Archive for Agosto, 2010

Destaque: Uva Mencía

15 de Agosto de 2010

 

Destaque na degustação da ABS-SP

A uva espanhola Mencía é cultivada no extremo oeste da província de León, divisa com a Galícia, sob as denominações Valdeorras, Ribeira Sacra e principalmente Bierzo. Esta última, criada em 1989, foi revitalizada na década de 90, numa situação muito parecida com a denominação Priorato. Por sinal, o grande Alvaro Palacios, aproveitando a experiência das antigas vinhas de Garnacha e Cariñena abandonadas na região, vislumbrou em Bierzo um grande potencial, num cenário semelhante.

Em resumo, temos um lugar montanhoso de clima continental, com alguma influência atlântica. O solo tem base argilosa, com algum calcário e presença de pedras, principalmente a típica Pizarra, espécie de argila laminar (trata-se de uma rocha metamórfica). A mineralidade desses vinhos costuma ser atribuída a este tipo peculiar de solo. As cepas, muitas delas antigas, têm média de idade acima de 60 anos, sendo algumas centenárias, e até pré-filoxeras.

Cepas antigas na denominação Ribeira Sacra

Os vinhos costumam ter boa presença de fruta, especiarias, ervas, notas minerais e madeira discreta. Gustativamente, são macios, acidez correta e tanicidade moderada. A princípio, não são vinhos de longa guarda. Devem ser consumidos até oito a dez anos de safra, salvo algumas exceções de vinhedos muito antigos, cuja  concentração e extrato justifiquem maior longevidade.

Dos rótulos degustados na ABS-SP, destacaram-se Valtuille Cepas Centenárias (importadora Grand Cru – www.grandcru.com.br), Dominio de Tares Bembibre e Dominio de Tares Cepas Viejas, ambos da importadora D´Olivino (www.dolivino.com.br) . Aliás, este último com o rótulo em destaque acima, tem nariz de margem esquerda. Boa surpresa para colocar às cegas, numa degustação de Bordeaux de bom nível.

Recebendo convidados

11 de Agosto de 2010

 

Enogastronomia: detalhes redobrados

Receber pessoas exercitando a enogastronomia não é uma tarefa fácil. Primeiramente, precisamos escolhê-las a dedo para não nos aborrecermos com atitudes e comentários típicos de cunhado. Acho que vocês estam entendendo o que eu quero dizer …

O número de pessoas deve ficar entre dois e quatro casais, ou quatro e oito pessoas, a menos que você tenha uma equipe para ajudá-lo. Este número também limita uma garrafa especial, quer pelo seu valor ou por unicidade da mesma. Além disso, temos louça, talheres e taças principalmente, que dificultam um número maior.

É sempre bom recepcionarmos com espumantes do tipo Brut, desde que sejam leves, sem marcar muito o paladar. Eles são perfeirtos para “fazer a boca”, acompanhar canapés e comidinhas fora da mesa principal.

O menu deve ser previamente escolhido e o serviço de preferência empratado. É bom evitar travessas, sobretudo com várias taças e talheres que já estarão à mesa, para facilitar sua vida e dar mais atenção aos convivas.

Evidentemente, o ideal é uma harmonização prato a prato, com vinhos escolhidos antecipadamente. O interessante é variarmos estilos e tipos de vinhos entre brancos e tintos, de acordo com o menu escolhido.  Os pratos devem alternar texturas, buscando intensidade e corpo crescentes. Assim os vinhos naturalmente, seguirão este perfil. Pode ser uma entrada, prato principal e sobremesa. Para maior sofisticação, entrada, primeiro prato, segundo prato e sobremesa. Escolha pratos de fácil elaboração ou que em parte, possam ser preparados previamente com uma rápida finalização no momento do serviço.

Esta estratégia de recepção, além de causar uma boa impressão, evita abrirmos um número excessivo de garrafas de um mesmo vinho, limitando o consumo total, e chegando ao final do evento com ampla satisfação. É a qualidade e diversidade em detrimento da quantidade e desperdício. Para um consumo adequado de vinho, calcule meia garrafa por pessoa, somando todas as garrafas servidas. Deixe os excessos para o final, de forma individualizada, com licores, vinhos fortificados e destilados, acompanhando eventualmente charutos ou uma conversa mais prolongada.

 

Presentes inesperados

Muita gente fica em dúvida quando é presenteada com vinho, sentindo-se obrigada a abrir a garrafa na ocasião presente. Nada de constrangimento, a menos que a pessoa insinue a abertura, o que não é de bom tom. Lembre-se que você já escolheu vinhos e pratos que teoricamente se harmonizarão. Portanto, não tem sentido abrí-lo, sem qualquer conotação enogastronômica. Mesmo se for um vinho muito especial, haverá o momento certo e oportuno para o mesmo, lembrando de convidar quem o presenteou  para um encontro futuro.

Outra atitude que devemos evitar, é pedirmos ao convidado para escolher uma garrafa em nossa adega, podendo provocar um certo constrangimento de ambas as partes, principalmente se você possuir garrafas especiais.

É lógico que tudo isso pode ser revisto quando estamos entre amigos com grande intimidade, onde muitas vezes, combinamos vinhos e pratos a serem servidos, delegando certas tarefas a cada um dos participantes.

De qualquer modo, é um caminho que pode surpreender mesmo os amigos mais íntimos, provocando agradáveis surpresas e testando novas propostas enogastronômicas.

