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Nuits à Babette

3 de Novembro de 2024

Comida e arte chegaram ao ápice na história do cinema em 1987 com “A festa de Babette”, que levou o oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano e consagrou a literatura de Isak Dinesen, classificada por um crítico do NY Times como “delicada como um cristal de Veneza”.

Numa vila puritana, cercada de preconceitos, Babette resolve gastar todo o dinheiro ganho em um prêmio em uma noite para os habitantes daquele vilarejo, como uma forma de gratidão aos que lhe deram teto, depois de sua saída da França como foragida política. Em um menu e vinhos selecionados (o mundo de hoje impede que sopas de tartarugas sejam feitas), ela desfila seu talento para sair do comum. Ao fim, quando descobrem que Babette gastou todos os francos no jantar, uma das irmãs que a recebe declara: “você será pobre para o resto da vida”. Ao que Babette responde olhando as estrelas: “um artista nunca é pobre”. Nem quem tem amigos que valorizam as histórias.

Degustações temáticas são sempre uma forma de dialogar seja com quem está presente seja com quem está ausente. Os detalhes que as conduzem têm uma história particular que remonta às madeleines de Proust. Cada garrafa, cada prato conduz a um elo como uma Sherazade aprisionada em Baco.

No início, antes da champagne, o endereço: Emiliano, a mesa preferida há anos, seja quando o Nelson era autor, seja quando assumiu o lema. Agora sob o comando da chef Vivi e do sommellier Luis Otavio Álvares Cruz, melhor serviço de vinho de terra brasilis.

No Gêmesis do enófilo, tudo se inicia pela champagne. Há cerca de dez anos, o Nelson escreveu em um post que havia tomado uma champagne “emocionante”. Era a Jacquesson 736. Quando ele me ligou para falar de um jantar de que ele tinha participado, perguntei se era emocionante mesmo. “Prove!”. Tenho-a provado há dez anos. Aqui tivemos um confronto entre a 744, que ganhou muito com três anos de adega, e a 746, que é um enigma para mim depois de quatro garrafas abertas. Com predominância de Chardonnay (43%), 30% Meunier e 27% Pinot Noir, é exuberante, mas mostra um lado mais raso que outras cuveés da casa. Safra ou transição? Acho que até responder a essa pergunta eu terei de abrir algumas 746, hoje importadas corretamente pela Delacroix.

Sentados ao redor da mesa, com o menu da chef Vivi, partitura do Luis Otavio, tivemos o primeiro prato: ravioli de camarão com seu bisque. Dois pulignys: o de Boyer, importado pela Cave Leman, com seu cítrico ao fundo, e o belo Clos de Noyers Brets 2020 de Alvina Pernot. A família Rockmann e família Pernot têm uma história com essa cidadela e com os Pernots: meu pai não era de vinho, mas algumas garrafas ele carregava consigo. Numa das idas e vindas da UTI, ele se lembrou de um branco que eu tinha aberto com ele dois meses antes – Champs Canet de Paul Pernot. Ele disse que queria beber quando saísse. Não saiu, mas os Pernots ficaram sempre na memória afetiva, mas com a troca de Paul por Alvina, a talentosa neta.

À elegância de Puligny se somam dois champagnes rosés e uma focaccia selada com dados de polvo, páprica, pimentão vermelho e cebola roxa assada. No início dos anos 2000, Billecart Salmon rosé estava nas mesas dos bons restaurantes de São Paulo, tanto era assim que meu pai me deu uma garrafa quando eu comecei a trabalhar no Valor Econômico em dezembro de 2000. Por anos, sempre a tive com carinho.

Se o Silvio Santos comandasse um programa de auditório sobre vinhos, as quatro notas que ele pediria para o maestro Zezinho seriam facilmente detectáveis: K R U G. Como dizia o Nelson, é fácil agradar, só servir a perfeição, Krug. Ou outra frase: “me desculpe os independentes e os Selosses, mas Krug paira acima de todos”. A harmonização realça o toque exótico dessa champagne.

 Chega a hora dos tintos. Na pensão Santo André, um terroir criava discussões intermináveis envoltas em fumaça azul do fumo de Vuelta Abajo: Nuits Saint Georges. Para o Nelson, Gouges e Les Saint Georges. Para mim, havia muito mais do que o centro da vila e o sobrenome preferido dele. Havia o centro da vila, mas o lado de prémeaux, do lado de Beaune, palco de vários monopoles, havia o lado mais próximo de Vosne Romanée.

Na última vez que nos encontramos, num almoço no Evvai, em dezembro de 2019, combinamos de marcar duas degustações: uma de Clos de Tart, outra de Nuits. Cinco anos depois, saiu uma, sem a presença dele, com dois Nuits mais próximos de Beaune (clos de la Maréchale 2010 de Fréd Mugnier e o Vieilles Vignes 2005 de Prieuré Roch, uvas mais antigas do monopole Clos de Corvées), com um de centro de vila (les Saint Georges do maior produtor do cru mais famoso do vilarejo) e o único não cru, o Vieilles vignes 2019 de Chevillon (que era o produtor que o Nelson mais queria beber do terroir, depois de um confrade ter dito que ele deveria experimentar.) Outro parêntesis: se em Volnay minha dúvida eterna é ducs ou chênes nos Lafarges, em Nuits é Cailles ou Vaucrains dos Chevillons.

