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Comidinhas e Charuto

28 de Janeiro de 2019

Comer e fumar ao mesmo tempo definitivamente não é uma prática saudável. Mesmo os fumantes inveterados, dão uma pausa quando se trata das refeições. Contudo, há situações no dia a dia que devem ser encaradas, além de procurarmos soluções através delas.

Adepto ao charuto gourmet, pessoalmente, é muito bom complementar uma bela refeição com vinhos, acendendo um Puro no final como digestivo e combustível para boas conversas. Entretanto, existem pessoas que gostam de fazer um happy-hour com charutos justamente quando estão de estômago vazio e bate aquela fome nesta hora. Elas não estão a fim de refeições fartas e sim comer alguma coisa jogando conversa fora.

De todo modo, é difícil colocar um alimento na boca e em seguida ingerir fumaça. Definitivamente, o estado sólido com o gasoso não conversam diretamente. É preciso um elemento liquido para tentar fazer esta união. Daí, surgem os vários tipos de bebidas. Procurando concilia-las com os alimentos, pode surgir uma nova combinação interessante e um elo de harmonia entre os três estados da matéria.

Sabemos que os melhores parceiros para os charutos são bebidas de grande força e personalidade como os destilados, por exemplo. Evidentemente, há alternativas com vinhos, cervejas, e toda a sorte de coquetéis, mas a presença de um destilado é soberana. Seguindo esta linha, vamos a exemplos práticos.

Nesta linha de happy-hour e descontração, nada como finger foods para facilitar o serviço e deixa-lo mais casual. Que tal um canapé de salmão defumado!

salmao defumado e whisky

Excelente pretexto para um Single Malt de Islay, um dos terroirs escoceses mais distintos desta nobre bebida. O alto teor de turfa deste tipo de whisky com toques medicinais complementa perfeitamente os distintos sabores do salmão defumado. Com isso, o whisky ingerido após um bocado, prepara o palato para os sabores do charuto que neste caso, podem até ser grande fortaleza. Sugestão: Lagavulin Islay Single Malt 16 years.

jamon-sherry

bela foto do site acima

Jamón Ibérico, Pata Negra, e Jerez. Fatias finas de um dos melhores presuntos do planeta, acompanhado por Jerez Amontillado. Sendo um vinho fortificado, constitui outra ponte interessante para charutos. Embora bastante seco, seus sabores e aromas conversam bem com toques esfumaçados.

patês e terrines com armagnac

A foto acima remete a patês e terrines tendo torradas como berço. Partindo do princípio que várias receitas de patês, sobretudo de caça, levam aguardente como cognac ou armagnac, fica fácil imaginar esta perfeita combinação. Dependendo da carne utilizada no patê e seus acentuados temperos, a força de uma aguardente casa muito bem com esses sabores. Daí a combinação com charutos fica uma covardia. Quase nada se compara à perfeita harmonia de Puros com Cognacs ou Armagnacs. Embora de regiões e métodos de elaboração diferentes, suas sutis diferenças só são realmente detectadas por especialistas, partindo evidentemente de bebidas de mesma categoria de envelhecimento. O cognac parece ter mais finesse, enquanto seu concorrente da Gasconha tem mais punch, mais pegada. Enfim, os dois são maravilhosos.

bolinho de carne-seca com abóbora

Para pratos mais brasileiros, o bolinho acima, além do caldinho de feijão, acarajés, queijo coalho, entre outros, todos vão bem com uma autêntica caipirinha, aquela com cachaça boa. Sobretudo nos dias quentes de verão, é uma bebida refrescante. De certo parentesco com mojito, bebida caribenha, é outra combinação ideal com Puros, sobretudo os mais leves e elegantes como Hoyo de Monterrey.

