Posts Tagged ‘oloroso’

Harmonização: Queijo Manchego

9 de Julho de 2012

O mais emblemático queijo espanhol produzido em boa parte de La Mancha, região central e árida da Espanha. Juntamente com o Roquefort (França) e Serra da Estrela (Portugal), forma a trilogia dos mais famosos queijos de leite de ovelha. Evidentemente, as condições de terroir permitem uma textura mais rija em La Mancha, região seca e árida, e mais cremosa, na fria e úmida região de altitude em Serra da Estrela, já comentada em recente artigo anterior.

Selo de origem com a figura de Don Quixote

Dentro de uma área de aproximadamente quatro milhões e meio de hectares, compreendida nas províncias de Albacete, Ciudad Real, Cuenca e Toledo, um enorme rebanho de ovelhas da raça manchega, adaptada há séculos neste clima inóspito, fornece a matéria-prima ideal para elaboração deste prestigioso queijo enquadrado na categoria DOP (Denominacíon de Origen Protegida) desde 1996. Maiores detalhes, consultar site do Conselho Regulador (www.quesomanchego.es).

Depedendo do processo de cura, o queijo adquire sabores e textura diversos e consequentemente, harmonizações distintas. Começando pelo Manchego Fresco, maturado somente por duas semanas, é produzido em quantidades mínimas e dificilmente encontrado fora de sua região de origem. Já o Manchego Curado, o de maior produção, matura entre três e seis meses geralmente, lembrando um delicado aroma de nozes. Por fim, o intenso Manchego Viejo, maturado entre um e dois anos, com aromas mais pungentes e picantes.

Zona Amparada de la D.O.

 

 

 

 

 

 

 

 

Zona de Produção

Para o Manchego Fresco, dificilmente encontrado, um Rioja Blanco baseado na uva Viura (também conhecida como Macabeo) pode ser interessante. Até a categoria Crianza, onde o vinho tem um contato relativamente curto com a madeira (geralmente seis a oito meses), o vinho apresenta força e acidez suficientes para enfrentar o queijo e sua gordura mais evidente e levemente cremosa. Um Chardonnay com leve passagem por madeira surte o mesmo efeito.

No caso do Manchego Curado, se a opção for ainda um branco, podemos optar por um Rioja Reserva ou Gran Reserva, observando a calibragem de aromas e sabores entre vinho e queijo. Neste caso, a preferência são por tintos de categoria Reserva ou Gran Reserva tanto de Rioja, como de Ribera del Duero. O importante é que o vinho tenha força suficiente e taninos bem moldados. Opções de outros países como Itália, Portugal ou França; podem ser Chianti Clássico Riserva, Douro Reserva ou Bandol envelhecido (tinto marcante da Provença), respectivamente. Uma outra bela opção é um Jerez Amontillado ou um raro Manzanilla Pasada (Manzanilla com notas oxidativas). A importadora Mistral (www.mistral.com.br) tem um ótimo da Bodega Hidalgo.

Por fim, o potente Manchego Viejo pede vinhos de muita personalidade. Jerez Oloroso pode ser sublime. Outros fortificados da península ibérica cumprem bem a missão a exemplo de um Madeira Verdelho ou um Porto Tawny 20 anos. Se a opção for por tintos, reserve os mais potentes com bom grau de envelhecimento, como os grandes Amarones.

 

Os tesouros de Jerez

10 de Outubro de 2011

Em artigos anteriores (vide Jerez em seis partes), procuramos esmiuçar particularidades do mundo fascinante dos vinhos de Jerez. Inclusive, comentamos denominações exclusivas e bastante restritas com as siglas VOS (Vinum Optimum Signatum ou Very Old Sherry) e VORS (Vinum Optimum Rare Signatum ou Very Old Rare Sherry). São categorias especiais, com soleras de idades prolongadas. O site www.sherry.org tem todas as informações detalhadas.

A escolha é sua, a experiência é única.

A ABS-SP nesta quarta-feira proporcionou uma degustação de alto nível com quatro Jerezes excepcionais trazidos pela importadora Vinissimo (www.vinissimo.com.br) da  artesanal e exclusiva  Bodegas Tradicion. Esta bodega só trabalha com soleras especiais, aptas a um envelhecimento prolongado. É um trabalho de garimpo e muito especializado, conhecido também por almacenistas, bodegueiros de soleras diferenciadas.