Para os quatro nuits, um arroz vermelho de pato confitado e um flat iron selado com cogumelos, roti de porcini e folhas de pak chai. Cada um com sua nuance, apesar de o Nuits de chevillon ter desagradado parte da mesa. Achei os quatro vinhos notas de uma partitura de elegância, mesmo sendo uma village rústica para os padrões e para as mãos das outras cidades mais famosas da Côte de Nuits.

Na sobremesa, a participação de Alois Kracher, um austríaco que faz alguns dos melhores vinhos de sobremesa do planeta e que por uma conjunção astral era o único vinho de sobremesa que meu pai se recordava depois de comer uma torta de maçã da Confeitaria Christina. Mas nesse caso, o do Emiliano, tivemos minha sobremesa favorita nas mesas paulistanas, mesmo com minha intolerância a lactose: bolo de tâmaras com calda de caramelo, baunilha e flor de sal.

Chega-se ao fim de uma festa de Babette. Como escreveu Oscar Wilde, hoje em dia conhecemos o preço de tudo e o valor de nada. Detalhes. Restaurar e recuperar ânimos na ansiedade do dia a dia e fazer esquecer os dramas da existência cotidiana ajudam a buscar a felicidade, que Guimarães Rosa dizia que “se acha é em horinhas de descuido”.

O que é a vida? Nos encontros e desencontros dela, recorro sempre a Guimarães em seu “Grande Sertão Veredas”. “Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida.”

Krug, a arte da assemblage

6 de Abril de 2024

Nas cuvées de luxo de Champagne, Krug e Salon têm um lugar especial entre os afortunados enófilos que podem comprá-las. Salon é reputada pela sua singularidade: uma uva, um terroir, uma safra, tendo feito isso desde a primeira safra 1905 (74 anos antes da Clos de Mesnil); enquanto Krug tem em seu cartão de visita a arte da assemblage, desejo do fundador da casa, Joseph Krug, cuja visão foi recriar a cada ano, pela mescla de uvas, a melhor expressão do que a região de Champagne pode oferecer.

A intenção veio depois de uma experiência de mais de uma década na Jacquesson, que naquele momento era uma das mais famosas maisons de Champagne, sendo a preferida de Napoleão. “Tínhamos dificuldade para entender por que ele deixou a Jacquesson que era um grande endereço, mas, ao abrir arquivos e encontrarmos algumas cartas que ele escreveu depois de sua saída, vimos que ele escutava muitos reclamando da falta de consistência dos vinhos e que não se conseguia extrair o melhor todo o ano para os clientes. Há cartas dos Jacquessons escrevendo para ele não perder tempo que a safra decide a qualidade”, disse Olivier Krug em entrevista ao vinography.

Foi assim que ele resolveu empreender em seu próprio endereço e surgiu o cartão de visita: Grande Cuvée, cuja primeira edição foi baseada na safra de 1845 e que pode ser uma mescla de mais de 120 tipos de vinhos de reserva de mais de 15 safras diferentes. A ideia é oferecer um vinho capaz de chamar a atenção ao primeiro gole, com versatilidade para escoltar diferentes tipos de pratos e que possa envelhecer à perfeição. Para cristalizar sua filosofia, Joseph Krug escreveu o que pensava ser as diretrizes de como se fazer um grande champagne em seu caderno pessoal, que pode ser visto ainda hoje em visita à Maison.

Algumas das máximas, escritas em 1848: “sempre vá atrás do melhor produto, nunca conte com o acaso”; “Em princípio, uma boa casa deve oferecer duas safras da mesma composição e qualidade”, continuou Krug. “O primeiro será recriado todos os anos e é o mais difícil de fazer. Equilibraremos o que a natureza nos deu com vinho reservado e maduro, e o blend oferecerá a melhor qualidade em cada ano. A segunda será igual à primeira, mas ligada às circunstâncias do ano em questão.”

A edição 171, baseada na safra 2015, sete anos de envelhecimento nas caves da Krug, é uma mescla de 131 vinhos de 12 diferentes safras, sendo a mais jovem, 2015, a mais antiga, 2000. É integrada por um corte de 45% Pinot Noir, 37% Chardonnay e 18% Meunier (a Krug se destaca ao usar essa casta, que foi relegada por grande parte das maisons, entrando apenas em quantidades muito pequenas na composição dessas casas).

“Eu fico feliz quando alguém sente os aromas da Krug pela prmeira vez e diz que o que ele está sentindo é diferente e aí quer sentir mais e mais. É uma mescla de uvas da região e uma homenagem ao terroir da Champagne, com cada parcela sendo mantida separada durante a vinificação e a maturação e depois é feita a assemblage”, disse Julie Cavil em entrevista a William Kelley em 2020, quando ela se tornou a primeira mulher a assumir a posição de chefe da cave da Krug.