bruschetta de funghi porcini

Voltando aos vinhos, nada como um bom Madeira com funghi porcini. Os Jerezes Olorosos também dão certo, mas são muito secos. Prefira versões menos doces dos Madeiras como Sercial ou Verdelho. São nomes de uvas mencionadas nos rótulos e têm a ver com a doçura da bebida. Sercial mais seco, e Verdelho menos seco. Além da combinação ser perfeita, os aromas de torrefação, frutas secas e notas balsâmicas do Madeira, vão de encontro às essenciais notas dos charutos que impregnam o palato.

rum e chocolate

Fechando o assunto, um final com chocolate é sempre reconfortante. Seja ele puro com alto teor de cacau, tortas, pavês, ou um ótimo tiramisu como da foto acima. Nesta hora, um bom expresso também da conta do recado. No entanto, uma bebida aromática, potente, e com um toque adocicado como os grandes rums da América Central e Caribe, são parceiros ideais para este casamento. Como Sugestão, o conceituado rum guatemalteco Zacapa, tanto na versão reserva, como na versão X.O. (Extra-Old).

Enfim, com uma boa turma de amigos, várias opções de bebidas, e uma seleção bem pensada de canapés, as baforadas estão garantidas. Aquele charuto que parecia isolado da enogastronomia, de repente pode agregar novas e surpreendentes experiências.

Em tempo, vou falar sobre harmonizações num curso de charutos na Casa Murdock em Moema, fevereiro próximo. Maiores informações: http://www.casamurdock.com

Wine Spectator e mais Top Ten

20 de Novembro de 2018

Os cem melhores vinhos do ano de 2018, segundo a revista Wine Spectator. Relação sempre polêmica envolvendo a qualidade do vinho em si (nota), disponibilidade no mercado (número de caixas) e preço por garrafa, ou seja, o difícil é ter nota alta, grande produção e preço baixo. Poucos conseguem esta proeza. (www.winespectator.com).

De toda a relação, temos 30 americanos (a revista é americana), 20 italianos, 18 franceses, 8 espanhóis, 3 portugueses, 5 australianos, 4 neozelandeses, e o restante entre chilenos, argentinos, alemães, austríacos, sul-africanos, um de Israel, e um grego.

Dos americanos, sempre vinhos caros e praticamente indisponíveis no Brasil, a relação ratifica que as regiões da Califórnia (Napa, Sonoma, e Costa Sul), Oregon e Washington, sempre fornecem grandes vinhos que devem ser provados e comprados no exterior.

Dos italianos, a região da Toscana sobretudo, foi grande destaque com Chianti Classico e Brunello, embora um siciliano dentre os Top Ten.

Dos franceses, grande destaque para os bordaleses da safra 2015, uma das melhores dos últimos anos na Europa, e para os tintos do Rhône, especialmente Chateauneuf-du-Pape.

Da península ibérica, Espanha sempre com tintos instigantes e do lado português, destaque para a ótima safra 2016 no Douro com Vintages clássicos e de grande longevidade. Temos dois grandes Portos na lista.

De resto, a Oceania (Australia e Nova Zelândia) garfou nove exemplares, além dos outros países citados acima com participações pontuais.

Diante da lista completa, Vinho Sem Segredo seleciona seus Top Ten sem maiores pretensões, e de maneira nenhuma, subestimando a lista oficial. São também grandes vinhos, envolvendo além das notas, gosto pessoal.

1. Warre Vintage Port 2016

14° colocado na lista oficial com 98 pontos, Warre é a casa inglesa mais antiga em Vinho de Porto desde 1760. É logico que abri-lo agora é um imperdoável sacrilégio. Um vinho cheio de energia com taninos massivos e muita coisa a se desenvolver. Para os que estarão aqui em 2050, será um dos grandes Portos a atingirem o apogeu. Importadora Decanter.

wine spectator san felice chianti classico

2. San Felice Chianti Classico 2016

19° colocado na lista oficial com 94 pontos, este Chianti Classico custa somente 17 dólares no exterior. San Felice é um dos mais tradicionais produtores de Chianti Classico localizado em Castelnuovo Berardenga, próximo a Siena. Foi o pioneiro dos supertoscanos com o tinto Vigorello, lançado no mesmo ano do Sassicaia em 1968. Seus toques minerais e de tabaco são clássicos neste distinto terroir. Importadora Via Vini.