Bodega Achaval Ferrer

8 de Agosto de 2010

 

Quimera: Corte altamente confiável

Achaval Ferrer é uma bodega engajada no restrito nicho de vinhos artesanais. Explorando o terroir mendocino, seu objetivo maior é a qualidade, buscando diferenciação e personalidade.

Com vinhas localizadas em zonas mais frescas como Tupungato, as uvas maturam lentamente com grande amplitude térmica. Neste ciclo mais longo, temos maior concentração de sabores, aromas e taninos, que refletirão inexoravelmente nos vinhos.

Basicamente, são três níveis de vinho. O primeiro, elaborado na proporção de uma videira por garrafa, apresenta um Malbec de muito frescor, com pureza de fruta notável. Vinho de boa concentração, equilibrado, sem ser demasiadamente extraído.

O nível mais alto, trabalha na proporção de três videiras por garrafa. Isso dá menos de um quilo por planta. Vinho de grande concentração, normalmente fadado ao infantícidio pelos consumidores compulsivos. Necessita de uns bons anos em garrafa para uma melhor integração de seus componentes, para assim desenvolver aromas terciários. Sem dúvida, um dos grandes Malbecs argentinos em três versões: Finca Altamira, Finca Bella Vista e Finca Mirador. Cada Malbec individualizado destes três vinhedos trabalham em média com redimentos de 12 hectolitros por hectare e parreiras na faixa de 80 anos de idade.

Deixei por último o nível intermediário, inclusive no preço (ao redor de R$ 150,00),  ilustrado no rótulo acima. Aqui, precisamos de duas videiras por garrafa. É o único vinho de corte, mesclando Malbec, Cabernet Sauvignon e Merlot . Vinho de grande concentração e profundidade. Necessita obrigatoriamente de decantação, tanto para aeração, como para separar depósitos, já que não é filtrado. Relativamente jovem, precisa pelo menos de duas horas no decanter. Quimera; fantasia, sonho, utopia, traduz bem seu nome.

Em todos os níveis, a madeira apenas emoldura o quadro, traduzindo com fidelidade toda a essência de seus respectivos terroirs. Todos ainda são importados pela Expand (www.expand.com.br).

Harmonização: Brancos secos

4 de Agosto de 2010

Como sommelier, vejo com muita preocupação a irrisória participação de vinhos brancos nas mesas de restaurantes. Não porque estamos num país tropical,  mas pela falta de sensibilidade dos consumidores, em abrir mão deste tipo de vinho em harmonizações que podem ser extremamente agradáveis.

Principalmente com entradas, pratos leves, que exigem acidez, os brancos podem e devem anteceder tintos, conforme os pedidos que se seguirão. Além disso, eles vão muito bem com courverts e são extremamente adequados para um brinde inicial.

Acidez e mineralidade notáveis

O trio acima resolve vários problemas, sobretudo molhos de maior acidez, maresia (destaque para a culinária japonesa) e pratos defumados. Portanto, o que outros tipos de vinho, principalmente tintos, teriam dificuldade, um Sauvignon Blanc incisivo (Pouilly-Fumé), um Riesling ou um Chenin Blanc (Savennières), tiram de letra.

O grande problema é quando aparece alguma doçura nos chamados molhos agridoces. Esses vinhos por serem extremamente secos e pungentes, dão uma sensação de acidez mais aguda. Neste caso, um riesling alemão com leve doçura, resolve a questão. Pode ser um Kabinett, um Spätlese ou um Auslese, conforme o produtor e a característica da safra.

Características de corpo e maciez

A Chardonnay personifica o branco gastronômico, capaz de acompanhar vários pratos à mesa por sua estrutura e maciez. A exceção clássica fica por conta do Chablis, devido a características específicas de terroir. Normalmente, os chardonnays passam pela fermentação malolática, além de contato mais ou menos prolongado com barricas. Daí, sua maciez, corpo e estrutura. Pratos de peixes e frutos do mar com molhos cremosos são clássicos parceiros destes vinhos.

Se você gosta de maciez, um toque floral, sem o incômodo da madeira, a Viognier é uma boa opção. Originária do Rhône Norte, é a base da apelação Condrieu. Vai muito bem com peixes e carnes cozidos no vapor, dando vivacidade ao conjunto com sua delicadeza. Argentina e Uruguai têm boas opções no mercado a preços convidativos.

Aromaticidade e exotismo

As uvas acima, Torrontés e Gewürztraminer podem não agradar todos os paladares, principalmente, se forem mal trabalhadas, beirando a vulgaridade. Entretanto, na mão de produtores sérios, podem gerar vinhos  bem equilibrados e agradavelmente aromáticos.

A Torrontés, bem cultivada na Argentina, encontrou em Salta seu verdadeiro terroir. São vinhos frescos, leves e delicados, capazes de acompanhar entradas e pratos com um toque agridoce e que de alguma maneira evoquem aromas cítricos e herbáceos. Só não funcionam, se o prato exigir muita acidez.

Já a Gewürztraminer com sua inconfundível nota aromática de lichias, normalmente apresenta textura e corpo mais ricos. Pratos da cozinha indiana à base de curry e especiarias encontram eco neste tipo de vinho. O cuidado é ser comedido na pimenta, pois esses vinhos não costumam apresentar grande acidez. Uma bela harmonização é um legítimo Gewürz da Alsácia  e Pato com Molho de Laranja.

Concluindo, este é um pequeno arsenal no inexplorado mundo dos Brancos. Outras uvas ou denominações específicas podem ser testadas de acordo com a curiosidade de cada um. Afinal, as opções à mesa podem e devem ser bem mais abrangentes.