Bebidas recentemente, a Krug 171 e a 2003 mostraram por que essa casa é para alguns a melhor da Champagne. A 171 tem um tamanho equilíbrio que denota parecer pronta para o consumo, mas a beleza da juventude irá ao longo dos anos ganhar a maturidade de uma espumante que mescla profundidade e elegância. Nem se sente a dificuldade do ano, quente e com uma chuva providencial em agosto. Num ano que representou dificuldades para Champagne devido a uma certa falta de tensão, ela comentou para a The World of Fine Wine: “Não houve bloqueio de maturidade; estava quente, mas sem extremos durante a maturação. Usamos nossos vinhos de reserva para trazer os famosos limão e toranja. Então tivemos que misturar com 2014, 2008, 2004, que são safras mais frescas.”

O ano de 2003 foi tórrido, a safra da canicule, um calor que assolou a França e matou mais de 50 idosos. Com dez anos de envelhecimento nas caves, é mescla de Pinot Noir (46%), Chardonnay (29%) e Meunier (25%). No nariz, aromas de frutos secos, brioche, leve toque de cogumelos, num ótimo ponto de consumo.

Já dizia o Nelson: “É fácil agradar. Basta servir o melhor. Krug. Irrepreensível.”

Aniversário às cegas

6 de Março de 2024

Se Deus for de Chassagne, Volnay ou Beaujolais, já comecei desde essa terça-feira à noite a pedir clemência para não ir ao inferno. Em uma degustação de alto nível de Côte de Beaune e Gamay na terça à tarde, eu nunca cuspi tanto vinho bom na vida, incluindo-se vinhos de Lafarge, um dos domaines preferidos do site, mas a razão era nobre: aniversário de um confrade. Menu às claras, vinhos às cegas, todos da adega de @alejugdar, safra 1973. Vinho com segredo aniversaria, mas os presenteados foram os cinco convidados para o jantar, no ristorantino.

Atraso inevitável diante de uma tempestade em São Paulo, mas a correria foi brindada com um espumante. Champagne? Tudo levava a crer que sim, mas será? Não havia um toque que experimentamos no riserva dal fondatore 2007, brilhante blanc de blancs de Ferrari, de Trento, norte da Itália? Uma cremosidade, um toque de fruta seca, um cítrico. Peraí: isso é mesmo um blanc de blancs? Sim, parece com essa tensão, mineralidade, não?

Não. Trata se de um blanc de noirs, cujas uvas de pinot noir vêm de Dizy, mais especificamente da número um do site: jacquesson, que mudou de mãos depois do impecável trabalho dos irmãos Chiquet. Safra 2013. Intensidade, mineralidade, persistência de um champagne que, esperamos, a artemis nao os torne de bilionários. Um abre alas de primeira e um contraponto aos blanc de blancs da casa, que revolucionou a região com o lançamento da série 700. (tem post aqui no site com detalhes sobre a champagne preferida de Napoleão). Esse champagne com uns aninhos mais de adega e umas trufas brancas de alba…

No primeiro tempo do menu, um tartare de atum, chegou à mesa uma taça com um espumante cuja perlage e efervescência denotavam a timidez do envelhecimento. Aromas de frutas secas, mel, com um leve sous bois, acidez ainda marcante. E aí? Agora um corte? Quantos anos? 20? Não, 25, né? Acho que mais de 30, né? É Champagne? Parece ser, não?

Não. São borbulhas italianas, mais especificamente oriundas da denominação mais reputada pelos espumantes da Velha Bota: Franciacorta. O produtor? O mais premiado na Itália por seus espumantes: ca del bosco. O rótulo: Annamaria Clementi, homenagem à matriarca da família, feita desde 1979 e apenas engarrafada quando o ano é excelente. É fruto da seleção mais especial da casa e a maior rival de ferrari, sendo a preferida da crítica inglesa Jancis Robinson. Safra 1999, corte de chardonnay, pinot bianco e pinot nero. Mais uma prova de que a Itália produz espumantes que rivalizam com os franceses sobre a mesa e às cegas te põem em enrascadas.

Segundo tempo do menu, uma espécie de carpaccio de finas fatias de pato ao forno, abobrinha, mel e laranja. A harmonização é com um vinho cujo aroma na taça mostra o toque de petrolato, característico da riesling. Mas estamos na Alsácia ou na Alemanha ou na Áustria? Na boca, a delicadeza e a elegância (que os franceses não se aborreçam) que aponta para os tedescos. Quanto custa isso? Dá para comprar de caixa? Qual terroir? Mosel, não?

Não. Estamos em Rheinhessen, nas mãos de Wittman, do vinhedo GG (seria o correspondente ao grand cru francês) de Morstein, safra 2018. A delicadeza e elegância desse riesling me deixam com vontade de colocá-lo às cegas com um riesling de Markus Molitor. É um dos três melhores rieslings bebidos pelo site desde 2020. Com o tempo, ele ganhará muito mais complexidade e camadas. Feito para o peixe cru do Sororoca?

Terceiro tempo: saboroso taglioglini nero com frutos do mar ganha a companhia de um vinho branco que vem de um decanter. Nos aromas, parecemos estar na Borgonha, mas estamos mesmo? Vinhocomsegredo é famoso pelas pegadinhas. É Portugal? Então vou morar lá. Não é francês? É? Meursault, tem elegância do Clos de Bouchères do Roulot, não? Tem um caju, um mineral, um toque de bala toffle, um herbáceo. Que é isso?  Parece Chassagne, não?