3. Roederer Estate Brut Anderson Valley

27° colocado na lista oficial com 93 pontos, este espumante é dos melhores da América com a chancela da Maison Louis Roederer. Com vinhedos localizados em Anderson Valley, próximo a Mendocino, região costeira bem ao norte da Califórnia, o vale absorve a tradicional neblina do Pacifico, provocando grande amplitude térmica. Neste blend clássico, temos Chardonnay (60%) e Pinot Noir (40%) com pelo menos dois anos sur lies (contato com as leveduras) antes do dégorgement.

wine spectator chateau-branaire-ducru 2015

4. Chateau Branaire-Ducru St Julien 2015

33° colocado na lista oficial com 94 pontos, este é um dos belos Grand Cru Classe da safra 2015. Nada a ver com o Chateau Ducru-Beaucaillou, outro ótimo Saint-Julien, Branaire-Ducru é um quatrième classificado de 1855. Blend composto por Cabernet Sauvignon (dois terços), Merlot (praticamente um terço), e pequenas porcentagens de Cabernet Franc e Petit Verdot. O vinho estagia entre 16 e 20 meses em barricas francesas (65% novas). Uma boa compra no exterior frente a outros chateaux mais famosos.

5. Descendientes de J. Palacios Bierzo Pétalos 2016

35° colocado na lista oficial com 92 pontos, este é um clássico da notável região de Bierzo, a noroeste da Espanha. Com seu relevo montanhoso e solo de pizarras (espécie de ardósia fragmentada), Bierzo molda tintos instigantes com a casta Mencia, cheio de pureza e mineralidade. Um dos grandes terroirs da Espanha. Importadora Mistral a bons preços.

wine spectator henri bourgeois les baronnes

6. Henri Bourgeois Sancerre Les Baronnes 2017

46° colocado na lista oficial com 92 pontos. Um dos melhores produtores da apelação Sancerre, Henri Bourgeois molda Sauvignon Blanc  típicos do Vale do Loire. Les Baronnes é um de seus vinhedos, gerando brancos de ótimo frescor para nosso verão. Sem passagem por madeira. Importadora Grand Cru.

7. Domaine des Baumard Quarts de Chaume 2015

52° colocado na lista oficial com 98 pontos, este é um clássico botrytisado do Vale do Loire. Para quem está cansado de Sauternes, Quarts de Chaume é uma apelação clássica de Anjou com a casta Chenin Blanc. Vinho de grande delicadeza, complexidade, e longevidade. Importadora Mistral.

wine spectator hamilton russell chardonnay

8. Hamilton Russell Chardonnay Hemel-en-Aarde Valley 2017

57° colocado na lista oficial com 93 pontos, Hamilton Russell é sinônimo de Borgonha na África do Sul. Com vinhedos situados na fria região litorânea de Walker Bay, banhada pela corrente de Benguela, seus Chardonnays fermentados e amadurecidos em barricas francesas, são complexos, equilibrados e expansivos. Importadora Mistral. 

wine spectator auguste clape cornas

9. Auguste Clape Cornas 2015

77° colocado na lista oficial com 98 pontos, Auguste Clape é referência absoluta na apelação Cornas, maldosamente mencionada como “Hermitage dos pobres”. Tinto de grande força, personalidade, e longevidade. Seus vinhedos ficam num anfiteatro localizados a sul da apelação Hermitage com uma exposição solar fora de série para o perfeito amadurecimento das uvas Syrah. Para quem tem muita paciência em adegar. Importadora Mistral.

10. Henri Gouges Nuits-St-Georges Clos des Porrets 2015

79° colocado na lista oficial com 95 pontos, Henri Gouges personifica o lado mais masculino de Nuits-St-Georges, vasta comuna com muitas expressões de terroir. Clos des Porrets é um monopólio de pouco mais de três hectares. Tinto musculoso, tânico, e de grande longevidade. O lado mais viril da Pinot Noir. Importadora Zahil.

