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Grupo AdVini: Menu Harmonizado

15 de Outubro de 2012

É sempre bom quando podemos testar vinhos com a refeição. Afinal, eles foram feitos para isto mesmo, acompanhar pratos. Foi o que aconteceu no evento promovido pela Bodega Franca, através do competente e incansável sommelier Ariel Perez, mostando vinhos franceses de várias regiões ligados ao grupo AdVini, grupo este preocupado em promover vinícolas dentro do nobre conceito de terroir. Após breve e interessante explanação, seguimos para as mesas com um menu devidamente harmonizado, conforme descrição abaixo:

  • Ostras Frescas com Molho de Gengibre
    Harmonização: Domaine Laroche Chablis Grand Cru Les Blanchots Réserve de l´Obédience 2007

Ostras com Chablis é uma harmonização clássica. Neste caso, o Chablis estava muito macio e intenso, pois trata-se de um Grand Cru com certo envelhecimento. Talvez o mesmo Chablis da safra 2009 servido como aperitivo, tivesse mais vivacidade e acidez para enfrentar os sabores marinhos da ostra.

Provence: Rosés delicados e de personalidade

  • Tartare de Atum com Foie Gras Grelhado
    Harmonização: Château Gassier – Côtes de Provence – Sainte Victoire 946 – Selection Parcellaire 2011

Uma bela harmonização. Tartare delicado com toques de ervas casou perfeitamente com a textura e elegância deste rosé provençal. O corpo do vinho adequou-se ao prato, promovendo uma sensação de frescor, mantendo o paladar aguçado para a sequência da refeição. Embora o foie gras agregue certa sofisticação ao prato, sua participação na harmonização sobrepujou o vinho com seus sabores intensos e complexos.

  • Rabada com Polenta Cremosa e Mini-Agrião
    Harmonização: Châteauneuf-du-Pape Ogier Clos de L´Oratoire Les Choregies 2010

A intensidade aromática do vinho encontrou eco nos sabores da rabada. Seus aromas de ervas e especiarias enriqueceram o prato e seus taninos dóceis casaram-se perfeitamente com a textura do mesmo. Belo vinho para cozidos intensos como este.

  • Cordeiro com Crosta de Ervas acompanhado com Batata Gratin com Berinjela e Queijo de Cabra
    Harmonização: Château Capet Guiller Saint-Emilion Grand Cru Antoine Moueix 2010

Cordeiro e Bordeaux é outra harmonização clássica. Os taninos do vinho acomodaram-se bem com a textura e suculência da carne. A crosta de ervas reverberou os sabores do vinho e o gratin de batata embora tivesse queijo de cabra, não comprometeu a harmonização. Estava delicado e bem dosado.

  • Noix de Kobe com Batata Rústica, Molho de Shitake e Alho Negro
    Harmonização: Rigal Le Vin  Noir  Cahors 2009

Numa escala crescente de estrutura tânica, este tinto apresentou-se fechado, sugerindo uma boa decantação para sua devida apreciação. Seus taninos potentes foram bem amortecidos pela suculência e marmorização da carne Kobe. O shitake ressaltou o lado mineral do vinho, enquanto o alho negro embora bem mais delicado que o habitual, partilhou de certa rusticidade do vinho no melhor sentido da palavra. Só para lembrar, Cahors é a terra-natal da uva Malbec e normalmente produz  vinhos de agradável rusticidade, bem fiel a seu terroir.

Cahors: as origens do Malbec

  • Cookies de Café com Sorvete de Mascarpone e Creme Brûlée de Especiarias
    Harmonização: Domaine Cazes Cuvée Aimé Cazes Rivesaltes Ambré 1978

Aqui na verdade temos duas sobremesas. O Cookie de Café seria mais interessante com um Rivesaltes novo à base de Grenache Noir denominado Rivesaltes Grenat. Este em questão, um Rivesaltes Ambré, é um vinho fortificado do sul da França denominado Vin Doux Naturel, que sofreu um processo de oxidação intenso no seu amadurecimento, gerando aromas empireumáticos, de frutas secas e mel. Sua combinação com o Creme Brûlée foi bem mais interessante, sobretudo pelo toque de especiarias da sobremesa. Faltou um pouco de untuosidade para o vinho, característica marcante nos belos Sauternes que são parceiros naturais para esta clássica sobremesa.