Não. Clos Vougeot e Corton Charlemagne padecem do mesmo mal: grandes áreas, muitos produtores, poucos se sobressaem, são grands crus cujos resultados são desiguais, mas existem referências absolutas nas duas denominações. Coche Dury, Lalou Bize Leroy e Bonneau du Martray (tem post no site escrito pelo Nelson) jogam na liga dos Cortons que fariam Carlos Magno brindar a unificação europeia com o vinho.

Esse 2007 é um Borgonha que conjuga tudo que faz o chardonnay na Côte de Beaune atingir o ápice: persistência, complexidade, elegância, camadas que vão e voltam em um conjunto de rara delicadeza. Já ouviu falar de mão de ferro em luva de veludo? Aula de Borgonha branco, com um uso de madeira de aplaudir de pé (o Criots Batard Montrachet 2004 de Fontaine Gagnard, bebido poucas horas antes, foi esquecido diante desse branco grandioso).

Quarto tempo: codorna desossada servida com o próprio molho e cogumelos. Chega uma taça que denota que deveremos ter Borgonha. Mas não é nebbiolo? Não parece no aroma. O toque de chá preto, leve carne, alcaçuz denotam um pinot, mas o aniversariante é de pegadinhas. Não é gamay? Se tiver um produtor que faz gamay assim, me manda o endereço. É gevrey? Não parece. É Vosne? Mas e as especiarias? Não é chambolle, pela elegância?

Não. Estamos em Vosne Romanée, mais precisamente no melhor (sim, aqui tomamos partido) premier cru da terra em que não existem vinhos comuns: Malconsorts. Safra 2008, domaine montille, que ainda faz um malconsorts especial, denominado de Christianne, homenagem à esposa de Hubert de Montille, parcela que está colada ao la Tâche. Um Borgonha no seu momento de degustação.

Quinto tempo: filé Rossini com lascas de tartufo nero. Aqui entra mais um tinto cujo aroma de pitanga lembra a Borgonha de novo. Mas é uma pegadinha? lembra que ele levou aquele moulin do Foillard? Porra. Mas isso é pinot. Onde estamos? Volnay? Não. Estamos em chambolle musigny, nas mãos de Faiveley, no premier cru de Combe Orveau, safra 2013. E logo ele ganha a companhia de um tinto servido do decanter.

Estamos em Bordeaux? A mulher do Nelson diria que sim, porque estamos com aroma de bolsa e sapato de couro velhos. Ou é italiano? Ou é californiano?

Não, é bordeaux mesmo e não é qualquer um: chateau Margaux, a referência de Margaux, um dos cinco premiers grands crus classés e um dos quatro classificados em 1855 (Mouton levou apenas em 1973). Nesse momento, sempre recordo das tardes da pensão Santo André ou da Vila Madalena, quando fumávamos depois da refeição e o Nelson brindava com comentários. Os grandes Bordeaux vão além do departamento de bolsas e sapatos das mulheres e se estendem por outras áreas, como a de tabacaria, da caixa de charuto aos puros tabacos de Havana. Margaux tem um conjunto de elegância e potência que lembra um Cohiba. Foi o vinho que deixei na taça no final para arrematar após a sobremesa. Pode nessa safra não ser um gigante, mas é sempre um vinho a se reverenciar.

Sexto round: pudim de pistache com mel e um vinho de sobremesa de elegância. Markus Molitor e seu zeltinger scholsberg auslese 2017, dois asteriscos, que mostram a maturidade mais tardia das uvas e a seleção especial de colheita de um produtor perfeccionista ao extremo.

Chegamos ao fim de uma festa de babette. Ao término, ao andar pelas ruas para chegar em casa, só se pode contemplar as estrelas e rememorar os vinhos, a comida, os amigos e os momentos compartilhados. O que é a vida?

Um brinde a vinho com segredo, que venham outros aniversários e que Baco nos proteja! Com e sem segredo!

Jacquesson, a arte dos irmãos Chiquet

30 de Janeiro de 2021

Quem acompanha o site e o instagram sabe que uma champagne sempre aparece aqui e ali em posts, harmonizações e recomendações. Fundada em 1798, em Châlons-sur-Marne, Jacquesson era uma das estrelas da Champagne no século XIX, mas em 1920, quando foi comprada por um negociante de vinhos que mudou a sede para Reims, passou décadas em declínio. A virada se deu em 1974, quando Laurent e Jean-Hervé Chiquet compraram a tradicional Maison e levaram sua sede para Dizy.