Enfim, uma lista com cinco franceses de diferentes procedências. A outra metade com vinhos pouco conhecidos do grande público, de preços variados, e muitos deles encontrados no Brasil, embora a preços nem sempre convidativos. Para aqueles que têm a oportunidade  de irem ao exterior, uma bela chance de prova-los a preços honestos.

 

 

 

Top Ten WS

16 de Novembro de 2018

Nesta época do ano, temos a famosa lista dos Top 100 da revista Wine Spectator. Dentro dos 100 melhores há os chamados Top Ten, revelados dias antes. Nesta edição 2018 temos três americanos, três franceses, três italianos, e um espanhol. Independente dos critérios e supostas preferências, trata-se de grandes vinhos muito bem pontuados. Alguns mais clássicos como o vinho do Ano, outros como novidades, e sempre alguns americanos. 

Embora as polêmicas sejam inevitáveis em torno dos americanos, devemos lembrar que a revista é americana. Portanto, nada mais natural que promover as pratas da casa. De todo modo, é bom não nos esquecermos que os Estados Unidos são a quarta potência no mundo do vinho e que seus Cult Wines são de fato maravilhosos, competindo em qualquer degustação com os melhores do mundo. Feita as devidas considerações, vamos a eles!

wine spectator bedrock heritage 2016vinhas plantadas em 1888!

10. Bedrock Heritage Sonoma Valley 2016

Tinto de vinhas muito antigas com 27 varietais, destacando-se Zinfandel (50%), Carignan (20%) e Mataro (4%). Vinho de grande concentração, sugerindo decantação de 12 a 24 horas. Bedrock vineyard é um vinhedo plantado em 1888 na região costeira de Sonoma.

9. Tenuta delle Terre Nere Etna San Lorenzo 2016

A Sicilia é talvez a região mais vibrante da Italia em termos de novidades e renovação, especialmente ao redor do monte Etna, no setor leste da ilha. Nerello Mascalese é a grande estrela como uva autóctone. Neste exemplar, San Lorenzo é um vinhedo especial de quatro hectares da vinícola tratado como Grand Cru com vinhas entre 50 e 100 anos plantadas em alberello ou vaso (modo antigo de plantio junto ao chão) numa altitude entre 700 e 750 metros. Após 16 a 18 meses de afinamento em diversos tipos de madeira francesa (apenas 20% de madeira nova), o vinho é engarrafado.

8. Le Vieux Donjon Chateauneuf-du-Pape 2016

Domaine localizada quase dentro de Chateauneuf-du-Pape, próximo ao mítico Henri Bonneau. Com a mesma filosofia, trabalha com vinhas antigas, sobretudo Grenache de vinhas centenárias, juntando uvas de vários vinhedos de diferentes terroirs. O blend para o tinto é composto de Grenache (75%), Mourvèdre (10%), Syrah (10%) e Cinsault (5%). A média de idade das vinhas ultrapassa 50 anos. A vinificação é tradicional e o vinho amadurece por 18 meses numa combinação de grandes toneis com uma pequena parte em cimento.

7. Colene Clemens Pinot Noir Chehalem Mountains Dopp Creek 2015

Elaborado com quatro clones especiais de Pinot Noir, as uvas são 100% desengaçadas com longa fermentação sob ação de leveduras naturais. Há uma pós-fermentação de 5 a 7 dias para maior extração. O vinho estagio 11 meses em barricas francesas de diferentes idades, sendo 28% novas. Chehalem Mountains é uma das AVAs de prestígio no extremo norte de Willamette Valley, próxima à cidade de Portland. Seu solo complexo e pedregoso é uma mistura de basalto (origem vulcânica) com sedimentos marinhos em colinas voltadas para o sul.