A refeição foi comentada etapa por etapa com as explicações objetivas e concisas do expert Roberto Petronio, um dos membros do grupo de degustadores do guia La Revue du Vin de France. Embora nem sempre as harmonizações teóricas se realizem na prática, é extremamente prazeroso e didático fazer parte destes eventos. E aqui não vai nenhuma crítica destrutiva ou desanimadora. Pelo contrário, o incentivo e frequência deste tipo de evento é que fazem profissionais, imprensa e clientes se familiarizarem cada vez mais com a enogastronomia, procurando sempre a harmonização mais adequada. Afinal, o mais importante não é acertar ou errar a harmonização. O grande aprendizado é saber o porquê do erro ou acerto.

Harmonização: Filet Mignon ao Molho de Café

13 de Setembro de 2012

Molhos exóticos sempre nos colocam em dúvida quanto aos vinhos, e geralmente, eles são determinantes na harmonização. No caso do molho de café, há um grupo de vinhos com certa afinidade. Como estamos falando em carne vermelha, a opção por tintos é natural e mais sensata. Vinhos marcados por aromas empireumáticos (relacionados com a ação do fogo), tais como: café, caramelo, chocolate, casam-se bem com o molho acima. Normalmente, tintos com passagem por barricas de carvalho costumam apresentar este tipo de aroma.

Molho de café: afinidade com alguns vinhos

O molho de café tem como base um bom caldo de carne, ervas, cenoura, cebola e alho comedidos, um pouco de vinho tinto, creme de leite para dar espessura e evidentemente um pouco de licor de café.

Tintos australianos com a uva Shiraz são as primeiras opções. São vinhos com muita fruta, taninos dóceis e muitos toques empireumáticos lembrando o próprio café, chocolates, tabaco, especiarias e baunilha. O poder de fruta destes vinhos amenizam um eventual e leve amargor dado pelo café. Além disso, ajudam a equilibrar alguma guarnição com tendência adocicada como um creme de mandioquinha ou um bolinho de banana da terra, caso desta receita. A carne de filet mignon, bastante macia, não necessita de grande estrutura tânica do vinho. Portanto, perfeitamente adequada aos macios tintos australianos.

Merlots do Novo Mundo e os convidativos alentejanos (sul de Portugal) com boa passagem por barricas são também opções seguras. Califórnia, Chile e África do Sul têm bons exemplares desta uva bordalesa. 

Malbecs bem moldados em barricas também são opções seguras e bastante disponíveis em nosso mercado. Só para citar dois exemplos, temos o belo J. Alberto da Bodega Noemía, grande tinto da Patagônia com parreiras plantadas em 1955 (há um artigo específico neste blog sobre esta bodega). O outro exemplar vem da Viña Cobos, da linha Bramare, região de Mendoza. Tinto de bela concentração e muito bem balanceado com a madeira.

Harmonização: Vaca Atolada

16 de Agosto de 2012

Prato saboroso da cozinha mineira, embora suas origens possam não ser necessariamente de Minas Gerais. De qualquer modo, a costela de boi é o ingrediente principal, agregando gordura e muito sabor ao prato. Em termos de harmonização, há certa semelhança com a rabada. Apesar de serem carnes de partes diferentes do animal, as duas são muito saborosas, gordurosas e intensas. Outro ingrediente que deve ser levado em conta na harmonização é a mandioca que faz parte deste ensopado. Como ela tem um caráter adocicado, precisamos de vinhos jovens, com muita fruta. Neste sentido, teremos também uma certa acidez  ou frescor, além de taninos mais presentes, no caso de tintos. Acidez e tanicidade são componentes que irão combater o lado gorduroso do prato. Com seu sabor marcante e intenso, precisamos de vinhos com bom impacto aromático e corpo adequado. Trata-se de um prato relativamente simples, sem grandes sofisticações. Portanto, tipologicamente os vinhos a serem escolhidos também devem apresentar um lado mais frugal. Lembre-se que ingredientes como alho, pimenta, e ervas mais intensas podem fazer parte do prato. Então, não vamos arriscar preciosidades em nossa adega.