Os vinhos acima pertencem à categoria VORS (solera com idade média acima de 30 anos). Na verdade, esses vinhos especificamente, chegam a ter 45 anos de envelhecimento. A renovação destas soleras obedece critérios rígidos para escolhas de novas partidas que irão revigorar a solera, com vinhos de alta distinção e características especiais, aptos a longo envelhecimento.

Todos os três vinhos acima são excepcionais com uma característica comum aos grandes vinhos, longa persistência aromática, expansivos e complexos. As texturas vão aumentando desde o Amontillado até o Oloroso, passando pelo elegantíssimo Palo Cortado.

O Amontillado apresenta notas aromáticas iodadas e de maresia que se confirmam em boca através de sua clara salinidade. Um vinho que mescla crianza biológica  e crianza oxidativa em perfeita harmonia. Portanto, seu envelhecimento inicia-se sob ação de um véu não muito espesso de levedura (flor) por um período de seis a oito anos quando posteriormente, começa a fase oxidativa (ausência da flor), prolongando-se por mais de trinta anos. Uma experiência sensorial sem paralelos.

Na dúvida, prove os três. Pratos com aliche, azeitonas ou peixes defumados para o Amontillado; Pâté de Campagne para o Palo Cortado e queijo Manchego Viejo para o Oloroso, serão harmonizações únicas e inesquecíveis.

Jerez: Parte V

6 de Outubro de 2010

Neste último post, vamos abordar rapidamente os vinhos doces de Jerez, que não são meus preferidos, mas têm seu mercado cativo.

Primeiramente, os chamados Generosos de Licor. Foi uma criação para o mercado inglês principalmente, em três categorias: Pale Cream, Medium, e Cream. Devem ser servidos entre 12 e 14ºC, respeitando corpo e intensidade aromática, ou seja, Pale Cream um pouco mais fresco que o intenso Cream.

Pale Cream é o mais leve dos três citados, elaborado a partir de um Fino ou Manzanilla, com adição de mosto concentrado retificado. Isto significa que o mosto é de uva Palomino com uma pequena adição de aguardente vínica. Seu teor de açúcar residual deve ficar entre 45 e 115 gramas por litro. Pode ser interessante para certos pratos da cozinha chinesa com molhos agridoces.

A categoria Medium parte de um Amontillado, onde é adicionado  vinho doce natural (Pedro Ximénez ou Moscatel), que veremos mais adiante. Tem aromas com predomínio de toques oxidativos, sendo mais encorpado que o Pale Cream.

Por último, a categoria Cream. Este é obtido a partir de um Oloroso, com adição de vinho doce natural. Tem caráter fortemente oxidativo, é o mais untuoso e encorpado, além de açúcar residual entre 115 e 140 gramas por litro. Pode acompanhar muito bem crema catalana (crème brûlée na versão espanhola).

Partindo de um Fino e um Amontillado, respectivamente

Dulces Naturales

São Jerezes extremamente doces e untuosos com açúcar residual entre 180 e 500 gramas por litro. Os varietais são elaborados com Moscatel de Alexandria e a famosa Pedro Ximénez.

Em qualquer um dos casos, essas uvas são colhidas e soleadas em esteiras por algumas semanas, perdendo água e concentrando açúcares. O mosto praticamente não é fermentado, pela própria concentração acentuada de açúcares, sendo então fortificado (encabezado) com aguardente vínica. A solera para cada uma das uvas é sempre em crianza oxidativa. Não há corte entre as uvas. São sempre varietais.

Devem ser servidos em torno de 14ºC e acompanham sobremesas bem doces, sorvetes, chocolates e queijos azuis de sabores  acentuados. Costumamos dizer: se estes vinhos não aguentarem um determinado prato, não precisam perder tempo com mais nada. A diferença básica entre um Pedro Ximénez e um Moscatel, é neste último encontrarmos alguma nota floral e também cítrica. Contudo, potência e untuosidade são muito semelhantes. Podem ser também excelente companhia para charutos potentes com toques achocolatados, como um Vegas Robaina Unico (formato semelhante ao Montecristo nº 2).