6. Aubert Chardonnay Carneros Larry Hide & Sons 2016

Terroir frio na entrada de Napa Valley, Carneros está sob a influência da baía de San Pablo. Chardonnay elaborado com mínima intervenção, fermentado em barricas francesas, predominantemente novas. Intenso e cremoso.

wine spectator dom perignon 2008a passagem do bastão

5. Moët & Chandon Dom Pérignon Legacy Edition 2008

Cuvée de grande prestígio, marca fundamentalmente a passagem de bastão do Chef de Cave Richard Geoffroy desde 1990, para Vincent Chaperon a partir da safra 2009. Com longo trabalho sur lies, um Dom Pérignon costuma demorar dez anos para ser lançado. Consistente safra após safra. Que a sucessão seja um sucessão!

4. La Rioja Alta 890 Gran Reserva Selección Especial 2005

O clássico dos clássicos em Rioja, talvez a denominação mais importante para tintos em toda a Espanha. Tempranillo (95%), Mazuelo (2%), e Graciano (3% dentre outras castas), formam o blend deste estupendo tinto que passa seis anos em diversas barricas com dez trasfegas ao longo deste período. Um vinho super elegante com uma profundidade e equilíbrio monumentais. Estará eternamente entre os melhores vinhos do planeta.

3. Castello di Volpaia Chianti Classico Riserva 2015

Vinhedos localizados em Radda in Chianti, região histórica do Chianti Classico. 100% Sangiovese cultivado em altitudes entre 400 e 500 metros de solo pedregoso de natureza argilo/arenosa. Passa cerca de 24 meses em botti da Eslavônia e parte em barricas francesas. Pode ombrear-se aos melhores Brunellos.

2. Chateau Canon-La-Gaffelière 2015

Saint-Emilion de ponta na classificação Premier Grand Cru Classe B. Situado a sul do Chateau Ausone e a oeste do Chateau Pavie em solo argilo/arenoso. A média de idade das vinhas é de 50 anos, com alguns lotes chegando perto de 100 anos. O blend é composto de Merlot (55%), Cabernet Franc (38%) e Cabernet Sauvignon (7%). O vinho amadurece com as lias entre 15 e 18 meses em carvalho francês, 100% novo. A safra 2015 dispensa comentários.

wine spectator sassicaia 2015Bolgheri Sassicaia: denominação de origem própria

O Vinho do Ano

Depois de 50 anos da primeira safra em 1968, o pai dos “supertoscanos” é o Vinho do Ano da Wine Spectator com a safra 2015. Oxalá ela tenha o mesmo êxito do mítico Sassicaia 1985, o melhor Sassicaia da história.

1. Tenuta San Guido Bolgheri Sassicaia 2015

O sonho da marquês Mario Incisa dela Rocchetta, um italiano apaixonado pelos bordaleses, tornou-se realidade. Elaborar o melhor corte bordalês na Italia, e seguramente entre os melhores do mundo.

Quando a imprensa inglesa provou as primeiras safras de Sassicaia, um mero Vino da Tavola, exclamou: “não pode ser um vino de mesa, é um supertoscano”. E assim nasceu o termo que revolucionou os tintos toscanos a partir dos anos 70. Localizada em Bolgheri, área marítima da Toscana, Tenuta San Guido com seu solo pedregoso (sasso), deu origem ao mítico vinho. Um corte onde a Cabernet Sauvignon é majoritária com pequena porcentagem de Cabernet Franc. Um tinto sempre elegante com o toque preciso das barricas bordalesas. 

Outros supertoscanos vieram pouco a pouco e continuam aparecendo, mas Sassicaia tornou-se um mito na enologia italiana, fazendo parte da elite mundial. 

Seria um belo painel para uma degustação de fim de ano. Próximo artigo, a análise completa dos Top 100 da Wine Spectator.