Laurent e Jean Hervé Chiquet

Os vinhedos estão todos em Grande Vallé e na Côte des Blancs com algumas compras adicionais nesses mesmos terroirs. Uma das marcas das champagnes feitas por aqui é que elas são vinificadas em grandes barris de madeira, o que rende complexidade e mais aromas. Uma das inovações da casa foi a criação da linha 700. Na Champagne, a tradição era que a casa safra as maisons buscassem imprimir mais seu estilo no que está sendo oferecido do que um espumante que retratasse o ano. Quem busca uma Bollinger NV sabe o que encontrará, ano sim, ano não. Os Chiquets foram por outro caminho. A pequena produção (cerca de 300 mil garrafas por ano) comparada às grandes marcas dificultava criar uma linha que imprimisse todos os anos o mesmo estilo. Havia ainda mais. “Nós começamos a perceber que estávamos fazendo um blend pior que poderíamos fazer. Não tinha sentido”, disse Jean-Hervé Chiquet a Peter Liem no excelente livro “Champagne”.

A DT, cujo dégorgement é bem tardio, tem um contato sur lies de quase dez anos, o dobro da 738 normal

Com a percepção de que o foco em ano resultava em vinhos inferiores ao que poderiam fazer sem essa amarra, os irmãos buscaram consistência. A partir da safra 2000, eles descartaram a cuvée Perfection e lançaram a 728. Por que o número? O ano de 2000 representou a safra 728 desde a fundação da Maison.

A linha, importada pela Delacroix, é consistente do início ao topo, com espumantes refinados, gastronômicos, intensos, complexos e que têm alto potencial de envelhecimento.

A linha 700, a mais recente disponível no Brasil é a 743, é originada de dois vinhedos Grands Crus e três vinhedos Premiers Crus. O vinho-base é elaborado em madeira, naturalmente inerte, para não passar aromas ao vinho. As uvas são: Chardonnay de Avize Grand Cru; Pinot Noir do Ay Grand Cru e Dizy Premier Cru; Pinot Meunier de Oiry Grand Cru e Hautvillers Premier Cru. A primeira fermentação é em grandes barricas de carvalho, envelhecendo sobre as borras por 36 meses, misturando com vinhos de reserva (33%) e a segunda fermentação em garrafa segundo o método Champenoise. A 743 talvez seja a melhor que eu bebi. Mais aberta que a 742. Para se achar no ano em que o rótulo é baseado, basta somar dois ao número da linha: 742 é de 2014, a 743 de 2015.

Manifesto dos Chiquets

A Jacquesson ainda produz uma DT, cujo dégorgement é bem tardio, prevendo um contato sur lies de quase dez anos, o dobro da 738 normal. Enseja um vinho complexo, profundo, com uma mineralidade digna de um champagne especial. Com muita vida pela frente.

Em linguagem bourguignone, o rosé é um Chambolle feito na Champagne. São menos de dez mil garrafas vindas de Dizy, um vinhedo Premier Cru situado no Vallée de la Marne, sendo Terres Rouges (lieu-dit) uma área de somente 1,35 hectares exclusivamente de Pinot Noir, plantada em alta densidade, 11500 pés por hectare. O solo é escuro e pedregoso misturando argila e calcário. O vinhedo fica junto à Montagne de Reims em seu setor sul. O vinho-base é vinificado em madeira inerte (foudres de chêne). Trata-se de um rosé de saignée e não de assemblage, este último, mais comum em Champagne. Na verdade, este saignée é muito delicado, quase um pressurage direct. O dégorgement leva normalmente cinco anos, mantendo um longo contato sur lies. Extremamente seco com apenas 3,5 gramas/litro de açúcar residual, dentro do padrão extra-brut. Apesar de 100% Pinot Noir, é um champagne delicado, elegante e muito vivaz tanto em fruta, como no próprio frescor. As notas de frutas vermelhas (groselhas, framboesas) e de alcaçuz estão bem presentes.

Na linha das especiais, há um rótulo absolutamente grandioso: Champ Caïn, cuja primeira safra se deu em 2002, com vinhedos plantados em 1962. A safra 2004 foi bebida em almoço no fim do ano passado. Colhida em 4 de outubro daquele ano, resultou em 9012 garrafas e 500 magnums. O degorgement foi feito em fevereiro de 2013 depois de oito anos sur lies. Chardonnay elegante, refinado, extremamente delicado, expansivo, medidativo, destacando o terroir excepcional de Avize.  Que champagne! Ou melhor, que champagnes!

Garimpo – R$ 321 a R$ 500

7 de Setembro de 2020

Por ser uma faixa de preço mais alta, aqui se escolheram garrafas que às cegas, e mesmo às claras, trarão problemas para gente que custa muito mais. Tem bourgogne de terroir menos badalado que encara muita gente famosa de igual para igual.

Champagne

A Delacroix dá desconto de 10% à vista ou 8% no cartão de crédito. A Jacquesson 742 sai então por volta de R$ 480. Não é barato, mas é a minha marca favorita, aprendida com o Nelson, fundador do site, que sempre dizia que eram borbulhas emocionantes. Gosto é subjetivo, mas esse é o rótulo com meu número na Champagne e sem eu ter o bolso para beber Krug quando eu quisesse. Os irmãos Chiquet são craques e criaram a linha 700 com a intenção de capturar as diferenças dos anos e não fazer uma assemblage característica da marca. São champagnes gastronômicos, refinados, elegantes e com alta capacidade de envelhecimento. Com a Agrapart fora do mercado brasileiro e bem mais cara, a solução está aqui.
https://www.delacroixvinhos.com.br/champagne/champagne-jacquesson-cuvee-742.html

Brancos
Já se fez post aqui sobre Sylvain Pataille (https://vinhosemsegredo.com/2020/08/15/em-destaque-sylvain-pataille/). O marsannay branco custa R$ 488 na Anima Vinum. O que Pataille faria em Puligny Montrachet? Tensão, toques cítricos, florais.
Tudo que se espera de um branco da Bourgogne. Parece vindo da Côte de Beaune.

