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Borgonha: Parte VIII

16 de Abril de 2012

Após a comuna de Meursault, caminhando para o sul da Côte de Beaune, entramos no berço espiritual da Chardonnay. Aqui, a palavra mágica é Montrachet. Evidentemente, o excepcional vinhedo “Le Montrachet” é o mais cobiçado de todos os Grands Crus desta pequena área, conforme figura abaixo.

A perfeição da Chardonnay

Notem que no meio do mapa existe uma linha pontilhada dividindo as comunas de Chassagne-Montrachet à esquerda, e Puligny-Montrachet à direita. Com isso, dois Grands Crus são divididos entre as mesmas: Bâtard-Montrachet e o grande Le Montrachet. Ainda no mapa, observamos o Grand Cru Criots-Bâtard-Montrachet pertencendo exclusivamente à comuna de Chassagne-Montrachet. Por sua minúscula produção, menos de dez mil garrafas por ano, comprem o que estiver ao alcance dos olhos e do bolso. Do lado de Puligny-Montrachet, mais dois Grands Crus exclusivos: Bienveneus-Bâtard-Montrachet e o estupendo Chevalier-Montrachet. Este último para muitos, o grande rival da estrela maior.

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Dos cinco Grands Crus, três merecem atenção especial quanto a seus respectivos terroirs. Observem o esquema acima dos vinhedos em termos de altitude. Na parte mais baixa, temos Bâtard-Montrachet com seu solo de marga onde a argila destaca-se em meio ao calcário. Portanto, numa sintonia fina seus vinhos são mais densos, mais pesados, necessitando de uma boa decantação, principalmente se forem tomados relativamente jovens.

Em altitude oposta, temos o vinhedo Chevalier-Montrachet com seu solo de pedregosidade destacada. Este fato confere uma sutileza e elegância incríveis, impressionando a maioria dos degustadores, sejam eles experientes ou não. Bouchard Père et Fils, também grande comerciante da borgonha, elabora um Chevalier-Montrachet de cair o queixo.

Por fim, o grande Le Montrachet, com seus 7,93 hectares extremamente fracionados, posicionado entre os dois Grands Crus acima citados. A insolação é perfeita, tendo na época de maturação o sol batendo nas vinhas até nove horas da noite. Seu solo conjuga todos os fatores benéficos à Chardonnay, resultando num vinho extremamente elegante como Chevalier, e não menos denso e robusto como um Bâtard. A perfeição está próxima.

Alguns produtores destes grandes vinhos: Domaine Leflaive, Domaine de La Romanée-Conti, Comtes Lafon, Ramonet, Drouhin (Marquis de Laguiche), Carillon, Gagnard e Sauzet. Infelizmente, nem todos vêm para o Brasil. As importadoras Expand e Mistral possuem alguns destes produtores.

Alternativas interessantes a todos esses grandes vinhos citados, são alguns produtores ilustres nas vizinhanças de Chassagne e Puligny como Jean-Marc Boillot da importadora Cellar (www.cellar-af.com.br), com vários Puligny-Montrachet Premier Cru a preços atraentes. O produtor Hubert Lamy trazido pela importadora Premium Wines (www.premiumwines.com.br) elabora belos exemplares em Chassagne-Montrachet e na comuna vizinha de Saint-Aubin, com belos Premier Cru. Aliás, Saint-Aubin é uma alternativa interessante frente às comunas mais badaladas, principalmente na categoria Premier Cru. 

Borgonha: Parte V

15 de Março de 2012

Prosseguindo ainda na famosa Côte de Nuits, falaremos sobre as comunas de Morey-St-Denis e Vougeot. A primeira engloba cinco Grands Crus: Clos de Tart, Clos St-Denis, Clos de Lambrays, Clos de La Roche e Bonnes-Mares. Este último, embora com a menor parte, divide-se entre Morey-St-Denis e Chambolle-Musigny.

Os tintos de Morey-St-Denis pendem mais para um estilo Chambertin, com algumas nuances diferenciadas e misteriosas. Clos de Lambrays tem este mistério, é o mais fechado entre os Grands Crus. Clos St-Denis é o mais delicado, feminino, enquanto Clos de La Roche é o mais firme, mais Chambertin. Por último, o espetacular Clos de Tart, talvez o preferido do meu amigo Roberto Rockmann. De fato, é um grande vinho, tendo um pouco de todas as facetas de seus Grands Crus vizinhos. Consegue aliar com maestria, elegância e potência. Boa alternativa de preço aos proibitivos tintos da Domaine de La Romanée-Conti.

