII, a produção de Clairet era avassaladora, chegando a mais de 80% da produção total em Bordeaux.

Só em 1642 no vinhedo de Argenteuil, redondezas de Paris, Ile de France, é que aparece o termo “rosé” pela primeira vez. Para distinguir seu vinho claro dos demais, Bordeaux cria uma espécie de apelação denominada Bordeaux-Clairet.

A partir do século XVIII com a chegada de vez da garrafa de vidro, rolha, os esclarecimentos de Louis Pasteur sobre a oxidação dos vinhos, é que surge o conceito de envelhecimento dos mesmos. Nesta época começa a tomar força macerações mais longas, melhor domínio da vinificação e os chamados “vins rouges” entram em cena. O gráfico acima mostra bem esta ascensão. Com isso, há um declínio dos vinhos rosés, reduzindo a 10% seu consumo. A Provence, longe de modismos, continua a dar preferência a seus vinhos claros. É bom lembrar que esta região francesa foi a primeira a ser conquistada pelo império romano e consequentemente, a adotar vinhas em seu território.

A tentação de misturar vinho branco com vinho tinto criando um “vinho rosé” no aspecto visual sempre foi repudiada. Só em 2009 a União Europeia proibiu esta prática, definindo o vinho rosé como fruto de uvas tintas com certa maceração das cascas para a devida extração de cor. Curiosamente, só uma região francesa e por sinal, uma das mais badaladas, é possível a obtenção do rosé  pela mistura de vinho branco e vinho tinto. É a nobre região de Champagne.

vin rose tonalidades

as várias tonalidades de rosé

Pressurage Direct

Este é o método de obtermos os rosés mais delicados, elegantes e autênticos. Não é por acaso, que a grande maioria dos rosés provençais adotam este sistema. São prensas pneumáticas ultra delicadas que separam o mosto das cascas com a devida maceração para obterem cores como as da foto acima. Os toques florais, cítricos e de ervas estão sempre presentes. Após a obtenção da devida cor, o processo de fermentação segue como num vinho branco. Vale salientar que a maturação das uvas tintas para elaboração de rosés é muito particular. A uva deve conservar um bom nível de acidez a despeito  de sua maturação fenólica incompleta, já que os taninos não participam deste jogo. Terroir como a Provence é perfeito para esta situação. 

À mesa, os rosés são muito versáteis combinando com pimentões, alho, ervas de todo tipo, legumes, e outros pratos de difícil harmonização. É o vinho ideal para acompanhar os buffets self-service espalhados pelas grandes cidades, onde uma profusão de comidinhas é colocada no mesmo prato de uma só vez.