Quer fugir do lugar comum de chardonnay e afins? Nicolas JOly é um dos pais da biodinâmica e faz grandes vinhos no Loire. O Vieux Clos 2018 é uma ótima porta de entrada para conhecer quem faz um dos vinhos míticos brancos franceses: o Coulée de Serrant, cuja capacidade de envelhecimento é lendária. Na @claretsbrasil

PREM1UM - Clemens Busch - Biodinâmico
O Mosel é a Chambolle dos vinhos alemães

A rainha das uvas, a riesling, produz grandes resultados na Alemanha. Estão entre os melhores do mundo dos brancos, com capacidade para rivalizar com qualquer Montrachet, seja ele de madame Leflaive, de père Ramonet ou do DRC. Clemens Busch faz no Mosel alguns dos melhores vinhos da Alemanha. Estão em falta vários rótulos na importadora Premium, mas o Ortswein Riesling Vom Roten Schiefer Trocken 2016 é daqueles vinhos que você harmonizaria com comida chinesa com extremo prazer. No Pfalz, a premium também traz os excelentes vinhos da Koehler-Ruprecht. O Kabinett Trocken de cerca de 200 reais é uma beleza, o spatlese 2016 de uns 400 é uma maravilha.

Tintos

Desculpe a repetição: falei acima do marsannay branco do Pataille, na Anima Vinum. Agora é hora do tinto, que infelizmente pulou de preço em setembro, para R$ 488 (era R$ 385). O que Pataille faria em Chambolle-Musigny? O que capturaria em Les Amoureuses?

Bordeaux? Aqui é bom olhar segundos vinhos de nomes reputados. Uma opção com bom preço é o Connétable do Talbot, o segundo vinho de uma propriedade classificada como 4ème Grand Cru Classé de Saint Julien, onde o craque mor é o Léoville Las Cases. O 2017 sai por volta de uns 350 reais na Clarets, decantação de umas 2 horas, pelo menos.

E um italiano com ar aristocrático de Bordeaux? Ornellaia é uma das ais famosas vinícolas italianas. Faz grandes vinhos. O terceiro da propriedade, o le Volte, por volta de uns R$ 250, é uma ótima pedida para pratos de massa com carnes. Também na Clarets.



Os vinhos de 2017

1 de Dezembro de 2017

Fazendo um apanhado das várias degustações realizadas na ABS-SP em 2017, seguem algumas dicas e lembranças de vinhos nos seus mais variados estilos e preços, até já pensando nas festas de fim de ano que se aproximam. São avaliações estritamente pessoais que seguem abaixo, separadas por estilos e tipos de vinhos.

Espumantes     

Esse é o tipo de vinho que não pode faltar nesta época do ano, embora em várias oportunidades, lembramos sempre de sua versatilidade e compatibilidade gastronômica nas mais variadas situações.    

grand cru tasting 2017 geisse cuvee sofia magnum

Dos nacionais: Cave Geisse com larga vantagem. Não importa qual, um espumante de alta qualidade com informações úteis de safra e data de dégorgement. Importadora Grand Cru.

Dos Internacionais: num preço intermediário, os Cavas apresentam boas ofertas em várias importadoras. Menção especial aos Gramonas, importados pela Casa Flora.

Dos Champagnes: as opções são imensas, sobretudo se preço não for problema. Em todo caso, Deutz da Casa Flora, Jacquesson da Franco Suissa, e  Pierre Gimonnet para quem não abre mão de um delicado Blanc de Blancs, são belas opções. Este último, da importadora Premium.

Brancos leves

Aqui, fugindo totalmente daquele tipo de branco do “inho”. Levinho, gostosinho, equilibradinho, e assim vai. São brancos que possuem leveza, elegância, mas com profundidade e equilíbrio. 

Henri Bourgeois Sancerre Le MD de Bourgeois 2014 – Grand Cru

Fritz Haag Riesling Trocken 2015 – Grand Cru 

Brancos estruturados

abs tondonia blanco 2000

Lopez de Heredia Viña Tondonia Reserva 2000 – Vinci

Baseado na casta Viura ou Macabeo, este branco passa por um trabalho de barrica excepcional. Embora longamente amadurecido, a madeira se funde completamente ao vinho, protegendo-o da oxidação e enaltecendo a fruta e riqueza aromática. Pessoalmente, esta bodega elabora os melhores brancos de longa guarda de toda a Espanha. O melhor branco degustado em 2017.

Rosés

Quando se fala em rosés, fala-se em Provence. Não há nada que se compare à elegância e tipicidade desses vinhos. Portanto, qualquer compra desses rosés entre 100 e 150 reais, dificilmente não satisfará. 

antinori scalabrone

Antinori Scalabrone Rosé 2015 – Winebrands

Aqui temos uma das poucas exceções de rosés que valem a pena. Belo trabalho da Tenuta Guado al Tasso mesclando Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, sem interferência da madeira. Um rosé de presença em boca, muito gastronômico, um pouco mais encorpado que os provençais, mas muito bem feito. Um salada de polvo com toques de ervas e especiarias é uma bela harmonização.