Clos de Tart: Propriedade murada

Importadoras de ótimos produtores desta comuna: Clos de Tart (www.cellar-af.com.br), Domaine des Lambrays (importadora Grand Cru) e Domaine Dujac (Expand).

Côte de Nuits: tintos superlativos

A comuna de Vougeot, produtora de tintos e brancos, talvez seja a síntese do alto risco para quem se aventura em borgonhas, inclusive no seu polêmico Grand Cru, Clos de Vougeot. Com aproximadamente 50 hectares, trata-se de um latifúndio para padrões borgonheses, com cerca de 80 produtores. A posição do vinhedo na colina em termos de altitude e composição de solo aliada à filosofia de trabalho de cada produtor, gera vinhos bastante distintos em qualidade e estilo. Vai desde o medíocre ao sublime. Produtores como Méo-Camuzet, Grivot (ambos da importadora Mistral), e Chateau de La Tour (importadora Decanter) são altamente confiáveis.

Méo-Camuzet: Produção minúscula

Outras apelações e comunas como Fixin, Marsannay e Hautes-Côtes de Nuits não apresentam destaques, exceto por um ou outro produtor de produção minúscula. Composição de solo e altitude são alguns dos fatores desfavoráveis para o sucesso de seus vinhos. Em grandes safras, onde a maturação da uvas fica próxima do ideal, seus vinhos ganham alguns atrativos.

Por ora, faremos uma pequena pausa sobre a Borgonha, retornando em breve com novos artigos.

Borgonha: Parte IV

12 de Março de 2012

As famosas comunas da Côte de Nuits são reverenciadas com vinhos sublimes, proporcionando borgonhas tintos perto da perfeição. Mas atenção, este é um campo minado, repleto de armadilhas que só os especialistas em áreas específicas são capazes de traduzir todo este esplendor. De fato, a proporção de calcário e argila deve ser sempre respeitada, e dela tirar o melhor proveito possível. O calcário dá elegância ao vinho, enquanto a argila fornece estrutura e vigor. Porém, cada um destes fatores tem seus limites.

Observando o mapa acima, vamos nos fixar nas comunas de Gevrey-Chambertin e Nuits-St-Georges, diametralmente opostas, a primeira no limite a norte, a segunda no limite a sul. As duas porporcionam vinhos estruturados, encorpados, aptos a longo envelhecimento. Evidentemente, sempre pensando nos melhores locais e produtores. A diferença básica entre as duas está na elegância. Gevrey-Chambertin possui maior proporção de calcário, enquanto em Nuits-St-Georges a argila predomina demais. Numa sintonia fina, os tintos de Nuits-St-Georges são um tanto rústicos se comparado ao seu concorrente mais ilustre. Pessoalmente, os dois são excelentes.

Alguns produtores: Rossignol-Trapet (www.cellar-af.com.br), Armand Rousseau (era trazido pela Expand). Os dois são excelentes em Chambertin. Domaine Henri Gouges (www.zahil.com.br) e Jacques-Frédéric Mugnier (www.cellar-af.com.br) são grandes nomes em Nuits-St-Georges.

Chambolle-Musigny e Vosne-Romanée

Novamente, uma comparação interessante. As duas comunas são famosas por fornecerem os tintos mais femininos e elegantes da Côte de Nuits. De fato, a presença de boa proporção de calcário em Chambolle promove esta elegância, principalmente em seu famoso vinhedo “Les Amoureusses”. No entanto, uma proporção um pouco maior de argila na comuna de Vosne-Romanée mantém esta elegância, mas com um ganho de profundidade e estrutura. Talvez aqui, a argila e o calcário tenham encontrado a proporção ideal, justificando o velho ditado: “Em Vosne não existem vinhos comuns”.

Esta análise é absolutamente genérica e um tanto superficial. Existem inúmeras exceções nos dois lados que podem contrariar esta tese. Contudo, de maneira geral, ela é relativamente consistente. O vinhedo “Le Musigny”, espetacular Grand Cru da comuna de Chambolle-Musigny é uma das exceções, onde a proporção de argila em relação ao calcário, é maior.

