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Enogastronomia: A Pensão Humaitá

21 de Março de 2011

Falar da saudosa Pensão Humaitá é falar de seu mentor, João Fernando de Almeida Prado, mais conhecido por Yan de Almeida Prado. Intelectual, bibliófilo, historiador e participante ativo da Semana de Arte Moderna, aproveitou seu período de estudos na Europa no começo do século passado, para aprimorar seus conhecimentos em torno do vinho e da boa mesa. Tinha contatos preciosos para abastecer sua refinada adega e partilhá-la com sabedoria entre seus confrades e amigos. Um destes confrades foi o ilustre médico Sérgio de Paula Santos, pessoa de fino trato, um dos atributos para fazer parte deste seleto grupo de amigos. Sem estrelismos, sem mídia, sem segundos e terceiros interesses, a Pensão Humaitá foi durante muitos anos uma aula de bom gosto, boa conversa, boa mesa e bons vinhos. Tudo muito discreto e simples como são as boas coisas da vida.

Yan e Dr. Sérgio sentados ao fundo

A famosa Pensão surgiu na década de trinta do século passado e o nome foi fruto de sua localização, esquina da Av. Brigadeiro Luis Antônio com rua Humaitá. Entretanto, o batismo deu-se anos depois com a participação de Marcelino de Carvalho, um dos maiores conhecedores de Vinho do Porto na época.

Por mais de cinquenta anos, Yan recebeu seus amigos para o almoço aos sábados. Embora em certa época, tenha mudado de endereço na rua Guaianases num bonito casarão, o nome permaneceu. Entre os confrades mais assíduos, além do Dr. Sérgio, nomes como Leonardo Arroyo, Francisco Matarazzo Sobrinho (Ciccillo Matarazzo), João de Scantimburgo, José Tavares de Miranda, Olinto Moura, Octales Marcondes e evidentemente, Marcelino de Carvalho, abrilhantaram o grupo.

No almoço aos sábados, os primeiros a chegarem, eram muitas vezes recebidos de pijama pelo anfitrião, cuidando de rosas em seu jardim, uma de suas paixões. O aperitivo era sempre regado a champagne e não se fumava antes e nem durante a refeição, somente ao término e fora da mesa.

Passava-se à sala de refeições ao comando de Yan com a recorrente exortação, “Vamos ao sacrifício”. Geralmente, o serviço constava de três pratos: uma pequena entrada, um segundo prato (uma massa, um suflê ou um mexido de ovos, especialidade de Consuelo, grande cozinheira espanhola que não deixou receitas. Era analfabeta) e o chamado prato de resistência (uma ave, peixe ou carne, sempre acompanhado por arroz. O anfitrião e alguns confrades eram do Vale do Paraíba). Em seguida, eram servidos queijos, frutas e sobremesas.

Comia-se muito bem, mas sem exageros. Os pratos eram acompanhados por belos vinhos, normalmente franceses, entre os quais, grandes Bordeaux, os preferidos do anfitrião. Ao final, um Yquem poderia estar sobre a mesa. Portos e Madeiras eram rotineiros para finalizar as tardes de sábado.

Todos os anos, quando Yan aniversariava, os pensionistas o presenteavam com algumas caixas de champagne Cristal, que seriam naturalmente consumidas ao longo do ano.

A adega de Yan sempre foi um mistério. De lá proliferaram grandes châteaux de Bordeaux, de safras bem escolhidas, e muitas vezes emocionantes, coincidindo com as datas de nascimento de vários confrades. Numa passagem citada por Dr. Sérgio, quando regressou de uma bela viagem pela Borgonha, contou a Yan sobre os vinhos bebidos num lauto jantar. Yan tempos depois, serviu um almoço com os mesmos vinhos, de safras muito melhores, sem dizer uma palavra.

Esta foi uma pequena homenagem a pessoas que souberam fazer da enogastronomia, momentos de amizade, de confraternização, de respeito aos prazeres da vida e de civilidade. Yan ao morrer teve a sabedoria de sorver as últimas garrafas com amigos, deixando apenas em sua misteriosa adega, alguns exemplares sem expressão.

Para aqueles que desejam mais detalhes sobre a Pensão e outros assuntos ligados à cultura, história e engastronomia, uma série de pequenos livros a bons preços de Sérgio de Paula Santos, ainda estão disponíveis nas principais livrarias.

Meu primeiro grande Bordeaux

21 de Junho de 2010

O primeiro grande Bordeaux a gente nunca esquece! A safra é mítica, uma das melhores de todos os tempos, mas o château em si, nem tanto. Mesmo neste ano, sua nota é pouco expressiva. Contudo, a emoção da primeira vez, o momento certo em abrí-lo, a falta de experiência, o fato de ser surpreendido, além de outros fatores imponderáveis e inerentes aos mistérios do vinho, eternizam este grande momento.

Talvez o fato de na época (lá se vão quase vinte anos) ter lido algo sobre Alexis Lichine, falecido em 1989, e até então, proprietário deste château, tenha contribuído para meu encantamento.

Ele foi uma das maiores personalidades de Bordeaux, difundindo como ninguém os vinhos franceses nos Estados Unidos. Muito bem relacionado, foi durante longa data fornecedor exclusivo dos vinhos presidenciais na Casa Branca. De origem russa, sua família refugiou-se em França no começo do século passado, devido à revolução em seu país de origem. Posteriormente, estudou na América e começou trabalhar na comercialização e importação de vinhos. Anos depois, volta à França com grande prestígio e adquire algumas propriedades entre as quais, Château Prieuré-Lichine e Château Lascombes, ambas em Margaux.

Grande conhecedor de vinhos, publicou duas obras importantes: Wines of France e Enciclopédia de Vinhos e Álcoois. Apesar de bem relacionado e com enorme carisma nos negócios, Lichine teve sua vida pessoal totalmente reservada. Casado por três vezes, adoeceu no ínicio de 1989, isolando-se no Médoc. Russo, francês e americano, este foi Alexis Lichine, cidadão do vinho.

Informações extraídas de um dos muitos livros do grande médico, historiador e enófilo Sérgio de Paula Santos, também falecido recentemente. Que do outro lado, a imortal Pensão Humaíta o acolha!

 


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