Tintos leves

Novamente aqui, aquela conotação de profundidade, meio de boca, embora com graça e delicadeza.

Marziano Abbona Dolcetto di Dogliani Superiore Papà Celso 2013 – Mistral

Não é um Dolcetto barato, mas está longe de ser comum. Parreiras antigas, rendimentos baixos, são fatores determinantes para um tinto de grande concentração de sabor. Tanicidade moderada, muito macio, mas com ótimo frescor. É perfeitamente comparável ao Dolcetto do Roberto Voerzio, outro grande produtor piemontês.

Antonio Saramago Risco tinto 2013 – Vinissimo

Um vinho relativamente barato e sem grande sofisticação, mas extremamente bem feito. Equilibrado, fruta bem colocada, frescor na medida certa. Vinho de destaque para o dia a dia e muito gastronômico.

Tintos estruturados

Cantine Cellaro Due Lune IGT 2013 – Casa Flora

Um italiano da Sicilia que mescla as uvas Nero d´Avola e Nerello Mascalese com muita fruta, taninos bem moldados, e bom contraponto de acidez. Bom corpo, persistente, e bem equilibrado.

Rupert & Rothschild Classique 2012 – Zahil

Para quem gosta do estilo bordalês clássico, este sul-africano tem elegância e equilíbrio. De corpo médio, é um vinho normalmente pronto para o consumo e muito gastronômico.

Clarendon Hills Bakers Gully Syrah 2009 – Vinissimo

Eta australiano bom!. Sempre com vinhos muito equilibrados, este Syrah não foge à regra. Bela fruta, taninos polidos, e muito frescor. Vinho com profundidade e persistência.

Quinta Vale Dona Maria VVV Valleys 2013 – World Wine

Um exemplo de elegância e robustez no Douro. Taninos abundantes, mas muito bem trabalhados, além do belo frescor. Bom corpo, sem ser cansativo. Um belo tinto para os assados de fim de ano.

Chateau Haura Graves 2014 – Casa Flora

Uma homenagem acima de tudo a Denis Dubourdieu, grande enologista bordalês, falecido recentemente. Muita tipicidade de Graves com seus toques terrosos e balsâmicos. Belos taninos, elegante, e muito equilibrado. Tudo que um bom cordeiro espera.

abs zambujeiro

Terra do Zambujeiro 2012 – Casa Flora

Um dos grandes tintos do Alentejo sem ter que pagar uma fortuna por isso. Blend bem balanceado com Alicante Bouschet, Trincadeira, Aragonês, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon. Tem o toque na medida de barricas francesas. Grande concentração, maciez, e persistência aromática. 

Pesquera Crianza 2013 – Mistral

Para aqueles que não podem ter um Vega-Sicilia, Pesquera é muito mais que um consolo. Tempranillo elegante de escola tradicional de Ribera del Duero. Toques balsâmicos com a maestria exata da barrica. Fino, elegante, e muito consistente a qualquer safra.

grand cru tasting 2017 bodegas mauro

Bodegas Mauro 2014 – Grand Cru 

Mariano Garcia sabe dar o toque exato de modernidade num vinho que está fora da nobre denominação de Ribera del Duero, sem perder suas raízes. Longe da rusticidade taxada para este tipo de vinho, seu Tempranillo é pura elegância, profundidade, e muita personalidade. Sempre um porto seguro.

Pulenta Estate XI Gran Cabernet Franc 2013 – Grand Cru 

Este produtor argentino apresenta uma consistência impressionante em seus vinhos, desde os mais simples, até seus ícones, como este belo Cabernet Franc. Embora seus Malbecs sejam dignos de nota, uma homenagem a esta cepa sempre relegada a segundo plano. Vinho elegante, equilibrado, fugindo do lugar comum.

abs stonyridge 2008

Stonyridge Larose 2008 – Premium 662 reais

Não é um vinho barato, mas vale cada centavo. Em termos de Brasil, é difícil um autêntico Bordeaux de margem esquerda batê-lo nesta faixa de preço (seiscentos reais). Um nariz complexo, taninos muito finos, e longa persistência. Apesar da idade, tem muita vida pela frente. É imperativo decanta-lo para uma boa apreciação. Um neozelandês de peso. Sem dúvida, o vinho do ano.

Vinhos doces

abs carcavelos

Villa Oeiras Carcavelos Branco Blend 10 anos – Adega Alentejana      

Carcavelos é uma denominação nos arredores de Lisboa quase extinta. Graças a alguns visionários como Villa Oeiras, temos uma faísca de esperança em sua manutenção. O fortificado preferido de Marques de Pombal, embora sua contribuição para o Vinho do Porto seja imensa. Este 10 anos apresenta concentração, frescor, e longa persistência aromática. Lembra de certo modo alguns Madeiras.