Produtores como Comte Vogüé, Georges Roumier e Jacques-Frédéric Mugnier são belas referências na apelação Chambolle-Musigny. Já para Vosne-Romanée, além da lendária Domaine de La Romanée-Conti, temos Méo-Camuzet, Anne-Françoise Gros e Jean Grivot, bastante confiáveis.

Os importadores destes produtores são: www.mistral.com.br (Vogüé, Camuzet e Grivot), www.cellar-af.com.br (Gros e Mugnier) e alguns exemplares da Domaine de La Romanée-Conti na Expand (www.expand.com.br).

A Elite dos Champagnes

8 de Dezembro de 2011

Nesta época do ano, a procura e curiosidade por este tipo de vinho são inevitáveis, embora mais uma vez, champagnes podem e devem ser apreciados durante todo o ano. Vinho Sem Segredo apresenta vários artigos envolvendo o tema, inclusive um mais específico em três partes  intitulado: Harmonização: Champagnes.

Hoje falaremos dos melhores champagnes, aqueles elaborados com os melhores vinhos-bases, dos melhores vinhedos e das melhores safras. É o caso da tão esperada degustação realizada todos os anos na ABS-SP, intitulada Top Champagne. Neste ano, o paínel composto de belos exemplares de safras relativamente antigas segue descrito abaixo:

Krug e Bollinger dispensam apresentações. Torna-se redundante comentá-los e elogiá-los, estando num patamar muito acima, mesmo entre os melhores. São champagnes de alta costura, elaborados com muito esmero em todos os detalhes.

Comtes de Taittinger é outro clássico no estilo Blanc de Blancs. Elaborado somente a partir de vinhedos Grand Cru da Côte de Blancs, as leveduras permanecem por longos anos na garrafa, antes do dégorgement. Extremamente delicado, perlage fino, mostrando toda a elegância da Chardonnay. Apesar da idade, envelhece muito bem devido à sua incrível acidez e destacada mineralidade.

Cuvée Contraste: nome bem apropriado

Deixei para o final, o exótico champagne Jacques Selosse, um revolucionário neste mundo de sofisticação. Muitos não gostam de seu estilo, mas isso não tira o brilho de seu talento. Na verdade, o revolucionário chama-se Anselme Selosse que assumiu a vinícola do pai no início dos anos 80, depois de ter estudado e estagiado na Borgonha em propriedades do quilate de Coche-Dury e Lafon (perfeccionistas em Meursault) e Domaine Leflaive (o maior nome em Puligny-Montrachet). Este aprendizado dispertou em Anselme duas obsessões: a busca por baixos rendimentos em seus vinhedos (o que não é muito comum em champagne) e a permanência prolongada das borras nos vinhos-bases, a fim de enriquecer aromas e texturas.

Baseado nestes critérios, seus vinhedos Grand Cru muito bem localizados em Cramant, Avize e Oger, todos na Côte de Blancs, além de Aÿ, Ambonnay e Mareuil-sur-Aÿ, somam pouco mais de sete hectares cultivados de forma orgânica.

Seus vinhos-bases são elaborados com leveduras naturais e baixíssimo nível de SO2 em todo o processo. A fermentação dá-se em barricas de vários tamanhos e idades, sempre com uma parcela de madeira nova (em torno de 16%).

Nosso champagne em questão é a cuvée Contraste, um Blanc de Noirs (100% Pinot Noir de um single vineyard de Aÿ) amadurecido entre cinco e seis anos sur lies antes do dégorgement. Trata-se de um Brut com no máximo seis gramas de açúcar residual por litro. É um champagne de corpo não só pela presença marcante de Pinot Noir, mas também pela incrível textura advinda de todo o processo de elaboração. Apenas 140 caixas por ano. Nesta cuvée participaram as safras de 2002 e 2003. O dégorgement deu-se em outubro de 2007.

Para uma melhor apreciação e entendimento desta proposta, é imperativo decantá-lo por pelo menos uma hora, e serví-lo entre 10 e 12 graus de temperatura. Nada de espanto, quando o vinho-base é de qualidade, não há o que temer.