Adega Revista no Sábado

14 de Novembro de 2018

Em evento comemorativo da Revista Adega, foram escolhidos alguns painéis temáticos para degustação de vinhos pouco comuns em nosso dia a dia. O evento realizado no charmoso Hotel Unique foi muito bem montado com serviço dos vinhos preciso a cargo das sommelières Gabriela Monteleone e Gabriele Frizon.

img_5298abrindo os trabalhos

Nesta primeira degustação, foi escolhido o ícone da Familia Torres, um dos grupos vinícolas mais importantes no cenário internacional, o tinto Mas La Plana Cabernet Sauvignon, cuja primeira safra de 1970, mais conhecido como Gran Coronas Etiqueta Negra, ganhou o importante concurso francês Gault-Millau em 1979, frente a notáveis tintos bordaleses.

As primeiras vinhas datam de 1966, plantadas na Catalunha, nordeste da Espanha, mais precisamente na região de Penedès. Com o passar do tempo, as vinhas criaram raízes, refletindo nos vinhos um terroir mais preciso. Conforme foto acima, a vertical começou com o ano 1977, terminando com o exemplar de 2013. Os vinhos são importados pela Devinum (www.devinum.com.br).

img_5300perfis em evolução

A garrafa em magnum do ano 1977 estava perfeita com total evolução do vinho. Neste exemplar, percebemos um caráter notadamente espanhol nos aromas, denotando notas de coco referente ao carvalho americano. Lembra muitos os Riojas Gran Reservas. Seus toques balsâmicos, de frutas secas e em compota, bala de cevada, mostravam aromas sedutores. Em boca, embora ainda prazeroso, percebia-se o peso da idade, com um final de boca mais seco, mostrando que a fruta está indo embora. As garrafas remanescentes devem ser tomadas rapidamente, aproveitando ainda a exuberância de seus aromas, confirmando a distinção deste tinto.

Já o 1989, mostra o auge deste estilo mais tradicional, embora não seja tão marcadamente espanhol. A cor já com borda atijolada pela idade, mostra a evolução de seus aromas terciários com notas de ervas secas, café, tabaco, e algo defumado. Em boca, apresenta mais vigor que o vinho anterior, mas segue na linha de elegância com perfeito equilíbrio. Um vinho que se encontra num ótimo momento para ser tomado com todos os seus aromas e taninos plenamente desenvolvidos.

img_5301safra em double magnum

Aqui chegamos no ponto alto da degustação nesta bela safra de 1999. É bem verdade que o formato double magnum ajudou no perfeito estado da garrafa. Além disso, nesta fase da bodega, percebe-se um vinho claramente de padrão internacional, elaborado integralmente com barricas francesas. O vinho encontra-se já muito prazeroso se devidamente decantado. Contudo, ainda há segredos a serem revelados. A cor tem um tendência discretamente atijolada de borda. Os aromas são intensos de fruta concentrada, notas de café, chocolate, um tostado fino, e um toque mineral. Apresenta-se com bom corpo, bela estrutura tânica, e muito boa persistência aromática. Seus taninos são finos e muito bem equilibrados com demais componentes. Talvez algo perto de dez anos para atingir o apogeu. Belo exemplar.

img_5302belas promessas

Duas safras em evolução, mas com diferenças marcantes. O 2006 não mostra ser um grande ano. Ao longo da degustação seus aromas sempre muito tímidos. Fruta discreta, toques de especiarias  e um tostado fino, apenas. Em boca, mostrou-se ser o menos encorpado e o menos persistente entre todos. Seus taninos não eram tão finos como os demais. Falta um pouco de meio de boca. Embora ainda novo, não deve ser muito longevo.