Domaine Paul Mas Maury Mas des Mas 2011 – Decanter

Os fortificados franceses se apegam muito ao Banyuls, esquecendo de um concorrente ilustre chamado Maury, de localização mais interiorana na área de Roussillon. Também elaborado com Grenache, segue o mesmo padrão de vinificação do famoso vinho do chocolate. Com certa passagem por madeira, lembra os típicos Tawnies portugueses da linha Reserva. Bela alternativa às opções cotidianas.

Quando se vê já se passou um ano, quando se vê já se foram vinte e sete anos de ABS-SP. Agora é tarde demais para ser reprovado. Mário Quintana estava certo …

O Espirito de Champagne

20 de Outubro de 2017

O mundo em Champagne gira em torno de suas variações de safras e seus vinhos de reserva. Num clima instável, quase no limite do cultivo da vinha, a característica e quantidade de cada safra são muito bem pensadas na sua utilização em si, procurando manter um alto padrão de qualidade e tipicidade dos vinhos.

Baseados em estatísticas oficiais recentes da safra 2015, vamos falar um pouco dos champagnes Brut non millésimés, Millésimés, e Cuvées de Prestige. Sabemos que por lei, os champagnes nom millésimés, sem safra, devem passar pelo menos 15 sur lies antes de serem expedidos. Na prática, as grandes Maisons superam com folga este tempo. Mesmo assim, é importante a devida proporção de vinhos de reserva,  mantendo a qualidade e o padrão de cada casa. Faz parte do esteio, da grande produção da região em termos de volume e sobretudo de receita, garantindo a prosperidade do negócio.

Quando a safra é muito boa, fato raro na região, uma parte da mesma é destinada aos millésimés. São champagnes de pequena produção onde não há inclusão dos vinhos de reserva e assim, refletem as características da safra em questão. Para aumentar a complexidade desses vinhos, o tempo mínimo por lei em contato sur lies são de três anos. De fato, o contato prolongado com a levedura acaba gerando uma complexidade aromática maior e uma textura mais macia ao champagne. A maior parte dessas grandes safras é adicionada aos vinhos de reserva, garantindo assim a manutenção da qualidade nos anos menos favorecidos.

Por fim, as suntuosas cuvées de prestige que geralmente são millésimés. Estas são o “crème de la crème” dos melhores vinhos-bases dos melhores vinhedos com alta porcentagem da classificação Grand Cru. Como o contato prolongado com as leveduras tem a ver com a estrutura do vinho-base, pois o ambiente é altamente redutivo, esses vinhos costuma passar pelos menos de cinco a seis anos sur lies.

Tanto os millésimés como as cuvées de luxo são champagnes que podem envelhecer em adega a despeito de perderem um pouco o vigor das borbulhas. Seus vinhos-bases são capazes de compensar a eventual falta de gás. A propósito, falando em formato de taças, este é o caso em que a opção por uma taça de branco por exemplo, é altamente recomendável, liberando com eficiência aromas mais complexos da bebida.

Para aqueles que não abrem mão das borbulhas e exigem complexidade e frescor, neste mercado de luxo existem os champagnes com tempo sur lies extremamente prolongado, acima de dez anos digamos. A proteção e conservação das leveduras em contato com o liquido garantem um frescor inigualável ao produto. É o caso por exemplo dos champagnes Bollinger RD, Krug Collection, e o Dom Pérignon P2 e P3. Não são nada baratos, pois o tempo dispensado para sua elaboração justifica os preços. Tirando este detalhe, é uma maravilha!   

champagne estatisticas 2015

Europa e outros países – ano 2015

Dos números acima, podemos perceber porque os champagnes millésimés são tão especiais. São porcentagens mínimas, até menores que as suntuosas cuvées de prestige. Por outro lado, como é importante para este negócio a venda de seus champagnes non millésimés, a base da produção que sustenta o sonho dos grandes rótulos.

O aumento de procura por vinhos rosés tem sido crescente, e não é diferente para os champagnes, sobretudo para os mercados dos Estados Unidos e Japão. A grande maioria dos champagnes rosés é feita pelo método de assemblage, ou seja, misturando um pouco de vinho tinto no chamado vinho-base, prática condenada na elaboração dos rosés tranquilos.

As exportações de Champagne concentram-se pela ordem em Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Japão e Bélgica. O Brasil ocupa a 22º posição atrás de México, Canadá e Finlândia, por exemplo.   

champagne 2015

distribuição de champagne pelo mundo

Os franceses consumem metade da produção de champagne, mas de valores relativamente modestos, inclusive tendo boa ofertas dos champagnes de vignerons, ou seja, pequenos produtores. Este nicho é muito mais restrito para exportação já que os grandes grupos de champagne dominam este mercado.  

jacquesson 738

sempre uma boa pedida

Como sugestão, o belo champagne Jacquesson disponível no Brasil, importadora Franco-Suissa (www.francosuissa.com.br), é um dos melhores no mercado, fugindo um pouco das marcas tradicionais. Tem predomínio de Chardonnay sobre as outras uvas (Pinot Noir e Pinot Meunier) com 33% de vinhos de reserva. Alta porcentagem que faz toda a diferença. Esta cuvée passa até quatro anos sur lies. É provar e aprovar!