Pensando na colonização portuguesa que deu origem a muitos pratos de nossa cozinha, opções do Douro ou Alentejo são minhas primeiras escolhas. Os dois têm força aromática suficiente para o prato, com os vinhos durienses apresentando componentes de acidez e taninos um pouco mais acentuados. Entretanto, os alentejanos têm aquela fruta bastante presente e extremamente benvinda ao nosso prato. É só calibrar a acidez e taninos num vinho jovem e a questão está resolvida.

Do Novo Mundo, penso que um bom Shiraz, um bom Malbec, ou um bom Merlot, todos jovens, frutados e de bom corpo, podem ser belas opções. Um toque de madeira sem exageros, não deve afetar a harmonização. Países com Austrália, Argentina e Brasil respectivamente, são boas escolhas para as uvas citadas. No caso do Brasil, a uva Merlot tem mostrado resultados satisfatórios, principalmente em vinhos topo de gama das principais vinícolas. Acho que é a uva tinta de melhor desempenho em solo gaúcho, embora com preços pouco competitivos.

Como sugestão, o alentejano Altas Quintas Colheita do enólogo Paulo Laureano está disponível na importadora Decanter (www.decanter.com.br). Tem um estilo mais viril, fugindo um pouco do padrão clássico do Alentejo. O terroir diferenciado de Portalegre com a influência da serra de São Mamede molda vinhos mais frescos e estruturados, culminando no grande Mouchão, já abordado neste blog em artigo especial.

Harmonização: Bife à parmegiana

16 de Julho de 2012

Na cozinha do dia a dia, este é um dos pratos mais pedidos e executados, adorado por adultos e crianças. É um prato farto, comunitário, acompanhado geralmente por batatas fritas e arroz branco. O bife pode ser mais ou menos nobre (depende do bolso de cada um), relativamente fino, pois é feito à milanesa, e afogado em bastante molho de tomate, além de farto queijo derretido, normalmente muçarela e/ou parmesão. A origem não tem nada a ver com Parma, na Itália.

 

Boa alternativa ao hamburger da criançada

Para a harmonização, vamos pensar em vinhos simples, de acordo com a tipologia do prato. Nada de medalhões, vinhos sofisticados, que podem ser muito delicados para o prato, ou potentes e cheios de madeira. Neste caso, o vinho precisa ter acidez, pois temos uma técnica de fritura no bife (à milanesa) e queijo derretido, envolvendo muita gordura. O próprio molho de tomate também agradece uma certa acidez. Tratando-se de carne bovina e a própria textura e corpo do prato, vamos falar de vinhos tintos relativamente encorpados. É importante também ser um vinho jovem, com bastante fruta, para haver uma boa ligação com o sabor do tomate. Esta juventude normalmente é acompanhada de um natural frescor ou em outras palavras, uma acidez suficiente para o prato. Esta acidez é mais facilmente atingida com vinhos do Velho Mundo, sobretudo italianos. Montepulciano d´Abruzzo, Merlots da Úmbria ou Toscana e Aglianico da Campania, são as primeiras escolhas. Uma boa dica é o Montepulciano d´Abruzzo Nicodemi da importadora Decanter (www.decanter.com.br). Um Valpolicella Classico mais concentrado, ou um Dolcetto d´Alba de vinhedo como do produtor Bruno Rocca da importadora World Wine (www.worldwine.com.br), são boas alternativas.

Outras opções européias podem ser um Tempranillo de Toro (vinhos com força, acidez e rusticidade adequada ao prato), ou um vinho do Douro como Crasto, da Quinta do Crasto, importado pela Qualimpor (www.qualimpor.com.br). Vinho de bom corpo, boa fruta e sem interferência da madeira.

Se a opção for pelo Novo Mundo, prefira Malbecs, Merlots ou Syrahs  jovens, de bom corpo e levemento amadeirados, se for o caso. Um Catena Malbec ou Merlot da Salentein cumprem bem o papel. Respectivamente, são importados pela Mistral (www.mistral.com.br) e Zahil (www.zahil.com.br).

Todas essas indicações referem-se a vinhos de média gama dentro de suas respectivas vinícolas, ou seja, boa concentração de fruta, tanicidade moderada e boa adequação em madeira, mas sem exageros. Madeira e taninos em demasia podem gerar amargor desagradável, além de sabores abaunilhados e tostados não casarem com os sabores do prato.

No mais, vinhos para os adultos e guaraná para a criançada.