Já o 2013 é outra história. Tinto de muito vigor, cor compacta, e uma montanha de taninos. Deve ser decantado por pelo menos duas horas. Um pouco fechado de inicio, mas seus aromas foram abrindo progressivamente com frutas escuras, toques minerais e de alcaçuz, além de uma nota de charcutaria (embutidos). Belo corpo, macio, taninos de ótima textura, e persistência aromática expansiva. Este sim, vai longe em adega.

pausa para o almoço

Uma pausa paro o almoço na cobertura do hotel Unique. Tomate confitado com creme de burrata de entrada, tartar de angus com salada, fritas e mostarda como prato principal, e crème brûlée de chá mate como sobremesa. O espumante rosé Desirée da Bueno Vinhos acompanhou adequadamente o refrescante almoço.

img_53081grandes promessas

Continuando o dia, partimos para a degustação de tintos argentinos da família Zuccardi. Trata-se de um inovador projeto no Valle de Uco, mais precisamente em Altamira num local extremamente pedregoso de solo aluvial com presença de carbonato de cálcio. O engenheiro Alberto Zuccardi está à frente da vinícola intitulada Piedra Infinita. São vinhas ainda muito jovens, mas com ótimo potencial. Na foto acima, os exemplares que mais me agradaram.

São vinhos de cores muito concentradas, praticamente sem nenhuma evolução de borda. As duas safras apresentaram aromas de frutas escuras intensas e bastante frescas, toques florais, minerais e de café. Encorpados, macios, e de muito frescor em boca. Os taninos são abundantes e finos. Bem equilibrados em álcool e de muito boa persistência aromática. A diferença básica das safras 2013 e 2015 são as porcentagens invertidas entre madeira e concreto. Na safra 2013 predomina a madeira, enquanto na safra 2015, o concreto. Aromaticamente, há um sutil predomínio das notas de café em 2013, enquanto a mineralidade é mais presente na safra 2015. Tintos ainda muito jovens em franca evolução. Esses tintos são importados pela Grand Cru (www.grandcru.com.br).

Tendências e Descobertas

Neste último painel, foram apresentados alguns vinhos mais distintos, diferentes, e de padrão pouco usual. Comento dois dos que gostei mais, de uvas e estilos totalmente diferentes entre si.

img_5313mineralidade de Limari

Aparentemente, mais um Sauvignon Blanc de vale frio do Chile. O que diferencia este vinho é sua presença em boca, calcada numa acidez marcante, refrescante, acompanhada por uma salinidade muito revigorante. Os fortes aromas herbáceos até incomodam um pouco, embora seja acompanhado de fruta bastante fresca, além de um intrigante toque esfumaçado (algo mineral, já que não passa em madeira). Bela persistência aromática. Importado pela World Wine.

img_5314biodinâmica na veia

Este teria que ser o Gran Finale, o majestoso Coulée de Serrant de Nicolas Joly. Este é um branco que deve ser decantado com horas de antecedência, tal a profundidade de seus aromas. Por ser de fato tão jovem, safra 2014, pessoas que não estão acostumadas a ele podem não entender completamente todo seu potencial. Trata-se de um vinhedo exclusivo, um verdadeiro patrimônio viticultural francês. O vinho é elaborado à base de Chenin Blanc dentro dos mais rígidos preceitos biodinâmicos. A cor é muito intensa, já começando pelo dourado. Com a evolução do vinho em garrafa, torna-se alaranjado, até podendo ser confundido com os famosos Laranjas, tão em voga. Seus aromas vão se revelando aos poucos, a medida que o vinho vai sendo aerado. Notas de marmelo, damascos, ameixa amarela, fruta em caroço, e outras frutas exóticas vão aparecendo. Toques florais e de especiarias, notadamente o curry, vão se intensificando. Em boca, lembra um vinho tinto por sua estrutura portentosa. Macio e ao mesmo tempo com incrível frescor num equilíbrio harmônico. Sua persistência aromática reverbera por minutos. Um lição para quem quer saber o que é um grande vinho branco. Sensacional. Nota 95+ de Parker. Importadora Clarets (www.clarets.com.br).

Meus agradecimentos à Revista Adega por mais esta iniciativa, sempre procurando mostrar painéis de vinhos criativos e educativos, ampliando cada vez mais a cultura do vinho em nosso país. Os anfitriões Christian Burgos e Eduardo Milan sempre muitos gentis e solícitos com todos os convidados. Abraços a todos!