Com relação ao Pedro Ximénez, cabe uma observação pouco comentada e também pouco conhecida. Os grandes Pedro Ximénez, salvo as devidas exceções, não estão em Jerez, e sim, na denominação Montilla-Moriles, região relativamente próxima. Meu amigo Juan da importadora Península (www.peninsula1.com) tem belos exemplares desta maravilha.

Moscatel de solera especial

Ufa! Chegamos ao fim sobre o mundo Jerez. Na verdade, um mundo interminável, com muitos segredos ainda não revelados. Agora, depois destes cinco posts, é possível olhar para a figura abaixo, e achá-la menos confusa do que normalmente parece.

Fluxograma complexo na produção de Jerez

É importante que cada um de nós, que gostamos de vinhos diferentes e originais, que saiam da mesmice do dia a dia, possamos valorizar e divulgar os grandes vinhos de Jerez, talvez o maior tesouro vitivínicola da Espanha.

Maiores informações, consultar site oficial www.sherry.org,  bastante abrangente e completo, satisfazendo outras curiosidades não mencionadas nesta série de posts.

Jerez: Parte IV

3 de Outubro de 2010

Neste post abordaremos Jerezes especiais, dificilmente encontrados no Brasil, mas quem viaja freqüentemente, pode encontrá-los com mais facilidade, além de preços vantajosos. Para tanto, é preciso ter a conceito do termo “almacenista”. São bodegueros com larga experiência na elaboração de Jerezes, que selecionam a dedo lotes especiais de mostos para serem educados em soleras individualizadas e normalmente pequenas. É o caso da foto abaixo: este é um Amontillado de alta estirpe, criado pelo almacenista Miguel Fontadez Florida em Jerez de La Fronteira numa solera de 30 botas (nome local dos tonéis em Jerez). Normalmente, são jerezes de altíssima qualidade, com aromas terciários incríveis. Este Amontillado por exemplo, Babette tem que caprichar muitíssimo na sua sopa de tartaruga.

Informações no rótulo que homenageiam o almacenista

A bodega Lustau tem uma série de almacenistas que infelizmente não chegam ao Brasil. Entretanto, toda a gama de seus vinhos são de alto nível. A importadora Expand ainda tem alguns exemplares.

Vinos de Vejez Calificada

Oficialmente, a atual legislação controla a elaboração de Jerezes diferenciados e atesta com os selos abaixo a garantia e a origem do produto.

Selo VOS significa em latim, espanhol e inglês, respectivamente, Vinum Optimum Signatum, Vino Seleccionado como Optimo, Very Old Sherry. Este termo pressupõe jerezes elaborados em soleras especiais com sacas (engarrafamento) de idade média superior a 20 anos. As normas de controle e reposição da solera são muito rígidas.

Selo VORS significa em latim, espanhol e inglês, respectivamente, Vinum Optmum Rare Signatum, Vino Seleccionado como Optimo y Excepcional, Very Old Rare Sherry. Este termo a exemplo do termo acima, pressupõe média de idade acima de 30 anos.

Selo oficial para as categorias VOS e VORS

 

Vinos con Indicación de Edad

Trata-se de uma categoria semelhante a de Vinos de Vejez Calificada, porém com um tempo médio mais curto, entre 12 e 15 anos. Os padrões de origem, garantia e rigidez são semelhantes. A idade média pode ser expressa no rótulo, conforme figura à direita abaixo.

Vinos de Añada

Esta é uma categoria especial, onde pode ser declarada a safra da solera. Portanto, trata-se de uma solera estática, sem possibilidade de rejuvenescimento com safras mais novas. A solera é lacrada pelo Conselho Regulador e tem caráter evidentemente oxidativo. Os vinhos selecionados para este tipo de solera devem ter características peculiares, sendo a principal, enorme resistência à acentuada oxidação. É o caso do Oloroso abaixo na figura à esquerda.

Nestas três categorias especiais (Vinos de Vejez Calificada, Vinos con Indicación de Edad e Vinos de Añada) pelo forte caráter oxidativo da solera, os tipos de Jerezes permitidos são: Amontillado, Oloroso, Palo Cortado e Pedro Ximénez.